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Uma
discografia para entender a MPB
Por
Alex Antunes e Bárbara
Lopes
De
tempos em tempos, a imprensa publica alguma enquete sobre os melhores
discos brasileiros de todos os tempos. Em geral marcadas pela subjetividade
e a idiossincrasia dos votantes (e incluindo quase sempre algum álbum
recente e não-referendado pelo distanciamento histórico),
essas listas alternam alguns achados e alguns votos constrangedores.
O modelo
aqui é diferente são 19 discos (abaixo os números
redondos!), expostos em ordem cronológica, buscando uma perspectiva
histórica. E também há um recorte, ainda que amplo:
traçar uma discografia de MPB.
É
muito fácil identificar a MPB, mas muito dificil, e impreciso,
defini-la. Ao contrário do que às vezes se supõe,
a sigla MPB tem significado restrito pois nem toda música
popular brasileira é MPB.
Mais do que
um gênero ou estilo, MPB é a marca de um tipo de composição
derivado de determinadas raízes musicais nativas (a música
nordestina, a música folclórica do Sudeste, e principalmente
o samba, mas nenhuma dessas em sua forma "pura"), mais
influências externas digeridas (algum jazz, algum pop etc) e abrasileiradas.
MPB também
se refere a uma forma muito peculiar de se escrever letras em língua
portuguesa - uma poética normalmente complexa, feita que é
num idioma de palavras polissilábicas e com grande variação
de acentuação tônica.
Mais do que
uma lista baseada em gostos, o que tentamos aqui foi apresentar artistas
e álbuns que marcaram a carreira de seus autores, e a própria
história da música brasileira moderna.
Caymmi
E Seu Violão - Dorival Caymmi (1959)
O samba nasceu na Bahia, cantaria Vinícius de Moraes, certamente
pensando em Dorival Caymmi. Caymmi E Seu Violão é
o último disco do baiano antes do estouro definitivo da bossa-nova,
que, por um lado, resgataria algumas de suas canções, como
"Rosa Morena", mas que também transformaria sua marcante
voz de barítono em coisa do passado. O disco é dedicado
a uma das temáticas mais caymmiescas de todas: as canções
de pescador, de jangadas que voltam vazias e da doce morte no mar. A influência
de Caymmi pode ser considerada inversamente proporcional ao tamanho de
seu repertório. Conta-se que quando Almir Chediak estava organizando
seu songbook teve de incluir músicas familiares, usada para acalentar
netos, e nem assim conseguiu completar cem canções.
Canção
Do Amor Demais - Elizete Cardoso (1958)
Apenas com parcerias entre Tom Jobim e Vinícius de Moraes, o disco,
que é considerado o marco inicial da bossa-nova, não parece
muito bossa-nova aos ouvidos atuais. Isso por causa da voz de cantora
de rádio de Elizete, nada desafinada, e da orquestração
complexa, nada de uma nota só. O resultado é próximo
ao samba-canção, ao bolero, e mesmo faixas conhecidas da
dupla, como "Janelas Abertas" e "Eu Não Existo Sem
Você" ficam irreconhecíveis. Mas quem nunca ouviu falar
em bossa-nova é capaz de identificar duas músicas que indicam
algo novo acontecendo: "Chega De Saudade", abrindo o disco,
e "Outra Vez". Não é coincidência. As duas
faixas são embaladas pelo revolucionário violão de
João Gilberto, que apareceu por acaso no apartamento da rua Nascimento
e Silva, 107, no Rio de Janeiro. Ainda que na música de Tom (como
no clima de balada de musical da Broadway de "Luciana") já
se prenunciem algumas mudanças na estrutura musical, é a
batida de Joãozinho que vai diferenciar a bossa antiga da nova.
Segundo o livro Bim Bom, de Walter Garcia, "No samba tradicional,
o surdo marca e acentua o tempo fraco(...). João, em contraposição
mantém a marcação regular dos dois tempos do compasso
binário".
