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March 19, 2004

Os clubes mais setentrionais do mundo

Siga em direção ao norte da Noruega. Vá pela costa, se embrenhando pelos infindáveis fiordes do litoral oeste da península escandinava e passe pelo Círculo Polar Ártico como se ele nada significasse. Quando a sensação é de que o mundo acabou, lá está Tromsø, sede do clube mais setentrional do mundo, o Tromsø Idrettslag.

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Em comparação com a cidade norueguesa de 60 mil habitantes, os números de Dunedin, Ivercargill e Comodoro Rivadávia, sedes dos clubes mais austrais do mundo, são desprezíveis. Tromsø está a 69º42’ norte, a apenas 2,1 mil km do Pólo Norte. Na média, em apenas 14 dias do ano o termômetro marca mais de 18ºC e em 100 marca mais de 10ºC. A temperatura máxima já registrada foi de 25ºC em junho e a mínima chegou a –19ºC em janeiro.

Seria impossível manter um clube de futebol profissional se não houvesse algumas condições especiais. Na Noruega, o frio impede que o futebol seja praticado nos meses de inverno. Por isso, a temporada segue o calendário solar, como o hemisfério sul. Os jogos começam em abril e terminam em outubro. Em julho, um pequeno recesso para que os jogadores possam descansar durante o verão. Essa regra também é adotada em países como Rússia, Suécia, Finlândia, Ilhas Faroe e Islândia.

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Além do frio excessivo até para os padrões escandinavos, o Tromsø sofre com a dificuldade em se destacar na liga local. Os clubes do sul, como Rosenborg, Viking, Lillestrøm, Lyn e Odd dominam o futebol norueguês. O Rosenborg, inclusive, conquistou as últimas 12 edições do Campeonato norueguês.

Sobrou pouco para os alvirrubros do norte. Utilizando muitos jogadores revelados na região, o Tromsø conseguiu somente um vice-campeonato, em 1990. Na Copa, um torneio mais afeito a surpresas pela fórmula de mata-mata, os nortistas têm retrospecto melhor, com dois títulos (86 e 96). Inclusive, a final do segundo foi o clássico regional contra o Bodø-Glimt, outro acima do Círculo Polar.

Para piorar, as últimas temporadas foram especialmente difíceis para a torcida alvirrubra. Mesmo não sendo uma potência nacional, o Tromsø tradicionalmente é uma equipe da Primeira Divisão desde que lá aportou, nos anos 30. Porém, em 2001, o time fez uma campanha medíocre (16 pontos em 26 jogos) e foi rebaixado. Venceu a Segunda Divisão em 2002, mas, em 2003, voltou a jogar mal.

Chegou na última rodada dependendo de um milagre. Precisava vencer o campeão antecipado Rosenborg em Trondheim. O 0x0 se arrastou até os 49 do segundo tempo, quando Arne Vidar Møn fez o gol da vitória dos nortistas , que foram a 29 pontos, um a mais que o rebaixado Aalesund. Pior ainda, o rival Bodø-Glimt foi vice-campeão, deixando claro quem é o melhor clube do norte da Noruega.

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Assim, Tromsø tem mais orgulho do sol da meia-noite, da aurora boreal, de seu porto e da forte presença de estrangeiros, o que deu um perfil cosmopolita à cidade. Os costumes modernos em comparação com o interior da Noruega, a moda e até algumas expressões francesas que se incorpraram no sotaque local valeram ao local o apelido de “Paris do Norte”.

No futebol, fica de destaque o atacante Sigurd Rushfeldt, nascido na cidade, revelado pelo clube e integrante da seleção norueguesa nas Copas de 94 e 98. E o fato de ter o clube profissional mais ao setentrional do mundo. Mas será mesmo?

Como no caso dos clubes austrais, é possível criar uma discussão. Se for levado ao detalhismo absoluto, a equipe de futebol mais próxima do Pólo Norte é o Hammerfest Fotball Klubb, de Hammerfest, cidade a 240 km ao norte de Tromsø e que tem como símbolo (adotado também pelo time) um urso polar. O que complica um pouco a causa do HFK é o fato de o time ser absolutamente amador, militando no Grupo 4 da Terceira Divisão Norueguesa.

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Veja no mapa porque o Hammerfest pode se considerar o clube mais setentrinal do mundo

Ubiratan Leal

Imagens: Tromsø e Destinajon Tromsø


Posted by ubiraleal at 05:02 AM

March 15, 2004

Os clubes mais austrais do mundo

“Se os pingüins gostassem de futebol, para que time torceriam?” Foi a partir dessa brincadeira surreal, nonsense e despretensiosa – para não dizer idiota – que o Balípodo resolveu encontrar o clube mais austral do mundo. O que mais está próximo do Pólo Sul e, para qualquer eventualidade, pode ganhar a popularidade das aves de fraque caso essas queiram ir à arquibancada ver humanos jogando bola.

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Difícil imaginar quais parâmetros os pingüins utilizariam, mas, para os humanos, não é fácil definir qual a equipe mais ao sul do planeta. Afinal, dependendo dos critérios, três clubes podem reivindicar tal título. Vamos começar pelo que o faz oficialmente.

Quem pegar a tabela da Nacional B, a Segunda Divisão do futebol argentino, verá um time de nome CAI e nem saberá que esse é um clube diferente. A Comisión de Actividades Infantiles foi fundada em 1984 para ajudar garotos da Patagônia argentina a desenvolverem sua técnica e, se possível, encaminhá-los para os principais centros do país, como Buenos Aires e Rosário.

Nos primeiros anos, o clube só contava com equipes de futsal. Até que, em 1989, montou seus primeiros times infantis de futebol de campo. Mais cinco anos e a primeira formação adulta já disputava ligas amadoras regionais. Teve uma subida rápida e chegou ao segundo nível do país em 2002-03.

A CAI tem sua sede principal em Comodoro Rivadávia, conhecida por ter as principais reservas de petróleo do país. Com latitude de 45º50’ Sul, a capital da província de Chubut está quase tão distante de Buenos Aires quanto São Paulo. Mas o clube-entidade se espalhou por toda a região, montando filiais em Villa Regina, San Carlos de Bariloche, Puerto Madryn, Trelew, Esquel, Sarmiento, Calota Olívia, Perito Moreno, Pico Truncado e El Calafato (essa última quase na Terra do Fogo) para melhorar sua capacidade de descobrir garotos e encaminhá-los para Comodoro Rivadavia.

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Por mais que os interesses competitivos atrapalhem e a contratação de atletas mais experientes se faça necessária, a CAI ainda mantém seus princípios. Dos 26 jogadores de seu atual elenco, 14 nasceram em Chubut, Río Negro ou Santa Cruz, províncias que formam a Patagônia. Todos tentam ter a mesma sorte de Sixto Peralta, Nestor Silvera e Mario Santana, revelados em Comodoro Rivadávia e hoje no México (os dois primeiros) e na Itália.

Hoje, a CAI está em boa fase. Começou a temporada já ameaçada de rebaixamento (na Argentina caem os times com piores médias nos últimos 3 anos), porém, liderou boa parte do Torneo Apertura 2003 e quase garantiu uma vaga na final do Nacional B. Acabou em 5º, mas revelou o oportunista Bevacqua, artilheiro do Apertura com 13 gols.

De fato, nenhum clube profissional está tão ao sul quanto a CAI. No entanto, nem toda equipe amadora pode ser ignorada. Algumas têm filiação a federações nacionais e disputam competições regulares reconhecidas pela Fifa e só não são profissionais pelo baixo desenvolvimento do futebol no país.

E, aí, surgem dois times mais próximos ao Pólo Sul do que os garotos de Comodoro Rivadavia. Na Nova Zelândia, a primeira divisão de 2003 contava com dois representantes de Dunedin. Os argentinos perdem por 30 minutos (lembre-se das aulas de geometria e geografia: minuto não é apenas unidade de medida de tempo, mas também uma subdivisão do grau), pois a cidade neozelandesa está a 45º80’ da linha do Equador.

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Na competição interna, o Dunedin Technicals perde por ter sede no centro da cidade, enquanto o Caversham está e um distrito industrial ao sul. Fundado em 1931, o Caversham Football Club era mais um anônimo no obscuro futebol da Nova Zelândia, tanto que é mais conhecido pela equipe de futebol feminino que possui. Até que, em 2000, iniciou uma reestruturação e alcançou a Liga Nacional em 2003. Sem força para concorrer com os grandes clubes do norte, sobretudo os de Wellington e Auckland, quase foi rebaixado (foi 8º entre 10 competidores, caía apenas o último colocado).

Porém, a federação neozelandesa decidiu reestruturar o futebol do país e mudou um pouco o cenário. Em 2005, será criada uma liga baseada em franquias, como nos esportes profissionais norte-americanos. Com isso, a Liga Nacional foi desfeita e, em 2004, o campeonato de transição contará com grupos regionais. Os melhores de cada torneio devem integrar a Liga de 2005 e disputar, em mata-mata, o título de 2004.

Isso aumentou a quantidade de clubes na principal divisão da Nova Zelândia para esse ano, o que deu espaço para o surgimento do Southland Spirit. O clube tem sede em Invercargill, capital da província de Southland e a 46º25’ Sul. Na realidade, a cidade tem outros dois clubes, o tradicional Invercargill Thistle e o desconhecido Old Boys.

O Thistle dominou o sul da Nova Zelândia nos anos 60, mas entrou em decadência e hoje praticamente inexiste, só aparecendo com mais destaque durante a Chatham Cup, a Copa da Nova Zelândia, que conta com clubes de todas as divisões do país.

A primeira rodada da região Sul do Campeonato Neozelandês de 2004 só está programada para 3 e 4 de abril. Com isso, o Caversham ainda é o time de liga mais austral do mundo. Posto que em breve será do Southland Spirit. E a CAI tem de se contentar com o fato de participar de um torneio futebolisticamente mais relevante e de manter uma estrutura profissional, com filiais mais austrais do que qualquer cidade da Nova Zelândia.

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O Southland Spirit se tornará em abril o clube de liga a mandar os jogos mais próximo ao Pólo Sul

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E quanto ao frio? Realmente, Comodoro Rivadavia, Dunedin e Invercargill não contam com o calor tropical do Rio de Janeiro. Em Invercargill, apenas 29 dias por ano, em média, ficam com temperaturas abaixo de 0ºC. Em Dunedin, a temperatura média anual é de 10ºC. E, em Comodoro Rivadavia, apenas em 5 dias por ano, em média, o termômetro passa dos 32ºC.

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Semana que vem falaremos do clube mais setentrional do mundo.

Ubiratan Leal

Imagens: CAI e Soccer Otago


Posted by ubiraleal at 11:46 PM

March 02, 2004

A segunda Copa dos europeus

Nesse domingo, o Middlesbrough bateu o Bolton Wanderers por 2x1 e conquistou a Carling Cup, nome oficial da Copa da Liga Inglesa. Os torcedores do Boro festejaram muito, pois foi o primeiro título de primeiro nível de clube, que só vencera a FA Amateur Cup (1895 e 1898), a Segunda Divisão Inglesa (1995), a Terceira (1927, 1929 e 1974) e a Copa Anglo-Escocesa (1976). Todos torneios menores. Porém, muitos ainda pensam o que representa a tal da Copa da Liga da Inglaterra e quão importante ela realmente é.

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Para entender a Copa da Liga, é preciso contar primeiro a história da FA Cup, a Copa da Inglaterra. Criada em 1872, a FA Cup é o torneio de futebol mais antigo do mundo. Desde então, reúne todos os clubes da Inglaterra, não importa se amadores ou profissionais. Assim, o Manchester United e o Arsenal podem ter de enfrentar clubes da 5ª ou 6ª Divisão local. Parece esquisito, mas a possibilidade (às vezes efetivada) de um time amador composto por amigos de bairro eliminar os grandes do país sempre deu um charme à competição. Além disso, a tradição fez da FA Cup o torneio mais importante da Inglaterra. Mais até do que a Premiership.

No entanto, em 1892, a empresa Hudson se ofereceu para patrocinar um torneio mata-mata que envolvesse apenas os clubes de liga (na época, havia apenas duas divisões no futebol inglês). Não deu certo porque a concorrência com a FA Cup era desigual e provavelmente levaria a nova competição ao fracasso. A idéia hibernou por meio século.

Durante a Segunda Guerra Mundial, os torneios oficiais (Liga e Copa) foram suspensos na Inglaterra. Nesse tempo, vários torneios amistosos foram disputados entre os principais clubes do país, o que fez reacender a idéia de um torneio entre os clubes da Liga (em bom português, os times das 4 principais divisões). A proposta acabou efetivada, mas os torcedores tiveram de esperar até 1960 para ver uma segunda Copa no calendário inglês, chamada oficialmente de League Cup. O que permitiu que os escoceses passassem na frente e criassem a primeira Copa de Liga.

A origem da Scottish League Cup é semelhante à da Copa da Liga da Inglaterra. Durante a Segunda Guerra, foi disputada uma competição extra-oficial entre os clubes do sul do país. O torneio foi um sucesso tão grande que os escoceses não esperaram nada para adaptá-lo de forma que recebesse clubes do norte. Em 1946 (um ano após o encerramento dos conflitos), foi disputada a primeira edição da Copa da Liga Escocesa.

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Nesses 58 anos, o formato do torneio mudou diversas vezes. Em algumas temporadas optou-se por dividir as equipes em grupos classificatórios, em outras foi composta por chaves eliminatórias diretas. O mais importante é que os escoceses tradicionalmente concentram as partidas da Copa da Liga na primeira metade da temporada, com a final no estádio nacional (Hampden Park, em Glasgow) em algum domingo de outubro. Tradição, aliás, já abandonada.

Era esse modelo que os ingleses queriam seguir em 1960. Porém, o calendário não permitia e a Copa da Liga Inglesa teve de ser distribuída por toda a temporada, com mata-mata. Não foi um sucesso. Os clubes da Primeira Divisão boicotaram o torneio por preferir a FA Cup. Isso só mudou em 1967, quando a final passou a ser em jogo único em Wembley – até então era em duas partidas, uma na casa de cada finalista – e o campeão ganhou uma vaga na Copa das Cidades de Feiras (atual Copa da Uefa). É importante lembrar que a FA Cup dava um lugar na Recopa européia, hoje finada, mas na época mais importante.

Tal prêmio só valia para clubes da Primeira Divisão. Tanto que, em 1969, foi criada a Copa das Copas Anglo-Italiana, um torneio entre o vencedor da Copa da Liga Inglesa e o da Copa da Itália. Durou apenas 3 edições, já que o objetivo era simplesmente contentar o Swindon Town, campeão da Copa da Liga Inglesa em 1969 que, por ser da Terceira Divisão, não teve direito a disputar uma competição continental.

O formato da Copa da Liga Inglesa mudou algumas vezes. Mas sempre em detalhes, como introduzir os jogos de ida e volta em todas as fases (excetuando a final) e cabeças-de-chave. Tudo para agradar os clubes pequenos. O mais grave quase veio em 1997, quando a Uefa retirou a vaga doc campeão da Copa da Liga no torneio continental. Após protestos e ameaça de resolver a questão na Justiça, a entidade européia voltou atrás.

