Fevereiro / 2003

Literatura trimmassa


Foto gentilmente roubada do álbum de Daniel Pellizzari
Delfin e Daniel Galera no lançamento da
Livros Do Mal em Campinas

Por Fabio Diaz Camarneiro


O falecido Cardosonline fez história. Fundado em 1998, começou quase como uma brincadeira de André Czarnobai (vulgo "Cardoso"), estudante de jornalismo de Porto Alegre, que começou a enviar e-mails gigantescos para uma lista de 20 amigos, misturando impressões sobre discos e filmes, comentários particulares, crônicas e "egotrips". Outras pessoas começaram a enviar textos, a empreitada ganhou o nome Cardosonline e começou a disponibilizar assinaturas gratuitas, enviando 70 KB de texto puro (aproximadamente 70 mil caracteres) em duas edições semanais. Foi assim, quase acidentalmente, que surgiu um dos mais famosos e-zines da internet brasileira, que em 2001 contava com 5 mil assinantes, 8 colaboradores fixos e tantos outros esporádicos.

Após 278 edições, o Cardosonline pediu desculpas a seus leitores e saiu de cena. Os colaboradores fixos, a coluna dorsal do e-zine, começaram a tocar outros projetos e foi então que Daniel Pellizzari (28 anos), Daniel Galera (23) e Guilherme Pilla (23) resolveram dar um passo atrás na tecnologia e abandonar esse negócio de internet. Os três gaúchos fundaram uma editora, a Livros Do Mal, que hoje conta com meia dúzia de títulos no catálogo e, até o final de 2003, pretende dobrar esse número.

Os primeiros livros, lançados no final de 2001, foram Ovelhas Que Voam Se Perdem No Céu, de Pellizzari (vulgo "Mojo") e Dentes Guardados, de Galera. As capas foram feitas por Pilla. Depois vieram Vidas Cegas, de Marcelo Benvenutti (32), e os recentes Húmus, do baiano Paulo Bullar (22), e Ou Clavículas, de Cristiano Baldi (26), além do segundo livro de Mojo, O Livro Das Cousas Que Acontecem, que também inaugura um novo selo da editora, o "Tumba do Cânone" - os outros livros foram lançados na Coleção Contra A Capa, destinada a livros de estréia.

A diferença da Livros Do Mal em relação às outras editoras do mercado é o tratamento dado aos autores. Os lançamentos da editora são todos co-edições. Em outras palavras, a editora se encarrega das funções editoriais (revisão, edição, registro de direitos autorais, preparação de originais, projeto gráfico, capa, ilustrações, produção gráfica, armazenamento, divulgação, lançamento, distribuição, vendas), e o autor também desembolsa uma quantia, que corresponde aos custos de impressão (o padrão da editora é de 600 exemplares por tiragem).

Por outro lado, a editora se preocupa que o autor recupere seu investimento, se possível na primeira edição. O valor pago para o autor por cada exemplar vendido oscila entre 30% e 50% do preço de capa. (Normalmente, as editoras arcam com todos os custos de impressão e repassam ao autor 5% do valor de cada exemplar vendido.)

Os autores que até agora já embarcaram no esquema "do mal" vieram dia 19 de dezembro a São Paulo autografar seus livros no bar Genésio, na Vila Madalena. Na noite anterior, estiveram em Campinas. Os cinco autores (acompanhados do capista Pilla) deram autógrafos, beberam muito e conversaram com os leitores paulistanos. A família de Bullar apareceu em peso, lotando quase duas mesas. Baldi levou adesivos com a imagem de Jesus Cristo: "Quem comprar meu livro ganha um Jesus!" A ironia é que o autor não é exatamente uma pessoa religiosa. "O Olfato De Ana", um dos contos de Ou Clavículas, é a história de um casal que pensam em explodir uma lancha cheia de judeus apenas porque "eles fedem". Depois, para comprovar o mau-cheiro dos judeus, começam a freqüentar sinagogas. Diz o narrador: "Cheirar judeus não é o meu programa preferido, mas entre exercitar o olfato na sinagoga e explodir uma lancha, acabei escolhendo a primeira opção."

Em meio à bagunça do lançamento, Mojo disse que, em 2003, a meta da editora é lançar outros seis livros. Os dois primeiros já estão agendados: Até O Dia Em Que O Cão Morreu, o segundo de Daniel Galera, sai em abril e, em maio, o mato-grossense Joca Terron (34) lança o seu, ainda sem título definido. Em 2004, Mojo espera que mais 12 títulos do mal cheguem às livrarias.

Pretensos escritores interessados em fazer parte da galera do mal podem começar a preparar os originais. A Livros Do Mal está à caça de jovens talentos dignos do adjetivo "trimmmassa". Livros sobre cultura poop e livros psicografados não interessam, como está explicado aqui.

 

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