Chega
De Saudade - João Gilberto (1959)
Com Chega De Saudade, João Gilberto concluiu a revolução
da bossa-nova, ao trocar o cantar abolerado e pomposo pela voz baixa,
quase sussurrada que virou sua marca. Depois dele, todos os cantores e
cantoras descobriram uma nova maneira de dizer as letras das músicas
- nos primeiros discos de Caetano Veloso, Gal Costa e Chico Buarque a
influência é óbvia. No disco, standards da bossa-nova,
como a faixa-título, "Desafinado" e "Lobo Bobo",
de Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli, suas composições
onomatopaicas, "Hô-bá-lá-lá" e "Bim
Bom", e clássicos mais antigos, que hoje são a tônica
de seu repertório, como "Aos Pés Da Cruz", de
Marino Pinto e Zé da Zilda, e "É Luxo Só",
de Ary Barroso. Chega De Saudade, disco de estréia de João,
também marca a inauguração de sua característica
mais famosa: o perfeccionismo que beira a chatice, levando os produtores
(entre eles, Tom Jobim) à loucura.
Show
Opinião - Nara Leão, Zé Kéti e João
do Vale (1965)
Durante os cinco anos que separam Chega De Saudade do espetáculo
Opinião, a bossa-nova já entrava num beco sem saída,
marcada pelo elitismo, pelo distanciamento de temas populares, pela repetição
de fórmulas - não à toa, uma das músicas dessa
fase, "O Barquinho", de Roberto Menescal, virou o argumento
de todos que consideram a bossa-nova enfadonha. Nara Leão, neste
show, "salva" o gênero, ao reaproximá-lo do samba
e da música nordestina, ao se recusar a cantar apenas as músicas
que ficariam bem para uma moça da zona sul carioca, como ela mesma
diz no show. Ao lado dela, Zé Kéti, "a voz do morro",
e João do Vale, maranhense, negro, analfabeto, mas que sabia fazer
baião (como diz na letra de "Minha História").
A partir de Zé Kéti, é possível recuperar
a tradição de Ismael Silva, Noel Rosa, Ataulfo Alves, Wilson
Batista, Cartola, músicos que realmente inventaram o samba - ao
separá-lo de vez do maxixe, ao criar soluções poéticas
cotidianas e sofisticadas e um tipo, o malandro. João do Vale,
por sua vez, trazia em si a herança da música nordestina
mais agreste, de Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga. No Show Opinião,
essas três linhagens principais do que viria a ser conhecido como
MPB - a bossa-nova classe média de arranjos jazzísticos,
o samba carioca e os ritmos nordestinos - são apresentados à
platéia didaticamente, sem fusões. Há humor (na malícia
das músicas de João, como "Peba Na Pimenta") e
protesto (o espetáculo estreou poucos meses após o golpe
militar. Um dos melhores momentos acontece quando Zé Kéti
explica seu apelido, diminutivo de Zé Quieto. "A letra K estava
dando sorte: Kennedy, Krushev, Kubistchek. Agora parece que não
mais"), num resultado teatral. Maria Bethânia depois substituiria
Nara Leão no show, vindo para o sul trazendo a tiracolo seu irmão
Caetano e interpretando a que seria a versão definitiva de "Carcará",
de João do Vale.
Tropicália
Ou Panis Et Circensis - Rogério Duprat, Caetano Veloso,
Gilberto Gil, Tom Zé, Nara Leão, Gal Costa, Mutantes, Torquato
Neto e Capinan (1968)
Provavelmente nenhum disco brasileiro mereça tanto os adjetivos
"histórico" e "revolucionário". O disco
é um manifesto moderno ("O avanço industrial / vem
trazer nossa redenção", ironiza Tom Zé em "Parque
Industrial") e modernista ("A alegria é a prova dos nove",
o slogan oswaldiano repetido pela "Geléia Geral" de Gilberto
Gil e Torquato Neto). Provocativo: sobra para Chico Buarque e sua Carolina
("E outra moça também, Carolina / Da janela examina
a folia", em "Geléia Geral" e "Você precisa
saber ... da Carolina", em "Baby"), para a Igreja ("Molhada
de vinho e manchada de sangue", em "Miserere Nobis", música
de Gil para letra de Capinan), até para as mães (na subversão
do ditado popular de "Ser mãe / É desdobrar fibra por
fibra / Os corações dos filhos", em "Mamãe
Coragem" e na interpretação cínica de Caetano
Veloso para "Coração Materno", de Vicente Celestino).
