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dezembro 07, 2004

A curta trajetória do Ceub

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Em 2005, o Brasiliense estreará na elite do futebol brasileiro. Será o 127º clube a participar da Primeira Divisão nacional. Para os mais antigos, porém, a presença da equipe de Taguatinga pode soar familiar. Afinal, na década de 1970, o primeiro clube que ensaiou uma hegemonia no Distrito Federal também trajava camisa nas cores da bandeira do Brasil. E, como o Brasiliense, também se meteu entre os grandes do país. Era o Centro de Ensino Unificado de Brasília, o Ceub.

O clube foi fundado em 1968 por, como o nome indica, estudantes do Ceub (instituição que também aderiu à moda de colocar o prefixo “uni” e se transformou no UniCeub). A prática, muito comum em países latino-americanos (basta ver a existência de clubes como Estudiantes, Liga Deportiva Universitária, Universidad de Chile, Universitario...), ainda causa estranheza aos brasileiros, acostumados a clubes sociais tradicionais. No entanto, é importante lembrar que, naquela época, o Distrito Federal ainda estava se consolidando como cidade e o futebol era amador. Os Campeonatos Brasilienses eram disputados por equipes ligadas a empresas ou categorias profissionais, como o próprio Ceub, o Serviço Gráfico e o Serviço Social.

A primeira edição do campeonato da nova capital federal foi disputada em 1959. A cidade nem havia sido fundada, mas os operários que trabalhavam nas obras de construção de Brasília já haviam organizado seus times. O campeão foi o Grêmio Brasiliense. Depois disso, o domínio passou a Defelê e Rabelo. O Defelê, inclusive, foi o primeiro time a defender Brasília em uma competição nacional, no caso, a Taça Brasil de 1963. Foi eliminado na primeira fase pelo Vila Nova de Goiás.

Em 1965, houve uma tentativa do implantação do profissionalismo. Em vão, em 1969, o futebol do Distrito Federal voltou a ser amador. Apenas na década de 1970 houve uma maior organização. O período coincidiu justamente com o auge do Ceub.

O clube dos estudantes foi vice-campeão distrital em 1972, perdendo a final para o Serviços Gráficos. No ano seguinte, porém, os auri-azuis conquistaram seu primeiro título brasiliense ao vencer o Relações Exteriores na decisão, o que valeu a presença no Campeonato Brasileiro de 1973. Chega a ser curioso se pensarmos que o futebol de Brasília ainda era oficialmente amador.

A campanha foi fraca, com 8 vitórias, 6 empates e 14 derrotas, o que valeu a 33ª colocação, de um total de 40. Os poucos motivos de orgulhos foram as duas vitórias sobre o Paysandu (1x0 em Belém e 3x1 em Brasília) e um triunfo histórico sobre o Corinthians (2x1) no estádio Pelezão.

No ano seguinte, o Pioeira levou o título distrital, mas a CBD designou o Ceub para representar a capital federal no Brasileirão. O time até conseguiu segurar o empate em casa com Palmeiras e São Paulo, mas a campanha de 3 vitórias, 6 empates e 10 derrotas deixou a equipe na 19ª (penúltima) colocação no Grupo B, 37º no final.

Em 1975 apareceu o Brasília, clube que poderia rivalizar com o Ceub em projeção nacional. Logo no primeiro ano, o time que carrega o nome da capital já adotou o profissionalismo e conquistou o título distrital. No entanto, os auri-azuis novamente representaram o Distrito Federal no Campeonato nacional. Outra campanha fraca, finalizada com o 33º lugar, em um total de 42 participantes.

O Campeonato Brasiliense de 1976 marcou a volta – em definitivo – do profissionalismo a futebol do Distrito Federal. O Ceub dominou boa parte da competição. Venceu os dois primeiros turnos e era líder do terceiro quando a Federação brasiliense determinou a realização de um quadrangular final para a definição do campeão e representante local no Brasileirão. O Ceub se negou a participar e o Brasília levou o título. Mesmo assim, a CBD determinou que, naquele ano, o Distrito Federal não teria direito a uma vaga no nacional.

Esse caso comprometeu ainda mais as finanças do Ceub. Sem opção, o clube fechou as portas, marcando o fim do primeiro clube brasiliense a ter projeção nacional. A vida do Ceub foi curta – apenas 8 anos –, mas a equipe amarela e azul até hoje é a referência do futebol da capital para os torcedores mais antigos.

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Não é só o Ceub que virou história. o Pelezão, estádio com capacidade para 20 mil pessoas, está abandonado. Localizado em ua região valorizada da capital, foi repassado pelo governo distrital a federação de futebol, que vendeu o local a uma empresa do setor imobiliário. A transação foi investigada pela CPI da Nike-CBF.

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Sem a sombra do time dos estudantes, o Brasília dominou o futebol do Distrito Federal, com 8 títulos entre 1975 e 1984. A partir de 1985, com o título do Sobradinho, a hegemonia do futebol brasiliense saiu do Plano Piloto e foi às cidades-satélites, como Taguatinga, Guará e Gama.

Ubiratan Leal

Imagem: Topgol


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novembro 06, 2004

O orgulho de Novo Horizonte

Novorizontino camisa.jpg

A temporada do futebol paulista profissional terminou em 30 de outubro com a vitória do Taboão da Serra por 3x1 sobre o Itararé na final da Série B2. E, mais uma vez, o São Paulo ficou sem ver o Novorizontino. Um clube que, mais que vice-campeão estadual de 1990, foi um dos maiores motivos de orgulho de uma pequena cidade de 31 mil habitantes a 484 km da capital e tornou seu estádio um inferno para os grandes.

A experiência de Novo Horizonte com o futebol era pequena. O Clube Atlético Novo Horizonte havia disputado apenas dois campeonatos oficiais: o Paulista da Quarta Divisão em 1965 e o da Terceira em 1968. Depois disso, fechou as portas e a cidade teve de esperar alguns anos para voltar a ver o futebol profissional.

O Grêmio Esportivo Novorizontino foi fundado com o nome de Pima Futebol Clube em 11 de março de 1973, mas só começou a disputar partidas oficiais em 1976, pela Terceira Divisão paulista. O início não foi dos mais promissores e, na temporada seguinte, o tigre já estava na recriada Quarta Divisão, onde ficou até 1979. Não que o clube tenha conseguido a promoção à Terceirona, mas a Quarta Divisão foi extinta em 1980.

A partir daí, é possível dizer que o Novorizontino iniciou sua evolução. Em 1982, o clube conseguiu um lugar na Segundona. Três anos depois, tinha sua melhor temporada até aquele momento. Na primeira fase, o tigre conseguiu 14 vitórias e 5 empates em 24 partidas, terminando em primeiro lugar no grupo amarelo, à frente de equipes tradicionais como Francana, Taquaritinga, Catanduvense e Radium. Na segunda fase, os quatro primeiros de cada grupo da primeira fariam um quadrangular. O Novorizontino voltou a se mostrar superior a Francana, Barretos e Sãocarlense e conseguiu a única vaga da chave para o quadrangular final.

O tigre estreou perdendo de 2x1 para o Tanabi. Recuperou-se com um 2x0 sobre o Taubaté e o 0x0 diante do Mogi Mirim permitiu que os aurinegros ficassem com o segundo lugar, ao lado do Tanabi, após os jogos de ida. O Mogi liderava com 5 pontos (a vitória valia apenas duas unidades).

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O empate com o Mogi Mirim (1x1) e a vitória sobre o Taubaté (2x1) fez com que o Novorizontino chegasse na última rodada precisando de um empate contra o Tanabi no Pacaembu. A vitória por 1x0 garantiu ao clube de Novo Horizonte uma inédita participação na elite estadual ao lado do Mogi Mirim, que terminou como campeão.

O primeiro contato com os grandes não foi muito feliz, com sete derrotas em seqüência. No primeiro turno, o time ficou em último, ao lado do América, com 13 pontos em 19 jogos. O único bom resultado foi um empate com o Corinthians em 1x1 em Novo Horizonte. A Segundona parecia se reaproximar, porém, surpreendentemente, o tigre reagiu, empatando com o São Paulo no Morumbi (1x1), batendo o Corinthians no Pacaembu (2x1) e superando o Santos por 1x0 no estádio Jorge Ismael de Biasi. Acabou como o quinto melhor do returno, atrás apenas de Internacional de Limeira, Palmeiras, Corinthians e do também ascendente América. Melhor que isso, foi o 11º na classificação final, evitando o rebaixamento e deixando para trás forças do interior como Guarani, XV de Piracicaba, Ponte Preta e Ferroviária.

O campeonato de 1986 foi mais sofrido para os de Novo Horizonte. O time revezou com Corinthians e Bandeirante as últimas colocações. Com a espetacular reação dos paulistanos no segundo turno (o Timão terminou com o vice-campeonato), os aurinegros ficaram ao lado da equipe de Birigüi na zona de rebaixamento. No entanto, uma pequena reação nas rodadas finais, combinada com uma queda de rendimento da Ponte Preta, permitiu a salvação do Novorizontino e o rebaixamento dos campineiros.

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No Paulistão de 1988, o tigre fez apenas 11 pontos em 19 partidas, a pior campanha ao lado do estreante União São João. Para a sorte de ambos, a federação decidira aumentar o número de participantes para a edição seguinte e não houve rebaixamento. Nesse mesmo ano, o clube estreou em competições nacionais. Na Terceira Divisão, o tigre passou pela Douradense na primeira fase, mas foi superado pelo Marcílio Dias na segunda. Porém, as perspectivas para o futuro eram boas ao conquistar o título paulista de juniores, com um time com Maurício no gol, Márcio Santos na zaga e Carlos Zara e Luís Carlos Goiano no meio-campo (foto).

A primeira grande campanha do Novorizontino se deu em 1989. O clube ficou em 4º lugar no Grupo 1 (apenas com times do interior) e garantiu um lugar entre os 12 que passaram à segunda fase. E os aurinegros tiveram um papel importante no campeonato. A equipe fez um triangular com Bragantino e Palmeiras. Os alviverdes estavam invictos e despontavam como claros favoritos ao título que não ia ao Parque Antárctica há 13 anos. No turno, o Bragantino venceu o Novorizontino, mas perdeu para o Palmeiras. Em Novo Horizonte, o tigre conseguiu segurar um inesperado 0x0 com o Palmeiras.

O returno ficou marcado na história do Palmeiras. O Bragantino goleou por um contundente 3x0, resultado que acabou com a invencibilidade verde, praticamente eliminou os paulistanos do torneio, prolongando em mais um ano a fila, e criou uma espécie de mitificação do Bragantino como asa-negra palmeirense.

Para o alvinegro da terra da lingüiça, bastaria uma vitória em Novo Horizonte para avançar às semifinais, o que acabou ocorrendo. O Novorizontino ainda conseguiria um novo empate diante do Palmeiras, dessa vez em São Paulo. No segundo semestre, o Bragantino voltou a atrapalhar o Novorizontino, que também ficou atrás do São José e na passou da primeira fase na Segundona do Brasileiro. Se serve de consolo, Bragantino e São José fizeram a final do torneio.

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O auge da história aurinegra veio em 1990. Comandada pelo jovem treinador Nelsinho Baptista, a base campeã paulista de juniores em dois anos antes já estava mais amadurecida. Além desses, o atacante Paulo Sérgio veio emprestado do Corinthians para ganhar experiência. Outros dois destaques eram o meia Édson Pezinho e o lateral-direito Odair “He Man”.

Na primeira fase, a equipe teve alguma dificuldade, mas terminou em 7º lugar no Grupo 1 (passavam de fase justamente 7). Em 8º lugar ficou o São Paulo, que teve de disputar uma repescagem e, ao ficar atrás do Botafogo de Ribeirão Preto, foi relegado ao Módulo Amarelo do Paulistão de 1991.

O tigre só encontrou seu melhor jogo na fase semifinal. Em um intrincado grupo com Palmeiras, Portuguesa, Guarani, XV de Piracicaba, América e Ferroviária, o aurinegro conseguiu manter a invencibilidade (e uma inesperada liderança) por 11 rodadas, até perder por 1x0 para o Palmeiras. No entanto, os verdes perderam para o Guarani na rodada seguinte e permitiram a recuperação do Novorizontino.

Na última rodada, a equipe enfrentou a Portuguesa no Canindé, enquanto que o Palmeiras recebeu a lanterna Ferroviária e o Guarani foi a Piracicaba. O empate entre o bugre e o XV eliminou o clube de Campinas. A questão ficaria entre o Novorizontino e o Palmeiras.

No Canindé, a torcida lusa pedia para seu time entregar a partida para assegurar a eliminação dos rivais palmeirenses. Mas a Portuguesa se esforçou e arrancou um empate em 1x1. Ao mesmo tempo, o Palmeiras não conseguiu furar a retranca da Ferroviária e ficou em um melancólico 0x0. Revoltada com mais um ano de estiagem de títulos, a torcida palmeirense invadiu e destruiu parte da sala de troféus do clube.

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Na outra chave, o Bragantino conseguiu garantir seu lugar na final, deixando Corinthians e Santos pelo caminho. Com isso, Bragantino e Novorizontino fizeram a que foi chamada de “final caipira”, termo que foi reavivado após São Caetano e Paulista de Jundiaí decidirem o título estadual em 2004.

O estádio Jorge Ismael de Biasi ficou lotado para a primeira partida da decisão. O jogo foi equilibrado e o 1x1 foi justo (gols de Édson Pezinho e Ivair). Um cenário muito parecido foi verificado no jogo de Bragança Paulista. Márcio Santos colocou o Novorizontino em vantagem, mas Tiba empatou para o Bragantino pouco depois. Mais experiente, o clube da casa soube segurar o 0x0 na prorrogação e ficou com o título paulista.

Curiosamente, nem o vice-campeonato paulista fez com que o clube pudesse participar de alguma divisão do campeonato nacional de 1990. Tampouco da Copa do Brasil, já que a Federação Paulista estipulara que as vagas ficariam com os vencedores da primeira fase do Estadual de 1990 (Corinthians e XV de Piracicaba)

A partir daí, a trajetória ascendente do Novorizontino deu lugar a uma oscilação entre boas e más campanhas. Ainda assim, o tigre era sempre uma equipe difícil de ser batida em seu estádio, sempre cheio e com torcida barulhenta e fanática em jogos contra os times grandes.

Um ano depois do vice-campeonato estadual, o aurinegro foi “rebaixado” para o Módulo Amarelo, uma espécie de Segunda Divisão que dava vagas para a fase decisiva da primeira. Mas se recuperou com uma boa campanha na Segundona do Brasileiro, caindo diante do Noroeste nas oitavas-de-final. Na temporada seguinte, o clube não saiu do lugar no Paulsitão e ficou de fora do Brasileiro.

Em 1993, o Novorizontino venceu o Módulo Amarelo e conseguiu um lugar na fase semifinal do Paulistão. Porém, pouco pôde fazer em um grupo com Corinthians, São Paulo e Santos. Na houve segunda divisão do Brasileiro naquele ano e o tigre teve de disputar uma seletiva paulista para o torneio nacional do ano seguinte, mas ficou atrás do Mogi Mirim.

Em 1994, com um campeonato em pontos corridos, o Novorizontino terminou em um bom 6º lugar. No caminho, o time quebrou uma invencibilidade de 17 jogos do então líder Corinthians (1x0 em Novo Horizonte) e venceu o São Paulo por 3x0 no Jorge Ismael de Biasi (seria 4x0 se Zetti não defendesse um pênalti) e empatou em um extravagante 4x4 no Morumbi, resultado que deu o bicampeonato ao Palmeiras. O primeiro título do clube veio no segundo semestre daquele ano. Após superar Matsubara, Esportivo de Passos, Atlético Sorocaba, União Bandeirante, Taguatinga, Ituano, Uberlândia e Ferroviária, o Novorizontino foi campeão brasileiro da Terceira Divisão.