Outra característica interessante da Copa da Liga Inglesa é a mudança de nome. Como forma de atrair patrocinadores, o torneio adotou o nome da empresa que o apoiava a partir de 1981. Assim, a competição já se chamou Milk Cup, Littlewoods Challenge Cup, Rumbelows Cup, Coca-Cola Cup e Worthington Cup antes de ficar com a nomenclatura atual: Carling Cup.

Hoje, as Copas da Liga (tanto na Inglaterra quanto na Escócia) já estão estabelecidas, mas ainda são secundárias perto das Premiers Leagues e das FA Cups dos dois países. Mal comparando, têm o peso de ganhar um Campeonato Estadual importante no Brasil, como o Paulista ou o Estadual do Rio. É por esse título que o Middlesbrough de Juninho, Doriva e Ricardinho está festejando.

Versões modernas
Com um futebol que demorou muito mais tempo para se organizar, os franceses levaram para adotar sua Copa da Liga. Os motivos da Federação Francesa foram semelhantes aos de ingleses e escoceses. Como a Copa da França é disputada por centenas de equipes de todas as divisões do emaranhado que é a estrutura do futebol local, levantou-se a idéia de copiar o modelo inglês e organizar um torneio curto apenas para os clubes profissionais.

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Assim, em 1995 foi criada a Copa da Liga Francesa, sobre os resquícios da Coupe d'Eté (Copa de Verão), disputada por clubes da Segunda Divisão no início da temporada. Como nas versões britânicas, a gaulesa também é menos importante e charmosa que a Copa nacional. Mas ganhou impulso após a Copa de 1998, pois a final passou a ser disputada no Stade de France.

Outra Copa da Liga existente é a da Alemanha. Mas essa merece um espaço nesse texto apenas pelo nome. Foi disputada pela primeira vez em 1973 nos moldes ingleses, mas não teve novas edições até 1997, quando se tornou uma competição meramente simbólica disputado no início da temporada pelos 6 melhores times da Bundesliga anterior. Campeão e vice já têm um lugar nas semifinais, enquanto 3º, 4º, 5º e 6º diputam uma fase preliminar. No conceito, lembra muito os Torneos de Verano organizados em janeiro pelos argentinos.

Como é uma competição com uma semana de duração antes dos jogos realmente importantes começarem e não dá direito a participar de nenhuma competição euroéia, os clubes alemães usam apenas como aquecimento. Por isso, é normal que ocorram surpresas.

*

Veja os campeões das Copas das Ligas (por ordem de idade):

Escócia
1947 – Rangers; 1948 – East Fife; 1949 – Rangers, 1950 – East Fife; 1951 – Motherwell; 1952 e 53 – Dundee; 1954 – East Fife; 1955 – Heart of Midlothian; 1956 – Aberdeen; 1957 e 58 – Celtic; 1959 e 60 – Heart of Midlothian; 1961 e 62 – Rangers; 1963 – Heart of Midlothian; 1964 e 65 – Rangers; 1966 a 70 – Celtic; 1971 – Rangers; 1972 – Partick Thistle; 1973 – Hibernian; 1974 – Dundee; 1975 – Celtic; 1976 – Rangers; 1977 – Aberdeen; 1978 e 79 – Rangers; 1980 e 81 – Dundee United; 1982 – Rangers; 1983 – Celtic; 1984 e 85 – Rangers; 1986 – Aberdeen; 1987 a 89 – Rangers; 1990 – Aberdeen; 1991 – Rangers; 1992 – Hibernian; 1993 e 94 – Rangers; 1995 – Raith Rovers; 1996 – Aberdeen; 1997 – Rangers; 1998 – Celtic; 1999 – Rangers; 2000 e 01 – Celtic; e 2002 e 03 – Rangers

Inglaterra
1961 – Aston Villa; 1962 – Norwich City; 1963 – Birmingham City; 1964 – Leicester City; 1965 – Chelsea; 1966 – West Bromwich Albion; 1967 – Quenn’s Park Rangers; 1968 – Leeds United; 1969 – Swindon Town; 1970 – Manchester City; 1971 – Tottenham Hotspur; 1972 – Stoke City; 1973 – Tottenham Hotspur; 1974 – Wolverhampton Wanderers; 1975 – Aston Villa; 1976 – Manchester City; 1977 – Aston Villa; 1978 e 79 – Nottingham Forest; 1980 – Wolverhampton Wanderers; 1981 a 84 – Liverpool; 1985 – Norwich City; 1986 – Oxford United; 1987 – Arsenal; 1988 – Luton Town; 1989 e 90 – Nottingham Forest; 1991 – Sheffield Wednesday; 1992 – Manhcester United; 1993 – Arsenal; 1994 – Aston Villa; 1995 – Liverpool; 1996 – Aston Villa; 1997 – Leicester City; 1998 – Chelsea; 1999 – Tottenham Hotspur; 2000 – Leicester City; 2001 – Liverpool; 2002 – Blackburn Rovers; 2003 – Liverpool; e 2004 – Middlesbrough.

França
1995 – Paris Saint-Germain; 1996 – Metz; 1997 – Strasbourg; 1998 – Paris Saint-Germain; 1999 – Lens; 2000 – Gueugnon; 2001 – Lyon; 2002 – Bordeaux; e 2003 – Monaco

Alemanha
1973 – Hamburg; 1997 a 2000 – Bayern Munique; 2001 e 02 – Hertha Berlim; e 2003 – Hamburg

*

O texto falou apenas das Copas da Liga dos principais países europeus. Mas fica a citação que Gales também tem sua League Cup desde 1998.

Ubiratan Leal


Posted by ubiraleal at 08:09 AM

February 18, 2004

A primeira versão do Campeonato Brasileiro

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Muitas pessoas estranham o fato de o Campeonato Brasileiro só ter sido criado em 1971. Nem a Taça Brasil, disputada entre 1959 e 68, atenua esse fato. Realmente, demorou muito para haver uma competição nacional de clubes. Além da falta de iniciativa e organização das instituições do nosso futebol, o fato de existir um Campeonato Brasileiro desde a década de 1920 contribuiu. Um Brasileirão diferente, mas que, na época, era tão importante quanto o atual.

É o que se chama hoje de “Campeonato Brasileiro de Seleções”. O torneio foi um subproduto da origem fragmentada e completamente dispersa do futebol brasileiro. Cada Estado teve um início diferente, sem que houvesse uma unificação institucional do esporte no país. Mesmo assim, em 1920, já havia campeonatos em 16 Estados.

Em 1922, o Rio de Janeiro sediaria a Copa América. Para montar uma equipe forte, a CBD decidiu organizar o Torneio de Seleções. Foi uma competição experimental, disputada por sete equipes – Bahia, Distrito Federal (apenas a cidade do Rio de Janeiro, futura Guanabara), Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro (o que hoje forma o interior do Estado), Rio Grande do Sul e São Paulo – em julho e agosto daquele ano. Com 4 vitórias no mesmo número de jogos, os paulistas foram campeões. Os cariocas (pelo Distrito Federal da época, já que Brasília não havia sido construída) ficaram em segundo e os baianos em terceiro.

Com o sucesso do torneio, a confederação decidiu oficializá-lo, criando o Campeonato Brasileiro em 1923. Os participantes foram os mesmos e, novamente, o título ficou em São Paulo, após vencer o Distrito Federal por 4x0 nas Laranjeiras. No ano seguinte, os cariocas conquistaram seu primeiro título, vencendo São Paulo por 1x0 na decisão. Essa edição marcou a primeira expansão do torneio, com a entrada de Pernambuco e Pará.

O sucesso era tão grande que, em 1925, já havia 12 Estados inscritos, o que obrigou a CBD a dividir a fase inicial em grupos regionais. Pará e Amazonas ficaram no Norte, Pernambuco, Bahia, Ceará e Paraíba representavam o Nordeste, Distrito Federal, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Minas Gerais eram as equipes do grupo centro e São Paulo, Rio Grande do Sul e Paraná jogavam pela região Sul. Novo título carioca, após vencer os paulistas em dois jogos.

Desde a primeira edição, todas as finais eram disputadas em partidas únicas na cidade do Rio de Janeiro. No caso de empate, o jogo extra também seria na então capital federal. Com o tempo, os paulistas não aceitaram mais essa situação e se negaram a jogar o Brasileirão de 1928. No ano seguinte, a final foi disputada em dois jogos. E São Paulo foi campeão.

O torneio vivia uma fase de expansão. Em 1929, já eram 18 times participando. A Revolução de 1930 impediu que o torneio fosse realizado, mas continuava havendo uma dúzia e meia de seleções estaduais na edição de 1931. Em 1932, a Revolução Constitucionalista patrocinada por São Paulo provocou outro cancelamento. Em 1934, mais problemas. Foram realizados dois torneios, um, oficial, apenas com equipes amadoras (Bahia campeã pela única vez) e outro, organizado pela Federação Brasileira de Futebol, contou com jogadores profissionais. A cisão se manteve no ano seguinte. Mas o Distrito Federal venceu entre os amadores e entre os profissionais.

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A partir daí, o Campeonato Brasileiro de Seleções voltou a crescer, mesmo com uma periodicidade comprometida por alguns anos sem disputa. Chegou a 24 participantes em 1950, ano de inauguração do Maracanã e de realização da Copa do Mundo no Brasil. Havia uma febre de futebol em todo o país.

Paulistas e cariocas mantinham a hegemonia, dividindo todos os títulos. Nos anos 50, com o crescimento dos torneios interclubes como o Rio-São Paulo, a Copa dos Campeões do Nordeste e a Copa Norte-Nordeste, além dos próprios estaduais, o Campeonato Brasileiro foi perdendo força.

Na década de 50 do século passado, apenas 4 edições foram realizadas. Até que, em 1959 foi criada a Taça Brasil, o primeiro torneio nacional. Era uma espécie de Copa do Brasil, pois reunia apenas os campeões estaduais. O Bahia foi campeão, provando que já havia forças emergentes fora de Rio de Janeiro e São Paulo.

Ainda houve um Brasileiro de Seleções em 1963. Paulistas e cariocas (já representando a Guanabara) não entraram com força máxima. O que não tira o mérito do título de Minas Gerais. Os mineiros tinham como base o Cruzeiro, clube que se tornaria um dos mais fortes do Brasil nos anos seguintes.

O conceito de seleções estaduais só sobrevivia em amistosos. Até que, em 1987, a CBF decidiu recriar o torneio. Nem o relativamente expressivo número de 20 participantes (lembrando que, em 1987, a República tinha mais unidades federativas que nos anos 50 e 60) esconde o fato de que foi uma competição completamente esvaziada e extemporânea.

Os jogos eram realizados em buracos no calendário e as seleções não eram das mais fortes. Por exemplo, o Rio de Janeiro, já unificado, foi representado pelo Americano de Campos. Além disso, houve desistências pelo caminho. Mas a maior hipocrisia foi colocar Minas Gerais direto nas semifinais, por ser o então último vencedor do torneio, 24 anos antes (!).

Nas semifinais, que já avançavam no início de 1988, o Rio de Janeiro/Americano bateu os mineiros, enquanto que São Paulo passava por Goiás. Na final, pouquíssimos apostariam em um sucesso do Americano diante de uma seleção paulista, que contava com jogadores de Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Portuguesa. Na primeira partida, realizada no estádio Godofredo Cruz, em Campos, os fluminenses surpreendem e vencem por 1x0. São Paulo não aceitou a data da partida de volta e o Rio de Janeiro foi proclamado campeão. Fim patético para uma competição que teve uma importância muito grande em um determinado momento histórico, ajudando a unir o futebol dos diversos Estados do Brasil.

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Estádio Godofredo Cruz, em Campos. Foi aqui que tudo terminou

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Veja a liste de seleções estaduais campeãs do Brasil: 1922 (não oficial) e 23 – São Paulo; 1924 e 25 – Distrito Federal/RJ; 1926 – São Paulo; 1927 e 28 – Distrito Federal/RJ; 1929 – São Paulo; 1931 – Distrito Federal/RJ; 1933 – São Paulo; 1934 – Bahia (CBD) e São Paulo (FBF); 1935 – Rio de Janeiro (CBD e FBF); 1936 – São Paulo; 1938 a 40 – Distrito Federal/RJ; 1941 e 42 – São Paulo; 1943 , 44, 46 e 50 – Distrito Federal/RJ; 1952, 55, 57 e 60 – São Paulo; 1963 – Minas Gerais; e 1987 – Rio de Janeiro.

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O time da foto no alto é a seleção paulista campeã brasileira de 1952.

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Para não ficar nenhuma dúvida, os atletas integravam a equipe do Estado em que jogavam, não defendendo necessariamente sua terra natal.

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O Campeonato Brasileiro de Seleções até ajuda a ver a história da federação. Por exemplo, apenas a edição de 1987 teve uma representação do Mato Grosso do Sul, criado apenas em 1977. Da mesma forma que, a partir de 1946, o território de Guaporé – atual Rondônia – teve uma equipe. E Tocantins nunca disputou, pois só se separou de Goiás com a Constituição de 1988.

Ubiratan Leal

Imagens: Site da Lusa e Templos do Futebol


Posted by ubiraleal at 01:11 AM

February 12, 2004

As primeiras animosidades anglo-soviéticas

dynamo moscou 45.jpg

A Guerra Fria não teve início de forma abrupta. Pouco depois da Segunda Guerra Mundial, o êxtase pós-derrota alemã ainda unia soviéticos, ingleses, franceses e norte-americanos. Assim, não foi de todo estranho quando, em novembro de 1945 (três meses após o término oficial da guerra), o Dynamo de Moscou foi ao Reino Unido disputar uma série de amistosos. O que ficou esquisita foi a relação entre ingleses e soviéticos depois dos jogos.

Dynamo foi escolhido porque acabara de vencer o primeiro campeonato soviético pós-guerra. O clima de aliança entre as nações era tão grande na época que não se deu grande importância ao fato de o Dynamo ser o clube do Narodnii Komissariat Vnutrennikh Del (NKVD, sigla em russo para Comissariado do Povo para Assuntos Interiores), entidade que, após algumas mudanças estruturais, passaria a se chamar Komitet Gossoudarstvenno Bezopasnosti (Comitê para a Segurança do Estado, ou simplesmente KGB) em março de 1954.

Inclusive, o primeiro presidente do Dynamo após sua fundação oficial – desconsiderando o período em que se chamou Orekhovo – em 1923 foi Feliks Edmundowicz Dzierżhińsky, líder da polícia secreta soviética e ministro do interior de Joseph Stalin. Em 1945, o time de futebol e o NKVD também tinham o mesmo comandante: Lavrenti Pavlovich Beria.

De qualquer forma, a excursão era – para os ingleses – meramente simbólica. Até porque uma equipe da Rússia não poderia dar trabalho aos criadores do futebol. Muito diferente do que ocorreria na estréia da seleção da União Soviética em Copas do Mundo, contra a própria Inglaterra em 1958. Com a Guerra Fria já consolidada, os misteriosos e isolados soviéticos eram vistos como super-homens, causando temor em todos, inclusive nos ingleses.