Mas o tema principal é conflito entre a música brasileira
e a estrangeira, com os tropicalistas defendendo o ie-ie-iê, as
paradas de sucesso em que desaparece Lindonéia (parceria de Caetano
e Gil, voz de Nara Leão), as guitarras dos Mutantes. Para amarrar
tudo isso, os arranjos vanguardistas do maestro Rogério Duprat.
Construção
- Chico Buarque (1971)
"Construção" é o "Poema Tirado De
Uma Notícia De Jornal" levado às últimas conseqüências.
A letra em si é uma construção, em que as proparoxítonas
funcionam atuam como tijolos que podem ser montados e desmontados ("Beijou
sua mulher como se fosse a última / como se fosse a única
/ como se fosse lógico"). A poesia primorosa ainda ganhou
o apoio vocal do MPB4 e a orquestração de Rogério
Duprat, cujos arranjos sofisticados simulam o tráfego que a morte
do operário atrapalha. Se só essa música já
tornaria qualquer disco uma obra-prima, o disco Construção
ainda tem "Cotidiano" e "Deus Lhe Pague", a versão
de Chico para "Gesùbambino", "Minha História".
Ainda participa do disco o Trio Mocotó, que Chico havia conhecido
em uma apresentação na Itália. O álbum marca
um amadurecimento desde Chico Buarque de Hollanda - Vol. 4 (1970),
e uma escolha na forma de compor, em que a música passa a servir
a letra.
Carlos,
Erasmo - Erasmo Carlos (1971)
Em 1970, a "revolução ingênua" da Jovem
Guarda estava esgotada, e Roberto e Erasmo entravam em suas vidas adultas.
O Rei, apesar das referências a carros e rebeldia ("120...
150... 200 Km Por Hora"), já ia fundo na fase soul-gospel
("Jesus Cristo"), e Erasmo descobrira sua persona mais poética
nas belas "Sentado À Beira Do Caminho" e "Coqueiro
Verde". No ano seguinte, 1971, viria o lançamento daqueles
que são, talvez, seus álbuns definitivos: Roberto Carlos
e Carlos, Erasmo. Roberto chegou à fase mais introspectiva
de "Detalhes" e "Debaixo Dos Caracóis Dos Seus Cabelos",
escrita para Caetano no exílio de Londres, além de seu primeiro
hit de motel, "Amada Amante". O Tremendão, curtindo o
casamento com Narinha, tendo viajado muito - nos dois sentidos -, e sem
a pressão do estrelato, estava atento à realidade, digamos,
mais alternativa e psicoativa, apesar de seu canto suave. A revolução
sexual aparece em Carlos, Erasmo nas faixas "Masculino, Feminino"
e "Não Te Quero Santa", e as drogas em "Maria Joana".
Os músicos incluem os Mutantes (Serginho, Liminha, Ronaldo), o
guitar hero Lanny Gordin (das bandas de Gil, Gal e Macalé), e o
maestro Rogério Duprat. Um who's who de compositores inclui
Caetano (no malemolente arranjo de berimbau para "De Noite Na Cama"),
Jorge Ben ("Ninguém Chora Mais" em versão hendrixiana),
Marcos Valle e um agressivo Taiguara ("26 Anos De Vida Normal"
e "Dois Animais Na Selva Suja Da Rua", com pegada soul). E,
claro, Roberto & Erasmo, no modo surpreendentemente lúcido
e intenso de "É Preciso Dar Um Jeito Meu Amigo", "Mundo
Deserto", "Ciça Cecília", "Gente Aberta".