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Nesse período, o clube não estava mais sob controle da família Biasi, que permanecia como proprietária do estádio. O Novorizontino já era dirigido pela família Chedid, a mesma que mantinha também a Ponte Preta e o Bragantino. O investimento na equipe caiu. Para piorar, houve choque político entre as famílias Chedid e Biasi, o que minou ainda mais o clube. Foi o início da decadência aurinegra.

A campanha no Paulistão de 1995 foi modesta, com um 11º lugar. Na Série B do Brasileiro, passou da primeira fase, mas não resistiu a Atlético-PR e Mogi Mirim na segunda. No ano seguinte, o clube já acusava a desorganização interna e foi rebaixado no Estadual após 11 anos na elite. A crise ficou anda mais exposta quando o clube desistiu da disputa da Segundona do Brasileiro por falta de condições financeiras. Era o fim da aventura nacional do Novorizontino.

Em 1997, o tigre tentou dar uma respirada. Investiu em jovens da região de Novo Horizonte e fez uma boa campanha na Série A-2 do Paulistão. Terminou em segundo lugar o Grupo 2, garantindo um lugar no quadrangular final. Quase conseguiu. Um empate na última rodada contra o Santo André impediu um retorno rápido à elite. As vagas ficaram com Ituano e Matonense.

Na temporada seguinte, já sem dinheiro, o clube fez sua última aparição. Terminou o campeonato no bloco intermediário, mas o fim era iminente. Tanto que as duas últimas partidas do clube foram melancólicas derrotas: 0x1 em casa para o Corinthians de Presidente Prudente e 0x4 contra a Paraguaçuense em Paraguaçu Paulista.

Endividado, o Novorizontino não teve condição de pagar as taxas da Federação Paulista e o aluguel do estádio. Como conseqüência, a família Biasi não permitiu mais que a equipe utilizasse as instalações e a federação exigiu o licenciamento do clube. Desde então, Novo Horizonte nunca mais teve um time profissional de futebol. Várias vezes já se falou na ressuscitação do Novorizontino, mas os planos sempre esbarram na falta de alguém que banque esse retorno e nas arestas políticas que ainda perduram. E a pequena cidade, cuja população inteira cabe no Pacaembu, fica sem um de seus maiores orgulhos.

*

O Novorizontino vice-campeão paulista de 1990 não era apenas uma surpresa. O time era realmente bom. Veja só: Maurício; Odair, Márcio Santos, Fernando e Jerônimo; Luís Carlos Goiano, Tiãozinho, Roberto Cearense e Édson Pezinho; Paulo Sérgio e Róbson. Técnico: Nelsinho Baptista.

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Desses, os que mais tiveram sucesso foram Márcio Santos e Paulo Sérgio, ambos campeões mundiais em 1994 com a seleção brasileira. Luís Carlos Goiano foi volante do São Paulo de Telê Santana e do Grêmio de Felipão na década passada, e Maurício, convocado para a seleção brasileira uma vez e ex-goleiro de Corinthians, Santos e Portuguesa. Nelsinho Baptista foi para o Corinthians logo depois do vice no Paulistão e levou o clube a seu primeiro título brasileiro. Depois, comando vários grandes clubes do Brasil. Odair foi ao Palmeiras ainda em 1990, mas sumiu pouco depois. Como Maurício e Paulo Sérgio, Édson Pezinho também passou pelo Corinthians. Hoje, está no homônimo do alvinegro em Alagoas.

Ubiratan Leal

Imagens: Novo Horizonte


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outubro 27, 2004

Quando Áustria invadiu a Alemanha

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Antes mesmo de invadir a Polônia e iniciar a Segunda guerra Mundial, a Alemanha nazista já mostrara suas pretensões expansionistas ao invadir e anexar o território austríaco em 1938. Tanto que o bom time da Áustria não disputou a Copa de 1938, para a qual havia se qualificado nas Eliminatórias. Os jogadores austríacos vestiram a camisa da nação invasora, a maioria a contragosto. Mas se vingaram.

Após a invasão nazista, a Áustria se transformou em mais uma região da Alemanha. Não só os jogadores austríacos passaram a defender a seleção alemã, como os clubes começaram a participar do Campeonato Alemão de futebol. Aliás, depois de 1939, o mesmo ocorreu com algumas equipes polonesas.

Na época, o Campeonato Alemão era dividido em grupos regionais. Em cada chave, os times jogavam em pontos corridos, sendo que apenas o vencedor tinha direito a passar à segunda fase, composta por quatro novos grupos. Os vencedores disputavam as finais em mata-mata. Havia ainda a disputa do terceiro lugar. A Copa da Alemanha seguia os moldes tradicionais, com jogos eliminatórios.

A primeira aparição de austríacos entre os clubes alemães se deu em 1937-38, mas apenas na Copa nacional. E logo foi possível ver como o futebol da Áustria estava em um nível técnico semelhante ao alemão. Naquela temporada, o Rapid Wien bateu o Eintracht Frankfurt e conquistou de maneira surpreendente o título.

Depois dessa glória na estréia, os clubes da nação invadida passaram a se destacar mais no Campeonato Alemão. As equipes da Áustria foram sempre colocadas no mesmo grupo e a vencedora, além de se classificar para a segunda etapa, ficava com o título de campeã austríaca. Em 1938-39, o campeão austríaco foi o Admira do atacante Wilhelm Hahnemann. O clube vienense entrou no Grupo 3 da segunda fase, ao lado de Stuttgarter Kickers, Dassau e Waldhof Manheim.

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Os confrontos entre austríacos e alemães era difícil, pois os jogadores do país invadido sempre mostravam uma voluntariedade acima do comum devido à rivalidade criada pela ocupação. Isso ficou claro já nesse primeiro torneio. Em casa, o Admira foi supremo, goleando o Stuttgarter por 6x2, o Dassau por 5x1 e o Waldhof por 8x3. A classificação só não foi tranqüila porque, na Alemanha, os vienenses sofriam, só conseguindo um empate (1x1 em Stuttgart). O primeiro lugar veio no saldo de gols. Nas semifinais, os austríacos golearam o tradicional Hamburg por 4x1. Logo na primeira temporada, um clube da Áustria já chegou à final do Campeonato Alemão. No entanto, o Admira foi massacrado pelo Schalke 04 na decisão, 0x9 (foto).

Em 1940, foi a vez de o Rapid, o clube mais popular de Viena, bater os rivais locais e chegar à fase nacional do campeonato. A composição das chaves da segunda etapa foi favorável e os austríacos passaram sem dificuldades por Vorwärts Gleiwitz, Graslitz e Union Oberschoneweide. Nas semifinais, caíram diante do Dresdener na prorrogação (1x2). Tiveram de se contentar com 5x2 sobre o Waldhof Manheim na disputa do terceiro lugar.

O alviverde continuou superior aos adversários e novamente conquistou o título austríaco. Mas, dessa vez, o time esteve arrasador. Na segunda fase, venceu com facilidade München 1860, Stuttgarter Kickers e Neckarau (apenas os bávaros apresentaram alguma resistência). Nas semifinais, os vienenses enfrentaram novamente o Dresdener, uma potência alemã da época (conquistara a Copa da Alemanha de 1940) e se vingaram com um 2x1, sem prorrogação.

A final foi histórica e dramática. O Schalke 04 era o maior clube alemão da época, com títulos nacionais em 1934, 35, 37, 39 e 40, além dos vices de 1933 e 38, e era considerado favorito. Por isso, foi natural que os azuis de Gelsenkirchen fizessem 3x0 diante das 95 mil pessoas que foram ao estádio Olímpico de Berlim. A 15 minutos do final, no entanto, os austríacos iniciaram uma incrível reação e conseguiram um improvável 4x3.

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Aquele momento marcou a história do Rapid (foto do time campeão no alto do texto), que ficou conhecido por nunca se entregar, e criou a mística do Rapidviertelstunde, ou o “Quarto de hora do Rapid”, até hoje celebrado pelos torcedores do clube. O título também ajudou a consolidar o lugar do atacante Franz “Bimbo” Binder na história do futebol austríaco. Maior artilheiro da história do Rapid (fez 1151 gols, sendo 3 contra o Schalke na final de 1941, em 754 jogos pelo Rapid), não teve muita sorte em seleções, já que as competições internacionais estavam comprometidas pela Segunda Guerra.

Em 1942, a fórmula foi modificada. Depois da fase de grupos regionais, os confrontos seriam em eliminatórias diretas. O Rapid não conseguiu manter a hegemonia nem em sua terra, perdendo o título para o First Vienna (clube mais antigo da Áustria).

De qualquer forma, o First não decepcionou e manteve o orgulho do futebol de seu país. Na fase preliminar, venceu o Olmutz por um apertado 2x1. Nas fases seguintes, outros placares justos: 1x0 sobre Germania Konigshutte e 2x1 no Planitz. Os vienenses só encontraram um clube tradicional nas semifinais, quanto tiveram de vencer o Blau-Weiss Berlin. Na final, o Schalke 04 ficou no caminho, como em 1939.

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Na temporada seguinte, o First revalidou seu título austríaco. E, como ocorrera desde a anexação, chegou entre os quatro primeiros do Campeonato Alemão. Passou por Brunn, Reinecke Brieg e München 1860, mas não resistiu ao Saarbrücken nas semifinais. Também tombou diante do Holstein Kiel na disputa do terceiro lugar. Só não foi a pior temporada do futebol austríaco porque o First compensou as derrotas no Campeonato com o título da Copa, vencendo o Hamburg (clube mantido pela Luftwaffe naquela época) por 3x2 na prorrogação.

Em 1944 veio o tricampeonato do First. No entanto, a campanha do clube na fase nacional não foi muito boa. Após passar por Brunn e Hirschberg, os vienenses perdera para o Dresdener nas quartas-de-final. Como consolo, vale lembrar que o alvirrubro de Dresden conquistou o título em 1943 e 1944. Naquela temporada não houve Copa.

A partir de 1944-45, foi impossível organizar um campeonato de futebol, ignorando o avanço de tropas aliadas sobre o território alemão. O Campeonato e a Copa da Alemanha não foram disputados. Poupada por boa parte dos conflito, a Áustria conseguiu continuar com o futebol. O Campeonato Austríaco se desvinculou do Alemão e o Rapid Wien ficou com o título.

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A escalação histórica do Rapid campeão alemão de 1941: Raftl; S. Wagner e Sperner; F. Wagner, Gernhardt e Skoumal; Fitz, Schors, Binder, Dvoracek e Pesser. Os gols foram marcados por Schors e Binder (3).

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Observações históricas: após a Segunda Guerra Mundial, o Dresdener, de Dresden, foi fechado pelo governo da Alemanha Oriental. Em 1970, o Admira se fundiu com o Wacker e criou o Admira Wacker. Em 1997, o Admira Wacker se fundiu com o Mödling e criou o Admira Wacker Mödling.

Ubiratan Leal

Imagens: Köln site não-oficial, Schalke 04 site não-oficial, Rapid Archiv e Logoserver


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outubro 15, 2004

A história da Pro Vercelli

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A séria crise pela qual passa o futebol italiano vitimou clubes tradicionais como Fiorentina – já recuperada – e Napoli. Mas esse mesmo processo ajudou a ressuscitar um dos maiores campeões da história do futebol. Um clube quase esquecido que chegou a dominar o calcio por quase 20 anos, conseguiu títulos até hoje não igualados por uma equipe de interior e teve participação indireta na fundação de um dos principais clubes do Brasil. Aliás, tem quase o dobro de scudetti de florentinos e napolitanos juntos. É a Pro Vercelli tentando reaparecer no cenário futebolístico italiano.

O clube de Vercelli – cidade do interior piemontês (região de Turim) e capital do arroz e do risoto italiano – foi fundado em 1892 para incentivar a prática da ginástica. Tanto que seu primeiro nome era Società Gimnastica Pro Vercelli 1892 (o nome atual é Unione Sportiva Pro Vercelli Calcio 1892). Aos poucos, outras modalidades esportivas foram incorporadas como esgrima, atletismo, ciclismo, tiro ao alvo e tamboréu. O futebol apareceu um pouco mais tarde, com a chegada do dirigente Luigi Bozino, que viria a se tornar presidente da Federcalcio (a CBF italiana) e vice da Fifa na década de 1920.

Em 1903, a Pro Vercelli foi inscrita na federação de futebol. Nas primeiras temporadas, não disputou torneios oficiais. Os bianchi só estrearam em torneios oficiais em 1906, na Segunda Divisão. No ano seguinte, o clube piemontês foi campeão dessa categoria, mas não subiu imediatamente. Em 1908, a Pro Vercelli protagonizou uma façanha inédita no calcio. Foi campeã da Segunda Divisão e, na mesma temporada, conquistou o título da Primeira.

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É verdade que a Pro se beneficiou do fato de Milan, Genoa e Torino terem sido excluídos do torneio por contarem com jogadores estrangeiros no elenco e com a desistência da Juventus após duas partidas. Inclusive, o Campeonato Italiano de 1908 foi um triangular entre Pro Vercelli, Milanese e Andrea Doria. Os leoni terminaram o torneio invictos, com 3 vitórias e 3 empates (contando os dois confrontos com a Juventus).

No ano seguinte não houve exclusões ou desistências. E a Pro Vercelli pôde legitimar o título de 1908. Passou por Torino e Juventus no grupo do Piemonte na primeira fase, bateu o Genoa (vencedor do grupo da Ligúria) nas semifinais e foi campeão às custas da Milanese (que havia eliminado Milan e Internazionale no grupo da Lombardia). Não havia mais como contestar o fato de a equipe da terra do arroz ser a melhor da Itália.

Em 1909-10, o Campeonato Italiano foi realizado já com a fórmula de pontos corridos (que só seria adotada definitivamente na década de 30). Internazionale e Pro Vercelli terminaram empatados na liderança, ambos com 25 pontos. O regulamento previa um jogo-desempate. A partida foi marcada para 24 de abril de 1910, o que desagradou os piemonteses. Como a Internazionale não aceitou o pedido de mudança de data, a Pro entrou em campo com uma equipe júnior, sendo derrotada por 11x3.

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Porém, a derrota para os nerazzurri foi apenas uma pausa momentânea na seqüência de títulos da Pro Vercelli. O clube conquistou o tricampeonato entre 1911 e 1913 (esse último ficou famoso pelo fato de a Juventus ter sido rebaixada pela primeira e única vez na história e, posteriormente, “repescada”), batendo Venezia (duas vezes) e Lazio na final. Nesses três anos, somados, os bianchi perderam apenas duas partidas e, se tivessem vencido a final de 1910, completariam um até hoje inédito hexacampeonato italiano.

O sucesso da Pro Vercelli era tão grande que o clube, ao lado do Torino, foi convidado a fazer uma série de amistosos pelo Brasil. Os turineses tiveram melhores resultados. Na realidade, a Pro Vercelli decepcionou um pouco, perdendo a maior parte dos jogos. Mesmo assim, a chegada de dois clubes italianos ao Brasil inspirou a colônia do país em São Paulo. No jornal Fanfulla foi anunciada a intenção de criar um clube de futebol dos italianos que moravam no Brasil. E assim surgiu o Palestra Itália, hoje Palmeiras (curioso é que um dos clubes que inspiraram a criação do alviverde tem uniforme igual ao do rival Corinthians).