Mas, na década de 40, o país mais oriental da Europa tinha uma imagem completamente diferente. Vindo de uma terra distante, exótica e devastada – mais de 20 milhões de soviéticos morreram na guerra –, o máximo que o Dynamo provocava era curiosidade. Os próprios jornalistas britânicos que acompanhavam os moscovitas reportavam a falta de capacidade física, técnica e intelectual dos jogadores do Dynamo. No entanto, foram jogos surpreendentes, do ponto de vista futebolístico e diplomático.

A estréia soviética em solo britânico foi em Londres, contra o Chelsea (que vive uma fase de abundância financeira depois que foi comprado justamente por um bilionário russo). Parte dos relatos são pouco confiáveis, como a estimativa de 100 mil pessoas se amontoando no estádio de Stamford Bridge para ver o futebol dos soviéticos.

Mesmo que fossem menos, o importante é a sensação de susto por parte dos ingleses. O Dynamo apresentava um jogo de habilidade, velocidade, movimentação constante e inteligência. E tomava a iniciativa, uma ousadia até então não imaginada. Os ingleses eram pressionados e só não tomaram um gol porque o veterano Woodley, goleiro com passagens pelo English Team, e a trave estavam no caminho dos arremates soviéticos. Porém, a sorte estava do lado inglês. Sem merecer, o Chelsea – reforçado por dois jogadores do Fulham – fez dois gols, com Goulden e Williams.

Os moscovitas continuaram melhor. Ainda no primeiro tempo, tiveram um pênalti a favor, mas Soloviev desperdiçou a cobrança. Já na segunda parte, o atacante Kartsev diminuiu a diferença com um chute de fora da área. Pouco depois, Archangelski empatou. Antes do fim da partida, Lawton recolocou os londrinos na frente, mas Bobrov teve tempo de estabelecer o merecido empate.

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Se os 3x3 com o Chelsea já foram surpreendentes, o jogo seguinte foi histórico. É verdade que o Cardiff City estava na Terceira Divisão inglesa, mas nem isso justifica o fato de perder em casa por 10x1. O técnico do clube galês, Cyril Spiers, disse que aqueles 11 soviéticos formavam o melhor time que ele já tinha visto na vida.

Já mostrando que a relação entre comunistas e capitalistas não seria das mais amistosas, Mikhail Yakushin, técnico do Dynamo, provocou. Disse que aquele era o modo comunista de jogar futebol, em que todos desempenhavam papel de igual valor e o bem coletivo era mais importante que as individualidades.

De volta a Londres, o compromisso era com o Arsenal. A pedido do Dynamo, o árbitro escalado foi o soviético Nikolai Latychev, o mesmo que apitaria a final da Copa de 62. Os gunners estavam reforçados com dois jogadores do Blackpool (um deles era o lendário ponta Stanley Matthews) e um do Fulham. A tradicional neblina de Londres estava forte e mal se via o campo. Ainda assim, o jogo foi iniciado.

Logo no início, o atacante Constantin Beskov (que depois seria o treinador da seleção soviética no Mundial de 82) pôs o Dynamo na frente. Mas Rooke, Mortensen e Matthews viraram para os londrinos. Beskov marcou outro gol e definiu o 3x2 a favor dos ingleses no intervalo.

No segundo tempo, a visibilidade estava ainda mais prejudicada. Mas o jogo continuava. A versão do Arsenal é que Mikhail Yakushin, técnico soviético, dizia a Latychev que o jogo deveria prosseguir enquanto o Dynamo não retomasse a dianteira no marcador. Outra lenda é que, em um determinado momento, os soviéticos se aproveitaram da impossibilidade de se ver o campo todo para colocar um 12º jogador no gramado.

Foi quando Kartsev recebeu livre, diante do goleiro. O bandeirinha acusou o impedimento, mas o árbitro ignorou a indicação e deixou o atacante concluir a jogada: 3x3. A partir daí, os ingleses afirmam que houve uma seqüência de marcações equivocadas de Latychev, todas em favor de seus compatriotas. Até que Bobrov fizesse o gol da vitória moscovita.

Os 4x3 não foram bem aceitos entre os britânicos, que deram o apelido de “a farsa da neblina” para o pretenso amistoso. De ingênuos e amadores, os soviéticos passaram a esportistas pouco leais. O fato de que Latychev viajava com a delegação do Dynamo não foi esquecido. O escritor George Orwell disse que, se aquelas partidas tiveram algum efeito, foi o de piorar as relações anglo-soviéticas.

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O último jogo marcado não seria em terras inglesas. Em Glasgow, Escócia, os moscovitas enfrentariam o Rangers. A invencibilidade do campeão soviético despertou uma grande expectativa nos torcedores escoceses. Com o jogo marcado para as 14h15 de um dia de semana, fala-se que mais de 90 mil pessoas foram ao estádio Ibrox (muitos tiveram de compensar a escapada do trabalho com horas extras).

O Dynamo começou melhor, em seu estilo de habilidade e rápida troca de passes. Aos 2 minutos, Kartsev fez o primeiro, de falta. O Rangers ainda conseguiu um pênalti, defendido por Khomich. Os soviéticos continuaram dominantes e a possibilidade de uma goleada ficou clara após mais um gol de Kartsev. O gol escocês, marcado por Smith aos 40 do primeiro tempo deu um pouco de esperança aos torcedores presentes no estádio.

Na medida em que a partida se tornava disputada, os ânimos se exaltaram. O escocês Gillick chegou a contar quantos jogadores o Dynamo tinha em campo em um determinado momento, em evidente referência à história dos 12 jogadores soviéticos em campo contra o Arsenal. O empate do Rangers veio de um pênalti duvidoso, assinalado pelo bandeirinha (escocês) e aproveitado por Young.

No final das contas, a falta de esportividade de ambas as partes (dos erros de arbitragem ao menosprezo ao adversário estrangeiro) criaram um clima diplomático ruim, o que ofuscou o mérito da excursão do campeão soviético ao Reino Unido. Como mostrar a evolução do futebol no continente, fato ignorado pelos ingleses até as humilhantes derrotas para a Hungria em 1953.

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Até hoje os torcedores do Dynamo chamam aquela excursão de “19:9”, em alusão ao placar somado de todas as partidas. Em 1947, foi montada a comédia musical “19-9”, que retrata os jogadores do Dynamo como heróis socialistas que venceram os corruptos capitalistas em seu próprio território.

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Lendas a respeito da excursão do Dynamo ao Reino Unido não faltam. Antes da partida contra o Rangers, um jornalista escocês tirou uma foto dos soviéticos se preparando no vestiário. A foto sumiu. Dizem que gente do alto escalão do governo comunista acompanhava o Dynamo e não poderia aparecer.

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Outra história diz respeito a linha telefônicas especiais instaladas nos hotéis em que o Dynamo se hospedou. Elas ligariam a chefia da delegação do time com o alto comando soviético, sobretudo Stalin.

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Em 1972, Rangers e Dynamo de Moscou voltaram a se encontrar. Dessa vez, na final da Recopa Européia, disputada em Barcelona. Os escoceses venceram por 3x2 e ficaram com o título, o único internacional dos azuis de Glasgow.

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Por melhores que tenham sido os resultados do Dynamo de Moscou na Grã-Bretanha, o maior legado do clube na história foi outro. Foi no clube da KGB que o goleiro Lev Yashin, tido por muitos como o melhor de todos os tempos, jogou em toda sua carreira.

Ubiratan Leal

Imagens: Football Culture, Dynamo Moscou site não-oficial e Programme Monthly


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February 06, 2004

Um enclave palestino no futebol sul-americano

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Ainda sem reconhecimento como nação independente, a Palestina usa o futebol como uma das formas de mostrar-se ao mundo. Afinal, a Autoridade Nacional Palestina é reconhecida pela Fifa e até tem uma seleção nacional. Por enquanto, os resultados não foram bons na Copa Árabe ou nas Eliminatórias para a Copa da Ásia. Mas, para uma seleção em formação, deu para animar. E o desenvolvimento do esporte na ANP deve muito à tradição, estrutura e influência que os palestinos sempre tiveram no futebol... chileno.

Em 20 de agosto de 1920, um grupo de palestinos que imigrou para o Chile resolveu criar o Club Deportivo Palestino. Poderia ser apenas mais um entre os 16 clubes profissionais de Santiago (veja lista no final do texto). Mas a colônia palestina do Chile cresceu, enriqueceu e se tornou influente. Para se ter uma idéia, o país transandino conta com cerca de 500 mil palestinos ou descendentes – a maior concentração fora do Oriente Médio –, alguns desses importantes empresários. Tanto que o Chile foi o primeiro país das Américas a reconhecer a ANP e a instalar uma embaixada na Faixa de Gaza.

E que fique claro que a ligação do Palestino com sua comunidade não se dá apenas nas cores e no nome (como em clubes de colônia brasileiros). Um ex-presidente do clube definiu o tricolor como “não apenas um clube esportivo, mas um representante de uma causa, de uma terra e de um país”. Assim, o Palestino se estabeleceu como um clube médio no futebol chileno. Não concorre com Universidad de Chile, Colo Colo ou Universidad Católica em popularidade, mas é o 6º clube com mais pontos em toda a história do campeonato local. Além dos três grandes, o Tino está atrás da Unión Española e do Audax Italiano, clubes com os quais protagoniza os “clássicos das colônias”.

A estréia do Palestino na elite chilena ocorreu em 1953. E foi logo mostrando força, conquistando o vice-campeonato ao lado do Audax Italiano (o campeão foi o Colo Colo). No ano seguinte, uma pequena queda (8º), antes de surpreender e conquistar o título nacional, com apenas 3 anos na elite. O domínio do tricolor foi tão grande que os seguidores mais próximos – Colo Colo, Universidad de Chile e Everton – ficaram a 9 pontos (sendo que a vitória valia apenas duas unidades na época).

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Depois disso o Tino entrou em uma fase de grande instabilidade, brigando pelo título em algumas temporadas e fugindo do rebaixamento em outras. Até que, em 1970, o tricolor foi para a Segunda Divisão. Não ficou muito tempo por lá. Em 1973, estava de volta à elite para, no ano seguinte, ser vice-campeão, a apenas 2 pontos do Huachipato de Talcahuano. Os árabes (como foram apelidados os torcedores do time) estavam de volta ao topo. Em 75 e 76 o clube ficou em 5º e em 77 foi o 3º.

Em 78, o Palestino era novamente campeão chileno, conquistando ainda uma vaga para a Copa Libertadores do ano seguinte. A única jornada internacional do tricolor santiaguino não foi das piores. O clube foi o primeiro colocado de seu grupos na primeira fase garantindo uma vaga na etapa seguinte. É bem verdade, que a chave não era das mais difíceis, com O’Higgins, de Rancágua, e Portuguesa e Deportes Galícia da Venezuela. Nas semifinais, o Palestino empatou duas vezes com o Guarani (de Campinas) e perdeu outras duas para o Olímpia do Paraguai, que viria a conquistar o título continental.

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Foi nesse período que o tricolor chileno teve seu maior jogador. Vindo do Internacional gaúcho, o zagueiro Elias Figueroa comandou a defesa da equipe entre 1977 e 1980. É considerado o maior jogador da história do futebol chileno e ganhou o prêmio de melhor jogador da América em 74, 75 e 76.

De novo, o clube entrou em fase negativa. Foram várias temporadas no pelotão intermediário até o rebaixamento em 1988. Nesse período, a única grande campanha tricolor foi em 1986, quando o time empatou na liderança com o Colo Colo e só perdeu o título em um jogo extra (2x0 para os albos). Não foram à Libertadores porque os estranhos critérios chilenos favoreceram o Cobreloa, terceiro colocado.

Foi apenas um ano na Segunda Divisão. Em 1990, o tricolor já terminava em 5º o Campeonato Chileno. A partir daí, apenas campanhas medianas, sem grandes riscos, mas longe do topo da tabela. Em 96, um pequeno susto com a necessidade de bater o Iquique na repescagem para não cair. O máximo que o tricolor conseguiu foi a terceira melhor campanha na primeira fase no Apertura de 2002. No entanto, a equipe caiu nas quartas-de-final para o pequeno Rangers, de Talca, nos gols fora de casa.

Mas não é apenas na torcida pelo Tino no Campeonato Chileno que a colônia Palestina relaciona futebol e raízes étnicas. Quando a ANP teve a inscrição aprovada pela Fifa, a comunidade logo se mobilizou. Aproveitando a estrutura do tricolor, os palestinos do Chile financiaram a preparação da seleção em Santiago. Além de alguns jogadores nascidos no Oriente Médio, se juntaram ao grupo americanos (quase todos chilenos) de origem palestina e o técnico Nicola Hadwa Shawhan, nascido na Faixa de Gaza, criado no Chile e também comandante do Palestino.

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A escolha do treinador teve um teor ideológico. Em 2002, Hadwa foi demitido do La Serena por declarar-se abertamente em favor da causa palestina, o que teria causado constrangimento em parte da diretoria do clube, composta por judeus. Para reforçar ainda mais o quadro palestino, o técnico correu atrás de jogadores de projeção internacional com ascendentes na nação árabe. Os mais conhecidos são Luís Mussri (meia chileno) e Farid Mondragón (goleiro colombiano), ambos com presença na Copa de 98. Nada feito.

Porém, a colaboração sul-americana à causa palestina (ao menos no futebol) não parou aí. A Anfa (Asociación Nacional de Fútbol Amador, entidade que organiza a terceira e quarta divisões no Chile) convidou uma seleção palestina para disputar a Terceira Divisão chilena em 2003. Na realidade, é uma equipe de jovens com raízes palestinas (chilenos, norte-americanos e até israelenses, libaneses e jordanianos), considerada uma filial sul-americana da seleção palestina principal.

O curioso é que a equipe não tem ligação com nenhum clube. É chamado de “Selección Palestina” e, segundo a própria entidade, foi convidada para “se integrar a um campeonato competitivo e desenvolver o futebol em jogadores que têm em comum a descendência com a Terra Santa”. Claro, os jogos são realizados no estádio do Palestino, no bairro de Las Condes (espécie de “Centro comercial novo” de Santiago).

Na temporada de estréia, a Seleção Palestina não foi muito bem (em bom português e deixando o eufemismo de lado, foi absurdamente mal). Em 28 partidas, os palestinos venceram duas (nenhuma em casa), empataram 3 e perderam 23, marcando 14 gols e sofrendo 74. Claro, ficou em 15º (último) lugar do Grupo Norte da Terceira Divisão, 13 pontos atrás do Cristo Salva.