Pra se ter uma idéia, o momento bíblico do repertório
é... "Sodoma E Gomorra".
Sociedade
Da Grã-Ordem Kavernista Apresenta: Sessão Das Dez
- Raul Seixas, Sérgio Sampaio, Miriam Batucada e Edy Star (1971)
Não é propriamente um grande álbum, mas uma prévia
e um cruzamento de quatro talentos (bom, talvez três) em ascensão.
Raul, que trabalhava na CBS como produtor (Jerry Adriani, entre outros),
"roubou" horas de estúdio para produzir esta maluquice
inspirada em Frank Zappa e na linguagem pop e dos quadrinhos, um anti-manifesto
da MPB. Por causa do disco, foi despedido. Antes de descobrir seu primeiro
grande parceiro, Paulo Coelho, e o rock com inflexão brazuca, Raul
divide a maior parte do trabalho com Sérgio Sampaio. A ênfase,
então, fica no samba irreverente (aqui o termo realmente cabe)
e na proposta sintomaticamente anarquista e contracultural da coisa toda.
Sérgio chegaria ao álbum próprio (o maravilhoso Eu
Quero É Botar Meu Bloco Na Rua) depois que sua música
homônima fez sucesso no Festival Da Canção. Isso seria
em 73, mesmo ano do grande Krig-Ha Bandolo! de Raul. Miriam Batucada
lançaria Amanhã Ninguém Sabe no ano seguinte,
fazendo, na definição de Pedro Alexandre Sanches, "samba
matreiro", elo perdido na "tradição iniciada por
Ademilde Fonseca, arranhada por Elza Soares e prestes a ser entregue a
Baby Consuelo". Também em 74 a Som Livre bancou a carreira-solo
do obscuro baiano-glitter-andrógino Edy Star, em ...Sweet Edy...,
com músicas compostas para ele por Caetano, Gil, Roberto e Erasmo
Carlos (!), provavelmente pensando no filão aberto pelos Secos
& Molhados.
Clube
Da Esquina - Milton Nascimento e Lô Borges (1972)
De um lado, Beatles, do outro, as músicas da folia de reis. Clube
Da Esquina, o apelido daquela turma que reunia Milton Nascimento,
os irmãos Marcio e Lô Borges, Beto Guedes, Wagner Tiso, Toninho
Horta, Ronaldos Bastos e Fernando Brant, se tornou disco que simboliza
toda uma maneira mineira de fazer música, de arranjos sofisticados,
jazzísticos e progressivos (premiados com a extraordinária
voz de Milton Nascimento), e letras, a um tempo, singelas, bucólicas
e engajadas. Também já começava a se apresentar ("San
Vicente" deixa isso claro) a influência sobre Milton da música
política latino-americana, de nomes como Violeta Parra e Mercedes
Sosa. Com um resultado de força universal, os mineiros fizeram
a MPB por um momento dar as costas para o mar e olhar para o interior.
O álbum Clube Da Esquina também inclui clássicos
como "Paisagem Na Janela", "Um Girassol Da Cor Dos Seu
Cabelo" e "Nada Será Como Antes".
Acabou
Chorare - Novos Baianos (1972)
Os Novos Baianos são os filhos rebeldes da Tropicália. O
grupo - Moraes Moreira, Paulinho Boca de Cantor, Pepeu Gomes, Baby Consuelo,
Galvão, Bolacha, Dadi e Baixinho - foi o auge do hippismo no Brasil,
morando todos juntos em comunidade num sítio em Jacarepaguá.