De volta à Itália, os bianchi não conseguiram o quarto título nacional seguido. Foram superados pelo Torino na segunda fase em um torneio interrompido pela Primeira Guerra Mundial antes da final (o Genoa foi declarado campeão). O Campeonato Italiano só foi retomado na temporada de 1919-20. A Pro Vercelli caiu diante do Genoa na segunda fase. Mas se recuperaria nos dois anos seguintes, com um bicampeonato (vencendo Pisa e Fortitudo de Roma na final). Outro resultado histórico foi um empate contra o Liverpool em um amistoso.

Naquele momento, os leoni já tinham 7 títulos italianos e eram, ao lado do Genoa, os maiores campeões do calcio, seguidos por Milan (3), Internazionale (2) e Juventus, Casale e Novese (1 cada). Porém, a década de 1920 marcava o início do domínio das equipes das capitais regionais e do profissionalismo. Aos poucos, a Pro Vercelli foi se ressentindo disso, teve poucas condições de competir com os clubes de Turim, Milão, Roma e Gênova. Ainda assim, restou o solitário orgulho de, em 1929, marcar o primeiro gol da história da Serie A italiana.

Em 1934-35, os bianchi terminaram em 16º (último) e foram rebaixados para a Serie B. Seis temporadas depois, o clube sofreu outro revés. Foi 18º (também último) e foi rebaixado para a Serie C. Com a reestruturação do futebol italiano após a parada da Segunda Guerra Mundial, a Pro Vercelli voltou à Serie B. Mas ficou apenas duas temporadas no segundo nível, pois foi novamente rebaixada.

A partir de então, o clube alternou temporadas na Terceira, Quarta e até Quinta Divisão. Nesse período, foi “repescado” uma vez por “mérito esportivo” (1964-65) e rebaixado administrativamente por problemas financeiros (1989-90).

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As alegrias só voltaram em 1994. Os leoni foram os melhores da Serie D (Quinta Divisão) e conquistaram o título italiano amador. Era a esperança da pequena torcida de recuperar espaço no calcio. Porém, o clube empacou aí. Duas vezes chegou aos mata-mata para conseguir um lugar na Serie C1, mas foi eliminado em ambas.

Em 2003-04, o clube entrou em crise e só não voltou às divisões amadoras porque venceu o Mestre (segundo time de Veneza) na repescagem. Na temporada seguinte, os bianchi também tiveram de jogar pela permanência na Quarta Divisão. Dessa vez, perderam para o Sassuolo e foram rebaixados.

Mas as perspectivas não são tão ruins assim para a Pro Vercelli. A crise econômica do futebol italiano fez com que muitas equipes (e não apenas o Napoli e a Ancona) fossem rebaixadas administrativamente ou declaradas falidas. Com isso, abriram-se vagas nas Series B, C1 e C2, o que permitiu a volta da equipe da cidade do arroz à Quarta Divisão. Com nova administração, o clube se reforçou e, agora, faz uma campanha até que razoável na Serie C1. Com 3 vitórias e duas derrotas, está em 5º lugar no Grupo A, a dois pontos dos líderes Sassuolo e Pizzighettone.

Pro Vercelli x Ivrea.jpg
A Pro Vercelli vence o Ivrea pela Serie C2 de 2004-05. O resultado foi importante (o Ivrea é concorrente direto pela ponta do Grupo A), mas os leoni ainda estão longe das glórias do início do século passado

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Os sete títulos conquistados nas três primeiras décadas do século XX deixam a Pro Vercelli como uma das maiores campeãs da Itália até hoje. Os leoni só estão atrás de Juventus (27), Milan (17), Internazionale (13) e Genoa (9), além de estarem empatados com Torino e Bologna (algumas fontes dão 8 títulos ao Torino, mas o de 1927 foi cassado por suborno de um jogador da Juventus antes de uma partida decisiva).

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Entre os times de cidades que não são capitais de região e já conquistaram o scudetto, a Pro Vercelli só é seguida por Casale, Novese e Verona.

Ubiratan Leal

Imagens: Renato Greppi/Pro Vercelli e Alé Leoni


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outubro 06, 2004

A versão inglesa da Ponte Preta 2004

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O fato de a Ponte Preta, mesmo com um saldo de gols absurdamente negativo (-19), se manter entre os líderes do Campeonato Brasileiro ainda causa estranhamento. Pois, há 12 anos, começava uma história parecida – no fundo, matematicamente até mais impressionante – com essa na Inglaterra. Justamente com um clube que reapareceu na elite nessa temporada, o Norwich City.

Em 1991-92, como a Ponte em 2003, os canários ingleses só escaparam do rebaixamento nas últimas rodadas. Ficaram em 18º, (entre 22), apenas três pontos à frente do Luton Town, 20º e o melhor dos rebaixados. Vale lembrar que, naquela época, a vitória já valia três pontos no Campeonato Inglês. Assim, era lógico que entrassem no torneio em 1992-93 com o objetivo de fugir mais uma vez da Segunda Divisão.

Porém, a estréia já mostrou que o Norwich City teria melhor sorte naquele ano. Jogando em Highbury, os canários venceram o Arsenal por 4x2, mesmo voltando do intervalo tendo de recuperar um 0x2. Aquele jogo ficou famoso pelo fato de a diretoria do Arsenal ter colocado um grande paredão pintado com uma arquibancada lotada para cobrir os trabalhos de reforma de uma das arquibancadas.

As rodadas seguintes foram cheias de vitórias apertadas do Norwich. Dessa forma, nem uma derrota normal e esperada para o Manchester United por 3x1 impediu que, na quinta rodada, os canários fossem lideres isolados da competição. Assim continuou até a 11ª rodada, quando enfrentaram fora de casa o Blackburn, então vice-líder da competição. Era 3 de outubro de 1992 e naquele momento, o Norwich do técnico Mike Walker e do atacante Chris Sutton colecionava 23 pontos, com 7 vitórias, 2 empates e uma derrota, 19 gols feitos e 12 sofridos. Nada mal.

No entanto, em uma atuação feliz dos atacantes Wegerle e Shearer, o Blackburn venceu por incontestáveis 7x1 e assumiu a liderança, com 24 pontos. Além disso, colocou o saldo dos canários perto do limite (+1). Na rodada segunte, uma vitória por 2x1 sobre o Queen’s Park Rangers, associada ao empate entre Blackburn e Aston Villa, recolocou o Norwich na ponta. Na semana seguinte, os canários foram novamente goleados (1x4 para o Liverpool), mas, com o empate entre Blackburn e Manchester United, permaneceram na dianteira. E, como a Ponte Preta, já estava com saldo de gols negativos.

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Na 15ª rodada, o Norwich aproveitou uma combinação feliz de resultados e abriu 3 pontos de vantagem para o segundo colocado. E nem assim conseguia estar com saldo no azul. Estava justamente com 0. Era inevitável que a seqüência de vitórias magras melhorasse esse cenário. Após 18 jogos, os canários já estavam com saldo de +3, ainda assim, muito pouco para quem estava com uma folga de 8 pontos para os segundos colocados Aston Villa, Blackburn e Chelsea. Duas derrotas seguidas já puseram a campanha do Norwich em seu estranho caminho, com saldo negativo e liderança.

Essa situação anacrônica permaneceu até a 23ª rodada (a segunda do returno), quando o Norwich, com saldo de -1, foi ultrapassado por Aston Villa e Manchester United. Os canários ainda brigariam pelo título por muitas rodadas, perdendo e reassumindo a liderança. Aos poucos, o ritmo de várias vitórias pequenas e algumas derrotas duras foi deixando o Norwich um pouco para trás, até porque Aston Villa a Manchester United entraram em uma grande seqüência de bons resultados.

Mesmo assim, os canários ingleses conseguiram 72 pontos (o campeão, Manchester United, ficou com 84), com 21 vitórias, 9 empates e 12 derrotas, o suficiente para assegurar um extraordinário 3º lugar e garantir sua primeira participação na Copa da Uefa. Ah, claro, terminou com saldo de gols negativos. Fez 61 gols e sofreu 65.

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A bizarra campanha do Norwich City foi ofuscada por dois fatos. A temporada 1992-93 foi a que marcou a instituição da Premier League. Mais que isso, o título do Manchester United marcou o fim de 26 anos de estiagem de títulos do clube mais popular da Inglaterra. Era o início de mais de uma década de domínio dos red devils no futebol britânico.

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Tão impressionante quanto a Ponte Preta de 2004 ou o Norwich de 1993 foi o Coritiba de 1985, que foi campeão brasileiro com saldo de gols -2. Mas esse fenômeno foi ajudado pelo fato de o Brasileirão daquele ano ser composto por várias fases, pequenos grupos classificatórios e outros mecanismos que não premiam a regularidade.

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Em 1993-94, a campanha do Nowich City na Copa da Uefa foi surpreendentemente boa. Na primeira fase, os canários apssaram com facilidade pelo Vitesse, da Holanda. Na segunda, venceram o Bayern de Munique por 2x1 na Baviera (primeira vitória de um clube inglês sobre o Bayern na Alemanha) e empatou em casa, passando às oitavas-de-final. Só então o time inglês caiu, perdendo por 1x0 nos dois confrontos contra a Internazionale (os dois gols foram de Bergkamp). Os milaneses se tornariam campeões, após bater o Casino Salzburg na final.

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Em 1994-95, o Norwich continuou brigando por lugares para a Copa da uefa. O clube terminou o primeiro turno da Premiership em 7º. No entanto, uma seqüência de péssimos resultados na fase decisiva fez com que o clube fosse surpreendentemente rebaixado. Só voltou nessa temporada.

Ubiratan Leal

Imagens: Premier Gazzetta e Norwich City site não-oficial


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agosto 10, 2004

Período moderno

LOS ANGELES 1984
Para os Jogos de 1984, a Fifa e o COI decidiram mudar a regra que permitia apenas a participação de atletas oficialmente amadores no futebol. Era uma forma de valorizar e dar um tom mais realista ao torneio, dominado por países da Europa Oriental desde 1952. Foi até um momento oportuno, pois o boicote liderado pela União Soviética tirou praticamente todos os países comunistas da disputa. A partir das Olimpíadas de Los Angeles, poderiam disputar os Jogos atletas profissionais que nunca tivessem participado de Copas do Mundo.

Era a brecha que o Brasil precisava para sonhar pela primeira vez com o ouro olímpico. O fato de muitos clubes não haverem cedido seus jogadores não tirou as possibilidades daquela seleção, composta basicamente por atletas do Internacional e dirigido por Jair Picerni, técnico do Corinthians na época.

A primeira fase deu motivos para otimismo, com 100% de aproveitamento que tinha a Alemanha Ocidental (com os futuros campeões mundiais Brehme e Buchwald), Marrocos (time que viria a se tornar a revelação da Copa de 86) e Arábia Saudita. Os alemães-ocidentais ficaram com o segundo lugar no grupo.

Nas outras chaves também não houve grandes surpresas. França e Chile superaram Noruega e Catar, Iugoslávia (único país do Leste Europeu a disputar o futebol olímpico em 84) e Canadá passaram por Camarões (de Roger Milla) e Iraque e Itália e Egito deixaram pelo caminho Estados Unidos e Costa Rica.

Nas quartas-de-final o Brasil teve problemas. Após um empate em 1x1 com o Canadá (o gol brasileiro foi de Gilmar Popoca), a vaga nas semifinais foi decidida nos pênaltis. O Brasil venceu por 5x3 e continuou sua busca pelo ouro. O favoritismo também prevaleceu nas outras partidas, com vitórias de Itália, França e Iugoslávia sobre Chile, Egito e Alemanha Ocidental.

O Brasil decidiu com a Itália uma vaga na final e a garantia da conquista de uma medalha olímpica. A azzurra também estava com um time forte, com Tancredi, Vierchowod, Ferri, Filippo Galli, Franco Baresi, Bagni, Serena, Fanna e Massaro. O jogo terminou em 1x1, mas, na prorrogação, um gol do lateral-direito Ronaldo deu a vitória ao Brasil. Na outra semifinal, a França fez 2x0 no primeiro tempo, mas permitiu o empate iugoslavo. No prolongamento, os franceses fizeram mais dois gols e também chegaram à sua primeira final olímpica na modalidade.

Franca 1984.jpg

Para azar do Brasil, 1984 parecia ser o ano da França. A seleção principal conquistara, em casa, a Eurocopa dois meses antes. Em Los Angeles, foi a vez da equipe olímpica garantir um título ao futebol gaulês. A vitória por 2x0 sobre o Brasil veio com dois gols no segundo tempo. Ainda assim, a prata foi o melhor resultado dos brasileiros na história do futebol olímpico.

FICHA TÉCNICA
França 2x0 Brasil
Local: estádio Rose Bowl (Los Angeles-EUA)
Público: 101.970
Árbitro: Jan Keizer (Holanda)
França: Rust; Jeannol, Bibard, Zanon e Ayache; Lacombe, Bijotat e Rohr; Lemoult, Brisson (Garande) e Xuereb (Cubaynes)
Brasil: Gilmar; Ronaldo, Pinga, Mauro Galvão e André Luís; Dunga, Ademir e Tonho (Milton Cruz); Silvinho, Gilmar Popoca e Kita (Chicão)
Gols: Brisson (10/2º) e Xuereb (17/2º)

Classificação final: 1º França 2º Brasil, 3º Iugoslávia, 4º Itália, 5º Alemanha Ocidental, 6º Canadá, 7º Chile, 8º Egito, 9º Estados Unidos, 10º Noruega, 11º Camarões, 12º Marrocos, 13º Costa Rica, 14º Iraque, 15º Catar, 16º Arábia Saudita

SEUL 1988
Após duas edições com mega-boicotes, os Jogos de Seul voltariam a ter Estados Unidos, União Soviética e alguns de seus mais importantes coadjuvantes. Só Cuba ficou de fora, mas isso tem pouca relevância no futebol. E aquele foi o mais interessante torneio de futebol da história olímpica.

As quatro seleções mais vitoriosas do esporte – Brasil, Alemanha Ocidental, Itália e Argentina – estavam na Coréia do Sul com equipes competitivas. Outra força era a União Soviética, que não contava mais com a vantagem do amadorismo de fachada, mas ainda era uma seleção de respeito.

O Brasil estava mais forte que em Los Angeles, levando alguns dos nomes que conquistaram o bicampeonato mundial Junior em 1985 e outros jogadores de destaque no futebol doméstico. Para se ter uma idéia, na seleção de Carlos Alberto Silva estavam atletas como Romário, Taffarel, André Cruz, Jorginho, Neto, Bebeto, Valdo, Ricardo Gomes e Mazinho.

Na primeira fase, o Brasil foi supremo, vencendo a forte Iugoslávia (de Stojkovic, Suker e Katanec, com base no time campeão mundial Junior em 1987), a Austrália e a ainda inofensiva Nigéria. Em um resultado surpreendente, os australianos venceram os iugoslavos e ficaram com o segundo lugar no grupo.

Mas nenhuma surpresa foi tão grande quanto a vista no grupo B. Tudo começou como esperado, com goleada da Itália sobre a Guatemala (5x2) e empate entre Zâmbia e Iraque (2x2). No entanto, na segunda rodada, os africanos venceram os italianos por humilhantes 4x0, dois gols do jovem Kalusha Bwalya. Na rodada final, os zambianos fizeram outro 4x0 (agora na Guatemala) e garantiram o primeiro lugar no grupo. A Itália teve de vencer o Iraque para poder passar de fase.

