Fevereiro / 2003
Halle Berry no novo 007

As mulheres de Bond


Por Fabio Diaz Camarneiro


O nome é Berry, Halle Berry. Ela é Jinx, a melhor personagem de Um Novo Dia Para Morrer (Die Another Day), o mais recente filme de James Bond, dirigido pelo neo-zelandês Lee Tamahori e com música tema de Madonna. Em sua primeira aparição no filme, Jinx sai do mar do Caribe vestindo apenas um biquíni e um cinto, homenagem ao figurino de Ursula Andress em 007 Contra O Satânico Doutor Nô (Dr. No), de 1963, a estréia do agente 007 nas telas de cinema. De lá para cá, James Bond já apareceu em 20 filmes, com dezenas de mulheres cruzando o seu caminho. Do mero flerte à divisão de armas (e, principalmente, lençóis), a galeria de Bond girls não parou de crescer.

Sylvia Trench (Eunice Gayson) foi a primeira a ouvir o famoso bordão "Bond. James Bond". Nome que Ian Fleming pegou emprestado de um ornitólogo norte-americano: segundo o próprio autor, um nome simples, sonoro e masculino.

Sylvia Trench deveria ser um personagem regular na série, assim como Q (o mestre construtor de geringonças), ou M (o chefe do Serviço Secreto Britânico responsável pelas ações de 007). Mas os produtores preferiram deixar Bond livre de algo que, mesmo remotamente, poderia ser chamado de um "relacionamento". Sylvia ainda aparece no segundo filme da série, Moscou Contra 007 (From Russia With Love), mas desde então não há mais o menor vestígio dela.

Sylvia foi completamente ofuscada por Honey Rider, a personagem de Ursula Andress, que depois da cena do biquíni passa a magnetizar toda a atenção da platéia. Leonard Maltin, um dos mais famosos críticos de cinema dos EUA, pensa que Andress criou a versão do século XX para O Nascimento De Vênus, de Sandro Boticelli. De qualquer forma, o fôlego sexual de Bond segue inesgotável ainda hoje, 40 anos após sua estréia nas telas e 50 anos após seu surgimento nas páginas de Ian Fleming.

Casino Royale, de 1953, foi o primeiro de uma série de doze livros com o personagem, que inspiraram a série de filmes produzidos por Albert R. Broccoli e Harry Saltzman. Desde Doutor Nô, a fórmula pouco se alterou: missões secretas, locações exóticas, vilões megalomaníacos, apetrechos com tecnologia de ponta e, claro, Bond girls.

Em toda sua carreira no cinema, cinco atores interpretaram o agente 007: Sean Connery fez os cinco primeiros filmes e estabeleceu o padrão de um Bond suave, sofisticado e um tanto blasé. O australiano George Lazenby assumiu o papel em A Serviço De Sua Majestade (On Her Majesty's Secret Service), mas resolveu abandonar o personagem após ser avisado que a série estaria entrando em decadência. Connery assumiu novamente o posto de James Bond em Os Diamantes São Eternos (Diamonds Are Forever) e logo deixou o lugar vago para Roger Moore, que estreou como Bond em Com 007 Viva E Deixe Morrer (Live and Let Die). Moore trabalhou para o Serviço Secreto de Sua Majestade durante 13 anos e sete filmes, igualando (ou, para alguns, superando) a popularidade de Sean Connery. Quando Moore se viu muito velho para continuar no papel, Timothy Dalton foi chamado. Mas ele fez apenas dois filmes e Pierce Brosnan passou a interpretar o agente 007. Um Novo Dia Para Morrer é o quarto filme de Brosnan no papel.

>Há também um filme "não oficial", ou seja, não produzido pelos Broccoli. É Nunca Mais Outra Vez (Never Say Never Again), estrelado por Sean Connery e lançado na mesma época de 007 Contra Octopussy (Octopussy). Com essa ovelha negra, são 20 filmes de James Bond, que, após 40 anos de serviços prestados a Sua Majestade, não envelheceu um dia sequer.

Um dos segredos da longevidade da série é uma sutil forma de esquecimento. A cada novo filme, Bond é apenas Bond, e não a síntese dos filmes anteriores. O agente secreto é como que "impermeável" a tudo ao seu redor e, assim, "alheio" ao mundo que o cerca, ele continua vivendo em seu universo muito próprio.

Por exemplo, em Um Novo Dia Para Morrer, após a seqüência de abertura, os créditos mostram Bond sendo torturado. Após meses de tortura, Bond está irreconhecível. Mas o senso de humor permanece o mesmo. E, após uma mirabolante fuga, bastam um banho e um barbeador para que tudo volte ao normal e James recupere seu ar "blasé". Claro, passa a ser uma questão de honra perseguir seu algoz. Mas não porque a tortura chinesa tenha deixado marcas na psicologia de 007. Talvez ele tenha ficado mais chateado por aparecer ao público com a barba mal feita...