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Mesmo assim, foi verificada uma grande evolução no futebol palestino. A seleção sub-24 fez uma campanha relativamente boa no Pré-Olímpico asiático, derrotando o Nepal na primeira eliminatória e quase passando pelo “tradicional” Kuait na segunda, o que daria uma vaga na fase final (são três vagas para a Ásia nos Jogos de Atenas). Esse time contava com 10 jogadores nascidos no Chile, Eduardo Díaz Lama, Tarek Saba, Cristobal Nazir, Guillermo Zarzar, Abraham Arbouch, Roberto Bishara, Fabián Bishara, Roberto Ketlum, Jorge Lema e Fuad Quisille. Inclusive, esse último foi revelado pela filial palestina na Terceira Divisão do Chile.

O curioso é que, enquanto a seleção palestina evolui com ajuda decisiva dos chilenos, o Palestino sofre com séria crise financeira. O clube quase foi rebaixado administrativamente para a Terceira Divisão em 2003 por não ter dinheiro para arcar com suas despesas operacionais. Conseguiu sobreviver e ainda fez uma campanha razoável (ao menos, evitou o rebaixamento). Entre os jovens que recheiam o elenco tricolor está o atacante Villanueva, um dos destaques da seleção chilena no Pré-Olímpico.

E, no caso do Palestino, investir nos jovens não é só uma forma de sobreviver financeiramente. Pode estar aí o futuro da seleção da nação que lhe dá nome. Dos 10 chilenos que defenderam as cores palestinas no pré-olímpico asiático, os irmãos Bishara e Ketlum foram revelados pelo tricolor de Santiago.

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Palestino x Unión Española, um dos confrontos conhecidos pelos chilenos como “clássicos das colônias”

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Apesar de ser conhecido como tricolor, o Palestino possui 4 cores na camisa: verde, vermelho, branco e preto. Os mesmos tons da bandeira da Palestina

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Se alguém achou que uma comunidade com 500 mil integrantes não é tão grande, imagine o quanto isso representa em um país com 15 milhões de habitantes como o Chile.

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Aliás, já falamos de como há clubes por Buenos Aires. Mas Santiago não fica muito atrás. Veja os clubes que dividem a atenção dos torcedores da capital chilena: Colo Colo, Universidad de Chile, Universidad Católica, Unión Española, Palestino, Audax Italiano, Santiago Morning, Magallanes, Barnechea, Uniacc (Universidad de las Artes, Ciências y Comunicación), Seleção Palestina, Cristo Salva, Quilicura, Hosanna, Ferroviários e Luis Mussri.

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Um dos adversários do Cruzeiro na Libertadores é o Universidad Concepción. Se algum comentarista ou narrador disser que esse é o maior clube de Concepción (que ficou conhecida por abrigar o Brasil na primeira fase do Pré-Olímpico) saiba que é bobagem. Os principais times da segunda maior cidade chilena são o Deportes Concepción, o Arturo Fernández Vial e o Huachipato (esse último da vizinha Talcahuano).

Ubiratan Leal

Imagens: La Nación, La Cuarta, Colo Colo site não-oficial e Anfa


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January 25, 2004

O futebol está escondido na cidade de 450 anos

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A São Paulo de 450 anos parece rejeitar o futebol. A cidade que se orgulha de ter tamanho para receber tudo parece não saber onde estão as raízes de seu futebol. As tradicionais referências ficam cada vez mais desfocadas, provocando uma uniformização crescente na “sociedade futebolística” da maior cidade do país. E nada tão paulistano quanto esse fenômeno.

Falar em origens do futebol paulistano é voltar muito no tempo, pelo menos no padrão temporal da sempre recente história brasileira. À parte algumas partidas informais disputadas por marinheiros ingleses em portos do país, o futebol surgiu, oficial e formalmente, na capital paulista. Vendo com os olhos de hoje, parece meio lógico que um esporte seja implantado na principal cidade de uma nação. Mas, na época, a relação de grandeza e importância entre os municípios brasileiros era diferente.

Na década de 90 do século XIX, São Paulo ainda era um emergente centro regional, cuja impulsão econômica e populacional se devia à cultura do café no interior da província. No máximo, era a cidade onde D. Pedro I proclamara a Independência da nação cerca de 70 anos antes. Mas nada que ameaçasse a supremacia, poder e população do Rio de Janeiro, então a capital da recém-proclamada República.

Por isso, não se pode dizer que é natural o fato de o futebol brasileiro surgir em São Paulo. Claro que há razões históricas, como a presença dos ingleses por toda a província na construção de estradas de ferro que ligassem porto de Santos às fazendas de café. Ainda assim, o mais normal seria o pioneirismo carioca.

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Na medida em que o football caía no gosto do paulistano, surgiam clubes. E não foram poucos. Em uma cidade com tamanha diversidade cultural, com tanta gente diferente, tantas colônias de imigrantes, cada grupo tratou de criar sua equipe. Observar a relação de clubes disputando os torneios de futebol dá um perfeito retrato da sociedade paulistana da época (veja destaque no final do texto).

Essa relação futebol + sociedade sempre existiu em São Paulo. Talvez sempre tenha existido no mundo todo, mas a cidade que faz aniversário é São Paulo e por isso seguiremos falando da capital paulista. Das dezenas de clubes paulistanos do início do século XX, apenas um punhado sobreviveu ao profissionalismo (implementado em 1933) ou à concorrência por mais de 15 anos. Assim, era de se esperar que o futebol da cidade ficasse com Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Portuguesa, Juventus, Nacional, Comercial e Ypiranga (depois ainda viria o Guapira).

Mas nunca se pode esperar estabilidade em uma cidade como São Paulo. A cidade nasceu como uma vila provinciana, mas, a partir no momento que começou a se desenvolver, assumiu para si uma missão de crescer sempre, passando por cima de muitas coisas em nome de um pretenso progresso. Poucas tradições justificariam a interrupção ou frenagem desse processo.

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A São Paulo de hoje começou a se desenhar de forma mais consistente nos anos 50, quando o crescimento não se limitava mais à cultura cafeeira, mas também à incipiente indústria. Já não era um centro econômico apenas, pois se tornava uma capital cosmopolita, misturando todos aqueles imigrantes para dar um novo perfil à cidade.

Por isso, não é total coincidência que, naquela década (justamente quando os paulistanos pararam para festejar o IV Centenário de fundação da cidade), houvesse uma grande transformação no perfil dos clubes da capital paulista. Afinal, quem não tivesse força para se estabelecer seria esquecido. Como tudo na cidade.

Um caubói com profundidade filosófica mais rasa que uma piscininha infantil definiria São Paulo como “uma cidade que não é para os fracos”. É bobagem, mas foi mais ou menos isso que aconteceu com o futebol. Afinal, os clubes pequenos foram sufocados pela cidade. O paulistano típico dificilmente deixará de apoiar um grande para se apegar ao clube de seu bairro ou de sua comunidade. Faz parte do perfil local valorizar apenas o forte, o conquistador.

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Por isso, o Comercial e o Ypiranga fecharam seus departamentos de futebol profissional. O Guapira, o Leão da Zona Norte, foi pelo mesmo caminho há dois anos. O mesmo só não aconteceu com o Juventus porque ainda há alguns abnegados que mantém os grenás. O Nacional ainda consegue viver da venda de jogadores que cria. Aliás, até a Portuguesa, um meio-grande, teve de terceirizar seu futebol. Faltava dinheiro e não há tantos torcedores da lusa para dar melhores perspectivas para o clube.

Outra característica paulistana é a miscigenação. E, claro, isso aconteceu com o futebol. Achar que os corintianos estão na periferia, os são-paulinos nos bairros da elite e os palmeirenses nas cantinas e pizzarias é estereotipar precipitadamente. Há são-paulinos em todas as partes, inclusive nas favelas. Da mesma, forma, há corintianos italianos e em bairros de alto padrão e palmeirenses descendentes de japoneses. Não há preconceitos, não há apego a origens remotas.

Ainda assim, a capital paulista parece ter vocação para ser hostil (sempre, principalmente com seu cidadão comum no dia-a-dia). Hoje, não são apenas os pequenos clubes da cidade que sofrem. Os grandes também padecem com a falta de interesse do torcedor nos últimos anos. De exigente, a torcida paulistana se tornou meio blasé. Ver futebol deixou de ser programa há anos, até porque o trânsito, o tratamento tosco que o torcedor recebe no estádio e a possibilidade de alguma torcida organizada cruzar em seu caminho não colaboram. Agora, estádio só para jogo muito importante. No mais, não vale a pena.

De qualquer forma, a impressão que dá é que o futebol, como tantos outros produtos paulistanos, tem dificuldade em encontrar seu lugar na cidade. Há espaço, mas esse deve ser redefinido. São Paulo mudou como sempre, mas os conceitos que regem o futebol paulistano, não. Foram feitos para uma cidade que já não existe mais.

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Cercado pela cidade, o Parque Antárctica foi único estádio paulistano que se acostumou com a lotação no último ano. Tudo graças ao fenômeno do Palmeiras na Série B

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Veja todos os clubes paulistanos que já se passaram por alguma divisão do campeonato estadual:

Clubes de colônias: ingleses – São Paulo Athletic Club, Scottish Wanderers e Britannia; italianos – Palestra Itália/Palmeiras, Juventus, Ítalo, Ruggerone, Humberto Primo, Ítalo-Brasileiro e Itália; portugueses – Portuguesa (uma fusão de Sport Club Luzitano, Marquês de Pombal, Lusíadas, Portugal Marinhense e Cinco de Outubro), União Vasco da Gama, Luso-Brasileiro e Luzitano Futebol Clube; alemães – Germânia/Pinheiros; vários – Internacional e Ítalo Luzitano; sírio-libaneses – Syrio e Libanês; húngaros – Húngaro República, Húngaro Ipiranga e Húngaros Paulistanos; e japoneses – Japão Foot Ball Club.

Clubes de bairros: Jaçanã – Guapira; Ipiranga – Ypiranga, Independência e Flor do Ypiranga; Santo Amaro – Progresso e Santo Amaro; Barra Funda – Barra Funda; Campos Elíseos – Campos Elíseos; Saúde – Estrela da Saúde; Lapa – Lapeaninho, União Lapa e Lapa; Brás – Minas Gerais (depois Braz, Auto, Auto-Audax e Americano) e Castellões; Mooca – Parque da Mooca, Vila Mariana – Paysandu; Cambuci – Cambucy; Pari – Estrela; Belém – Flor do Belém; Vila Esperança – União; Vila Clementino – Vila Clementino; e Vila Mazzei – Vila Mazzei

Clubes de classes sociais: trabalhadores – Corinthians, Nacional (ex-São Paulo Railway), Nitro-Química, Sílex (depois América), Antarctica, Santa Marina, Cama Patente, Orion, Ramenzoni, Franco-Brasileiro, Gráphica, Light & Power, Paulista de Aniagens, Tramway Cantareira e União Operários; elite – Paulistano, AA das Palmeiras, São Paulo, São Paulo da Floresta; e estudantes – Mackenzie, Estudantes e Estudantes Paulista.

Outros clubes: Albion, Alfa, Alumni, Americano, Comercial, Jardim América, maranhão, Minister, Ordem e Progresso, Paulista, RepúblicaSão bento, São Paulo Alpargatas, Tremembé, Vicentino, 5 de Outubro, Colombo, Commercial, Concórdia, Dante Alighieri, Democrático, Éden liberdade, Estrela de Ouro, Guanabara, Helvetia, Horoe de Chamas, Indianópolis, Juta Belém, Juta Sant’Anna, Liberdade, Desportiva, Oriental, Olympica, Oriente, Palmeiras FC, EC Paulisa, Paulistana, Ponte Grande, Progresso, Republicano paulista, Rio Branco, Roma Sampaio Moreira, Sant’Anna, Sampson, São Geraldo, Saturno, Scarpa, Sul América, Territorial Paulista, Tiradentes, União Belém, Touring, União Brasil, União Fluminense, Vila Deodoro e Voluntários da Pátria.

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A lista acima foi retirada do Almanaque do Futebol Paulista 2001, publicado pela editora Panini.

Ubiratan Leal

Imagens: Parabra, Gazeta Esportiva, Ecco e Templos do Futebol


Posted by ubiraleal at 11:44 PM

January 23, 2004

O centenário do Campeonato Baiano

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Eram 15h em Salvador (16h em Brasília) quando Palmeiras Nordeste, Juazeiro, Cruzeiro e Itabuna deram início ao Campeonato Baiano 2004. Uma competição que – como os demais estaduais – perde força, ainda mais quando seu mais tradicional clube (o Bahia) vive uma crise que o relegou à Série B do Brasileiro há apenas um mês. Mesmo assim, o fanático torcedor baiano tem motivo para celebrar (como se baiano precisasse de motivo para uma festa): esse é o 100º Estadual da Bahia, que, ao contrário do que muitos pensam, é o segundo mais antigo do país, à frente inclusive do Rio de Janeiro.

Oficialmente, tudo começou com uma vitória de 3x1 do Club Internacional de Cricket sobre o Vitória em 9 de abril de 1905. Além desses dois, apenas outras duas equipes participaram daquele torneio, o São Salvador e o Bahiano. A fórmula era simples, com pontos corridos em dois turnos (isso em 1905). O Internacional venceu todos os 6 jogos e foi o primeiro campeão da Bahia.

O curioso é que o Internacional não defendeu seu título até o fim do campeonato seguinte. Em 1906, o clube até entrou na disputa. Porém, depois de 3 partidas (uma vitória e duas derrotas), o time se retirou. Só voltaria anos depois.

Durante quase meio século, o Campeonato Baiano foi, na realidade, um Campeonato Soteropolitano. Entre 1905 e 1953, apenas clubes da capital participavam do torneio. Nesse período, vários clubes disputavam a hegemonia local, que não se limitava ao atual dueto Bahia-Vitória. O rubro-negro, inclusive, era até um concorrente menor. Estava no torneio de 1905, mas deixou de disputar vários campeonatos nessas décadas e ficou sem o mesmo destaque de Galícia, Botafogo, Ypiranga e do Esporte Clube Bahia.

Esse último era um caçula no grupo, mas nasceu arrasando. Foi campeão no ano de sua fundação (1931) e, em poucos anos, já dominava o futebol baiano (ou soteropolitano). Entre os anos 30 e 50, o tricolor levou 6 títulos por década. Para os olhos do Sul-Sudeste, pode parecer pouco. Mas, em 1959, o Bahia foi o primeiro clube a vencer alguma competição de abrangência nacional, a Taça Brasil.

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O torneio era uma espécie de Copa do Brasil, pois reunia os campeões estaduais em mata-matas até sair o campeão. Na final, os baianos bateram o Santos de Pelé (3x2 Santos na Vila Belmiro, 2x0 Bahia em Salvador e 3x1 tricolor na partida desempate disputada no Maracanã). Esse título fez do Bahia o representante brasileiro na primeira edição da Taça Libertadores da América.

Com todas essas conquistas, seus rivais foram perdendo força. E aí surgia o atual rival. O Vitória, na verdade, ressurgiu e, com os títulos de 53, 55, 57, 64 e 65 se estabelecia como o único adversário real para o tricolor.