Nos outros grupos, resultados relativamente normais. Suécia e Alemanha Ocidental ficaram à frente de Tunísia e China e União Soviética e Argentina passaram por Coréia do Sul e Estados Unidos. Curiosamente, a classificação soviética foi assegurada com uma vitória por 4x2 sobre os norte-americanos.

Após os resultados da primeira fase, Zâmbia começou a ser vista com grande respeito. Por isso, a forma como os africanos caíram diante da Alemanha Ocidental foi surpreendente, uma goleada por 4x0. Também fácil foi a vitória da União Soviética sobre a Austrália (3x0). A Itália de Tacconi, Virdis, De Agostini, Rizzitelli e Carnevale, agora vista com desconfiança, venceu a boa Suécia de Limpar, Dahlin e Thern por 2x1 na prorrogação.

Para o Brasil, a vaga nas semifinais viria após uma dramática vitória em um clássico contra a Argentina. Claramente superiores, os brasileiros não conseguiam passar pela defesa platina. Até que, aos 31 do segundo tempo, Geovani pegou a bola em um rebote e ameaçou lançar. O goleiro Islãs tentou adivinhar o lance e se deslocou para a esquerda. Vendo o gol aberto, Geovani mudou a jogada e chutou direto ao gol, pegando o goleiro argentino no contra-pé.

Na primeira semifinal, a União Soviética empatou em 1x1 com a Itália. Na prorrogação, fizeram dois gols e garantiram a vaga. Os italianos até diminuíram no último minuto, mas não adiantou.

Houve emoção nessa partida, mas o melhor jogo do torneio foi protagonizado por brasileiros e alemães-ocidentais. Comandados por Hässler e Klinsmann, os germânicos saíram na frente aos 6 minutos do segundo tempo. Após muita pressão, Romário empatou para o Brasil. Na prorrogação, a Alemanha Ocidental teve um pênalti a seu favor, mas Taffarel defendeu a cobrança de Klinsmann. A decisão foi para os pênaltis e, mais uma vez, o goleiro brasileiro desequilibrou, defendendo mais uma cobrança.

O Brasil chegou como favorito à final e o gol de Romário – que assegurou a artilharia do torneio ao atacante vascaíno – só confirmava essa tendência. No entanto, os soviéticos equilibraram a partida no segundo tempo e conseguiram um empate de pênalti. Na prorrogação, o Brasil tomou a iniciativa e, em uma falha de André Cruz, Savichev aproveitou um contra-ataque e deu o ouro aos soviéticos.

Seul 88.jpg

FICHA TÉCNICA
União Soviética 2x1 Brasil
Local: estádio Olímpico (Seul-CSU)
Público: 73 mil
Árbitro: Gerard Biguet (França)
União Soviética: Kharine; Ketashvili, Yarovenko, Gorlukovich e Losev; Kuznetsov, Dobrovolski, Mikhailichenko e Tatarchuk; Liuty (Skliyarov) e Narbekovas (Savichev)
Brasil: Taffarel; Luís Carlos Winck, André Cruz, Aloísio e Jorginho; Andrade, Milton e Neto (Edmar); Careca, Bebeto (João Paulo) e Romário
Gols: Romário (30/1º), Dobrovolski (17/2º, de pênalti) e Savichev (14/1º da prorrogação)
Cartões vermelhos: Tatarchuk (5/2º da prorrogação) e Edmar (13/2º da prorrogação)

Classificação final: 1º União Soviética, 2º Brasil, 3º Alemanha Ocidental, 4º Itália, 5º Zâmbia, 6º Suécia, 7º Austrália, 8º Argentina, 9º Iraque, 10º Iugoslávia, 11º Coréia do Sul, 12º Estados Unidos, 13º Tunísia, 14º China, 15º Nigéria, 16º Guatemala

BARCELONA 1992
Após duas tentativas frustradas de conseguir o ouro, o Brasil começou a tratar o futebol olímpico com uma importância maior que o normal. Por isso, preparou uma equipe forte para o Pré-Olímpico, que já refletia as novas orientações da Fifa. Agora, seriam permitidos apenas jogadores com menos de 24 anos nos Jogos Olímpicos, com exceção de 3 atletas.

No torneio classificatório, disputado no Paraguai, a seleção começou bem e até bateu a equipe da casa – que contava com Arce e Gamarra – na primeira fase. No entanto, as falhas da defesa foram fatais diante da Colômbia de Asprilla e a decisão da vaga ficou para a última rodada. Bastava uma vitória simples diante da fraca Venezuela, mas o Brasil conseguiu ficar em um empate em 1x1. Na outra chave do pré-Olímpico, a Argentina também se complicou e ficou atrás de Uruguai e Chile. Assim, paraguaios, chilenos, uruguaios e colombianos disputaram as duas vagas para as Olimpíadas de Barcelona. Melhor para os guaranis e os cafeteros.

Sem Brasil e Argentina, o favoritismo ficou para Espanha e Itália. Os donos da casa confirmaram as expectativas e ficaram em primeiro lugar em seu grupo, à frente de Catar, Egito e da decepcionante Colômbia (última da chave). A Itália passou, mas não conseguiu desenvolver seu jogo. Venceu os Estados Unidos com dificuldade (2x1), foi goleada pela Polônia (0x3) e bateu o frágil Kuait por 1x0. No grupo mais equilibrado do torneio, Gana e Austrália desclassificaram México e Dinamarca. Na chave restante, Suécia e Paraguai passaram por Coréia do Sul e Marrocos.

O primeiro jogo das quartas-de-final colocou as duas equipes favoritas antes das Olimpíadas começarem. Em um jogo equilibrado e pouco empolgante, a Espanha mereceu vencer a Itália por 1x0. Também passaram as duas equipes que despontavam como surpresas e possíveis campeãs: Gana (4x2 sobre o Paraguai na prorrogação) e Polônia (2x0 no Catar). A zebra da fase foi a Austrália, que venceu por 2x1 a Suécia.

Espanha x Polonia 92.jpg

A Polônia confirmou que tinha chances sólidas de ficar com o ouro ao massacrar a Austrália por 6x1 na primeira semifinal. Enquanto isso, a Espanha vencia Gana por 2x0. Na final em um Camp Nou lotado, os poloneses saíram na frente. Os espanhóis viraram, mas tomaram o empate em seguida. Nos descontos, após uma cofusão na área eslava, Kiko Narváez fez o gol do título espanhol.

FICHA TÉCNICA
Espanha 3x2 Polônia
Local: estádio Camp Nou
Público: 95 mil
Árbitro: José Torres Cadena (Colômbia)
Espanha: Toni; López, Solozábal, Abelardo e Lasa (Amavisca); Ferrer, Guardiola, Luis Enrique e Berges; Alfonso Pérez e Kiko
Polônia: Klak; Lapinski, Waldoch, Kozminski e Jalocha (Swierczewski); Staniek, Brzeczek, Kobylanski e Gesior; Kowalczyk e Juskowiak
Gols: Kowalczyk (44/1º), Abelardo (20/2º), Kiko (27/2º), Staniel (31/2º) e Kiko (46/2º)

Classificação final: 1º Espanha, 2º Polônia, 3º Gana, 4º Austrália, 5º Itália, 6º Catar, 7º Suécia, 8º Paraguai, 9º Estados Unidos, 10º México, 11º Coréia do Sul, 12º Egito, 13º Dinamarca, 14º Colômbia, 15º Marrocos, 16º Kuait

ATLANTA 1996
Após a frustração dos Jogos de Barcelona, o Brasil montou a melhor equipe de futebol para a disputa de umas Olimpíadas. Com uma geração prolífica em talentos, Zagallo pôde juntar jovens como Ronaldo, Roberto Carlos, Dida, Juninho Paulista, Flávio Conceição, Zé Elias e Sávio a “veteranos” foram Bebeto, Aldair e Rivaldo.

O favoritismo brasileiro era evidente. Durante a preparação, um vice-campeonato da Copa Ouro (perdendo do México na final), o título do Pré-Olímpico – disputado na Argentina – e uma vitória sobre uma seleção mundial em um amistoso realizado nos Estados Unidos uma semana antes dos Jogos de Atlanta. Apenas a Argentina parecia ter forças para encarar a seleção brasileira. Os platinos estavam com alguns jogadores que formam parte da base atual, com Cavallero, Crespo, Ortega, Zanetti, Almeyda, Chamot, Simeone, Ayala e Gallardo.

Brasil x Hungria 96.jpg

Mas toda expectativa sobre a seleção brasileira ruiu na estréia. Com uma falta de desenvoltura absurda, o time não conseguiu levar perigo ao gol do Japão e, em um contra-ataque, Aldair e Dida trombaram e deixaram a bola livre para Ito dar a vitória aos orientais. Na segunda partida, nova trombada entre Aldair e Dida e o Brasil saiu perdendo da Hungria, de volta ao futebol olímpico depois da prata de 1972. Mas Ronaldo, Juninho Paulista e Bebeto garantiram a virada. A classificação veio com uma vitória magra e sofrida diante da Nigéria, 1x0, gol de Ronaldo. Com isso, Nigéria, Brasil e Japão empataram na liderança, com 6 pontos cada seleção. Sul-americanos e africanos passaram pelo saldo de gols.

A Argentina também passou com certo aperto. Após vencer os Estados Unidos e empatar com Portugal, a seleção platina garantiu a classificação com novo empate, contra a Tunísia. Ao lado dos platinos ficaram os portugueses. Estados Unidos ficaram logo atrás, mas estavam fora.

Dos grandes, o único que não superou as zebras foi a Itália. Mesmo com talentos como Pagliuca, Cannavaro, Nesta, Delvacchio e Tommasi, a azzurra ficou em último lugar no Grupo C, com uma vitória sobre a Coréia do Sul e derrotas para México e Gana. Os aztecas surpreenderam e ficaram em primeiro, seguido dos africanos. Só não houve resultados inesperados no Grupo B, em que França e Espanha foram muito superiores a Austrália e Arábia Saudita.

Nas quartas-de-final, o Brasil jogou sua única partida realmente convincente, ao bater Gana de virada (4x2). A Nigéria passou pelo México por 2x0, Portugal precisou da prorrogação para eliminar a França de Pires, Makelele e Wiltord (2x1) e a Argentina arrasou a Espanha de Raúl (4x0), tomando o favoritismo do instável Brasil.

Nas semifinais, o Brasil voltou a enfrentar a Nigéria. Havia um otimismo em torno da seleção verde-amerela após a vitória sobre a própria Nigéria e a boa seleção ganesa. E isso ficou mais acentuado após o gol de Flávio Conceição no primeiro minuto de jogo. A Nigéria empatou em um gol contra de Roberto Carlos, mas, ainda no primeiro tempo, o Brasil fez 3x1 com Flávio Conceição e Bebeto.

A vaga na final chegava com certa tranqüilidade até que, aos 33 do segundo tempo, Ikpeba diminui a diferença. Os nigerianos começaram a pressionar em busca do empate e, já nos descontos, conseguiram levar a partida para a prorrogação com um gol de Kanu após confusão na área e falha de Dida. Na morte súbita, Kanu marcou novamente e o Brasil estava fora da final.

A outra vaga ficou com a Argentina, que bateu Portugal por 2x0. Com isso, brasileiros e lusitanos disputaram a medalha de bronze. Em um jogo em que os portugueses pareceram extremamente desconcentrados, o Brasil fez 5x0 sem muita dificuldade. Decepcionada com o terceiro lugar, a seleção nem esperou a final, no dia seguinte, para compor o pódio e receber as medalhas. Recebeu após aquela partida e voltou ao Brasil.

Argentina x Nigeria 96.jpg

Na decisão, os argentinos estiveram duas vezes em vantagem (1x0 e 2x1), mas cederam o empate para os nigerianos nas duas vezes. Vale dizer que o primeiro gol dos africanos foi duramente contestado pelos platinos por suposto impedimento de Babayaro. Quando o jogo aprecia destinado à prorrogação, Amunike virou para os nigerianos, que conquistaram o ouro.

FICHA TÉCNICA
Nigéria 3x2 Argentina
Local: estádio Sanford (Athens-EUA)
Público: 86.100
Árbitro: Pierluigi Collina (Itália)
Nigéria: Dosu; Obaraku (Oruma), West, Okechukwu e Babayaro; Oliseh, Ikpeba (Amunike), Okocha (Lawal) e Amokachi; Babangida e Kanu
Argentina: Cavallero; Zanetti, Ayala, Sensini e Chamot; Bassedas, Almeyda, Ortega e Morales (Simeone); Claudio López e Crespo
Gols: Cláudio López (3/1º), Babayaro (28/1º), Crespo (5/2º), Amokachi (29/2º) e Amunike (47/2º)

Classificação final: 1º Nigéria, 2º Argentina, 3º Brasil, 4º Portugal, 5º Fraca, 6º Espanha, 7º México, 8º Gana, 9º Japão, 10º Estados Unidos, 11º Coréia do Sul, 12º Itália, 13º Austrália, 14º Tunísia, 15º Arábia Saudita, 16º Hungria

SYDNEY 2000
O Brasil passou sem grandes dificuldades pelo Pré-Olímpico, organizado em Londrina. Isso criou um grande clima de otimismo para a conquista do inédito ouro nos Jogos. E foi quando começaram os problemas.

A idéia inicial era chamar três jogadores acima de 23 anos, como Romário, que dava declarações se “oferecendo” para o técnico Vanderlei Luxemburgo na convocação olímpica. No entanto, o grupo do Pré-Olímpico começou a rejeitar a idéia, considerando que seria suficiente manter os jovens para a disputa dos Jogos de Sydney. Luxemburgo decidiu aceitar a sugestão dos garotos para evitar problemas no ambiente.

Mas o próprio treinador tinha problemas. Investigado pela CPI do Futebol, era acusado de ser “gato” (teria mentido a idade quando jovem para jogar em um time de futebol) e de ter negócio ilícitos. Desmoralizado, internamente, teve pouco comando do grupo, que não era bom como o de Atlanta, mas tinha jogadores de nível internacional como Ronaldinho Gaúcho, Alex e Lúcio.

Brasil x Japao 2000.jpg

Na primeira fase, o Brasil estreou bem, com uma vitória sobre a Eslováquia de virada (3x1). Em seguida, a seleção perdeu por 3x1 da África do Sul após uma atuação ridícula. A vaga na segunda fase teve de ser decidida contra o Japão, líder e uma das surpresas do torneio. Com um gol de Alex aos 5 minutos do primeiro tempo, o time de Luxemburgo ficou em primeiro lugar, já que a Eslováquia venceu a África do Sul.

Houve resultados inesperados em todos os grupos. No A, as favoritas Itália e Nigéria se classificaram, mas tiveram muitas dificuldades para passaram da perigosa seleção de Honduras. A Austrália decepcionou e, em casa, não fez um ponto sequer. No Grupo B, o Chile mostrou o melhor futebol da primeira fase. Liderada pelo atacante Zamorano, la roja venceu Marrocos e Espanha com facilidade. Em um jogo que praticamente não valia nada, perdeu para a Coréia do Sul. Os espanhóis ficaram com a segunda vaga da chave. No Grupo C, a República Tcheca ficou em último, atrás de Kuait, Camarões e Estados Unidos. Os norte-americanos estavam com uma seleção forte e garantiram o primeiro lugar. Os camaroneses também passaram, azar do Brasil.