Essa "amnésia" marca toda a trajetória do agente 007. Bond é o homem que não envelhece. Ele deixou de ser um homem ou mesmo um personagem, e passou a ser um mito. Há 40 anos, além de abusar da sua prerrogativa (a tal "licença para matar"), ele se preocupa apenas em dirigir carrões (de Aston Martins a BMWs), viajar pelo mundo, tomar suas doses de vodca martini (mexido, e não batido) e, claro, aumentar sua galeira de conquistas amorosas. Exceto a parte suja do trabalho, o mundo de Bond é a síntese dos sonhos de consumo de dez entre dez adolescentes urbanos. Bond seria uma espécie de "público alvo" ideal da revista que Hugh Hefner criou na década de 50 e que tinha por objetivo, nas palavras de seu próprio criador, associar o sexo a um estilo de vida sofisticado: a Playboy.

Mais que agente secreto, Bond é um playboy. Ele representa a masculinidade do século XX: um homem cosmopolita, bon vivant, amante da tecnologia, que faz questão de conquistar mulheres e depois descartá-las como se fossem brinquedo. Assim como todo mês Playboy traz em suas páginas centrais o poster de uma pin-up, a cada episódio da saga de 007 temos uma "estrela do mês". Honey Rider foi apenas a primeira e, como a Marilyn Monroe da Playboy número um, não são poucos que a consideram inigualável.

Mas alguns podem mudar de idéia com Jinx, a agente americana interpretada por Halle Berry em Um Novo Dia Para Morrer. Jinx é quase uma versão feminina de Bond: uma super agente secreta que, por acaso, está na mesma investigação que o britânico. Assim como Bond, ela parece inabalável: após escapar de uma morte iminente, Jinx diz alguns gracejos espirituosos; após ir para a cama com Bond, é ele (e não ela) quem acorda em um quarto vazio. Além disso, o talento e o carisma da atriz (que ano passado levou o Oscar por seu trabalho em A Última Ceia) garantem que nenhum olho se desprenda da tela enquanto ela estiver em cena.

Jinx é a Bond girl de uma época que já assimilou completamente o feminismo. Na década de 60 e 70, enquanto as mulheres de Bond pareciam ansiosas para serem usadas e depois abandonadas por ele, as mulheres da vida real queimavam sutiãs e clamavam direitos iguais. Jinx lida de igual para igual com Bond. Claro que, na hora H, é ele quem resolve a questão. Mas Jinx é uma espécie de Lilith bíblica, que não aceita ficar em posição inferior à masculina. Outro exemplo desse novo modelo de Bond girl é Elektra King, que Sophie Marceau interpretou em O Mundo Não É O Bastante (The World Is Not Enough). Uma vilã que, após dividir o leito com James Bond, termina assassinada por ele, a sangue frio. (Alguém lembra do destino de Lilith no texto bíblico?)

Duas personagens muito diferentes, Jinx e Elektra são Bond girls que não se submetem ao poder masculino. As coisas mudam, e no mundo de 007 não pode ser diferente. A fórmula dos filmes de James Bond só pode continuar dando certo na medida em que ela puder se adaptar aos tempos que surgem. O fim da Guerra Fria foi um golpe duro para a série, que custou a descobrir o que um agente secreto britânico faria após a queda do muro de Berlim. Timothy Dalton é o ator que representa essa época e, não por acaso, ele é o Bond menos lembrado pelo público. Sim, ele fez apenas dois filmes, mas o Bond de Dalton é também um dos mais distantes do modelo blasé e sofisticado criado por Sean Connery e mais próximo àquele visto nos livros de Fleming: mais durão e com menos tempo para mulheres. Um homem com um trabalho a cumprir, preocupado apenas em fazê-lo bem feito.

Não é por acaso também que, nos filmes estrelados por Dalton, as tramas sejam menos "políticas", especialmente em License To Kill (Permissão Para Matar), quando Bond está atrás de vingança pessoal, a mesma premissa de uma infinidade dos chamados "filmes de brucutu".

A decadência do personagem, motivo do afastamento de George Lazenby, parece ainda longe de chegar. Enquanto Bond seguir o modelo do playboy criado por Hugh Hefner, parece que seu lugar estará garantido no imaginário masculino deste século XXI. Aliás, os fãs da série já especulam quem será o próximo ator a assumir o papel de 007, como pode ser visto aqui.

O escolhido terá um legado e tanto, e um desafio maior ainda. Encarar as futuras Bond girls, mulheres que, como Jinx, não estão dormindo no ponto e não se deixam seduzir pela simples menção do nome Bond... James Bond.

Te cuida, 007!

NO BROWSER:
007: JAMES BOND.COM
O site oficial da série

MR. KISS KISS BANG BANG
Uma das melhores fontes de informação sobre o personagem

EON PRODUCTIONS: 007.COM
O site dos produtores dos filmes

PICTURES OF JAMES BOND GIRLS, WOMEN AND BABES
Uma galeria com todas as mulheres dos filmes de 007

 

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