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Fevereiro
/ 2003
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Peter
Kubelka: cinema, cozinha e outras artes
Por
Fabio Diaz Camarneiro Peter Kubelka
nasceu em Viena em 1934 e, antes de se dedicar ao cinema, pensou em seguir
os passos do pai e tornar-se músico. Mas, segundo ele, é
impossível ser músico em Viena: "o peso da tradição
é gigantesco".
Hoje, após
quase 50 anos dedicados ao cinema, Kubelka possui apenas seis filmes no
currículo. Juntos, eles totalizam 49 minutos e 33 segundos de projeção.
A pequena quantidade se explica pelo excesso de zelo que o diretor dedica
à montagem de cada um de seus trabalhos. Ao invés de privilegiar
a cena, o cinema de Peter Kubelka tem no plano o seu elemento principal.
Seus filmes marcam o começo do "cinema métrico",
um cinema assumidamente experimental, em que relações matemáticas
determinam a quantidade de fotogramas de cada plano.
A obra completa
do cineasta austríaco, um dos grandes nomes do cinema experimental
mundial, pôde ser vista, acompanhada de palestras do próprio,
no Centro Cultural Banco do Brasil em São Paulo, de 10 a 15 de
dezembro. A mostra "Peter Kubelka: A Essência Do Cinema",
organizada por Carlos Adriano e Bernardo Vorobow, também rendeu
um livro de mesmo nome, publicado pelas Edições Babushka.
Completavam
a programação Entusiasmo (1930), filme do russo Dziga
Vertov que foi completamente restaurado por Kubelka, e A Idade Do Ouro
(1930), obra-prima de Luis Buñuel que o austríaco considera
"o primeiro monumento de metáforas entre som e imagem".
Além disso, fechando o ciclo de palestras no CCBB, o cineasta demonstrou
seus dotes culinários em uma palestra chamada "Cozinha E Outras
Artes".
Peter Kubelka
também foi um dos fundadores, ao lado de Peter Konlechner, do Österreichisches
Film Museum, uma cinemateca com vasta coleção de filmes
de vanguarda. Entre 1967 e 1968, o diretor trabalhou na filmoteca da ONU,
em Nova York e, dois anos mais tarde, participou da fundação
da Anthology Film Archives, em Nova York. Quando não está
na cozinha ou em uma de suas palestras, ele continua trabalhando na montagem
de um filme chamado Denkmal Für Die Alte Welt (Monumento Para
O Velho Mundo), um "work in progress" que começou
em 1966 e ainda não tem data para terminar.
De tez muito
branca, Kubelka invariavelmente veste camisa branca sob um colete preto
e calça também preta. Ele explica que essa é sua
"armadura": "Se eu usasse cabelos compridos ou roupas espalhafatosas,
todos logo pensariam que sou maluco. Vestido assim, as pessoas acham que
sou normal - e assim me deixam fazer meus filmes."
Os mais apressados
não hesitarão em classificar o cinema de Kubelka como "coisa
de maluco". Às vezes herméticos e incompreensíveis,
os filmes de Kubelka exigem várias (re)visões. O cineasta
diz que melhor aprecia seus filmes quem os sabe de cor (na cabeça
e no coração). Apesar de curta em duração,
sua obra é imensa pela quantidade de questões levantadas.
Ver os filmes com a assistência do próprio Kubelka é
um prazer, como se um tradutor nos ensinasse o beabá de uma língua
estrangeira, e ele é o primeiro a aprovar a comparação
e dizer que seus filmes não são herméticos. Trata-se
apenas de uma outra linguagem, muito diferente daquela usada nos melodramas
de Hollywood: "É como na piada. Um austríaco, que não
sabe francês, vai para Paris e lá se espanta: 'Nossa, aqui
até crianças de três anos sabem falar francês!'".
Essa linguagem
chamada "Peter Kubelka" nega qualquer naturalismo e valoriza
o material concreto do cinema: a película. O envolvimento entre
o espectador e aquilo que é projetado nunca é psicológico,
como em um filme "encenado": nas obras de Kubelka, temos sempre
consciência de que estamos, antes de tudo, presenciando uma película
que corre dentro de um projetor. Como se fosse impossível ignorar,
mesmo por instantes, que um filme é nada além de 24 fotogramas
projetados a cada segundo sobre uma superfície branca.
Kubelka escolhe
cuidadosamente cada um desses 24 quadros. Em seu cinema métrico,
as seqüências de fotogramas obedecem a uma rígida relação
matemática, conferindo a seus filmes ritmos às vezes hipnóticos.
Em Adebar (1956-1957), as seqüências duram precisamente
13, 26 e 52 fotogramas. Uma vez desenrolado, é possível
ver no próprio negativo do filme essa relação matemática.