Na segunda fase, os africanos se encontraram com a seleção brasileira. Em outra atuação muito fraca, o Brasil não conseguiu conter os avanços de Camarões e saiu perdendo. Com um jogador a mais, os verde-amarelos tentaram pressionar em busca do empate, mas não conseguiam armar uma jogada com perigo real. Até que, nos descontos, o time africano cometeu uma falta na entrada da área. Ronaldinho Gaúcho empatou na cobrança e levou o jogo para a prorrogação. Melhor, na falta cometida, Camarões teve mais um expulso. Mas, mesmo com dois homens a mais no gramado, o Brasil não conseguiu entrar na defesa camaronesa e, pior, tomou um gol no contra-ataque. Novamente o ouro tinha de esperar.

No confronto de surpresas, Estados Unidos e Japão empataram em 2x2. A classificação norte-americana veio nos pênaltis. A Itália, que não entusiasmou em momento algum no torneio, também ficou de fora, perdendo para a Espanha por 1x0 com um gol de Gabri aos 41 do segundo tempo. Por fim, o Chile seguia em sua caminhada impressionante ao fazer 4x1 na favorita Nigéria.

Chile x Camaroes 2000.jpg

Na primeira semifinal, os espanhóis souberam usar sua superioridade e controlaram os Estados Unidos: 3x1. Na outra partida da fase, o Chile dominou Camarões e saiu na frente aos 33 do segundo tempo com um gol contra de Abanda. Poderiam ter feito mais, mas os árbitros marcaram vários impedimentos inexistentes contra os sul-americanos. No desespero, os camaroneses partiram para o ataque e empataram aos 39, com Mboma (um dos “veteranos” e líder do time). Aos 44, os camaroneses conseguiram um pênalti e viraram de forma inesperada e injusta. Ao Chile restou o consolo da medalha de bronze com uma vitória por 2x0 sobre os Estados Unidos.

Camarões chegou à final como favorita, mas as falhas da defesa no primeiro tempo permitiram que a Espanha fizesse 2x0. Na segunda parte, os africanos conseguiram empatar em 15 minutos. Estranhamente, não conseguiram a vitória, a gol provável, já que os ibéricos ficaram com dois jogadores a menos. Na decisão por pênaltis (a primeira de uma final olímpica), Camarões conseguiu o segundo ouro consecutivo para o futebol africano.

FICHA TÉCNICA
Camarões 2x2 Espanha (5x3 nos pênaltis)
Local: estádio Australia (Sydney-AUS)
Público: não divulgado
Árbitro: Felipe Ramos Rizo (México)
Camarões: Kameni; Wome, Abanda, Nguimbat (Kome) e Branco (Epalle); Lauren, Geremi, Alnoudji (Meyong Ze) e Mimpo; Mboma e Eto'o
Espanha: Aranzubia; Puyol, Lacruz, Marchena e Amaya; Albelda, Xavi, Velamazan (Gabri) e Angulo (Capdevila); José Mari e Tamudo (Ferron)
Gols: Xavi (2/1º), Gabri (45/1º), Amaya – contra (8/2º) e Eto’o (13/2º)
Cartões vermelhos: Gabri (25/2º) e José Mari (45/2º)

Classificação final: 1º Camarões, 2º Espanha, 3º Chile, 4º Estados Unidos, 5º Itália, 6º Japão, 7º Brasil, 8º Nigéria, 9º Coréia do Sul, 10º Honduras, 11º África do Sul 12º Kuait, 13º Eslováquia, 14º República Tcheca, 15º Austrália, 16º Marrocos

Ubiratan Leal

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agosto 10, 2004

Período comunista

HELSINQUE 1952
O processo de migração do centro de gravidade do futebol olímpico para o leste começou em 1948, mas, a partir de 1952, atingiu níveis insuportáveis. Sorte dos finlandeses que os Jogos Olímpicos que organizaram ainda mantiveram uma certa aura de honestidade desportiva, pois o melhor do mundo venceu.

Realmente, a seleção húngara de 1952 pode ser considerada a melhor a atuar na história das Olimpíadas. Os magiares chegaram a Helsinque com uma invencibilidade de três anos, um projeto claro e realista de conquista do ouro olímpico e da Copa de 1954. Coincidentemente, os Jogos de 1952 também viram a estréia da seleção brasileira.

Formado por jovens, o time não teve forças para buscar o ouro. A formação-base era Carlos Alberto; Valdir, Mauro, Zózimo e Adésio; Édson e Milton; Larry, Vavá, Humberto Tozzi e Jansen. Desses, os que mais se destacariam no futuro seriam Mauro (capitão do título de 62), Vavá (campeão mundial em 58 e 62), Zózimo (reserva em 1958), Larry e Humberto Tozzi.

O Brasil estreou na fase preliminar goleando a Holanda por 5x1, gols de Larry (2), Humberto Tozzi, Jansen e Vavá. Nas outras partidas, a Hungria passou pela Romênia (2x1), a Itália massacrou os Estados Unidos (8x0), o Egito passou com muitas dificuldades pelo Chile (5x4), Luxemburgo armou uma enorme zebra contra a Grã-Bretanha (5x3), a Dinamarca eliminou a Grécia (2x1) e o leste Europeu começava a mostrar sua força, com vitórias de Polônia (2x1 na França), União Soviética (2x1 na Bulgária) e Iugoslávia (10x1 na Índia).

Nas oitavas-de-final, os brasileiros passaram um certo sufoco com a surpresa luxemburguesa, mas venceram por 2x1 (gols de Larry e Humberto Tozzi). Também passaram Hungria (3x0 sobre a Itália), Turquia (2x1 nas Índias Holandesas Ocidentais, atuais Antilhas Holandesas), Suécia (4x1 no clássico com a Noruega), Áustria (4x3 na Finlândia), Alemanha Ocidental (3x1 no Egito), Dinamarca (2x0 na Polônia) e Iugoslávia (5x5 e 3x1 no jogo-extra contra a União Soviética).

Os algozes da seleção brasileira foram os alemães-ocidentais, que venceram por 4x2 (gols brasileiros de Zózimo e Larry) nas quartas-de-final. A Hungria continuava sua caminhada inabalável com um sonoro 7x1 sobre a Turquia, a Suécia buscava o segundo ouro consecutivo e a Iugoslávia tentava um novo pódio.

Nas semifinais, a Hungria deixou claro aos suecos que aquele torneio tinha um time muito superior aos demais. Fez 6x0 e esperou a definição do adversário no dia seguinte. A Iugoslávia bateu a Alemanha Ocidental por 3x1 e garantiu um lugar na final olímpica pela segunda vez em seqüência. A final foi relativamente mais equilibrada. O que não significa que tenha sido difícil para os húngaros: 2x0, gols de Puskas e Czibor.

Podio 1952.jpg

FICHA TÉCNICA
Hungria 2x0 Iugoslávia
Local: estádio Olímpico (Helsinque-FIN)
Público: 60 mil
Árbitro: Arthur Ellis (Grã-Bretanha)
Hungria: Grosics; Buzansky, Lorant e Lantos; Boszik e Zakarias; Hidegkuti, Kocsis, Palotas, Puskas e Czibor
Iugoslávia: Beara; Stankovic e Crnkovic; Cajkovski, Horvat e Boskov; Ognjanov, Mitic, Vukas, Bobek e Zebec
Gols: Puskas (25/1°) e Czibor (43/2º)

Classificação final: 1º Hungria, 2º Iugoslávia, 3º Suécia, 4º Alemanha Ocidental, 5º Brasil, 6º Dinamarca, 7º Áustria, 8º Turquia, 9º União Soviética, 10º Itália, 11º Luxemburgo, 12º Egito, 13º Polônia, 14º Finlândia, 15º Índias Holandesas Ocidentais, 16º Noruega, 17º Chile, 18º Grã-Bretanha, 19º Romênia, Grécia, Bulgária e França, 23º Holanda, 24º Estados Unidos, 25º Índia

MELBOURNE 1956
Os primeiros Jogos Olímpicos no hemisfério sul trouxeram um desafio financeiro muito grande às delegações. Afinal, na década de 1956 era uma operação complicada levar vários atletas até a Austrália. Por isso, a competição de futebol – como, em geral, de quase todos os esportes – ficou esvaziada. Por exemplo, não houve representantes da América do Sul.

Além da distância, um fato político influiu muito na disputa do futebol em Melbourne. Menos de um mês antes do início das competições, tropas da União Soviética invadiram Budapeste para reprimir uma manifestação popular que pedia uma maior autonomia da Hungria em relação ao governo de Moscou. Justamente nessa época, os jogadores da seleção húngara, ainda a melhor do mundo, estavam fora de seu país em compromissos de seus clubes (basicamente o Honvéd e o MTK). Não voltaram mais. Pediram asilo político e alguns até mudaram sua nacionalidade. Era o fim dos Magiares Mágicos. Claro, a Hungria acabou não enviando representante algum ao futebol.

Mesmo assim, o favoritismo dos países do Leste Europeu ficou ainda mais enfatizado. Porém, na fase preliminar, a União Soviética sofreu para ganhar da Alemanha Ocidental (com uma equipe de garotos) por 2x1. A Grã-Bretanha humilhou a inexpressiva Tailândia (9x0) e a Austrália passou pelo Japão (2x0).

Nas quartas-de-final, o sorteio permitiu uma grande surpresa. Ao colocar indianos e australianos na mesma chave, permitiu que um país sem a menor tradição no esporte chegasse às semifinais. Melhor para a Índia, que ganhou por 4x2. A União Soviética voltava a mostrar um futebol fraco tecnicamente, mesmo com a base da seleção que teve um bom papel na Copa de 1958, com Yashin, Kuznetsov, Netto e Ivanov. Empatou sem gols com a Indonésia e teve de usar a partida-extra para conseguir um lugar nas semifinais. Sem dificuldades foram as classificações de Iugoslávia (9x1 nos Estados Unidos) e Bulgária (6x1 na Grã-Bretanha).

O futebol a União Soviética só apareceu um pouco nas semifinais, com uma vitória sobre a Bulgária por 2x1. Enquanto isso, a Iugoslávia passava sem problemas pela Índia (4x1) e garantia sua terceira final olímpica consecutiva. E, também pela terceira vez, ficou com a prata. A União Soviética conseguiu seu gol no início do segundo tempo e segurou ao taque balcânico até o fim da partida.

FICHA TÉCNICA
União Soviética 1x0 Iugoslávia
Local: estádio Melbourne Olympic Park (Melbourne-AUS)
Público: 120 mil
Árbitro: R. Wright (Austrália)
União Soviética: Yashin; Baschaschkin, Ogognikov e Kuznetsov; Netto e Maslenkin; Tatushin, Isaev, Simonian, Salinikov e Ilyin
Iugoslávia: Radenkovic; Koscak e Radovic; Santek, Spajic e Krstic; Sekularac, Antic, Papek, Veselinovic e Mujic
Gol: Ilyin (3/2º)

Classificação final: 1º União Soviética, 2º Iugoslávia, 3º Bulgária, 4º Índia, 5º Grã-bretanha, 6º Austrália, 7º Indonésia, 8º Estados Unidos, 9º Alemanha Ocidental, 10º Japão, 11º Tailândia.

ROMA 1960
Em 1960, o futebol olímpico começou a ter cara de torneio mais organizado. Os 16 países classificados foram divididos em quatro grupos, com os primeiros colocados passando às semifinais. Além disso, voltou a ter um caráter mais global (após a quase simbólica competição de Melbourne).

O Brasil voltou a aparecer. O time-base (Carlos Alberto; Nono, Décio, Dari e Roberto Dias; Rubens e Gérson; Silva, Paulinho Ferreira, China e Waldyr) tinha algum talento – sobretudo em Gérson, Roberto Dias e Silva – e fez uma boa campanha. Só não passou de fase porque pegou uma esperançosa Itália pelo caminho.

Em busca do ouro diante de seus torcedores, os italianos montaram uma equipe com jogadores promissores que tinham reais condições de romper com a hegemonia do leste Europeu. Os principais destaques desse time eram Rivera, Burgnich, Trapattoni e Bulgarelli.

Na primeira rodada, o Brasil passou pela Grã-Bretanha (4x3), enquanto os italianos goleavam Taiwan (4x1). Em seguida, o Brasil se isolou na liderança ao fazer 5x0 nos asiáticos, já que a azzurra empatara com os britânicos. Podendo apenas igualar o marcador, os brasileiros não conseguiram segurar os italianos e perderam o jogo decisivo do grupo por 3x1.

Nas outras chaves, poucas surpresas. A Iugoslávia superou Bulgária (os búlgaros empataram com os iugoslavos, mas perderam no sorteio), República Árabe Unida (país formado por Egito e Síria entre 1958 e 1961, sendo que o Egito manteve o nome RAU até 1971) e Turquia, a Dinamarca foi melhor que Argentina, Polônia e Tunísia e a reformulada Hungria ficou à frente de França, Peru e Índia.

Em uma das semifinais, os empolgados italianos encontraram os iugoslavos, em busca de sua quarta final olímpica seguida. O jogo ficou em 1x1 após a prorrogação. Pelo regulamento do torneio, a definição seria pelo cara-ou-coroa. A Itália perdeu e ficou fora da final do torneio que organizava. A outra vaga ficou com a Dinamarca, que venceu a Hngria por 2x0.

Dessa vez, a Iugoslávia não deixou o ouro escapar na decisão. Com um gol em menos de um minuto de jogo, os eslavos se colocaram na frente. Aos 10, já venciam por 2x0. Depois, bastou controlar a vantagem para garantir o título.

FICHA TÉCNICA
Iugoslávia 3x1 Dinamarca
Local: estádio Flamínio (Roma-ITA)
Público: 40 mil
Árbitro: Concetto Lo Bello (Itália)
Yugoslavia: Vidinic; Roganovic e Jusufi; Perusic, Durkovic e Zanetic; Ankovic, Matous, Galic, Knez e Kostic
Dinamarca: From; Andersen e Jensen; Hansen; Hans Nielsen e Flemming Nielsen; Pedersen, Troelsen, Harald Nielsen, Enoksen e Sørensen
Gols: Galic (1/1º), Matous (10/1º), Flemming Nielsen (5/2º) e Kostic (27/2º)

Classificação final: 1º Iugoslávia, 2º Dinamarca, 3º Hungria, 4º Itália, 5º Bulgária, 6º Brasil, 7º Argentina, 8º Grã-Bretanha, 9º França, 10º Polônia, 11º Peru, 12º Índia, 13º República Árabe Unida, 14º Turquia, 15º Tunísia, 16º Taiwan

TÓQUIO 1964
Historicamente, o fato mais marcante do futebol dos Jogos Olímpicos de Tóquio ocorreu bem distante do arquipélago que forma o Japão. Em um jogo do Pré-Olímpico Sul-Americano, a Argentina vencia o Peru por 1x0 em Lima quando o árbitro anulou um gol peruano. A torcida, inconformada, invadiu o gramado e iniciou uma grande confusão, que se tornou tumulto generalizado após ação desastrada da polícia. No final, 328 pessoas morreram no que foi, segundo dados oficiais, o jogo com maior número de mortos na história do futebol (o “segundo dados oficiais” é necessário porque fontes independentes afirmam que 340 torcedores morreram em um jogo da Copa da Uefa de 1982).

O regulamento do torneio de futebol das Olimpíadas de 1964 foi levemente diferente. Agora, os dois primeiros de cada grupo passavam de fase e compunham as quartas-de-final.

