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Março
/ 2003
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De
olhos bem abertos Complicando
um pouco mais as coisas, todo filme é, ao mesmo tempo, ficção
e documentário. Por exemplo: Antonio Banderas efetivamente usava
cabelos compridos e vestia uma jaqueta de couro quando, no set de Femme
Fatale, o diretor Brian De Palma gritou "ação".
Quando um DVD traz erros de filmagem, esse tênue limite se torna
explícito: a "aparência ficcional" (ou, para os
acadêmicos, a "diegese"), a qualquer interferência,
transforma qualquer filme em documentário.
eacute;m
disso, o cinema é sempre mais "realista" do que o teatro,
por exemplo, cujo ilusionismo depende de convenções. Quando
um ator no teatro diz "aqui, esta praça", uma espécie
de pacto se estabelece: o público concorda em imaginar, juntamente
com o ator, que o palco vazio é, na verdade, uma praça.
Já no cinema, normalmente é necessário que o diretor
efetivamente encontre uma praça que sirva de cenário para
o filme. Ou pode filmar várias praças diferentes e, na montagem,
criar a ilusão de que estamos vendo uma única praça.
Tudo isso
para dizer que Brian De Palma, desde o início de sua carreira,
é partidário do ilusionismo. E que Femme Fatale, em cartaz
nos cinemas, é a obra-prima que o diretor devia a seus admiradores
desde, pelo menos, O Pagamento Final (Carlito's Way), de
1993. De lá para cá, De Palma fez Missão Impossível,
Olhos De Serpente e Missão: Marte, filmes que demonstram
a exuberância narrativa tão característica do diretor
(o primeiro plano de Olhos De Serpente tem 19 minutos) mas que,
ainda assim, são obras menores dentro de uma filmografia que abrange,
entre outros, Irmãs Diabólicas (1973), Carrie
- A Estranha (1976), Vestida Para Matar (1980), Um Tiro
No Escuro (1981), Dublê De Corpo (1984), Scarface
(1983), Os Intocáveis (1987) e Síndrome De Caim
(1992).
Em vários
desses filmes pululam as referências ao cinema de Alfred Hitchcock.
A figura do voyeur, imortalizada no fotógrafo interpretado por
James Stewart em Janela Indiscreta, serve de base para o cinema
de Brian De Palma, que faz questão de colocar em cena o aparato
visual que separa aquele que observa do objeto desejado. Em Dublê
De Corpo, é um binóculo. Em Femme Fatale, uma
máquina fotográfica.
Uma "femme
fatale" é a clássica personagem feminina do cinema
noir: mulheres ambíguas e misteriosas, sedutoras e não raro
cruéis, que usam e abusam dos homens para depois descartá-los.
A cena de abertura de Femme Fatale mostra uma mulher nua - Laure
Ash (Rebecca Romijn-Stamos) - sobreposta à imagem de Barbara Stanwyck
durante o clímax de Pacto De Sangue (Double Indemnity,
1944), de Billy Wilder, quando Phyllis (Stanwyck) hesita antes de matar
Walter Neff (Fred MacMurray), homem que ela seduziu e convenceu a participar
de um assassinato.
O roteiro
de Pacto De Sangue foi baseado no livro Double Indemnity In
Three Of A Kind, de James M. Cain, também autor de O Destino
Bate À Sua Porta (The Postman Always Rings Twice) e
roteirista. Cain é um dos autores do chamado "realismo"
americano dos anos 30: uma literatura urbana, repleta de detetives durões
(hard boiled) e mulheres sedutoras (femmes fatales), que deixava explícita
a situação dos EUA durante a Grande Depressão. Após
adaptados para as telas, os livros de autores como Cain, Raymond Chandler
e Dashiel Hammett (que eram vendidos no formato pulp, de impressão
baratíssima) ficaram conhecidos "literatura noir".
O estereótipo
do noir é claramente bíblico: os homens são sempre
diretos, claros e objetivos em suas ações. Já as
mulheres são ambíguas e misteriosas. Os homens representam
a razão e, quando se tornam dissimulados, normalmente estão
sob influência feminina. Já a mulher é a representação
clássica do pecado.
O católico
Hitchcock recriou a femme fatale em Um Corpo Que Cai. Kim Novak
interpretava uma mulher com duas identidades (Madeleine e Judy). Em Femme
Fatale, Laure também tem a identidade dividida (Laure e Lily),
causando um curto-circuito na falha percepção masculina
(e também na lógica da platéia). No filme de Brian
De Palma, a referência às escrituras sagradas é mais
explicita que nos filmes de Hitchcock: Laure é uma ladra que, disfarçada
de fotógrafa, participa de um assalto, em pleno Festival de Cannes,
cujo alvo é uma peça crivada de diamantes em forma de serpente.