E logo abandonaram o cinismo típico dos tropicalistas, se dedicando
à música brasileira mais tradicional (samba, frevo e choro),
tanto que cabem em seu repertório clássicos como "Brasil
Pandeiro", de Assis Valente, e o frevo "Vassourinhas",
sem qualquer estranheza. Essa música "de raiz" foi atualizada
menos pelo rock (presente na guitarra hendreixiana de Pepeu) e pela música
estrangeira e mais pela influência decisiva de João Gilberto
(ele de novo), que freqüentava o grupo. Esse Acabou Chorare
é o retrato mais perfeito da mistura toda: a voz suave de Baby,
o violão calmo de Moraes, a guitarra virtuosa de Pepeu, a poesia
de Galvão, a percussão divertida dos meninos. Os Novos Baianos
tinham "carne de carnaval", como cantam em "Swing De Campo
Grande", e viraram referência para várias gerações
de músicos, de Cazuza a Los Hermanos.
Aprender
A Nadar - Jards Macalé (1973)
Coadjuvante dos baianos que fundariam o Tropicalismo, o carioca Macalé
trabalhou, como compositor, arranjador e diretor musical, com Maria Bethânia,
Gal Costa e Caetano Veloso, entre meados da década de 60 e o início
da de 70. E os traços pós-tropicalistas ainda estavam bem
claros no seu álbum homônimo de estréia, em 72. Mas,
em 74, Macalé emergiu com toda sua obsessão própria
no ambicioso Aprender A Nadar, escrito com o poeta Waly Salomão,
e lançando a linha da "morbeza" (morbidez e beleza) romântica.
Fortemente enraizado na música brasileira por formação
(foi copista do maestro Severino Araújo), mas influenciado pelas
experiências urbanas da poesia, das artes plásticas e do
cinema underground, Maca apresenta o equivalente discográfico de
um filme de Rogério Sganzerla, em que momentos de lirismo lancinante
convivem com vinhetas anárquicas e cortes abruptos. Dos chamados
compositores "malditos" dos anos 70, Jards Macalé fez
a ponte mais espontânea com formas musicais populares como o samba
e o bolero, talvez comparável à musicalidade de Sérgio
Sampaio. Jorge Mautner foi uma espécie de clown pop e filosófico,
Walter Franco investiu mais no rock e no experimentalismo concreto, e
Tom Zé "estudou o samba", mas para desconstruí-lo.
Secos
& Molhados - Secos & Molhados (1973)
O grupo ofereceu a cabeça em uma bandeja: as letras poéticas
de João Ricardo, o discurso político, a maquiagem e a atitude
andrógina de Ney Matogrosso. Ainda assim, e por isso mesmo, o Secos
& Molhados alcançou um sucesso imediato entre o público,
vendendo 300 mil cópias (ou um milhão, segundo os próprios)
deste primeiro álbum, de 73. Nele, clássicos como "Sangue
Latino" e "O Vira", poemas de Manuel Bandeira ("Rondó
Do Capitão"), Cassiano Ricardo ("Prece Cósmica"
e "As Andorinhas"), Vinícius de Moraes ("Rosa De
Hiroshima") e de João Apolinário, pai de João
Ricardo ("Amor" e "Primavera Nos Dentes"). Espécie
de convergência ideal entre a densidade da tropicália e o
popismo da jovem guarda, o grupo lançaria mais um disco e acabaria
no ano seguinte, em meio a brigas por dinheiro e espaço.
Pérola
Negra - Luiz Melodia (1973)
Depois de Jorge Ben, da Tropicália e de Tim Maia, estava desbravado
o caminho para que jovens compositores propusessem misturas do samba e
do choro com as influências do rock, do blues e da black music.
Mas o próximo gênio a trilhar essa via, de uma maneira orgânica
e elegante, foi Luiz, o filho do compositor Oswaldo Melodia, do morro
do Estácio. Sua música e sua poesia surpreendentes, afiliadas
ao mesmo tempo à tradição do samba (Noel Rosa, Ismael
Silva, Geraldo Silva) e aos "procedimentos" tropicalistas, impressionaram
os poetas Torquato Neto e Waly Salomão, que convenceram Gal Costa
a gravar a linda "Pérola Negra" em 72. O sucesso da música
levou Melodia ao estúdio, para as gravações do seu
primeiro álbum, onde ele superou a versão de Gal com a sua
própria, de cores ainda mais melancólicas - e acrescentando
outras pérolas como "Magrelinha", "Estácio,
Holy Estácio", "Abundantemente Morte" e "Farrapo
Humano".