No grupo A, Alemanha Oriental e Romênia não tiveram problemas diante de México e Irã. No B, Hungria e Iugoslávia passaram por Marrocos (o quarto integrante da chave, a Coréia do Norte, foi desclassificada pelo COI). O Brasil de Roberto Miranda ficou no Grupo C e caiu no saldo de gols para a República Árabe Unida (Egito). O primeiro colocado foi a Tchecoslováquia – vice-campeã mundial da época – e o último, a Coréia do Sul. A chave D foi a mais surpreendente. A Itália desistiu de participar e a Argentina parecia sozinha. Mas os platinos fracassaram diante de Gana e Japão.

Nas quartas-de-final, a República Árabe Unida continuou surpreendendo e goleou Gana por 5x1. A Tchecoslováquia também passou com facilidade: 4x0 no Japão. As últimas duas vagas foram definidas em confrotnos exclusivos do leste Europeu. A Alemanha Oriental acabou com a seqüência de finais olímpicas da Iugoslávia ao vencer por 1x0. E a Hungria voltava a mostrar força ao vencer a Romênia por 2x0.

Não houve resultados inesperados nas semifinais. A Tchecoslováquia eliminou a Alemanha Oriental (2x1) e a Hungria arrasou a República Árabe Unida (6x0). Na final, os húngaros conquistaram seu segundo ouro olímpico ao vencer por 2x1. O pódio foi intero da Europa comunista, com a vitória da Alemanha Oriental sobre a República Árabe Unida por 3x1.

FICHA TÉCNICA
Hungria 2x1 Tchecoslováquia
Local: estádio Nacional (Tóquio-JAP)
Público: 75 mil
Árbitro: Menahem Ashkenazi (Israel)
Hungria: Szentmihalyi; Novak, Ihasz, Szepesi e Orban; Nogradi, Csernai e Komora; Farkas, Bene e Katona
Tchecoslováquia: Schumucker; Urban, Picman, Vojta e Weiss; Geleta, Mraz e Lichtnegl; Brumovsky, Masny e Valosek
Gols: Weiss – contra (2/2º), Bene (14/2º) e Brumovsky (35/2º)

Classificação final: 1º Hungria, 2º Tchecoslováquia, 3º Alemanha Oriental, 4º República Árabe Unida, 5º Romênia, 6º Iugoslávia, 7º Gana, 8º Japão, 9º Brasil, 10º Argentina, 11º México, 12º Irã, 13º Marrocos, 14º Coréia do Sul

CIDADE DO MÉXICO 1968
Apesar de o domínio da parte comunista da Europa continuar evidente, o torneio de futebol das Olimpíadas mexicanas trouxe uma novidade geopolítica. Pela primeira vez desde a implantação oficial do esporte, em 1908, uma medalha não ficou na Europa ou na América do Sul.

Foi uma competição com uma quantidade de resultados inesperados acima da média. A começar pela forma pela qual o Brasil foi desclassificado na primeira fase. Na estréia, uma derrota normal diante da Espanha (0x1). Em seguida, um empate fora dos planos com o Japão (1x1). Com esse retrospecto, o Brasil chegou à última rodada precisando vencer a Nigéria por quatro gols de diferença (ou três gols a partir de 4x1, pois o 3x0 levaria brasileiros e japoneses ao sorteio). No primeiro tempo, os sul-americanos fizeram 3x0 e praticamente garantiram a vaga nas quartas-de-final. No entanto, o time permitiu a reação africana e acabou em um melancólico empate em 3x3.

Além da classificação japonesa às custas do Brasil, foi possível ver Bulgária e a improvável Guatemala deixarem a Tchecoslováquia, medalha de prata quatro anos antes, e a figurante Tailândia pelo caminho. Também passaram França, México, Hungria e Israel, eliminando Colômbia, Guiné, Gana e El Salvador.

Os resultados esquisitos continuaram nas quartas-de-final, em que o Japão bateu a França por 3x1. Os demais resultados foram mais normais, com vitória da Hungria sobre a Guatemala, da Bulgária sobre Israel (no cara-ou-coroa) e do México sobre a Espanha. O favoritismo só prevaleceu nas semifinais, com vitória tranqüila da Hungria sobre o Japão (5x0) e da Bulgária sobre o México (3x2).

Na disputa pela medalha de bronze, mais de 100 mil mexicanos lotaram o estádio Azteca para ver seu país subir ao pódio no futebol olímpico. Saíram frustrados. Com dois gols de Yamamoto (artilheiro da competição), os orientais venceram por 2x0 e conquistaram a primeira (e até hoje única) medalha asiática no futebol.

Na final, a Bulgária saiu na frente, mas permitiu que a Hungria virasse ainda no primeiro tempo. No lance do segundo gol, os búlgaros reclamaram intensamente de impedimento. O árbitro mexicano Diego de Leo expulsou três jogadores balcânicos. Com oito jogadores em campo, a Bulgária não teve como evitar mais dois gols húngaros. Era o terceiro título olímpico da Hungria, marca nunca igualada.

FICHA TÉCNICA
Hungria 4x1 Bulgária
Local: estádio Azteca (Cidade do México-MEX)
Público: 75 mil
Árbitro: Diego de Leo (México)
Hungria: Fater; Novák, Lajos Dunai, Páncsics e Menczel; Szücs, Fazekas e Antal Dunai; Nagy, Noskó e Juhász
Bulgária: Yordanov; Guerov, Christiakov, Gaidarski e Ivkov; Georgiev, Dimitrov, Yantchovski (Kirik Christov); Jekov, Atanasse Christov e Donev (Ivanov)
Gols: Dimitrov (22/1º), Menczel (40/1º), Antal Dunai (41/1º e 4/2º) e Juhász (17/2º)
Cartões vermelhos: Atanasse Christov, Ivkov e Dimitrov (42/1º) e Juhász (43/2º)

Classificação final: 1º Hungria, 2º Bulgária, 3º Japão, 4º México, 5º Espanha, 6º Israel, 7º Guatemala, 8º França, 9º Tchecoslováquia, 10º Brasil e Colômbia, 12º Gana, 13º Guiné, 14º Nigéria, 15º El Salvador, 16º Tailândia

MUNIQUE 1972
Para os Jogos de Munique, o Brasil levou uma equipe razoável, com jogadores que se viriam a se tornar conhecidos como Falcão, Dirceu, Carlos Alberto Pintinho, Nielsen e Rubens Galaxie. Ainda assim, conseguiu fazer uma campanha mais ridícula que a da Cidade do México. Na estréia, perdeu da Dinamarca por 3x2, algo até aceitável. Após o empate em 1x1 com a forte Hungria, a seleção continuou com chances. Teria de golear o Irã e torcer por vitória dinamarquesa sobre a Hungria. Deu tudo errado: os magiares venceram os escandinavos e o Brasil perdeu para o Irã.

Nos demais grupos. Poucas surpresas, até porque a decisão de reduzir a participação européia e democratizar mais o futebol olímpico deixou um desnível muito grande entre as seleções. Assim, Alemanha Ocidental e Marrocos tiveram de passar por Malásia e Estados Unidos, União Soviética e México desclassificaram Birmânia (atual Myanma) e Sudão e Polônia e Alemanha Oriental arrasaram Colômbia e Gana.

Dessa vez, a segunda fase seria diferente. As oito seleções seriam divididas em dois grupos. Os primeiros colocados fariam a final, enquanto que os segundos lutariam pelo bronze. No Grupo A, a Hungria não teve rivais e venceu suas três partidas. O lugar na disputa do terceiro lugar ficou para ser decidido na última rodada, com um histórico Alemanha Oriental x Alemanha Ocidental. Com sua equipe principal, os orientais venceram por 3x2 o jovem time ocidental, cujos maiores destaques eram Hitzfeld e Hönness. No Grupo B, a Polônia já mostrava sinais de evolução que culminariam com o terceiro lugar nas Copas de 74 e 82.

Na final, os poloneses venceram de virada (2x1) e evitaram o tricampeonato olímpico da Hungria. Na disputa do bronze, 80 mil alemães foram ao estádio Olímpico apoiarem os compatriotas do lado oriental contra a União Soviética. O jogo apitado por Armando Marques terminou em 2x2. Curiosa e ineditamente, não houve desempate. As duas seleções dividiram o bronze.

FICHA TÉCNICA
Polônia 2x1 Hungria
Local: estádio Olímpico (Munique-RFA)
Público: 30 mil
Árbitro: Kurt Tschenscher (Alemanha Ocidental)
Polônia: Kostka; Szoltysik, Gorgon, Kraska e Anczok; Cmikiewicz, Deyna (Szymczak) e Maszczyk; Gut, Lubanski e Gadocha
Hungria: Geczi; Vepi, Pancsics, Szucs e Juhasz; Balint, Ku (Kocsis) e Ede Dunai; Kozma, Antal Dunai (Toth) e Varadi
Gols: Varadi (42/1º) e Deyna (4 e 23/2º)

Classificação final: 1º Polônia, 2º Hungria, 3º União Soviética e Alemanha Oriental, 5º Dinamarca, 6º Alemanha Ocidental, 7º México, 8º Marrocos, 9º Birmânia, 10º Malásia e Colômbia, 12º Irã, 13º Brasil, 14º Estados Unidos, 15º Sudão, 16º Gana

MONTREAL 1976
A primeira vez que a África realmente impôs algum respeito no futebol internacional foi na Copa de 1978, quando a Tunísia venceu o México e empatou com a Alemanha Ocidental. Antes disso, os africanos apenas protagonizavam poucos resultados expressivos e uma série de derrotas. Por isso, quando 22 países africanos decidiram boicotar os Jogos de Montreal devido à presença da Nova Zelândia (que teria demonstrado apoio ao regime racista da África do Sul ao excursionar por esse país), o nível técnico do futebol olímpico não foi fortemente abalado. Mesmo assim, houve o desconforto de ver uma competição com três participantes a menos (Nigéria, Gana e Zâmbia) devido a problemas políticos.

Dessa vez, o Brasil montou uma equipe mais forte, que poderia até pensar em medalha. Jogadores que teriam passagem pela seleção principal como o goleiro Carlos, o zagueiro Edinho, o volante Batista e o lateral Rosemiro estavam no Canadá. E, na primeira fase, a seleção teve excelentes resultados, vencendo a Espanha de Arconada e empatando com a forte Alemanha Oriental, resultados que garantiram o primeiro lugar ao Brasil no grupo que teria ainda a Nigéria.

No Grupo B, a França de Platini, Battiston e Luis Fernandez ficou em primeiro, seguida por Israel, México e Guatemala. Na chave que teria Gana, passaram Polônia e Irã, com Cuba ficando de fora. Por fim, União Soviética e Coréia do Norte desclassificaram os anfitriões (Zâmbia desistiu).

Nas quartas-de-final (a fórmula de disputa adotada em Munique, com dois grupos semifinais foi abandonada), o Brasil goleou Israel e garantiu uma vaga nas semifinais do futebol pela primeira vez em uma edição dos Jogos Olímpicos. Com dificuldade, a União Soviética bateu o Irã. Mais tranqüilas foram as vitórias de Alemanha Oriental sobre a França (4x0) e da Polônia sobre a Coréia do Norte (5x0).

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A esperança do primeiro ouro olímpico do futebol brasileiro acabou com dois gols do polonês Szarmach nas semifinais. E, no final, o Brasil acabou sem medalha alguma, pois perdeu por outro 0x2 para a União Soviética na disputa do bronze. A decisão foi favorável à Alemanha Oriental, que se mostrou superior à Polônia e venceu por 3x1. Foi a maior conquista do futebol alemão-oriental e o único ouro olímpico conquistado por alemães, mesmo que a história dê à atual Alemanha os créditos do lado ocidental.

FICHA TÉCNICA
Alemanha Oriental 3x1 Polônia
Local: estádio Olímpico (Montreal-CAN)
Público: 71.617
Árbitro: Ramón Barreto (Uruguai)
Alemanha Oriental: Croy; Dörner; Weise, Kische e Lauck; Kurbjuweit, Häfner e Schade; Löwe (Gröbner), Riediger (Bransch) e Hoffmann
Polônia: Tomaszewski (Mowlik); Wieczorek; Stymanowski, Zmuda e Wawrowski; Maszczyk, Deyna e Kasperczak; Lato, Szarmach e Kmiecik
Gols: Schade (7/1º), Hoffmann (14/1º), Lato (15/2º) e Häfner (39/2º)

Classificação final: 1º Alemanha Oriental, 2º Polônia, 3º União Soviética, 4º Brasil, 5º França, 6º Israel, 7º Irã, 8º Coréia do Norte, 9º México, 10º Guatemala, 11º Cuba, 12º Canadá, 13º Espanha

MOSCOU 1980
O Pré-Olímpico sul-americano para os Jogos de 1980 foi disputado na Colômbia. O Brasil fez uma péssima campanha e terminou em quinto em um torneio com 7 seleções. Assim, pela primeira vez desde 1952, o Brasil ficava de fora do futebol olímpico por motivos técnicos.

Mas, pouco antes dos jogos de Moscou, os Estados Unidos decidiram boicotar o evento, levando consigo uma série de países (a maioria sem grande expressão). O que afetou – e muito – o futebol. Na América do Sul, a Argentina renunciou à sua vaga. O terceiro colocado no Pré-Olímpico, o Peru, também aderiu ao movimento dos norte-americanos. Assim, ao lado da Colômbia, participou do futebol a Venezuela (!!!).

A série de boicotes não se limitou à Argentina. Os próprios Estados Unidos tinham vaga no futebol em Moscou. Em seu lugar foi Cuba. O mesmo ocorreu com Noruega (substituída pela Finlândia), Egito (Zâmbia), Gana (Nigéria), Malásia (Iraque) e Irã (Síria). Com isso, a competição ficou extremamente enfraquecida.

Para se ter uma idéia, Cuba, Kuait e Iraque passaram de fase! Ao lado da União Soviética, os caribenhos superaram Venezuela e Zâmbia no Grupo A. Enquanto isso, os kuaitianos ficaram na liderança ao lado da Tchecoslováquia, à frente de Colômbia e Nigéria. Os iraquianos foram melhores que Finlândia e Costa Rica, só perdendo para a Iugoslávia. Das seleções menos tradicionais, a única que merece algum crédito é a Argélia, que eliminou a Espanha e, na Copa de 1982, mostrou que tinha uma seleção realmente competitiva.

Foram as quartas-de-final mais previsíveis da história olímpica, com União Soviética x Kuait, Tchecoslováquia x Cuba, Alemanha Oriental x Iraque e Iugoslávia x Argélia. Basta ver a tradição das equipes para saber quem venceu os confrontos. Nas semifinais, a Alemanha Oriental provou que contava com uma boa geração e venceu por 1x0 a União Soviética, favorita por jogar em casa. A Tchecoslováquia passou pela Iugoslávia (2x0). Na final, os tchecoslovacos evitaram o bicampeonato dos alemães-orientais com um gol de Svoboda.

Para os Jogos de Los Angeles, o COI afrouxou a proibição de profissionais, o que mudou drasticamente os critérios do futebol olímpico. Com isso, as seleções do Leste Europeu perderam terreno e deixaram de ser as únicas forças da modalidade nos Jogos. Para se ter uma idéia do domínio, das 25 medalhas distribuídas entre 1952 e 1980 (houve dois bronzes em 1976), apenas 3 (Suécia em 1952, Dinamarca em 1960 e Japão em 1968) não ficaram com um país comunista da Europa. E, da cortina de ferro, apenas Romênia e Bulgária não conquistaram um ouro olímpico nesse período.