O procedimento
lembra a música dodecafônica, em que a tonalidade simplesmente
não existe, dando lugar apenas ao ritmo de notas que se sucedem.
(Além disso, algumas obras dodecafônicas são compostas
a partir do desenho formado pelas notas na partitura, não tendo
a menor importância a melodia dali resultante.)
Kubelka é
o primeiro a dizer que sua obra sempre foi comparada a mestres do dodecafonismo
como Schonberg e Berg. Mas ele também confessa que não conhecia
esses autores ao realizar seus primeiros filmes métricos, todos
exibidos no CCBB.
10 de
dezembro Adebar
(1956-1957) marcou o início do cinema métrico. O filme obedece
a uma rígida fórmula matemática. São 16 grupos
de planos, cada um com exatos 104 fotogramas, totalizando a duração
total do filme: 1664 fotogramas, ou um minuto, nove segundos e oito fotogramas.
Dentro de
cada grupo de planos, Kubelka cria novos padrões de 13, 26 e 52
fotogramas, alternando imagens em positivo e negativo. Na trilha sonora,
um trecho em "loop" de uma música gravada junto a tribos
de pigmeus.
Como cada
plano é importante para Kubelka, a todo tempo somos obrigados a
lembrar que aquilo que chamamos de "filme" é na verdade
uma sucessão de 24 quadros estáticos impressos em uma película
sendo projetados em uma superfície branca que chamamos "tela".
O cinema de Kubelka, minimalista, nos faz prestar atenção
aos detalhes do aparato cinematográfico e, além, parece
renegar todo e qualquer ilusionismo.
Em suas primeiras
exibições, Adebar era projetado cinco vezes consecutivas
em um mesmo rolo. Kubelka explica que a repetição serve
para alcançar uma espécie de "transe". Segundo
ele, todas as artes vêm da repetição. A dança,
segundo ele, nada mais é além da repetição
mecânica de certos movimentos visando o êxtase.
Kubelka busca
esse "êxtase" nas origens do cinema. Seu cinema se aproxima
muito aos dos irmãos Lumière, os inventores do cinematógrafo.
Diferentemente de Georges Méliès, um dos primeiros a usar
o cinema para fazer trucagens, o cinema de Kubelka (e o dos Lumière
antes dele) mostra que o mecanismo em si é ainda mais belo que
a ilusão que dali pode ser criada.
Em 1957,
a "armadura" de Kubelka funcionou e uma marca de cerveja vienense
o contratou para dirigir um filme publicitário. Segundo ele, sua
câmera tinha negativo suficiente para apenas dois minutos de filmagem,
o que não o impediu de ficar toda uma tarde com as modelos contratadas
pela cervejaria, simulando que a filmagem durava muito mais do que realmente
durou.
Após
um ano de criteriosa montagem, Kubelka concluiu esse filme, chamado Schwechater
(1957-1958). Ao vê-lo pronto, os donos da marca proibiram que fossem
feitas cópias, e o próprio Kubelka só conseguiu a
sua através de um amigo que trabalhava no laboratório. Em
Schwechater praticamente não existe ação,
sendo que alguns planos se resumem a um único fotograma. Vê-se
uma modelo bebendo cerveja. Copos sendo enchidos. Telas brancas. Tudo
ao som de um "beep" sincopado e o uso de filtros vermelhos -
mesma cor do rótulo da cerveja, que aparece ao final do filme.
Kubelka conta
que, certa vez, exibiu o filme a alguns amigos que declararam não
terem visto absolutamente nada. Porém, a filha pequena de um arquiteto
disse, para alegria do cineasta: "O filme mostra uma mulher bebendo
cerveja."
Como esse
era o exato roteiro da cervejaria, Kubelka, não sem uma ponta de
irreverente cinismo, diz que não pode ser acusado de ter descumprido
o roteiro original. Além disso, ele reafirma que seus filmes tem
uma linguagem distinta da produção cinematográfica
corrente: "Da mesma forma que as crianças tem mais facilidade
para aprender novos idiomas, elas lidam melhor com novas linguagens artísticas."
Após
a projeção de Schwechater no Centro Cultural Banco
do Brasil, Kubelka dirigiu-se à platéia e disse: "Um
filme existe no tempo e no espaço. Agora que vocês já
viram Schwechater no tempo, vamos vê-lo no espaço."
Após
dizer isso, foi à cabine de projeção e retornou trazendo
em mãos o pequeno rolo com o filme que acabara de ser projetado.
