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Fevereiro
/ 2003
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O
mundo é uma canção de quatro minutos
O nome The Coral é a primeira indicação. Como todos sabemos, corais são coisa dos quentes mares do Sul, e a nova sensação pop britânica habita a cinzenta cidade portuária de Wirral, a poucos quilómetros de Liverpool. A segunda, uma lista de influências que inclui "a silhueta das ilhas contra o pôr do sol, Walt Disney, Homem Aranha, A Ilha do Tesouro, Peter Pan" e, por fim, os verdadeiros culpados disto tudo, "os Oasis" - "a sério!", asseguram. "Ok, ok, mas tudo isto são indicações de quê?", pergunta o leitor. Pois bem, tudo isto ajuda a explicar o excêntrico paradoxo que são os The Coral - banda que, com a edição do homónimo álbum de estreia, fez a Inglaterra esquecer por momentos a "American Invasion", iniciada por Strokes e White Stripes, e assistir, embevecida, ao nascimento de uma banda pop não só tipicamente britânica como agraciada com certificado de vincada originalidade. Formados por seis rapazes sem idade para comprar cerveja em alguns pubs (o mais velho, o vocalista/guitarrista James Skelly, tem 20 anos), os The Coral são um caleidoscópio de descrição entediante e - cá vem o tal paradoxo - de absoluto fascínio auditivo. Como alguém escreveu sobre a banda, "a questão não é conseguirmos apontar o dedo às referências, a questão é não termos dedos suficientes para as apontar todas". Peguemos em "Calendars and Clocks". Morrissey funde-se com Tom Jones e Jim Morrison para interpretar uma canção perdida dos LA's de Lee Mavers - estranho... Então, e que tal a esquizofrenia blues de Captain Beefheart prensada com as Arábias dos Kaleidoscope; tudo sugado para um inesperado final em regime disco-funk? Ainda mais estranho? Pois, mas está tudo em "Skeleton Key". E, já agora, que dizer de "Shadows Fall", que navega suavemente pelas águas do dub apenas para nos acordar com néons de bar em estrada perdida - os Ventures e os Cramps como bandas convidadas? Nada? Bem, talvez lembrar uma "Goodbye", destaque absoluto do álbum e epopéia condensada em curta-metragem. Há a tradição brit-pop (do Spencer Davies Group aos Kula Shaker), há o Zappa dos Mothers of Invention nos refrões, há os Floyd de Sid Barrett rumo ao cosmos e há delírio garageiro para guitarra debitar feedback. E não, não ocupa todo o lado B da edição em vinil. Viagem completa em quatro minutos. Querem melhor negócio? The Coral são os Super Furry Animals protagonizando Magical Mistery Tour com os Beta Band; são a corrente de consciência de escritor beat em improviso jazzístico nas teclas da máquina de escrever; são o Mr. Kyte de Lennon convocando para o seu circo cinquenta anos de história pop; um marinheiro que junta às melodias do seu cancioneiro sons e imagens de terras distantes. São, em metáfora junkie, um charro [baseado] preparado com todos os estimulantes que a mão consiga alcançar. E esses todos são imensos e o resultado é, como se imagina, devidamente psicadélico, devidamente divagante mas, de forma estranha e cativante, conciso e isento de alienação. Acontece que os The Coral, aparentemente esquizofrénicos, não esquecem o ensinamento dos mestres: "O segredo é a canção". Os Doors podem parecer incompatíveis com os Specials e os Country & The Fish uma heresia para a corrosão punk. Nestas mãos, todos são matéria prima disponível para criação. Com estas mãos, reúnem-se num único ser que celebra alegremente a fusão. Não se sabe se a culpa é de uma construtiva noção de pilhagem, de uma irremediável alergia a classificações, de uma imaginação delirante ou de uma zona portuária onde a miscigenação cultural é centenária. Conhece-se o mote - "A inspiração está absolutamente em todo o lado" - e anuncia-se que, desta vez, o NME está certo. Os The Coral são mesmo a melhor coisa a acontecer à pop britânica desde há muitos anos.
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