A ladra e a modelo que veste apenas a tal serpente de diamantes (Rie Rasmussen)
terminam protagonizando cenas luxuriantes - manifestações
cinematográficas do pecado original. Depois, Laure engana seus
companheiros e foge. Mais tarde, troca de identidade e, sete anos depois,
volta a Paris como esposa do embaixador americano (Peter Coyote), quando
acaba sendo flagrada por um fotógrafo paparazzo, Nicolas Bardo
(Antonio Banderas).
A tradição
judaico-cristã desde sempre associou o sexo feminino ao disfarce,
à máscara, ao engano e à dualidade. E Brian De Palma
associa tudo isso também ao cinema. O diretor parece dizer que
tudo o que é demoníaco e ilusório é também,
por excelência, cinematográfico. (Não por acaso, um
dos disfarces prediletos de Georges Méliès era o de diabo.)
O catolicismo de Hitchcock não abria mão de certa dose de
culpa ao lidar com os desejos do público (e com o próprio
voyeurismo do fotógrafo de Janela Indiscreta). Para o mestre
do suspense, o cinema é uma ferramenta onde podemos viver nossos
desejos por procuração. Em Hitchcock, o desejo sempre é
passível de ser expiado.
Brian De
Palma, por outro lado, é um potencial criador de voyeurs. Não
interessa expiar os desejos, interessa vivê-los. Em Femme Fatale,
os movimentos de câmera revelam-se quase tão sedutores quanto
os contornos de sua atriz principal. A música de Ryuichi Sakamoto
(um pastiche do "Bolero" de Maurice Ravel) conduz o público
ao mesmo tempo que revela: estamos nos braços de De Palma, entregues
aos encantos e fascínios de seu cinema. Somos presas fáceis,
ansiamos ser seduzidos pelo cineasta.
Ao final
do filme, como sempre faz, De Palma mostra que pouco importa descobrir
se alguma realidade resiste sob tanta ilusão. Após uma reviravolta
completa do roteiro, o público sente prazer em ser novamente iludido
pelo diretor: agora vestindo branco, na mesma praça parisiense,
a femme fatale volta a parecer inofensiva. Uma vez livre de seus perseguidores,
é como se sua natureza se alterasse. Enganado pelas aparências
e entorpecido por seus próprios desejos, o público mais
uma vez acredita nela e, por alguns instantes, endossa o "happy end"
- muito falso "happy end", diga-se.
Também
como em Janela Indiscreta, Femme Fatale trata da construção
e dos enganos do olhar (Laure começa o filme disfarçada
de fotógrafa, Bardo é fotógrafo). Como em Um Corpo
Que Cai, temos uma mulher misteriosa com duas identidades (mas De
Palma não permite explicações fáceis para
seu espectador). O mundo dos filmes de Brian De Palma muito se parece
com o quadro que Bardo monta em seu quarto: fotos tiradas em diferentes
momentos compõem um painel da praça vista da sua sacada.
Mas, afinal, que praça é aquela? Não é exatamente
uma praça "realista", já que diferentes tempos
a compõem. Não é uma praça "ilusória",
já que todas as fotos, em maior ou menor grau, são reproduções
de pedaços da realidade. É talvez, uma praça "cubista",
em que a lógica é desmontada e o mundo se torna um quebra-cabeças
imperfeito. Ou é, simplesmente, uma praça cinematográfica
- uma praça que só pode existir na tela do cinema. (Assim
como tudo o que lá acontece só pode existir dentro da ilusão
do cinema.)
Brian De
Palma é um ilusionista que sente imenso prazer pelo seu métier.
Em seu cinema, além do "realismo" e do "ilusionismo",
existe o prazer. Sim, o prazer, o grande interdito da história
judaico-cristã, a razão de toda a oposição
entre céu e inferno, macho e fêmea. Para De Palma, não
interessa se o que vemos na tela é real ou ilusório, interessa
o prazer de observar, o prazer em desejar aquilo que se observa. A exuberância
de seu estilo, a elegância de seus planos, a inquestionável
beleza plástica de seus filmes são isso: a beleza dos simulacros,
a contemplação das superfícies.
Brian De
Palma é um voyeur pervertido e despudorado, para quem o olhar deixou
de ser sensorial: a visão não serve mais para descobrir
a realidade ou trazer conhecimento. Em Femme Fatale, o olhar se
torna um instrumento sensual (e, além, sexual). Na seqüência
inicial, Laure escapa com os diamantes apenas porque possui óculos
especiais. No escuro, os demais personagem são cegos. O cinema
de Brian De Palma é, em certa medida, esse aparato especial que
nos faz enxergar dentro das trevas de nossos mais ocultos desejos. E que,
de maneira sedutora, ainda nos obriga a apreciar a viagem. |
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