FICHA TÉCNICA
Tchecoslováquia 1x0 Alemanha Oriental
Local: estádio Luzhniki (Moscou-URS)
Público: 70 mil
Árbitro: Azim Zade (União Soviética)
Tchecoslováquia: Seman; Mazura, Macela, Radimec e Rygel; Rott, Berger e Stambachr; Vizek (Svoboda), Licka e Pokluda (Nemec)
Alemanha Oriental: Rudwaleit; Muller, Hause (Liebers), Trieloff e Ullrich; Schnuphase, Terletzki e Steinbach; Baum, Netz e Kuhn
Gol: Svoboda (33/2º)

Classificação final: 1º Tchecoslováquia, 2º Alemanha Oriental, 3º União Soviética, 4º Iugoslávia, 5º Kuait, 6º Iraque, 7º Cuba, 8º Argélia, 9º Finlândia, 10º Espanha, 11º Colômbia, 12º Venezuela, 13º Nigéria, 14º Síria, 15º Zâmbia, 16º Costa Rica

Ubiratan Leal

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agosto 10, 2004

Período antigo

ATENAS 1896
Os organizadores dos primeiros Jogos Olímpicos da era moderna demonstraram interesse em promover um torneio de futebol. Três equipes se apresentaram (representantes de Dinamarca, Atenas e Izmir), mas os registros foram perdidos.

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PARIS 1900
Na confusão que foram os Jogos de Paris, vários eventos esportivos que não faziam parte da programação olímpica. Foi o caso do futebol. O Upton Park, da Grã-Bretanha venceu um triangular contra o Club Français (França) e um time de estudantes anglo-belgas (defendendo as cores da Bélgica). Os britânicos só aceitaram participar se fossem direto à decisão, contra o vencedor de um jogo entre franceses e belgas. Os franceses venceram por 7x4, mas perderam para os britânicos na final por 0x4. De qualquer forma, aquelas partidas foram consideradas mera demonstração, sem a entrega de medalhas aos participantes.

FICHA TÉCNICA
Club Français (FRA) 0x4 Upton Park (GBR)
Local: velódromo Municipal de Vincennes (Paris-FRA)
Público: cerca de 500
Árbitro: Moignard (França)
Club Français (FRA): Huteau; Bach e Allemane; Gaillard, Bloch e Macaire; Fraysse, Garnier, Lambert, Grandjean e Canelle
Upton Park (GBR): Jones; Buckingham e Grosling; Chalk, Burridge e Quash; Turner, Spackman, Nicholas, Zealey e Haslom
Gols: Nicholas (2), Turner e Zealey

Classificação final: 1º Upton Park (Grã-Bretanha), 2º Club Français (França), 3º Students XI (Bélgica)

SAINT LOUIS 1904
Os Jogos de Saint Louis conseguiram ser mais mal organizado que os de Paris quatro anos antes. No meio da confusão que misturava a Feira Mundial, as Olimpíadas e os Jogos Antropológicos, foram realizadas algumas partidas de futebol. Em teoria, quatro equipes participariam: Universidade de Toronto e Galt, do Canadá, e Christian Brothers e Saint Rose School, dos Estados Unidos. A Universidade de Toronto desistiu e os demais times fizeram jogos sem uma ordem muito lógica. Como o Galt venceu os dois adversários, foi considerado vencedor do torneio. De qualquer forma, mais uma vez não houve distribuição de medalhas.

FICHA TÉCNICA
Galt (CAN) 4x0 St. Rose (EUA)
Local: Saint Louis
Público: desconhecido
Árbitro: Paul MsSweeney (Estados Unidos)
Galt (CAN): Linton; Ducker e Gourlay; Lane, Johnston e Christman; Taylor, Steep, Hall, Henderson e Twaits
Saint Rose (EUA): Frost; Crook e Jameson; Brady, Dierkes e Dooling; Costgrove, O'Connell, Jameson, Tate e Cook
Gols: Taylor (2), Hendersen e gol contra (autor desconhecido)

Classificação final: 1º Galt (Canadá), 2º Christian Brothers (Estados Unidos), 3º Saint Rose (Estados Unidos)

ATENAS 1906
Os Jogos Olímpicos de 1906 foram, com o tempo, perdendo relevância histórica e, hoje, são chamados de extra-oficiais ou Jogos Intermediários. Ainda assim, tiveram importância na continuidade do evento após duas edições fracassadas e esvaziadas. Para o futebol, também teve alguma relevância. Foi o primeiro torneio minimamente organizado, com quatro equipes jogando em sistema de mata-mata em jogos de ida. No final, a Dinamarca ficou com o título em um jogo que a seleção de Atenas abandonou por causa da goleada que sofria. O título não foi reconhecido oficialmente, como todas aquelas Olimpíadas.

FICHA TÉCNICA
Atenas 0x9 Dinamarca
Local: Podilatodromio (Atenas-GRE)
Público: desconhecido
Árbitro: Drake (Suécia)
Atenas: Panayotis Vrionis; Dekavalas e Gerondakis; Nikolaidis, Kalafatis e Konstantinos Botasis; Merkuris, Panayotis Botasis, Grigorios Vrionis, Siriotis e Yeorgiadis
Dinamarca: Viggo Andersen; Petersen e Buchwald; Ferslev, Rasmussen e Aage Andersen; Nielsen, Frederiksen, Lindgren, Rambuch e Heerup
Gols: desconhecidos

Classificação final: 1º Dinamarca, 2º Esmirna (Turquia), 3º Salônica (Turquia), 4º Atenas (Grécia). Obs.: por ter abandonado a partida final, Atenas foi desclassificada. Na época, a cidade de Salônica (atual Tessalônica) fazia parte do território Otomano.

Londres 1908.jpg

LONDRES 1908
Foi a primeira vez que o futebol contou com medalhas nos Jogos Olímpicos. A França inscreveu duas equipes (A e B), mas ambas fracassaram diante da Dinamarca. Na primeira fase, o time B perdeu por 9x0. Nas semifinais, a seleção A foi massacrada por 17x1 (maior goleada da história do futebol olímpico), com 10 gols de Sophus Nielsen, um recorde em apenas uma partida olímpica. Na final, a Grã-Bretanha mostrou que ainda estava muitos passos a frente dos demais países e, em casa, ficou com o ouro.

FICHA TÉCNICA
Grã-Bretanha 2x0 Dinamarca
Local: estádio de White City (Londres-GBR)
Público: 8 mil
Árbitro: John Lewis (Grã-Bretanha)
Grã-Bretanha: Bailey; Corbett e Smith; Hunt, Chapman e Hawkes; Berry, Woodward, Stapley, Purnell e Hardman
Dinamarca: Drescher; Buchwald e Hansen; Bohr, Kristian Middelboe e Nils Middelboe; Oscar. Nielsen-Noerland, Lindgren, Sophus Nielsen, Wolfhagen e Rasmussen
Gols: Chapman (26/1º) e Woodward (1/2º)

Classificação final: 1º Grã-Bretanha, 2º Dinamarca, 3º Holanda, 4º Suécia, 5º França A, 6º França B

ESTOCOLMO 1912
Com 11 seleções, foi o primeiro torneio olímpico de futebol com representatividade, mesmo que contando apenas com seleções européias. Na fase preliminar, Holanda, Áustria e Finlândia desclassificaram, pela ordem, Suécia, Alemanha e Itália. Nas quartas-de-final, a Grã-Bretanha arrasou a Hungria (7x0), a Holanda venceu a Áustria (3x1), a Finlândia seguiu surpreendendo (2x1 na Rússia, país que, na época, ocupava o território finlandês) e a Dinamarca bateu os rivais escandinavos da Noruega (7x0). Curiosamente, as equipes eliminadas nessas duas primeiras fases disputaram um torneio de consolação, sem nenhum valor para a definição do título. Nesse mini-torneio, a Alemanha fez 16x0 na Rússia e Fuchs igualou o feito do dinamarquês Nielsen ao fazer 10 gols em uma partida. Enquanto isso, nas semifinais, dinamarqueses e britânicos venciam seus adversários e repetiam a final olímpica de 1908. E, mais uma vez, o ouro ficou para a Grã-Bretanha.

FICHA TÉCNICA
Grã-Bretanha 4x2 Dinamarca
Local: estádio Olímpico (Estocolmo-SUE)
Público: 25 mil
Árbitro: Christiaan Jacobus Groothoof (Holanda)
Grã-Bretanha: Brebner; Burn e Knight; McWhirther, Littlewort e Dines; Berry, Woodward, Walden, Hoare e Sharpe
Dinamarca: Sophus Hansen; Nils Middelboe e Harald Hansen; Buchwald, Jørgensen e Berth; Oscar Nielsen, Thufvason, Olsen, Sophus Nielsen e Wolfhagen
Gols: Waldens (10/1º), Hoare (22/1º), Olsen (27/1º), Hoare (41/1º), Berry (43/1º) e Olsen (36/2º)

Classificação final: 1º Grã-Bretanha, 2º Dinamarca, 3º Holanda, 4º Finlândia, 5º Hungria, 6º Áustria, 7º Alemanha, 8º Itália, 9º Suécia, 10º Noruega, 11º Rússia

ANTUÉRPIA 1920
Aos poucos o futebol olímpico ganhava forma. Em 1920, teve jogos disputados em Bruxelas, Gent e, claro, Antuérpia. Na primeira fase, os finalistas das duas últimas Olimpíadas caíram. A Dinamarca perdeu por 0x1 para a Espanha do lendário goleiro Zamora, enquanto a Grã-Bretanha caía diante da Noruega (1x3). Os outros classificados foram Itália (2x1 sobre o Egito), Suécia (9x0 na Grécia), Holanda (3x0 em Luxemburgo) e Tchecoslováquia (4x0 na Iugoslávia). Nas quartas-de-final, Bélgica, Holanda, França e Tchecoslováquia passaram por Espanha, Suécia, Itália e Noruega. A semifinal teve um clássico regional entre belgas e holandeses. Com a vitória por 3x0, a seleção da casa garantia um lugar na final contra a Tchecoslováquia, que derrotara a Fraca por 4x0.

A final foi tumultuada. A Bélgica vencia por 2x0 quando, aos 39 minutos do primeiro tempo, os tchecoslovacos decidiram se retirar do campo em protesto com a arbitragem. O ouro ficou na Bélgica, mas, para não dar a prata à Tchecoslováquia, a organização decidiu realizar um mini-torneio para definir o dono da prata e do bronze. Melhor para a Espanha, que havia caído nas quartas-de-final. O bronze, pela terceira vez seguida, ficou com a Holanda.

FICHA TÉCNICA
Bélgica 2x0 Tchecoslováquia
Local: estádio Olímpico (Antuérpia-BEL)
Público: 35 mil
Árbitro: John Lewis (Grã-Bretanha)
Bélgica: De Bie; Swartenbroeks, Verbeeck, Musch, Hanse, Fierens, Van Hage, Larnoe, Bragard, Coppée e Bastin
Tchecoslováquia: Klapka, Hojer, Steiner, Kolenatý, Pesek, Seifert, Sedlácek, Janda, Vaník, Mazal e Pilát
Gols: Coppée (6/1º, de pênalti) e Larnoe (30/1º)

Classificação final: 1º Bélgica, 2º Espanha, 3º Holanda, 4º França, 5º Itália, 6º Suécia, 7º Noruega, 8º Egito, 9º Dinamarca, 10º Grã-Bretanha, 11º Luxemburgo, 12º Iugoslávia, 13º Grécia, 14º Tchecoslováquia

PARIS 1924
Os Jogos de 1924 foram os primeiros a verem uma seleção que realmente marcaria a história do futebol. Com um jogo baseado em uma habilidade incomum e muita técnica, os Uruguai surpreendeu os europeus, que, naquele momento, conheciam uma escola completamente diferente de futebol, a sul-americana. Aquele torneio, com 22 participantes, contou com equipes de quatro continentes, algo notável para a época.

Uruguai ouro 1924.jpg

Na fase preliminar, o Uruguai mostrava força ao golear a Iugoslávia por 7x0. Dois dos favoritos se enfrentaram nessa etapa, com vitória da Itália por 1x0 sobre a Espanha. Também passaram Tchecoslováquia, Suíça, Hungria e Estados Unidos. Nas oitavas-de-final, os uruguaios bateram os Estados Unidos no confronto de americanos. O Egito também assustou com a vitória de 3x0 sobre a Hungria. A Itália seguia com dificuldades, com um magro 2x0 sobre Luxemburgo, a Suíça precisou de um jogo-extra para desclassificar a Tchecoslováquia,a Irlanda (recém-independente do Reino Unido) passou pela Bulgária, a França arrasou a Letônia e a Holanda não teve problemas contra a Romênia. O resultado mais inesperado das quartas-de-final foi a vitória dos suíços sobre os italianos por 2x1. Enquanto isso, os uruguaios mostravam que o ouro era uma possibilidade realista ao golearem os donos da casa por 5x1. Holanda (2x1 na Irlanda) e Suécia (5x0 sobre o Egito) também estavam nas semifinais.

Com uma vitória por 2x1, o Uruguai mandava a Holanda decidir pela quarta vez consecutiva o bronze olímpico. Na final, pegariam outra surpresa: a retrancada Suíça, que venceu a Suécia por 2x1. Ainda vistos com desconfiança, os uruguaios conquistaram o título com autoridade: 3x0. Surgia a Celeste Olímpica.

FICHA TÉCNICA
Uruguai 3x0 Suíça
Local: estádio Colombes (Paris-FRA)
Público: 41 mil
Árbitro: Marcel Slawick (França)
Uruguai: Mazali; Nasazzi, Arispe, Andrade, Vidal, Ghierra, Urdinarán, Scarone, Petrone, Cea e Romano
Suíça: Pulver; Reymond, Ramseyer, Oberhauser, Schmiedlin, Pollitz, Ehrenbolger, Pache, Dietrich, Abegglen e Fassler
Gols: Petrone (27/1º), Cea (18/2º) e Romano (36/2º)

Classificação final: 1º Uruguai, 2º Suíça, 3º Suécia, 4º Holanda, 5º França, 6º Itália, 7º Irlanda, 8º Egito, 9º Tchecoslováquia, 10º Hungria, 11º Estados Unidos, 12º Bulgária, 13º Luxemburgo, 14º Romênia, 15º Bélgica, 16º Letônia, 17º Espanha, 18º Estônia, 19º Turquia, 20º Polônia, 21º Iugoslávia, 22º Lituânia

AMSTERDÃ 1928
O torneio de futebol dos Jogos de 1928 não começaram sem uma confusão de bastidores. A Grã-Bretanha acusou as seleções sul-americanas (Uruguai, Argentina e Chile) de profissionalismo e exigiu que o COI eliminasse essas três equipes ou aceitasse que a Grã-Bretanha enviasse à Holanda uma seleção composta por profissionais. A chantagem não funcionou e, para manter a palavra, os dirigentes britânicos retiraram sua equipe do evento.

A pressão não impediu que os sul-americanos dominassem a competição. Na fase preliminar, o Chile perdeu para Portugal na única derrota sul-americana em todo o evento. Essa superioridade ficou clara já nas oitavas-de-final, quando o Uruguai venceu a seleção da casa por 2x0 e a Argentina humilhou os Estados Unidos por 11x2. A outra favorita, a Itália, passou apertado pela França (4x3). Também passaram Alemanha (4x0 na Suíça), Espanha (7x1 no México), Egito (7x1 na Turquia), Portugal (2x1 na Iugoslávia) e Bélgica (5x3 em Luxemburgo). No torneio de consolação, o Chile mostrou que o futebol da América do Sul já era tão forte quanto o europeu, ao vencer o México e empatar com a Holanda.