Assim, os clubes de fora da capital chegaram com um cenário já definido e tiveram poucas chances de serem concorrentes de peso. O pioneiro do interior baiano foi o Fluminense de Feira de Santana, até hoje o único time não-soteropolitano a ser campeão da Bahia (em teoria, não é exatamente assim. Veja explicações adiante). Mesmo porque ele foi o único por mais de uma década. “Colegas” do interior só apareceram em 1967, com Bahia de Feira de Santana, Colo-Colo de Ilhéus, Conquista de Vitória da Conquista, Flamengo de Ilhéus, Itabuna da cidade homônima e Vitória de Ilhéus.

Na década de 70, o Bahia conseguiu ampliar ainda mais sua hegemonia. O tricolor obteve um inédito hepta-campeonato entre 1973 e 1979, ajudando a montar a segunda maior coleção de campeonatos estaduais de qualquer clube brasileiro (são 43, 4 a menos que o ABC de Natal, fundado em 1915). Era a época do Campeonato Brasileiro inchado, em que todos os Estaduais eram classificatórios para o Nacional.

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A dupla Ba-Vi era presença quase garantida. Foi quando a rivalidade entre tricolores e rubro-negros realmente se solidificou. E não é uma rivalidade pequena. O torcedor baiano adora lotar estádio e brincar, mas também sabe como torcer contra. Tanto que o rebaixamento do Bahia nos Brasileiro de 97 é até hoje lembrado com festa pelos rubro-negros. Talvez deixe de ser, pois o tricolor repetiu o feito negativo em 2003. Do ponto de vista do torcedor do Vitória, há uma piada nova.

Voltando aos Brasileirões monstruosos, o Bahia aproveitava a falta de rivais locais à altura nos anos 70 e 80 e ganhava algum destaque nacional. Com a presença constante nos nacionais e uma torcida assídua e fiel, o Bahia foi o único clube fora do eixo Rio de Janeiro-São Paulo-Minas Gerais-Rio Grande do Sul a fundar o Clube dos 13, uma entidade que pretendia, na época, exercer um papel de liga, tirando um pouco o poder da CBF.

Essa nova força política se fez sentir em 1987, quando foi organizada a Copa União. Seria o fim dos Brasileiros superdimensionados, com mais de 40 clubes. Foram convidados 16 times. Os membros do Clube dos 13, mais Goiás, Coritiba e Santa Cruz. A CBF insistiu e, com alguma razão, obrigou os vencedores da Copa União a cruzarem com os finalistas do Módulo Amarelo (no qual estava o Vitória). Como Flamengo e Internacional se negaram a entrar em campo, o Sport foi proclamado oficialmente Campeão Brasileiro de 1987.

O primeiro título brasileiro do Nordeste foi para Pernambuco, o que não deixou os baianos muito felizes. Mas foi por pouco tempo. Em 1988, o Bahia de Bobô e Evaristo de Macedo fez uma campanha extremamente consistente e se classificou entre os 8 quadrifinalistas (aliás, desses 8, nenhum era paulista). Na fase final, os baianos deslancharam e passaram por Sport, Fluminense e Internacional. Até o rebaixamento em 1997, o Bahia havia disputado todas as edições do Brasileiro, feito só repetido, na época, pelos 4 maiores do Rio de Janeiro, Internacional, Cruzeiro e Atlético-MG. O Vitória teve um retrospecto um pouco mais discreto, não participando em 71, 83, 84, 85 e 92.

Se os anos 80 viram a maior glória da história tricolor, também marcaram o crescimento dos rubro-negros. Em 1985, o Vitória finalmente se tornou os segundo maior vencedor do Estado, passando o Ypiranga (que ainda se aproveitava das conquistas das primeiras décadas do século). A equipe se organizou administrativamente e apostou alto em infra-estrutura e categorias de base.

A estratégia dá resultado até hoje. O Vitória foi finalista do brasileiro em 1993, semifinalista em 2000 e espalhou jogadores pelo mundo. Dida (do Milan), Alex Alves (ex-Hertha Berlin), Júnior (Parma), Fábio Costa (Corinthians), Vampeta (ex-Corinthians), Fábio Bilica (Ancona) e Matuzalém (Brescia) são alguns exemplos. Nos últimos meses, as principais revelações do Vitória a saírem foram Nádson e Dudu Cearense, ambos vendidos para o Extremo Oriente. Assim, o Vitória é, em campo, o time com mais força na Bahia de hoje. Dos últimos 15 campeonatos baianos, os rubro-negros levaram 8 (mais um supercampeonato), os tricolores 5, um está na Justiça e outro foi para o Palmeiras Nordeste.

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Porém, o Estadual perdeu muito de sua importância nos anos 90. Com o crescimento do Campeonato do Nordeste, os grandes clubes da região começaram a ver os estaduais como algo secundário. E, mesmo assim, os baianos continuaram mostrando a força. Dos 7 Nordestões organizados entre 1997 e 2003, a Bahia ficou com 5 (3 do Vitória e 2 do Bahia).

Em 2003, a CBF reestruturou o calendário nacional e procurou revalorizar os Estaduais. Não foi, claro, por motivos nobres, mas uma forma de devolver algum poder às decadentes federações estaduais e golpear as recém-criadas ligas regionais, independentes das instituições federativas.

Com tudo isso, talvez os Estaduais não durem por mais muito tempo. O que valoriza ainda mais o feito do futebol da Bahia. O de ser o segundo do Brasil a completar a 100ª edição.

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Dois esclarecimentos que se fazem necessários. A final do Estadual de 1999 (mais um Ba-Vi) estava programada para o estádio do Barradão. O Bahia havia vencido a primeira partida por 2x0 e podia perder por um gol de diferença. Por isso, o Vitória não abria mão de jogar em seu estádio. Mas uma associação ligada ao Bahia entrou na Justiça pedindo a transferência da partida para a Fonte Nova. Conseguiu. O Vitória não aceitou a decisão e foi jogar no Barradão. O Bahia apareceu na Fonte Nova. Não houve jogo (óbvio) e a Justiça até agora não decidiu quem é o campeão baiano de 1999. Como venceu a primeira partida, o Bahia se considera campeão.

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O outro esclarecimento diz respeito ao campeonato de 2002. Como o calendário quadrienal que durou um ano estabeleceu, os estaduais foram disptuados apenas pelos clubes pequenos, pois os grandes estavam nos regionais. Depois, seriam disputados supercampeonatos, juntando os grandes e os pequenos. Naquele ano, o Palmeiras Nordeste – uma filial do Palmeiras em Feira de Santana – foi oficialmente o campeão baiano. No supercampeonato, o Vitória ficou com o título.

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Nesses 100 campeonatos baianos, alguns ex-grandes clubes merecem algum destaque. O Galícia, como o nome sugere, foi fundado pela colônia espanhola de Salvador. O símbolo tem as cores da Galícia, com a cruz de Santiago no meio. O clube tem 5 títulos estaduais (sendo um tri nos anos 40), mas seu último suspiro foi o vice-campeonato de 1995. O Ypiranga só era conhecido nos últimos anos por ser o clube de Jorge Amado, até porque o último título veio em 1951. Mas nada apaga os 10 títulos estaduais do clube e os 16x0 impostos ao Democrata no campeonato de 1930, a maior goleada da história do Campeonato Baiano. Para fechar, o Botafogo, um dos maiorais na década de 20, mas que disputou a Primeira Divisão até o 1989. Esses 3 clubes ainda existem, mas estão licenciados. De qualquer forma, as inscrições para a Segunda Divisão baiana estão abertas e, de acordo com o site da Federação, esses três clubes podem, se quiser, voltar.

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Na 100ª edição, o Campeonato Baiano é disputado por Atlético (Alagoinhas), Bahia, Camaçari, Camaçariense (Camaçari), Catuense (Catu), Colo-Colo (Ilhéus), Cruzeiro (Cruz das Almas), Fluminense (Feira de Santana), Itabuna, Juazeiro, Palmeiras Nordeste Poções e Vitória. Os clubes foram divididos em 3 grupos. Cada tiem joga dentro do próprio grupo em ida e volta. Os 3 primeiros do Grupo 1 e os 2 primeiros do 2 e 3 se classificam para as quartas-de-final. A partir daí, são eliminatórias simples em dois jogos até apurar o campeão baiano.

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Aí vai a lista dos 99 campeões baianos: 1905 – Internacional; 1906 e 07 – São Salvador; 1908 e 09 – Vitória; 1910 – Santos Dumont; 1911 – SC Bahia; 1912 – Atlético; 1913 – Fluminense (Salvador); 1914 – Internacional; 1915 – Fluminense (Salvador); 1916 – República; 1917 e 18 – Ypiranga; 1919 – Botafogo; 1920 e 21 – Ypiranga; 1922 e 23 – Botafogo; 1924 – AA da Bahia; 1925 – Ypiranga; 1926 – Botafogo; 1927 – Bahiano de Tênis; 1928 e 29 – Ypiranga; 1930 – Botafogo; 1931 – Bahia; 1932 – Ypiranga; 1933 e 34 – Bahia; 1935 – Botafogo; 1936 – Bahia; 1937 – Galícia; 1938 – Bahia e Botafogo; 1939 – Ypiranga; 1940 – Bahia; 1941 a 43 – Galícia; 1944 e 45 – Bahia; 1946 – Guarani; 1947 a 50 – Bahia; 1951 – Ypiranga; 1952 – Bahia; 1953 – Vitória; 1954 – Bahia; 1955 – Vitória; 1956 – Bahia; 1957 – Vitória; 1958 a 62 – Bahia; 1963 – Fluminense (Feira de Santana); 1964 e 65 – Vitória; 1966 – Leônico; 1967 – Bahia; 1968 – Galícia; 1969 – Fluminense (Feira de Santana); 1970 e 71 – Bahia; 1972 – Vitória; 1973 a 79 – Bahia; 1980 – Vitória; 1981 a 84 – Bahia; 1985 – Vitória; 1986 a 88 – Bahia; 1989 e 90 – Vitória; 1991 – Bahia; 1992 – Vitória; 1993 e 94 – Bahia; 1995 a 97 – Vitória; 1998 – Bahia; 1999 – indefinido; 2000 – Vitória; 2001 – Bahia; 2002 – Palmeiras Nordeste e Vitória; 2003 – Vitória.

Ubiratan Leal

Imagens: Vitória, Bahia, Barradão Online e Escudettos


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January 15, 2004

Der Deutschen Demokratische Republik

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Em uma das cenas do recomendado “Adeus, Lenin”, berlinenses dos dois lados do já derrubado muro se unem e vibram com a vitória de seus conterrâneos na Copa da Itália. E, realmente, o título mundial da nationalmannshaft (como os alemães chamam sua seleção) teve um papel psicológico na Alemanha recém-unificada, era uma prova da força que essa nação teria diante do mundo. Mas, em campo, o lado oriental nada tinha a ver com aquele time de Matthäus e Völler.

Antes que atirem a primeira pedra, que fique claro que o filme de Wolfgang Becker – indicado alemão para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro – é fiel aos fatos. Os alemães se sentiam – como os coreanos ainda se sentem – apenas como membros de uma nação e que a divisão imposta a eles era de caráter político. Assim, os ex-orientais realmente apoiaram os novos compatriotas. Mas muita gente, que já diz por aí que a Alemanha unificada foi campeã mundial de 1990, confundirá ainda mais as divisões políticas com as futebolísticas e terá mais certeza do equívoco.

A questão da Copa de 90 é relativamente simples de explicar. As fronteiras entre as Alemanhas já não existiam mais desde o final de 1989. Porém, quando o muro foi derrubado, as Eliminatórias já estavam em disputa, com duas Alemanhas. Como a Fifa não reconhece países, mas federações nacionais (é diferente), a Alemanha só seria uma no futebol quando toda a federação ocidental incorporasse oficialmente a oriental. E isso só aconteceria depois de terminados os campeonatos já em andamento (ou seja, o Mundial da Itália).

Assim, uma Alemanha (a capitalista) ficou no Grupo 4, com Holanda, Gales e Finlândia. Mesmo com o segundo lugar, os ocidentais garantiram um lugar no torneio italiano. A outra Alemanha (a comunista) disputou duas vagas no Grupo 3, enfrentando Áustria, Islândia, Turquia e União Soviética. Após muito equilíbrio, os alemães-orientais chegaram à última partida precisando apenas de um empate para conquistar a segunda vaga do grupo. Mas perderam para a Áustria em Viena e ficaram de fora. Era 15 de novembro e a Alemanha praticamente já era uma só.

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No entanto, a maior ironia histórica dessas Eliminatórias não foi o fato de a Alemanha Oriental fazer sua última partida oficial contra um país que foi, durante a Segunda Guerra Mundial, parte da Alemanha. Foi um mês antes. Em 8 de outubro de 1989, na semana em que comemorava seu 40º aniversário, a Alemanha do Leste recebeu a União Soviética, ainda uma só, mas em avançado processo de separação de suas repúblicas. Para aumentar ainda mais o caráter irônico, o jogo foi realizado na cidade de Chemnitz, que na época tinha o nome de Karl Marx Stadt. Os germânicos venceram de virada, com dois gols nos últimos 10 minutos.

Após a derrota para a Áustria, os alemães-orientais não disputaram mais nenhuma partida oficial. O que não quer dizer que a seleção tenha deixado de existir. Afinal, os jogadores do lado comunista não ficariam privados de partidas internacionais até a unificação das federações, que só ocorreria depois de julho de 1990. Por isso, a Alemanha Oriental disputou diversos amistosos mesmo já sabendo que deixariam, em breve, de existir como nação.

Os primeiros foram em janeiro de 1990, contra França e Kuait (0x3 e 2x1). Em março, mais uma partida irônica (o que não falta aqui é coincidência histórica). Nesse caso, não completamente despropositada: na nova Berlim unificada, a Alemanha Oriental recebeu os Estados Unidos. Vitória dos europeus por 3x2. Em abril, os germânicos venceram egípcios (2x0 em Karl Marx Stadt) e escoceses (1x0 em Glasgow).

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Depois de 5 vitórias consecutivas, os alemães-orientais disputariam sua penúltima partida. E é até curioso os brasileiros esquecerem a existência da Alemanha comunista nesse período. Em 13 de maio de 1990, o Brasil se despediu da torcida brasileira recebendo a Alemanha Oriental no Maracanã. Os 58.900 pagantes viram uma partida equilibrada. Com gols de Alemão (ironia final), Dunga e Careca, o Brasil fez 3x1. Mas os ex-orientais reagiram e empataram nos descontos. O 3x3 em casa foi um sinal de que a torcida brasileira não deveria se empolgar muito com a seleção de Sebastião Lazaroni.

A partida de despedida da Alemanha Oriental foi disputada em 12 de setembro, com vitória sobre a Bélgica em Bruxelas (2x0). Um mês depois, em 3 de outubro de 1990, o governo de Richard von Weizsächer caiu, oficializando a unificação alemã.

Mas a confusão entre Alemanhas – inexistente quando o assunto é Olimpíadas, por exemplo – não se deve apenas às datas. Na verdade, pela falta de tradição, a República Democrática Alemã (vulgo Alemanha Oriental) sempre ficou de lado, esquecida e ofuscada pelos vizinhos. E as causas disso vão desde a época de quando a Alemanha era uma só, antes da divisão.