Deu a ponta para uma pessoa na primeira fileira do cinema e pediu que
o filme fosse desenrolado. Assim foi feito, com a película contornando
as fileiras do pequeno cinema de pouco mais de 60 lugares. Minutos depois,
trabalho concluído, filme desenrolado, Kubelka disse:
"Eis
o filme no espaço: 27,5 metros, 1440 informações
visuais."
Depois de
devidamente "rebobinado" pelo público, o mesmo rolo foi
novamente exibido. Após o público ter manipulado a película,
a projeção de Schwechater ganha novos contornos:
é bem possível que cada espectador tenha ficado mentalmente
calculando que trecho do filme visto na tela estava, minutos antes, em
suas mãos.
Arnulf
Rainer (1958-1960), que encerrou as exibições do primeiro
dia de palestras no CCBB, é também o filme mais minimalista
da mostra e talvez a mais radical de todas as obras de Kubelka. Na tela,
vêem-se apenas uma tela completamente branca ou completamente preta,
que se sucedem segundo as fórmulas matemáticas do diretor.
No som, silêncio e o chamado "ruído branco" se
alternam. A combinação desses quatro elementos (a luz e
sua ausência, o som e o silêncio) criam novas impressões
quanto à (falta de) simultaneidade entre som e imagem.
Para Kubelka,
esse filme lida com todos os elementos do cinema. A mera flicagem do projetor
faz com que imagens se insinuem aos olhos do público e, novamente,
uma espécie de hipnotismo toma conta da platéia. Quem quiser
interpretar Arnulf Rainer pode vê-lo como uma "ode ao
sincronismo": quando o som coincide com a variação
da imagem, é como se algo muito especial surgisse na tela. Uma
espécie de milagre cinematográfico que não tem nada
de corriqueiro ou banal, como quer o cinema que Kubelka chama de "melodramático".
12 de
dezembro No segundo
dia de palestras no CCBB começou com Mosaik Im Vertrauen
(1954-1955). O título do primeiro filme de Kubelka - em português,
Mosaico Em Confiança - dá uma pista de como funciona
o seu cinema. Como em um mosaico, seus filmes partem de pequenos fragmentos
que, reagrupados, formam uma outra imagem. Segundo o cineasta, seus filmes
são feitos no "entre": entre um plano e outro, entre
um som e uma imagem, entre um som e outro.
Nos anos
50, quando Kubelka começou a fazer seus filmes, essas idéias
não eram exatamente uma novidade. Durante a década de 20,
a Rússia conheceu uma geração de cineastas e teóricos
(Sergei Eisenstein, Vselodov Pudovkin, Lev Kuleshov, Dziga Vertov) que
levou o cinema de montagem a seus mais altos patamares. Como prova de
sua admiração pela escola russa, em 1973 Kubelka restaurou
Entusiasmo, de Vertov, cujas cópias conhecidas até
então tinham falhas de sincronismo entre som e imagem.
A idéia
de sincronismo é imprescindível para se compreender o cinema
metafórico de Kubelka. Se em Arnulf Raiser a sincronia parecia
quase milagrosa, em Unsere Afrikareise (1961-1966) ela se torna
redundante. Segundo Kubelka, a imagem de um tiro já quer dizer
"tiro", assim como o som de um tiro também significa
"tiro". Por que então, pergunta ele, é necessário
dizer duas vezes "tiro" na tela de cinema?
Unsere
Afrikareise (Nossa Viagem Africana, em português) é
o peculiar diário de uma viagem que Kubelka fez à África
no início dos anos 60. Durante todo o filme, imagens e sons nunca
coincidem entre si, evitando a lógica do documentário. Para
fazer esse filme (que dura pouco mais de 12 minutos e levou 5 anos para
ficar pronto) Kubelka conta que decorou todos os planos filmados para
só então começar a montá-los. Um método
de trabalho demorado, que também explica sua exígua produção.
O diário
africano de Kubelka é repleto de humor e contundência. Mas,
como o cineasta não permite que seus trabalhos sejam legendados,
quem não entende alemão vai ignorar o conteúdo das
frases ditas ao longo do filme. Para o cineasta, legendas são intervenções
na imagem alheias à vontade do realizador e, portanto, devem ser
proibidas. Outra proibição de Kubelka é a telecinagem
(transferência para vídeo), que faria o filme perder o contato
com sua matéria básica, o fotograma. Portanto, só
existem duas formas de se ver os filmes de Kubelka: projetados em tela
ou na moviola.