Nas quartas-de-final, a caminhada sul-americana seguia inabalável, com o Uruguai vencendo a Alemanha por 4x1 e a Argentina goleando a Bélgica em um incomum 6x3. A Itália também passou, após fazer 7x1 em um jogo-extra contra a Espanha. O quarto semifinalista era uma grande zebra: o Egito, que venceu Portugal por 2x1.

No entanto, a capacidade de surpreender dos egípcios se esgotou. Nas semifinais, perderam de 6x3 da Argentina e, na disputa do bronze, foram massacrados por 11x3 para a Itália, que perdera em um emocionante 3x2 para os cisplatinos. Na final, Uruguai e Argentina mostravam que eram as melhores seleções de mundo na época. O jogo terminou em 1x1 e foi necessário um jogo-desempate, vencido pelos uruguaios por 2x1.

FICHA TÉCNICA
Uruguai 2x1 Argentina
Local: estádio Olímpico (Amsterdã-HOL)
Público: desconhecido
Árbitro: Johannes Mutter (Holanda)
Uruguai: Mazali; Nasazzi, Arispe, Andrade, Píriz, Gestido, Arremón, Scarone, Borjas, Cea e Figueroa.
Argentina: Bosio; Bidoglio, Paternóster, Médice, Monti, Evaristo, Carricaberri, Tarasconi, Ferreira, Perduca e Orsi
Gols: Figueroa, Monte e Scarone

Classificação final: 1º Uruguai, 2º Argentina, 3º Itália, 4º Egito, 5º Espanha, 6º Portugal, 7º Alemanha, 8º Bélgica, 9º França, 10º Iugoslávia, 11º Holanda, 12º Chile, 13º Luxemburgo, 14º Suíça, 15º Turquia, 16º México, 17º Estados Unidos

BERLIM 1936
A criação da Copa do Mundo, em 1930, fez com que o COI tivesse dificuldade em definir que atletas poderiam disputar um torneio olímpico, supostamente amador. Como os norte-americanos nunca tiveram no futebol um de seus passatempos esportivos prediletos, não houve torneio dessa modalidade nos Jogos de Los Angeles em 1932. Assim, o futebol olímpico só voltou em 1936, nas Olimpíadas de Berlim.

À exceção da Oceania, todos os demais continentes estiveram representados na Alemanha. Com o profissionalismo crescente em diversos países, o torneio olímpico de futebol começou a mudar de feições, com um aumento significativo de seleções B ou juniores. Mesmo assim, a Itália conseguiu mascarar o profissionalismo de alguns de jogadores e enviou uma seleção forte, que só teria adversários se Argentina e Uruguai mandassem representantes. Como os platinos desistiram do evento (foram substituídos pelo Peru), a azzurra não teve concorrentes do mesmo nível.

O número de participantes (16), ajudou a montar uma tabela simples, com jogos eliminatórios e sem fases preliminares. As oitavas-de-final viram algumas surpresas, como a vitória do Japão sobre a Suécia e as vitórias inesperadamente apertadas de Itália (1x0) e Grã-Bretanha (2x0) diante de Estados Unidos e China. De resto, foram normais as vitórias de Alemanha, Noruega, Polônia, Peru e Áustria sobre Luxemburgo, Turquia, Hungria, Finlândia e Egito.

Mais conturbadas foram as quartas-de-final. Em casa, a seleção alemã não atendeu às expectativas de Hitler e perdeu sem sequer chegar perto de uma medalha (0x2 contra a Noruega). Porém, a grande confusão ficou para Áustria x Peru. Os austríacos, que estavam entre as principais forças do futebol mundial na época, fizeram 2x0. No entanto, permitiram o empate peruano. Na prorrogação, um tumulto envolvendo torcedores sul-americanos paralisou a partida. No reinício, os peruanos foram melhores e marcaram mais dois gols. A Áustria não aceitou o resultado e pediu que a Fifa mandasse as duas equipes jogarem novamente. A solicitação foi acatada. Revoltados os peruanos voltaram para Lima.

Sorte da Áustria, que venceu a Polônia nas semifinais e garantiu um lugar na decisão (e uma medalha). A outra vaga ficou com a Itália, que venceu a Noruega por 2x1, placar que repetiria – após prorrogação – na final contra os austríacos.

Italia 1936.jpg

FICHA TÉCNICA
Itália 2x1 Áustria
Local: estádio Olímpico (Berlim-ALE)
Público: 90 mil
Árbitro: Peter Bauwens (Alemanha)
Itália: Venturini; Foni e Rava; Baldo, Piccini e Locatelli; Frossi, Mancini, Bertoni, Biagi e Gabriotti
Austria: Kainberger; Künz e Kargl; Krenn, Wahlmüller e Hofmeister; Werginz, Laudon, Steinmetz, Kainberger e Fuchsberger
Gols: Frossi (25/2º), Kainberger (35/2º) e Frossi (2/1º da prorrogação)

Classificação final: 1º Itália, 2º Áustria, 3º Noruega, 4º Polônia, 5º Peru, 6º Alemanha, 7º Grã-Bretanha, 8º Japão, 9º Suécia, 10º Estados Unidos, 11º Egito, 12º China, 13º Hungria, 14º Finlândia, 15º Turquia, 16º Luxemburgo.

LONDRES 1948
O dogma da defesa incondicional do amadorismo (mesmo que sabidamente hipócrita) começou a prejudicar de forma mais significativa o futebol olímpico em 1948. Nesse momento, todos os países com tradição na modalidade já haviam se profissionalizado (exceção feita aos comunistas), o que afastou dos Jogos as principais seleções do mundo. Como a Copa estava se consolidando, começou a se desenhar o cenário que permanece até hoje, em que o futebol se sente desconfortável e deslocado no evento poliesportivo e em que é normal seleções tradicionais perderem para pequenos.

Nas Olimpíadas londrinas, os países ocidentais ainda respiraram um pouco. Primeiro, porque ainda havia os que não eram profissionais, como a Suécia e a Dinamarca. Outro motivo é que a Europa Oriental fora fortemente destruída durante a Segunda Guerra Mundial e sua estrutura esportiva estava se reorganizando.

Na fase preliminar, a Holanda desclassificou a Irlanda e Luxemburgo, em uma das partidas mais improváveis do futebol internacional, goleou o Afeganistão por 6x0. Mas as esperanças luxemburguesas acabaram nas oitavas-de-final, ao perder de 1x6 para a Iugoslávia. Também passaram às quartas Suécia (3x0 na Áustria), Coréia (ainda uma só, fez 5x3 no México), Dinamarca (3x1 no Egito), Itália (9x0 nos Estados Unidos), Grã-Bretanha (4x3 na Holanda), França (2x1 na Índia) e Turquia (4x0 na China).

Com um ataque formado por Nordahl, Gren e Liedholm (que estavam em campo na final da Copa de 58 contra o Brasil), a Suécia não teve dificuldades em arrasar a Coréia, 12x0. Mais difícil foi a classificação de Dinamarca, Grã-Bretanha e Iugoslávia, contra, pela ordem, Itália, França e Turquia.

Suecia x Dinamarca 1948.jpg

A boa fase sueca continuou nas semifinais, com uma vitória relativamente tranqüila no clássico escandinavo contra a Dinamarca (foto). Na outra partida dessa fase, a Iugoslávia acabou com as esperanças britânicas ao vencer por 3x1 em Wembley (como era a seleção da Grã-Bretanha amadora, esse resultado não foi considerado a quebra da invencibilidade inglesa no estádio londrino, o que ocorreria cinco anos depois).

Na decisão, os suecos venceram sem grandes dificuldades a Iugoslávia. Foi a última medalha de ouro conquistada por um país capitalista até os Jogos de Los Angeles em 1984. Tinha início a fase de hegemonia dos países do Leste Europeu no futebol olímpico.

FICHA TÉCNICA
Suécia 3x1 Iugoslávia
Local: estádio de Wembley (Londres-GBR)
Público: 60 mil
Árbitro: William Ling (Grã-Bretanha)
Suécia: Lindberg; Knut Nordahl e Nilsson; Rosengren, Bortil Nordahl e Andersson; Rosen, Gren, Gunnar Nordahl, Carlsson e Liedholm
Iugoslávia: Lovric; Brozovic e Stankovic; Zlatko Cajkovski, Jovanovic e Atanakovic; Cimermancic, Mitic, Bobek, Zeljko Cajkovski e Vukas
Gols: Gren (24/1º), Bobek (42/1º), Gunnar Nordahl (3/2º) e Gren (22/2º de pênalti)

Classificação: 1º Suécia, 2º Iugoslávia, 3º Dinamarca, 4º Grã-Bretanha, 5º Itália, 6º Turquia, 7º França, 8º Coréia, 9º Holanda, 10º Luxemburgo, 11º México, 12º Índia, 13 º Egito, 14º Áustria, 15º China, 16º Estados Unidos, 17º Irlanda, 18º Afeganistão

Ubiratan Leal

Imagens: Ragges Longjump, Futbol Factory, The Guardian e DFB

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agosto 10, 2004

A trajetória do futebol nas Olimpíadas

Podio 1952.jpg

Futebol masculino e Jogos Olímpicos parecem não ser muito compatíveis. Mesmo quando as chances de medalha de ouro são vivas para o Brasil (o que definitivamente não é o caso de Atenas’2004), sempre há um ar de desconfiança diante daquele esporte. Como se, nas Olimpíadas, o esporte mais praticado do mundo fosse um intruso e devesse dar uma oportunidade para as outras modalidades aparecerem. O que fica claro quando se vê a história do futebol masculino olímpico.

Aliás, o esporte teve vida tão conturbada nos Jogos que o fato de potências históricas indiscutíveis como Brasil, Argentina e Alemanha nunca terem conquistado uma medalha de ouro não é um absurdo (se você é daqueles detalhistas, talvez se lembre que a Alemanha Oriental foi campeã olímpica em 1976, mas deu para entender, né?). Afinal, desde a década de 1930 que as principais forças da modalidade não podem levar suas seleções principais.

Tudo por causa do amadorismo. Pierre de Fredy, o Barão de Coubertin, re-criador das Olimpíadas, era defensor ardoroso do amadorismo. Para ele, o esporte seria mais nobre se praticado por prazer, não por dinheiro. Assim, qualquer atleta que recebesse algum dinheiro ou prêmio em espécie poderia ser afastado das disputas olímpicas sob acusação de profissionalismo.

Claro que é algo hipócrita, mas isso fez com que os jogadores da NBA ficassem de fora dos Jogos até 1992, o tênis só fosse incorporado definitivamente no programa olímpico em 1988 e o futebol fosse um torneio “torto”. Isso porque países sem tradição como Irã e Japão podiam mandar suas seleções principais, claramente amadoras, e, eventualmente, vencer as equipes juniores das nações mais tradicionais. Sem contar com os países comunistas onde não existia profissionalismo e quase todos os atletas eram, oficialmente, militares (e, portanto, a prática do esporte era supostamente uma atividade paralela).

É possível dividir a história da modalidade nos jogos em três fases. Na primeira, que vai do início dos Jogos até o fim da Segunda Guerra Mundial, há muita desorganização, mas o torneio refletia um pouco a relação de forças do futebol internacional. Na segunda, entre as décadas de 1950 e 1970, no auge do “amadorismo”, há um enorme domínio do Leste Europeu, que enviava suas competitivas seleções principais para enfrentar times realmente amadores, compostos por juniores. Por fim, a fase “moderna”, em que a Fifa tentou igualar as condições e impôs limitações uniformes para todos os países.

Clique e veja um resumo da história de cada período do futebol olímpico
Período antigo (de 1896 a 1948)
Período comunista (de 1952 a 1980)
Período moderno (de 1984 a 2000)

Ubiratan Leal

Imagem: Goethe-Institut


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julho 23, 2004

O futebol na terra das Olimpíadas... e de Rivaldo

Grecia Euro.jpg

Quem acompanha apenas o futebol pode nunca ter voltado o olhar à Grécia. Normal, pois o país nunca teve uma liga entre as mais fortes da Europa e a seleção helênica jamais assustou. Pois 2004 parece ser o ano da Grécia. Os Jogos Olímpicos de Atenas já dariam um destaque especial ao país. Mas, em menos de um mês, os gregos levaram a Eurocopa e Rivaldo. O primeiro dará respeito no cenário europeu, o segundo chamará a atenção da imprensa brasileira. Então, já que o futuro próximo do futebol helênico será acompanhado, talvez seja hora de ver um pouco do passado.

Das ligas mais tradicionais da Europa, nenhuma conta com uma concentração geográfica tão grande quanto a grega. Contando sua região metropolitana, Atenas é sede de 10 dos 16 clubes que disputaram a A’Ethniki Katigoria (Primeira Divisão) em 2003-04. Por isso, a história do podosferikos é contada pela capital do país.

Falar do futebol ateniense é um “arredondamento”, pois há uma colaboração importante das cidades vizinhas. Dos 10 clubes mencionados, quatro não são exatamente atenienses. O Olympiakos é da portuária Piraeus, Ionikos e Proodeftiki vêm de Nikeas e o Chalkidona tem sede em Neapolis. Enquanto isso, AEK, Panathinaikos, Panionios, Agaleo, Akratitos e Kallithea representam realmente a cidade de Péricles, Sócrates, Platão e Alcebíades. Esse domínio ateniense tem razões históricas.

O futebol chegou ao país no final do século XIX, pelos marinheiros ingleses. O principal centro era Tessalônica, na época uma cidade do Império Otomano. Durante algumas décadas, o esporte teve dificuldades para se estabelecer por sofrer desaprovação do governo e pela própria situação da nação grega, ainda em fase de formação após a sangrenta guerra da independência, na década de 1820.

Atenas 1906.jpg

Em 1906 foi disputada a primeira partida de futebol com grande destaque na Grécia. Nos Jogos Intermediários (Olimpíadas não-oficiais) de Atenas, uma seleção de Tessalônica enfrentou um combinado de Atenas. A partida terminou com uma briga generalizada entre torcedores. Naquela época, a Federação Grega de Ginástica organizava um campeonato apenas com times de Atenas e Piraeus, favorecendo o desenvolvimento dessa região.

O futebol grego teve impulso decisivo após a Primeira Guerra Mundial. A Turquia apoiou a Tríplice Aliança (Alemanha, Áustria-Hungria e Itália) e, derrotada, teve de ceder parte de seu território para a Grécia, que ficara ao lado da Tríplice Entente (Reino Unido, França e Rússia). Os helênicos tentaram se aproveitar do momento favorável e investiram sobre Istambul, mas foram derrotados e obrigados a retroceder em 1922. Com isso, os dois países acabaram acertando uma troca de população: 400 mil turcos que moravam na Grécia voltam à Ásia Menor e 1 milhão de gregos que viviam na Turquia foram aos Bálcãs.

Houve um grande crescimento do número de equipes de futebol. Por exemplo, o AEK e o PAOK foram fundados por refugiados gregos vindos de Istambul (Constantinopla para os gregos, daí o “K” de ambos clubes), enquanto que o Panionios surgiu da comunidade de helênicos provenientes de Izmir (o nome do clube é Neos Panionios Smyrnis). Já começou-se a pensar em um campeonato nacional.

Em 1926 foi criada a Federação Grega de Futebol. O primeiro Campeonato demorou apenas dois anos para surgir. Na realidade, havia três ligas regionais (Atenas, Atenas/Piraeus e Tessalônica) e os vencedores jogavam um triangular final. O primeiro campeão, curiosamente, veio do interior: o Aris. A partir daí, houve um quase monopólio de Olympiakos, Panathinaikos e AEK, os três gr