O campeonato alemão é disputado desde 1903. Mas, ao contrário do que ocorreu com nações vizinhas como Tchecoslováquia, Áustria, Hungria e França, os alemães não tinham implantado o profissionalismo quando começaram a Segunda Guerra Mundial. Assim, não havia uma estrutura futebolística forte que sobrevivesse à destruição e divisão política causadas pela guerra.

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Isso vale para as duas Alemanhas. O lado ocidental conseguiu se reerguer com relativa rapidez, principalmente com a motivação decorrente do título mundial de 1954. Mas o lado oriental ficou para trás. Quase toda as instituições esportivas tinham de ser refeitas. E a prioridade do governo comunista eram os Jogos Olímpicos. Assim, houve grande investimento e desenvolvimento em ginástica artística, natação, atletismo e vôlei, por exemplo. Incluindo aí o incentivo a crianças para praticarem essas modalidades. O futebol virou ferramenta de propaganda e política interna, com cada agência estatal comandando um clube, fato que diminuiu o envolvimento emocional dos torcedores.

O que não quer dizer que a Alemanha comunista tenha sido uma negação no futebol mundial. Vítimas da inevitável comparação com os ocidentais, os orientais eram vistos com desdém e seus esforços nunca foram muito reconhecidos. Mas, quem pegar o retrospecto da RDA em jogos oficiais, verá uma versão anglo-saxônica de Portugal, pois tinha equipes de respeito, mas nunca se classificava para Eurocopas e Mundiais por detalhes como um critério de desempate ou um mal resultado fora de hora.

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É só verificar na história. Em 57, 65, 69, 77, 81 e 89, a Alemanha Oriental só não se classificou para os Mundiais dos anos seguintes por perder a partida decisiva para, pela ordem, Tchecoslováquia, Hungria, Itália, Áustria, Polônia e novamente Áustria. As exceções foram em 61, quando a Hungria dominou completamente o grupo eliminatório, e em 85, quando a Alemanha Oriental pecou por perder na estréia, em casa para uma fraca Iugoslávia.

No final das contas, a Alemanha Oriental quase sempre passou perto, mas só conseguiu participar de uma única Copa, justamente na Alemanha Ocidental (está bem, prometi que o gol do Alemão era a última ironia desse texto, mas há mais essa). Os orientais ficaram justamente no Grupo 1, encabeçado pelos vizinhos ocidentais. E a Alemanha comunista mostrou que a história era injusta, pois potencial o país tinha.

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A RDA derrotou a Austrália, empatou com o Chile e, na partida decisiva do grupo, venceu os ex-compatriotas por 1x0. Mas sempre haverá especulações de que os ocidentais entregaram aquela partida para fugir de Brasil, Argentina e Holanda na fase seguinte. De qualquer forma, a Alemanha de azul ficou em primeiro no grupo.

Na fase seguinte, os germânicos perderam a invencibilidade diante do Brasil (0x1). Em seguida, nova derrota (0x2 diante da Holanda). Só não passaram em branco nessa etapa por arrancarem um empate (1x1) com a Argentina em uma partida que já não valia classificação.

Porém, as maiores conquistas alemãs-orientais ocorreram nas Olimpíadas. Como o COI só permitiu futebolistas oficialmente profissionais nos Jogos de Los Angeles em 1984 (desde que os atletas não tivessem disputado uma Copa do Mundo), as nações da Europa comunista se favoreceram de um amadorismo de fachada para dominar as seleções da Europa ocidental e da América do Sul, obrigadas a usar equipes juniores. Isso permitiu que as seleções comunistas conquistassem 8 medalhas de ouro consecutivas (entre 1952 e 1980). E, claro, houve espaço para que o futebol contribuísse para o prolífico quadro de medalhas da Alemanha Oriental.

Em 1964, em Tóquio, os germânicos ficaram com o bronze após bater a República Árabe Unida (Estado formado por Egito e Síria em 1958. Em 61, a Síria saiu da união, mas o país manteve o nome até 1971, quando voltou a se chamar Egito) por 3x1. Em 1972, os alemães-orientais conseguiram novo bronze, esse dividido após empate em 2x2 com a União Soviética. Na fase inicial, os orientais bateram a Alemanha Ocidental por 3x2. Detalhe: aquelas Olimpíadas foram realizadas m Munique, mas é necessário dizer que a Alemanha alvinegra estava com uma seleção amadora de fato.

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Mas as maiores glórias olímpicas do futebol alemão-oriental ainda não haviam chegado. Em Montreal ‘76, após passar por União Soviética (2x1) e Polônia (3x1), os germânicos ficaram com a medalha de ouro. Nos Jogos seguintes, em Moscou, a Alemanha Oriental voltou a vencer a seleção da casa (1x0, nas semifinais) e chegou a mais uma final. Mas essa foi vencida pela Tchecoslováquia (1x0).

Os anos 70 do século passado realmente foram os mais proveitosos para o futebol da Alemanha azul. Não só pela conquista de uma medalha de ouro, uma de prata e uma de bronze no futebol olímpico e pela única participação em Copas do Mundo, mas também pelo inédito título internacional de clubes.

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Em 1973-74, o Magdeburg foi a grande surpresa da Recopa européia. Após passar por NAC Breda (Holanda), Banik Ostrava (Tchecoslováquia), Beroe (Bulgária) e Sporting (Portugal), o clube da cidade homônima chegou à final, disputada em Roterdã. Mas poucos davam crédito aos alemães-orientais, já que a caminhada não tivera nenhuma equipe tão forte quanto o outro finalista, o Milan. Mas os germânicos surpreenderam mais uma vez vencendo por 2x0.

Apenas um outro clube alemão-oriental chegou perto de um título europeu. Em 1987, o Lokomotive Leipzig alcançou a decisão da mesma Recopa, deixando pelo caminho Glentoran (Irlanda do Norte), Rapid Viena (Áustria), Sion (Suíça) e Bordeaux (França), antes de perder para o Ajax por 1x0 na final.

Esse retrospecto modesto foi importante para definir o modo de reunificação alemã na Liga de clubes. Basicamente, a Verbandsliga de 1990-91 foi considerada um grupo da Segunda Divisão Ocidental. Com isso, Hansa Rostock (campeão) e Dynamo Dresden (vice) tiveram uma vaga na Bundesliga 91-92. Os demais clubes formaram um grupo da 2.Bundesliga, enquanto que a Segunda Divisão ocidental formou outro. A unificação completa veio três temporadas depois.

Nesses 13 anos de unificação nos clubes, o lado oriental está em clara desvantagem. Nas primeiras temporadas, o Dynamo Dresden conseguiu se manter na elite alemã, mas caiu em 1995. Nesse período, o Leipzig conseguiu respirar os ares da Primeira Divisão, mas só por um ano (1994). Mas a Alemanha Oriental nunca ficou sem representantes na Liga alemã, pois o Dynamo Dresden foi imediatamente substituído pelo Hansa Rostock, que está entre os grandes até hoje. Outro clube da parte comunista que também esteve no topo foi o Energie Cottbus (entre 2001 e 2003).

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Alguém já deve estar pensando que a Alemanha Oriental nada acrescentou futebolisticamente ao lado ocidental. Erro gravíssimo. Os dois maiores jogadores alemães após a geração campeã de 90 nasceram sob o regime comunista. O líbero Matthias Sammer, Bola de Ouro em 1996, chegou a disputar algumas partidas pela seleção da Alemanha comunista. Inclusive, foi dele os dois gols na vitória sobre a Bélgica na despedida da parte oriental da Alemanha.

O outro craque ex-oriental é Michael Ballack, líder da nationalmannshaft na Copa de 2002. Apesar de mais novo, o meia ainda carrega uma herança de sua infância na Alemanha comunista: ele tem mais facilidade em falar russo (segunda língua nas escolas durante o período de divisão) do que inglês.

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Além de Sammer e Ballack, alguns outros alemães-orientais que tiveram passagens pela seleção unificada sem tanto destaque, como Ulf Kirsten, Tomas Doll e Dariusz Wosz.

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Seção estatísticas. Abaixo seguem as fichas técnicas de algumas das partidas históricas citadas no texto (colocados em ordem cronológica).

Magdeburg 2x0 Milan
Final da Recopa 1073-74

Local: estádio De Kuip (Roterdã-HOL)
Público: 4 mil
Árbitro: Van Gemert (Holanda)
Magdeburg: Schulze; Enge, Zapf, Tyll, Abraham; Seguin, Pommerenke, Gaube; Raugust, Sparwasser, Hoffmann
Milan: Pizzabella; Sabadini, Anquilletta, Lanzi, Schnellinger; Benetti, Maldera, Rivera; Tresoldi, Bigon, Bergamaschi (Turini)
Gols: Lanzi, contra (43/1º) e Seguin (29/2º)

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Alemanha Ocidental 0x1 Alemanha Oriental
Primeira fase da Copa do Mundo de 1974

Local: estádio Volkspark (Hamburgo-RFA)
Público: 60 mil
Árbitro: Ruiz Barreto (Uruguai)
Alemanha Ocidental: Maier; Vogts, Breitner, Schwarzenbeck (Höttges) e Beckenbauer; Cullmann, Grabowski e Hoeness; Müller, Overath (Netzer) e Flohe
Alemanha Oriental: Croy; Kische, Bransch, Weise, Wätzlich; Irmscher (Hamann), Kurbjuweit, Kreische e Lauck; Sparwasser e Hoffmann
Gol: Sparwasser (32/2º)

Alemanha Oriental 3x1 Polônia
Final do torneio olímpico de futebol

Local: estádio Olímpico (Montreal-CAN)
Público: 72 mil
Árbitro: Ruiz Barreto (Uruguai)
Alemanha Oriental: Croy; Dörner; Weise, Kische e Lauck; Kurbjuweit, Häfner e Schade; Löwe (Gröbner), Riediger (Bransch) e Hoffmann
Polônia: Tomaszewski (Mowlik); Wieczorek; Stymanowski, Zmuda e Wawrowski; Maszczyk, Deyna e Kasperczak; Lato, Szarmach e Kmiecik
Gols: Schade (7/1º), Hoffmann (14/1º), Lato (15/2º) e Häfner (39/2º)

Alemanha Oriental 2x1 União Soviética
Eliminatórias da Copa de 90

Local: estádio Ernst-Thälmann (Karl Marx Stadt-ALE)
Público: 15,9 mil
Árbitro: Bo Helen (Suécia)
Alemanha Oriental: Heyne; Stahmann, Kreer, Lindner e Döschner; Stübner, Sammer, Ernst (Doll) e Steinmann (Weidemann); Kirsten e Thom. T: Eduard Geyer.
União Soviética: Chanov; Khidiatullin; Bessonov, Kusnetsov e Gorlukovitch; Alejnikov, Zavarov, Mikhailichenko e Dobrovolski; Litovchenko e Protassov. T.: Valery Lobanovsky
Gols: Litovchenko (29/2º), Thom (36/2º) e Sammer (38/2º)

Áustria 3x0 Alemanha Oriental
Eliminatórias da Copa de 90

Local: estádio Prater (Viena-AUT)
Público: 55 mil
Árbitro: Piotr Werner (Polônia)
Áustria: Lindenberger; Aigner; Pecl e Pfeffer; Artner, Zsak, Hörnagl e Linzmaier; Keglevits, Polster e Ogris (Herzog e depois Pfeifenberger)
Alemanha Oriental: Heyne; Stahmann, Kreer, Schößler, Lindner e Döschner (Doll); Steinmann, Sammer (Weidemann) e Stübner; Kirsten e Thom. T: Eduard Geyer.
Gols: Polster (2 e 23/1º e 16/2º)

Brasil 3x3 Alemanha Oriental
Amistoso

Local: estádio do Maracanã (Rio de Janeiro)
Público: 58,9 mil
Árbitro: Luís Carlos Félix (Brasil)
Brasil: Taffarel; Mozer, Jorginho, Aldair, Ricardo Gomes (Mauro Galvão) e Branco (Mazinho); Dunga, Alemão (Bismarck) e Valdo (Silas); Müller (Bebeto) e Careca. T.: Sebastião Lazaroni
Alemanha Oriental: Bräutigam; Peschke; Böger, Herzog, Lindner e Schuster; Hauptmann (Steinmann), Ernst e Weidemann (Uwe Rösler); Kirsten e Doll. T.: Eduard Geyer.
Gols: Alemão (43/1º), Doll (3/2º), Careca (11/2º), Dunga (14/2º), Ernst (23/2º) e Steinmann (45/2º)

Bélgica 0x2 Alemanha Oriental
Amistoso

Local: estádio Constant van den Stock
Público: 10 mil
Árbitro: John Blankenstein (Holanda)
Bélgica: Preud'homme; Staelens, Demol (Albert), Plovie e de Wolf; Broeckaert, Scifo (de Gryse), van der Elst e Versavel (Boffin); Vandenbergh e Ceulemans (Wilmots)
Alemanha Oriental: Schmidt (Adler); Peschke; Schwanke, Wagenhaus e Schößler; Sammer, Stübner (Böger), Wosz e Bonan; Scholz (Kracht) e Rösler. T.: Eduard Geyer.
Gols: Sammer (29 e 44/2º)

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Veja a lista de campeões alemães-orientais: 1948 – Planitz; 1949 – Halle; 11950 – Horch Zwickau (atual Zwickau); 1951 – Chemie Leipzig (atual Sachsen Leipzig); 1952 – Turbine Halle; 1953 – Dynamo Dresden; 1954 e 55 – Turbine Erfurt; 1956 e 57 – Wismut Karl Marx Stadt (atual Wismut Aue); 1958 – Vorwärts Berlin (atual Victoria 91); 1959 – Wismut Karl Marx Stadt; 1960 e 62 – Vorwärts Berlin; 1963 – Motor Jena (atual Carl-Zeiss Jena); 1964 – Chemie Leipzig; 1965 e 66 – Vorwärts Berlin; 1967 – Karl Marx Stadt (atual Chemnitzer); 1968 – Carl-Zeiss Jena; 1969 – Vorwärts Berlin; 1970 – Carl-Zeiss Jena; 1971 – Dynamo Dresden; 1972 – Magdeburg; 1973 – Dynamo Dresden; 1974 e 75 – Magdeburg; 1976 a 78 – Dynamo Dresden; 1979 a 88 – Dynamo Berlin (atual Berliner); 1989 e 90 – Dynamo Dresden; 1991 – Hansa Rostock.

Ubiratan Leal

Imagens: Amazon Deutschland, Travelpics e Der Spiegel


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January 09, 2004

Lodigiani, Europa, Tennis Borussia, Tranmere...

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Muitas vezes um clássico é a representação das relações sócio-culturais da cidade em questão. Assim é, para dar dois exemplos já batidos, com os católicos do Celtic enfrentando os protestantes do Rangers e o povo (Flamengo) contra a elite (Fluminense) carioca. Por isso, os grandes clubes são símbolos da cidade, principalmente para quem é de fora. Mas, isso não impede que vários pequenos ou minúsculos clubes vivem do que sobra, mesmo tendo representatividade praticamente nula e fama próxima a zero. Pois é, mas eles existem.

