Fevereiro / 2003

O corvo e a pós-modernidade


Por Bárbara Lopes

 

Você conhece aquela do jornalista cultural, do executivo de gravadora e do músico popular? Os três estão reunidos em uma casa, numa noite de dezembro, lamentando-se pela baixa venda de discos no ano que passou. "Quando haverá novos Beatles?", pergunta o músico. "Algo de qualidade indiscutível", começa o jornalista, "E que venda pra caralho", completa o executivo. Nesse momento, o corvo de Poe entra pela janela e responde: "Nunca mais".

Você, caro leitor, também é musicomaníaco? Ouve música o tempo todo, lê a respeito, assiste a filmes pela trilha sonora e acaba de lembrar do trecho de uma canção que tem tudo a ver com a conversa? (Eu lembrei: "Ela / Eu vivo o tempo todo pra ela / Minha música / Musa única", do Gil.) Vamos montar um grupo de apoio?

Mas voltemos ao Corvo pessimista. O Corvo só sabe dizer a mesma coisa, e acerta na maior parte das vezes. Ele já havia estado, em outros dezembros quiçá mais frios, em outras casas, respondendo perguntas parecidas*.

1. "Antigamente, a soma dos percentuais de todas as outras emissoras não ultrapassava a audiência da Globo. Veja como isso mudou", dizia Boni em 1998, à revista República. Uma série de coisas aconteceu desde esse "antigamente" (a novela Roque Santeiro, em 1984, chegou a conquistar 80% da audiência) até hoje. Os aparelhos ganharam a companhia indispensável do controle remoto, e já que ficou fácil mudar de canal, que venham novos canais. A classe média aderiu à TV por assinatura ** com seu sem-número de opções. E se, mesmo assim, nada interessante estiver no ar (ou seja, quase sempre), o espectador pode usar seu televisor para assistir a um DVD, jogar videogame ou desligá-lo e procurar coisa melhor na internet. Durante esse mesmo tempo, as vendas de aparelhos explodiram e nunca se viu tanta televisão, e isso não impede que programas de "sucesso garantido" não consigam vender suas cotas de publicidade, nem que a Globo se afunde em dívidas. Alguém se importa?

2. A televisão, por sua vez, já era presente do Corvo, um "Nevermore" dito em forma de válvulas e transístores, em uma casa em Hollywood. Lá, o crítico de cinema, o executivo de estúdio e o diretor se perguntavam quando haveria um novo ... E O Vento Levou. O filme é de 1939 e até o fim do ano seguinte foi visto por 25 milhões de pessoas. Numa comparação problemática, o filme mais visto no Brasil em 2002 foi Homem Aranha, com público de oito milhões. Claro que devemos considerar as diferenças socioculturais entre Brasil e Estados Unidos, mas também o crescimento da população no período, o aumento de número de salas de cinema. E que o primeiro tem o dobro da duração do segundo, o que diminui o número diário de exibições. Como a indústria cinematográfica faz as contas em dólares, não em cabeças, e com os preços dos ingressos subindo, novos recordes volta e meia são estabelecidos (bobagens do nível de Parque Dos Dinossauros). Mas há muito a indústria cinematográfica vive menos dos ingressos e mais da venda de bugigangas e de pipoca. Algum problema?


É isso. Em 1939, um drama épico de quase quatro horas de duração distraía o país que entrando em uma guerra saía de uma crise. Em 1984, quatro em cada cinco pessoas estavam assistindo à mesma novela, uma farsa de fortes contornos políticos. Nunca mais. E é louvável que assim seja. De alguma forma, por mais ingênuo que isso soe, as pessoas não são mais seres tão padronizados a ponto de estarem todos olhando para o mesmo horizonte. Há horizontes para vários tipos e gostos, e mesmo que a maior parte deles seja quase a mesma coisa, sempre tem algo que se salve. Pós-modernidade, que seja.

Então por que devemos ser as viúvas da moribunda indústria fonográfica ***? A crise da indústria nem de longe significa o fim da música. O que mudou é que cada vez mais as pessoas (e especialmente nós do "Compulsivos por Música Anônimos") estão ouvindo coisas diferentes de seus vizinhos - nem mais aquelas ondas avassaladoras como foram o axé, o pagode e a música sertaneja conseguem hegemonia. Ou você realmente acha triste que Rouge não tenha atingido um milhão de cópias? Se a fragmentação ocorre com a televisão, um meio muito mais acessível e a que se recebe muito mais passivamente, sem grandes esforços intelectuais, por que não aconteceria com a música? É muito mais inteligente, ao invés de ficar procurando um novo fenômeno de massas, ir trocando impressões sobre a imensa variedade de coisas bonitas, interessantes ou divertidas que tem por aí. A gente se preocupa com a música e deixa que o corvo cuide da indústria.


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* "Voltarei a ver Lenora?". "Nunca mais". Continuamos perguntando ao Corvo, mesmo sabendo que ele é incapaz de outra resposta.
** Mas pelo ritmo da coisa, parece já estar mudando de opinião.
*** Que terá o mesmo destino dos fabricantes de penicos, segundo a jornalista espanhola Patricia Godes, num artigo que a B*Scene traduziu na primeira edição.

 

 

 

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