Tábua
De Esmeralda - Jorge Ben (1974)
O primeiro álbum de Jorge Ben, Samba Esquema Novo, foi lançado
em 63, e já fazia jus ao nome, apresentando uma pegada diferente
no violão que veio do rock, do soul e da bossa - mas que o próprio
Ben descreveu singelamente como a batida do tamborim transportada para
as seis cordas. Desde o início ele emplacou sucessos radiofônicos
de comunicabilidade instantânea, como "Mas Que Nada",
e atingiu seu primeiro ápice criativo na fase em que trabalhou
com o Trio Mocotó, em outro disco que corresponde ao nome: Força
Bruta (70). Já tendo trocado o violão pela guitarra
e acrescentando à sua poesia absolutamente coloquial, espontânea
e casual alguns traços do esoterismo setentista, lançou
em 74 seu LP mais maduro, A Tábua De Esmeralda (do hit "Os
Alquimistas Estão Chegando"). Em meio aos embates ideológicos
da música brasileira, ainda nos anos 60, Ben era uma rara unanimidade.
Foi o único artista convidado tanto por Elis (que gravou "Bicho
Do Mato") para o classudo O Fino Da Bossa, quanto por Roberto
e Erasmo (que gravou "Ninguém Chora Mais") para o iê-iê-iê
da Jovem Guarda. Depois ainda emplacaria o Divino Maravilhoso
dos tropicalistas Caetano e Gil (que gravaram "País Tropical"
com Gal Costa).
Tim
Maia Racional - Tim Maia (1975)
Mais que um grande cantor e compositor black, Tim foi uma força
da natureza, bela, caótica e indomável. Da mesma turma da
Tijuca de onde vieram Roberto e Erasmo Carlos, o jovem Tim viajou no final
dos anos 50 para os EUA, onde conheceu a soul music, e de onde voltou
deportado, em 63, por porte de maconha. Gravado por Elis em 70, a conselho
de Nelson Motta, Tim teve a oportunidade de lançar uma série
de quatro irrepreensíveis álbums entre 70 e 74, todos levando
apenas o seu nome, onde calibrou uma mistura magistral (e altamente combustível)
entre o soul-funk, o rock e as raízes brasileiras. Sua fórmula,
e a de Jorge Ben, mudariam a cara da música popular. Em 75, em
um momento de inconformismo com a indústria e de "iluminação"
espiritual, lançou o exótico e independente álbum
Racional (depois seguido por um segundo volume), todo dedicado
aos ensinamentos da seita Imunização Racional. É
Tim na sua melhor forma de crooner, compositor e arranjador, entre funk,
soul, balada, samba e latinidad, num balanço de riqueza musical
só comparável à posterior banda Black Rio, e aos
melhores momentos de Cassiano e Hyldon. Banido durante anos pelo próprio
Tim, que voltou à "irracionalidade" das drogas e do sexo
(e da disco music) após romper com a seita, o álbum aparece
às vezes em CDs piratas que juntam as duas partes.
Memórias
Cantando - Paulinho da Viola (1976)
Memórias saiu em 1976, quando Paulinho da Viola tinha 34
anos de idade e 14 como compositor. Porém, as memórias de
que falam os discos (esse Cantando e seu par Memórias
Chorando, instrumental, só de chorinhos) vão muito mais
longe, até a gênese do samba. Nesse disco, Paulinho reuniu
composições suas, muitas já conhecidas em outras
vozes, e sambas antigos, como "Nova Ilusão", de Claudionor
Cruz e Pedro Caetano, e "Pra Que Mentir", de Noel Rosa e Vadico.