O último
filme metafórico projetado no CCBB foi Pause! (1975-1977),
que mostra o artista plástico Arnulf Rainer (que já havia
emprestado seu nome para outro filme) em várias situações,
produzindo sons com seu corpo e tendo um microfone grudado a si. Kubelka
tenta radiografar os sons internos do corpo ou, em última instância,
tenta descobrir como um homem ouve a si mesmo. Pause!, também
o último título da filmografia de Kubelka completou até
agora, fala da subjetividade. Como o próprio Kubelka diz: "O
conceito da realidade é um mito. (...) A espécie humana
não pode ouvir tão bem como os pássaros quando cantam.
Mas nós não precisamos disso. Para sobreviver, não
precisamos entender o que eles cantam. Assim, cada espécie já
tem uma realidade diferente..."
Fazendo o
microfone captar o que se passa dentro do corpo de Arnulf Rainer, Kubelka
parece querer demonstrar sua tese sobre a realidade subjetiva. O que ouvimos
a partir do corpo de Rainer (o que ele efetivamente ouve a partir da "realidade")
parece muito estranho: grunhidos, reverberações, suspiros,
respirações... As relações entre a imagem
e o som novamente se tornam estranhas, como em todos os filmes do que
Kubelka batizou de "cinema metafórico". Para cada pessoa,
o mundo (e o cinema) é uma coisa distinta.
15 de
dezembro "A preparação
da comida - o que se chama comumente de cozinhar - é uma atividade
artística exatamente como o é a preparação
de uma pintura ou de um poema. Na verdade, a cozinha não é
somente uma forma de arte, mas é a mais antiga forma de arte através
da qual a comunicação brotou dentro da humanidade."
O trecho
acima, reproduzido do livro Peter Kubelka - A Essência Do Cinema,
mostra a importância da culinária para o cineasta. "Cozinha
E Outras Artes" era certamente o título mais misterioso do
ciclo de palestras do CCBB. O aviso "com demonstrações"
só servia para atiçar ainda mais a curiosidade do público.
Kubelka começou
explicando, entre outras coisas, que o conceito filosófico e religioso
de bem e mal tem origem na culinária. Por exemplo, no preparo de
uma maionese, deve-se separar a parte boa do ovo (a gema) de sua parte
má (a clara). Alguém na platéia lembrou que a clara
não é necessariamente má, ao que Kubelka respondeu:
"Mas os conceitos de bem e mal também são relativos.
Quando se fala em maionese, a clara sempre é má, não
serve."
Kubelka continuou
a preparar sua maionese vienense: azeite de oliva, alho, sal, limão.
No final, enfiou a ponta do dedo no prato e provou: "No sexto dia,
Deus também provou. E, como o mundo era do seu agrado, ele pôde
descansar."
Após
definir Deus como o mestre-cuca do universo, Kubelka mostrou dois pratos
ao público. Em um deles viam-se todos os ingredientes de sua maionese
e, no outro, a maionese já pronta: "Os ovos da granja, a azeitona
dos campos, o alho do subterrâneo, o sal da montanha, o limão
do pomar..." E, apontando para o outro prato: "a maionese é
a síntese de tudo isso, a síntese do meu reino".
O uso da
vasilha de uma tribo indígena do alto Xingu trouxe novas metáforas
à fórmula de Kubelka, que considera a cozinha uma outra
mesa de montagem em que peças (ou ingredientes) desconexos se moldam
em novos significados (ou paladares). É a repetição
das teorias de montagem de Eisenstein, com uma pequena diferença:
o diretor de O Encouraçado Potemkim jamais usou framboesas
como exemplo.
Kubelka diz
que a culinária, como as outras artes, se faz na análise
(separação entre bem e mal) e a síntese (reunião
dos ingredientes em uma nova metáfora). Ele também avisa,
com veemência, que todos devem fazer sua própria comida.
A cozinha seria o único lugar onde o homem ainda pode exercer seu
livre-arbítrio, encarnando uma espécie de "mestre-cuca
demiurgo" que "prova" o mundo e assim comanda sua criação.
Tendo em mãos um pacote de chocolate, outro de presunto e outro
de iogurte, Kubelka tentou demonstrar suas idéias. Ele lambeu as
três embalagens plásticas para depois dizer que o gosto de
todas era muito parecido. Sem outra alternativa, ele precisou se fiar
à descrição das embalagens. Ele começou a
ler: "edulcorante... conservante... aromatizado artificialmente..."
Na filosofia
culinária de Kubelka, para não nos tornarmos reféns
de textos ininteligíveis, produto da mente de algum burocrata da
indústria de alimentos, é necessário que pratiquemos
a culinária, "a mais antiga forma de arte através da
qual a comunicação brotou dentro da humanidade". Da
mesma forma, o esforço de seu cinema é que o público
não termine refém de um só paladar estético,
tendo a liberdade de exercitar outras possibilidades de arte, outras idéias,
outras linguagens, outros sabores, outros temperos.
Bom apetite.
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