Quase todas as capitais futebolísticas regionais têm o seu. Por isso, vamos falar apenas de alguns que merecem destaque. Uns já foram grandes ou tiveram momentos ilustres, outros são completamente desconhecidos. A divisão vai por países.

Itália
O torcedor brasileiro se acostumou a ver cada cidade italiana normal com um clube. As grandes teriam dois. E só. Assim, Roma (Roma e Lazio), Milão (Milan e Internazionale), Turim (Juventus e Torino) e Gênova (Genoa e Sampdoria) seriam as únicas cidades italianas com clássicos locais. as demais teriam apenas um representante, se tanto. E muitos viram o calcio dessa foram por vários anos.

Até que o pequeno Chievo surgiu como um segundo time de Verona e surpreendeu muitos. Não apenas pela campanha brilhante, mas também pela simples existência de um segundo clube em Verona. Hoje, o Chievo (na Série A) está mais bem posicionado que o tradicional Hellas (lutando para não cair para a Série C1). Mas não é do clube do distrito de Chievo que vamos falar. Já é óbvio. Também não falaremos da AlbinoLeffe, clube bergamasco que está no mesmo nível do seu vizinho maior, a Atalanta. Ainda há o Citadella, rival local do Padova, e o Mestre, equipe da parte continental de Veneza que amarga a Série D (equivalente à 5ª Divisão italiana).

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Não, o clube italiano mais ofuscado pelos vizinhos é o Lodigiani Calcio. Afinal, quantos sabem que, além de Roma e Lazio, a capital italiana tem um terceiro clube de futebol profissional? A sensação de inferioridade dos biancorrossi só não é maior porque o Lodigiani nasceu despretensiosamente. Para que seus funcionários pudessem participar de campeonatos amadores, a construtora Lodigiani criou um grêmio interno. Em 1972, a instituição se transformou em um clube profissional.

O clube manda seus jogos no estádio do subúrbio de Tre Fontane. Nas poucas vezes em que o Lodigiani chegou a fases mais avançadas da Copa da Itália, mandou as partidas no estádio Flamínio – antigo estádio Del Partido Fascista Italiano, sede da final da Copa de 34 –, com capacidade para 24 mil pessoas e que é usado principalmente pela seleção italiana de rúgbi.

Os biancorrossi não têm sonhos de grandeza. O maior objetivo do clube – atualmente na Série C1 (3ª Divisão), lutando para não cair para a C2 – é lançar jogadores para as principais equipes do país. Até agora, as mais importantes revelações da equipe foram o defensor Apolloni (ex-Parma) e o volante Onorati (ex-Genoa). Dos 27 jogadores do elenco de hoje, 15 nasceram em Roma.

Espanha
Tradicionalmente, os maiores clubes espanhóis são Real Madrid, Barcelona, Athletic Bilbao e Atlético Madrid. Nos últimos anos, o Valencia tem se destacado, com um título nacional e dois vices continentais. Mas dois pequeninos merecem destaque no meio das potências da terra de Antoni Gaudí, Pablo Picasso e Miguel Induráin.

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Se você logo pensou no Rayo Vallecano de Madri e no Espanyol de Barcelona, errou. Afinal, esses dois clubes já estão acostumados a freqüentar a elite espanhola e falar deles não é novidade. Por isso, o primeiro destaque vai para um clube em crescimento, o Levante Unión Deportiva de Valência.

O clube surgiu na região costeira da cidade na primeira década do século XX e, depois da Guerra Civil Espanhola e a fusão com o Gimnástic, adotou as cores azul e grená. Os levantinos passaram boa parte de sua história nas divisões menores, sem ameaçar a supremacia do Valencia na região.

Mesmo assim, o Levante já esteve na elite. Foram apenas duas temporadas, 1963-64 e 1964-65. Na primeira, os azulgranas fizeram uma campanha digna, terminando em 10º lugar. Na segunda, a equipe do Poblado Marítimo bateu o Barcelona por 5x1, venceu o clássico com o Valencia por 2x1 e arrancou um empate em 1x1 em Bilbao, mas foi rebaixado após perder para o Málaga na repescagem.

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Depois de um bom tempo na Segundona, (com uma passagem pela Terceira Divisão), o Levante começou a temporada 1980-81 disposto a investir na promoção à elite. Por isso, contratou o já veterano holandês Johann Cruijff. O estádio Ciutat de Valencia lotou em quase todos os jogos, mas os azulgranas não subiram. Pior, o clube não pôde arcar com a extravagância financeira e foi rebaixado para a Tercera División (equivalente à Quarta, pois havia a Segunda División A e B) por determinação da federação. Depois de se reestruturar, os levantinos voltariam à Segunda A, com eventuais visitas à Segunda B.

Na temporada passada, o Levante só não disputou a Segunda B porque o Burgos foi rebaixado administrativamente. Empolgados com o não-rebaixamento inesperado, os dirigentes investiram na contratação de jogadores de nome como o atacante iugoslavo Mijatovic (ex-Valencia, Real Madrid e Fiorentina, hoje aposentado). Quase deu certo. O time ficou em 4º, mas só 3 subiam para a elite.

Mas o segundo clube valenciano tem grandes chances de subir nessa temporada e reeditar o clássico da cidade na próxima temporada. Os azulgrana são líderes com 35 pontos, um a mais que o Numancia e 4 à frente do Sporting Gijón. Nessa semana, o Poblado Marítimo também comemorou um feito pela Copa do Rei. O Levante venceu o Barcelona por 1x0 na partida de ida das oitavas-de-final.

Se o Levante está em um bom momento, o mesmo não se pode dizer do Club Esportiu Europa, o terceiro clube de Barcelona. Fundado em 5 de junho de 1907 – resultado da fusão do Madrid com o Provençal, dois clubes da capital catalã – com o castelhano nome de Club Deportivo Europa, os escapularis tiveram seus momentos mais gloriosos na primeira metade do século passado.

Em 1923, o time venceu o Barcelona e conquistou a Copa Catalunha. Na mesma temporada, o Europa chega a final da Copa do Rei contra o Athletic Bilbao. Sem aceitar a derrota na copa regional, a torcida do Barça vai ao estádio apoiar o lado basco, iniciando uma rivalidade grande entre as duas equipes catalãs. Sinal da força do Europa na época, reforçada pela participação do clube na fundação da Liga Espanhola.

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Após disputar as três primeiras edições do campeonato nacional, o Europa foi rebaixado. Foi o início de um processo decadencial que quase resultou no desaparecimento do clube. Na realidade, o Europa chegou a perecer após a fusão com o Grácia, criando o FC Catalunya. No entanto, a equipe de futebol foi mantida com as cores e o nome do Europa, mesmo que disputando apenas as ligas amadores da cidade. Depois os escapularis se remontaram, voltando ao profissionalismo. Desde então, milita nas divisões menores do futebol espanhol, com uma melhora significativa – e temporária – nos anos 60, quando alcaçaram a Segunda Divisão. Hoje está em 13º lugar no Grupo 5 da Tercera División (equivalente à 4ª).

Mas duas das maiores glórias do Europa são recentes: o bi-campeonato da Copa Catalunha em 97 e 98, ambas com vitórias sobre o Barcelona na final. O outro grande feito do clube do estádio Nou Sardenya é a vitória de 1x0 sobre a seleção uruguaia em 1931. Segundo os escapularis, foi a única vez que um clube venceu a seleção que detinha o título da Copa do Mundo.

Alemanha
Na Alemanha, são notáveis o caso do St. Pauli (segundo time de Hamburgo), do Stuttgarter Kickers (de Stuttgart) e do Fortuna Köln (de Colônia). Mas o maior cenário de clubes esquecidos é Berlim. Na verdade, até hoje falta uma referência no futebol da maior cidade da Alemanha. O Hertha é a equipe que mais se aproxima disso, já sendo uma figura constante na Bundesliga e até já conseguindo lugar na Liga dos Campeões. Mas o último título nacional do clube foi conquistado em 1931, antes da divisão da atual capital em duas.

Aliás, boa parte dos problemas do futebol de Berlim ainda é conseqüência da Guerra Fria. Os times do lado capitalista padeceram com o isolamento geográfico (além de se ressentirem do fato de muitos de seus seguidores estarem do outro lado do muro que dividiu a cidade) e não se estabeleciam entre os grandes da Alemanha Ocidental.

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Desde a criação da Bundesliga, há 41 anos, apenas três clubes de Berlim, além do Hertha, chegaram a dar as caras. Para se ter uma idéia, o mais bem-sucedido desses foi o Tennis Borussia, que só disputou duas edições da Liga Alemã. O clube violeta apareceu pela primeira vez em 1974-75. Fez uma campanha pífia (5 vitórias, 6 empates e 23 derrotas) e terminou em 17º lugar, caindo para a Segundona. Mas o time do estádio Mommsen insistiu e estava de volta em 76-77. Outra campanha medíocre (6 vitórias, 10 empates e 18 derrotas) e, de novo, a 17ª colocação final. Depois disso o Tennis Borussia vagou pelos porões do futebol alemão. Em 1998-99, o clube quase subiu para a elite. Mas falhou nas rodadas finais. Hoje, está na Oberliga Nordost-Nord (4ª Divisão).

Sorte, por incrível que pareça, melhor que a do Tasmania 1900. Afinal, o time azul é, até hoje, responsável pela pior campanha da história da Bundesliga. Foi em 65-66. A equipe berlinense conseguiu 2 vitórias, 4 empates e 28 derrotas, marcando 15 gols e sofrendo 108. Após o vexame, o clube se afundou nas divisões da Alemanha Ocidental até chegar ao Grupo Berlim da 5ª Divisão, onde está hoje. Nesse nível, inclusive, há vários clubes amadores, mas poucos com perspectivas de escalarem no futebol alemão.

Porém, há uma exceção. Com a grande quantidade de imigrantes em Berlim, surgiram na cidade diversos clubes de colônias. E um já se destaca: o Türkiyemspor. Disputando a Oberliga Nordost-Nord (junto com o Tennis Borussia), a equipe dos turcos tem seu estádio, o Katzbach, localizado exatamente onde passava o Muro de Berlim.

O que nos leva ao lado que ficara com os comunistas por décadas. Pouco restou, por diversos motivos. O primeiro é que o futebol nunca foi uma prioridade no governo da finada República Democrática da Alemanha, que preferia as conquistas olímpicas em esportes como atletismo, natação e ginástica artística. Além disso, os torcedores nunca tiveram muita simpatia pelos favorecimentos a determinados clubes de acordo com a instituição que o mantinha.

O primeiro time a dominar a parte Oeste foi o Vorwärts, clube do exército alemão-oriental e detentor de 6 títulos nacionais entre 1958 e 1969. Depois disso, o exército perdeu poder político e o clube foi transferido para Frankfurt-an-der-Oder (não é Frankfurt, oficialmente chamada Frankfurt-am-Main) em 1971, onde está atualmente disputando ligas amadoras.

O domínio futebolístico foi para o Dynamo Berlin, mantido pela Stasi (polícia secreta) e decacampeão nacional entre 1979 e 1988. Mas o clube não resistiu à onda democrática e teve de se desvincular de uma das instituições mais odiadas do governo comunista. Com o novo nome de Berliner, o time tenta ressurgir na 5ª Divisão, mas perdeu muito de sua popularidade.

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Com a credibilidade do campeonato nacional no chão, os torcedores orientais foram para um clube mais popular e desvinculado das instituições governamentais. Por isso, o Union Berlin manteve um número considerável de seguidores mesmo tendo poucos títulos (na verdade, só tem um: a Copa da Alemanha Oriental de 68). Isso deu um certo fôlego ao clube após a reunificação. Atualmente na 2.Bundesliga (Segunda Divisão), o Union é o único berlinense-oriental que reúne condições reais de crescer. Em 2001, os vermelhos quase fizeram história, ao chegar à final da Copa da Alemanha (foram derrotados pelo Schalke 04).

Inglaterra
Na Inglaterra, é muito comum cada comunidade ter seu time de futebol, quase todos pequenos, restritos ao bairro e bastante tradicionais. Assim, há muitos clubes ofuscados que mereceriam atenção. Para não ser injusto, vamos apenas citá-los.

Em Londres, os maiorais são Arsenal, Tottenham Hotspur, Chelsea e West Ham. Mas ainda há espaço para Fulham, Charlton Atletic, Milwall, Crystal Palace, Wimbledon, Brentford, Queen’s Park Rangers, Leyton Orient, Barnet e Watford. Mas, por falta de dinheiro e torcedores, o Wimbledon pretende se mudar para Milton Keynes. Na região de Birmingham, os mais importantes são Aston Villa, Birmingham City, Wolverhampton Wanderers e West Bromwich Albion. Mas ainda há o Walsall. Nottingham conta com o Nottingham Forest e o Notts County, o clube de futebol mais antigo do mundo. A região de Liverpool, além dos tradicionalíssimos Liverpool e Everton, conta com o Tranmere Rovers. Em volta do United e do City, Manchester ainda tem o Stockport County, o Oldham Athletic, o Rochdale, o Bury e o Bolton Wanderers.

Portugal
Lisboa é terra do Benfica, do Sporting e do Belenenses, enquanto o Porto tem o Porto, o Boavista e o Salgueiros. Não é tão simples. Na capital portuguesa há outros pequenos times, como o Atlético Lisboa, o Oriental, o Casa Pia e o Clube de Futebol Benfica (nenhuma ligação com o outro). Além disso, a região metropolitana conta com a Estrela de Amadora e o Estoril Praia. No Porto, os clubes periféricos se concentram nas cidades vizinhas, como o Leça (de Leça da Palmeira), o Maia (da cidade homônima) e o Leixões (de Matosinhos).

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Holanda
A economia de Eindhoven deve muito à Philips. E não é de estranhar que o PSV (sigla para Philips Esporte Clube em holandês) acabasse dominando o futebol da cidade. Por isso, o Eindhoven (de azul e branco na foto, em partida contra o Den Haag pela Segunda Divisão neerlandesa) mal consegue aparecer, tendo um título nacional na distante temporada de 1954 e uma Copa da Holanda em 1937.

Situação parecida vive Amsterdã, onde o domínio absurdo do Ajax inibiu o crescimento de outros clubes fortes. Em 1972, três clubes locais (DWS, De Volewijckers e Blauwit) se fundiram na tentativa de criar um rival local aos alvirrubros, o Football Club Amsterdam. Funcionou por um tempo, tanto que o Amsterdam chegou a Copas Européias (em que conseguiram uma histórica vitória sobre a Internazionale no Giuseppe Meazza), mas foi rebaixado em 1982 e nunca mais voltou.

Sobrou apenas Roterdã. Na cidade portuária, há dois pequenos. O Excelsior é basicamente uma equipe de formação de jovens para o Feyenoord. Ainda assim, conseguiu ascender à Eredivisie no ano passado. O Sparta, apesar de não conseguir um título desde 1959 (obteve, no máximo, a Copa da Holanda de 62 e 66), é bastante tradicional. Apoiado pela comunidade local, o clube passou toda sua história na Primeira Divisão. Até a temporada retrasada, quando finalmente caiu.

Escócia
A realidade escocesa é parecida com a inglesa, mas se concentra em Glasgow. Assim, a capital futebolística da Escócia não vive apenas de Celtic e Rangers. Há espaço para Motherwell, Saint-Mirren, Hamilton Academical, Partick Thistle, Clyde, Clydebank Greenock Morton, Airdrieonians, Albion Rovers e Queen’s Park. Aliás, esse último merece um destaque à parte.

O Queen’s Park é o clube mais antigo de Glasgow (foi fundado em 1867) e dominou as primeiras décadas do futebol escocês, quando ainda se disputava apenas a Copa da Escócia. Entre 1874 e 1893, o time do sul da cidade ganhou 10 títulos, com dois tricampeonatos. O domínio acabou em 1894, coincidentemente quando ocorreu a primeira final entre Celtic e Rangers (o Rangers venceu por 3x1). Hoje está na Division III.

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Não falamos de Paris porque a capital francesa já teve um texto todo dedicado a ela. O mesmo vale para Buenos Aires. Quer ver? Clique aqui e aqui.

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Nas cidades brasileiras, a torcida tem pouco apego às raízes do bairro, o que dificulta a sobrevivência de pequenos no profissionalismo por mais de uma década. Por isso, casos como o de Madureira, Olaria, Portuguesa, Campo Grande e São Cristóvão no Rio de Janeiro e Juventus, Nacional e Guapira em São Paulo, merecem créditos. Um fenômeno mais recente na capital paulista é o desenvolvimento de clubes na região metropolitana. O Santo André sempre teve seu espaço, mas o São Caetano já rivaliza com os grandes do Brasil, sem contar o crescimento do Osasco e do Flamengo de Guarulhos.

Ubiratan Leal

Imagens: Lodigiani, ABC, Levante, Europa e Adofans


Posted by ubiraleal at 12:39 AM

December 21, 2003

Uma Espanha que não amarelou

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É quase senso comum de que a Espanha, por mais que se esforce, nunca monta seleções vencedoras. Pior, quando a equipe é boa, cede às pressões do favoritismo e da responsabilidade. Mas, há exatamente 20 anos, os espanhóis conseguiam fazer o que muitos consideravam impossível, buscando um resultado dos mais improváveis. E foi um feito tão inesperado que suscitou dúvidas – até justificáveis – a respeito da lisura do resultado.

Tudo aconteceu em 21 de dezembro de 1983. Mas, para entender essa história, é necessário voltar um pouco mais no tempo, a 5 de junho de 1982. A Copa da Espanha nem começara, mas Malta a Islândia já abriam o Grupo 7 das Eliminatórias para a Eurocopa de 84, a ser realizada na França. Com gols de Spiteri-Gonzi e Fabri, os malteses surpreendem e vencem por 2x1 (Geirsson descontou para os escandinavos).

Como os outros integrantes do grupo eram Holanda, Espanha e Irlanda, e apenas uma seleção teria vaga no torneio continental, estava claro que aquele jogo não teria maiores conseqüências. Na partida seguinte, ainda havia espaço para mais surpresas, quando a Islândia empatou em 1 gol com a Holanda. Mas parou por aí. De resto, o que se viu foi um domínio de espanhóis e holandeses, com os irlandeses tentando acompanhar sem muito sucesso. Assim, a Holanda bateu a Irlanda, que empatou com a Espanha em um emocionante 3x3 em Dublin e passou pela Islândia. Os ibéricos também venceram os escandinavos.

Foi quando começaram os fatos fora do programado. Malta receberia a Holanda, mas estava proibida de mandar essa partida em seu território pois o único estádio internacional do país, o Ta’Qali, estava em reformas. Por proximidade geográfica, os insulares pretendiam levar a partida para o sul da Itália continental ou para a Sicília. Os holandeses aproveitaram a oportunidade e ofereceram £ 20 mil (em valores da época) para que o jogo fosse realizado mais ao norte, onde a torcida laranja poderia comparecer. Os malteses aceitaram e levaram a peleja para Aachen, na Alemanha Ocidental.

Foi um massacre e o placar final – 6x0 para os laranjas – só não foi mais largo porque o goleiro maltês Bonello fez diversas defesas extraordinárias. Quem não gostou disso foi a Espanha, que se sentiu prejudicada. Os ibéricos protestaram na Uefa, pedindo a anulação da partida ou, então, que seu jogo como visitante contra Malta também tivesse o local convenientemente alterado. Em vão.

Com essa vitória, a Holanda começava a se destacar no grupo, com um saldo de gols bastante avantajado. Na partida seguinte, a Holanda foi a Sevilha com 6 jogadores de características defensivas, em busca de um empate precioso com a Espanha. Mas não funcionou e, com um gol de pênalti de Señor, os ibéricos alcançaram os laranjas na liderança do grupo.

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A Irlanda ainda daria um último suspiro ao vencer Malta, mas uma derrota para a Espanha deixava os verdes fora da briga. Depois, foi a vez de os espanhóis irem a Malta. O estádio Ta’Qali (na foto como está hoje, após novas reformas) continuava em más condições, o que motivou mais reclamações da Espanha. Mesmo assim, o jogo foi realizado. Malta surpreendeu e chegou a fazer 2x1, mas a Espanha ainda conseguiu virar para um suado 3x2, com o gol da vitória marcado por Gordillo aos 40 minutos do segundo tempo.

A Espanha disparava na liderança, mas a Holanda estava com várias partidas a menos. Os laranjas se recuperaram, vencendo a Islândia e a Irlanda em Dublin. E novamente os dois líderes se enfrentam. Em Roterdã, Houtman pôs a Holanda na frente, mas Santillana empatou. No segundo tempo, Gullit fez o gol da vitória da Holanda, que igualava os pontos espanhóis, mas estava com clara vantagem no saldo de gols, por conta, principalmente, dos 6x0 sobre Malta.

Faltavam apenas 3 jogos para definir o grupo, todos com Malta como visitante. Em um jogo de eliminados, a Irlanda fez 8x0 em Malta. A seguir, a Holanda quase repetiu a goleada de Aachen ao fazer 5x0. Os holandeses comemoraram a classificação, pois abriam dois pontos e 11 gols de saldo de vantagem em relação à Espanha, que receberia os malteses em Sevilha no jogo decisivo.

E daí voltamos ao 21 de dezembro de 1983. Atuando em casa, a Espanha tem de vencer por improváveis 11 gols de diferença para se classificar à Eurocopa. Por isso, começam pressionando e, logo aos 3 minutos, conseguem um pênalti. Señor perde. O 0x0 permaneceria no marcador até o 16º minuto, quando Santillana põe a Espanha na frente. O problema é que, aos 24, Degiorgio empata para Malta. Os espanhóis teriam pouco mais de 60 minutos para marcar 11 gols.

Só conseguiram fazer mais dois no primeiro tempo, sempre com Santillana. Aos 4 do segundo tempo, Rincón faz o 4º gol espanhol. O goleiro maltês Bonello reclama que é alvo de mísseis atirados pela da torcida da casa, a ponto de levar um cartão amarelo. Com isso, não só ele, mas toda a defesa de Malta se enerva e a seleção alvirrubra leva 4 gols – dois de Rincón e outros dois de Maceda – em apenas 7 minutos (dos 12 aos 19 da segunda metade da partida).

A 15 minutos do fim, os ibéricos ainda precisavam de 4 gols para eliminar a Holanda. Santillana diminuiu o déficit espanhol marcando seu 4º gol na partida. Logo depois, o atacante maltês Degiorgio é expulso por fazer cera em uma cobrança de lateral. Malta acabou naquele momento. Rincón também fez seu 4º na partida e Sarabia, aos 35, deixou a Espanha a um gol da façanha histórica. E esse gol veio aos 41, com Señor, o mesmo que perdera um pênalti logo no início da partida. Com esse 12x1, a Espanha chegava a 13 pontos e saldo de 16 gols, os mesmo números da Holanda. Mas como os espanhóis haviam marcado 24 gols – dois a mais que o holandeses – garantiram a vaga.

Foi a vez de a Holanda protestar na Uefa. Muitos acharam estranho o resultado da partida de Sevilha, insinuando que o teria sido combinado. A entidade européia analisou o vídeo-teipe do jogo e manteve o placar e a classificação espanhola.

FICHA TÉCNICA
Eliminatórias da Eurocopa de 1984
Espanha 12x1 Malta

Local: Estádio Sánchez Pizjuan (Sevilha-ESP)
Público: 25 mil
Árbitro: Erkan Göksel (TUR)
Espanha: Buyo; Señor, Goicoechea e Camacho; Victor, Maceda e Gordillo; Rincón (Marcos Alonso), Sarabia, Santillana e Carrasco
Malta: Bonello; E. Farrugia, Tortell, Holland e Azzopardi; Buttigieg, Demanuelle, Fabri e R. Farrugia (M. Farrugia); Degiorgio e Spiter-Gonzi
Gols: Santillana (16/1º), Degiorgio (24/1º), Santillana (26 e 29/1º), Rincón (2 e 12/2º), Maceda (17 e 18/2º), Rincón (19/2º), Santillana (31/2º), Rincón (33/2º), Sarabia (35/2º) e Señor (41/2º)
Expulsão: Degiorgio (32/2º)

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Entre os argumentos que colocavam e dúvida a honestidade daquele 12x1, foi lembrado o fato de que os espanhóis não venciam por mais de 5 gols de diferença desde 1978.

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A foto lá no alto é de Santillana, um dos maiores responsáveis pela classificação da Espanha.

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Independente da lisura ou não da partida que garantiu sua classificação, a Espanha, ao menos, fez uma ótima campanha da Eurocopa de 84. Na primeira fase, após empatar com Romênia e Portugal (ambos 1x1), os espanhóis venceram a então vice-campeã mundial Alemanha Ocidental por 1x0 (gol de Maceda aos 44 do segundo tempo) e ficaram em primeiro no grupo, desclassificando os alemães (o segundo colocado foi Portugal). Nas semifinais, os espanhóis enfrentaram a surpreendente Dinamarca e venceram por 5x4 na disputa de pênaltis, após outro empate em um gol. Na final contra a equipe da casa, os espanhóis não resistiram a melhor técnica da seleção comandada por Platini e perderam por 2x0. É bem verdade que o primeiro gol francês veio após uma falha histórica de Arconada e o segundo foi resultado de um contra-ataque, já nos descontos.

Ubiratan Leal

Imagem: World Stadiums


Posted by ubiraleal at 11:56 PM

December 10, 2003

Glórias nos porões do futebol francês

Nos anos 50, um clube dominava o futebol francês, conquistando diversos títulos nacionais e fazendo o país crer que poderia fazer frente aos poderosos vizinhos europeus. No embalo dessas vitórias, Gabriel Hanot, editor do jornal esportivo L’Équipe, teve a idéia de criar um campeonato interclubes no continente como forma de medir as principais forças da época. A Copa dos Campeões nascia e, para satisfação de Hanot, o tal clube francês chegou à final.

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Hoje, quem olhar no histórico do principal torneio de clubes do mundo verá registrado um Real Madrid x Stade de Reims como a primeira final do torneio. Os merengues estavam formando a que seria a melhor equipe de sua história (e uma das maiores do futebol mundial), com Di Stéfano e Gento. O Reims havia vencido a Copa Latina em 1953 (batendo Valencia e Milan) e era comandado pelo meia Kopa.

A partida realizada no estádio Parc des Princes, em Paris, foi histórica. Os rouge et blancs começaram bem e fizeram 2x0 em apenas 10 minutos, gols de Leblond e Templin. Pouco depois, o terceiro gol só não saiu porque um defensor madridista salvou em cima da linha um arremate de Kopa. Em seguida, os merengues diminuíram com Di Stéfano e empataram com Rial. Fim do primeiro tempo.

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Na volta do intervalo, os franceses param a reação espanhola e voltam a se colocar na frente com um gol do capitão Hidalgo (que se tornaria técnico da seleção francesa na Copa de 82). O Real nem deu tempo para os franceses sentirem muito a sensação de conquistar o primeiro título europeu, já que Marquitos empatou 5 minutos depois e, aos 34, Rial virou. Pressão do Reims, que até acertou uma bola na trave aos 43, mas não conseguiu empatar. O título era espanhol.

Hoje, todos se lembram daquele Real Madrid, até porque a equipe foi reforçada nas temporadas seguintes por craques como Puskas, Didi e Canário. Em 1958, o próprio Kopa incorporou-se ao elenco madridista. Mas pouco se fala do Reims. E olha que os rouge et blancs fizeram ainda mais história.

Em 1958, a França foi a terceira colocada no Mundial da Suécia com um futebol extremamente ofensivo que só parou no Brasil de Pelé. Pois, daquela seleção gaulesa, 5 jogadores – Penverne, Jonquet, Piantoni, Vincent e o artilheiro Fontaine – eram do Stade de Reims. Na verdade, eram 6 rémois entre os bleus, já que o técnico Albert Batteux dividia funções no Reims e na seleção nacional. E só não eram 7 porque Kopa acabara de se transferir para o Real Madrid.

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Com essa base o Reims voltou à final da Copa dos Campeões, em 1959. nova derrota para o Real Madrid, dessa vez por 2x0 em Stuttgart, Alemanha. Depois dessa partida, Kopa voltou ao clube da região de Champanhe, mas o futebol francês entrou em crise, afetando diretamente os rouge et blancs. Para muitos, esse foi o último contato com o Reims, o que faz parecer que o clube fechou as portas.

Chegou perto disso, mas os rémois resistem, vagando nos porões do futebol francês em busca de seu passado de glórias. O último título nacional foi conquistado em 1962. Duas temporadas depois, o clube foi rebaixado. A segunda metade da década de 60 foi marcada com promoções e rebaixamentos,a te que os rémois conseguiram uma certa estabilidade na elite entre 1971 e 1979. Nesse ano, foi rebaixado da Primeira Divisão para nunca mais voltar.

O Stade de Reims ficou 12 anos na Segundona francesa, mas a crise do clube se acentuou nos anos 90, quando, aí sim, o clube quase faliu. Em busca de um respiro financeiro, a diretoria decidiu leiloar os troféus. Não adiantou em, em 1994, o clube estava na Sexta Divisão gaulesa. É verdade que o clube subiu logo em seguida, mas havia poucas indicações de que haveria uma melhora sensível.

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Até que, em 1996, o publicitário Christophe Chenut assumiu a presidência do clube. Ele convenceu uma série de empresários a apoiar o Reims e recomprou boa parte dos troféus vendidos. E deu resultados. A pequena torcida voltou ao estádio na esperança de rever um Reims vencedor. Na temporada 2002-03, o clube já estava na Ligue 2, a Segunda Divisão francesa. Parecia o renascimento dos rouge et blancs. Mas a equipe não correspondeu às expectativas e ficou em 20º (último) lugar logo na primeira temporada no segundo nível, sendo novamente rebaixada para a National (a Terceira Divisão).

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