Em Memórias Cantando, Paulinho se volta para arranjos simples
de samba e sua voz está calma e suave, com sua elegância
característica. A genialidade como letrista também se sobressai
nesse disco, em canções como "Vela No Breu" e
"Meu Novo Sapato". Em "Coisas Do Mundo, Minha Nega",
Paulinho faz uma ponte entre pequenas tragédias cotidianas (um
que não está "sem amor e sem dinheiro", outro
que esquece a promessa feita à mulher de "não beber
mais cachaça", e, por fim, o que morre numa briga) e o lirismo
redentor do samba, num mundo em as coisas estão aí, só
é "preciso aprender".
Beleléu,
Leléu, Eu - Itamar Assumpção E Banda Isca
De Polícia (1980)
Em 1980, quando a MPB já caminhava para uma certa estagnação,
que coincidiria com a explosão do pop-rock-wave ao longo da década,
um espasmo de renovação partiu da chamada "vanguarda
paulistana", reunida em torno do selo e teatro Lira Paulistana. O
primeiro impacto aconteceu com a vitória de Arrigo Barnabé
no Festival Universitário da TV Cultura, com a música "Diversões
Eletrônicas", em 79. Paranaense e formado em música
pela USP como Arrigo, Itamar Assumpção estreou no ano seguinte
com este álbum memorável. Sua mistura de mitologia da malandragem
e poesia elaborada, samba e música elétrica moderna, não
difere substancialmente do enfoque, por exemplo, de Luiz Melodia. A questão
é que aqui o impulso parece se mover da intelligentsia para
a favela (e não o oposto, como no caso de Melô), o que dá
para o trabalho um certo polimento intelectual e antipopular. Expresso,
por exemplo, nos breques que estão mais para jazz-rock do que para
Kid Morengueira, e nos corinhos femininos não-espontâneos,
quase brechtianos no deliberado distanciamento da "naturalidade"
nos arranjos. Mas uma versão samba-rock como a que Branca Di Neve
fez depois para o hino "Nego Dito" confirma a verdadeira dimensão
de Itamar como compositor popular brasileiro.
Samba
Esquema Noise - mundo livre s/a (1994)
Essa é uma observação meio deslocada para uma discografia
de MPB, mas vá lá: o mundo livre s/a é para o rock
brasileiro mais ou menos o que o Pulp foi para o britpop - uma banda que,
tendo perdido a época em que surgiu (anos 80), teve a paciência
de esperar um outro ápice cultural (anos 90). E, ao aparecer, "importou"
certos valores antigos, "adensando" as referências posteriores.
Assim, se Jarvis Cocker fica a meio caminho entre Morrissey e Brett Anderson
do Suede, Fred Zero Quatro tem o seu lugar em algum ponto entre Walter
Franco e Chico Science - ou entre Jorge Ben e Jorge Du Peixe. O acúmulo
de anos de (in)formação resultou num álbum de estréia
tão facetado e complexo que quase destruiu a banda: não
havia como traduzir ao vivo o resultado do mergulho de vários meses
no estúdio. Composições sexies e bacanas como "Musa
Da Ilha Grande" e "A Bola Do Jogo" convivem com o discurso
político de "Homero, O Junkie", psiquiátrico (!)
de "Terra Escura" ou filosófico-sarcástico de
"Samba Esquema Noise". Uma onda que pode ser traduzia por uma
contradição em (três) termos: ginga-punk-livresca.
Em 94 Otto fazia parte do grupo.
Do
Cóccix Até O Pescoço - Elza Soares (2002)
A sambista Elza é o mais notável caso de longevidade artística
da música brasileira. Mas este álbum, com a (eclética)
direção artística de José Miguel Wisnik, vai
mais longe ainda. Aos 66 anos, Elza não só preserva as características
únicas da sua voz e da sua interpretação exaltadas
(antônimas da bossa nova, ainda que igualmente jazzísticas),
como as projeta para o futuro. O disco caminha com naturalidade entre
arranjos ortodoxos ("Bambino", letra de Wisnik para o choro
de Ernesto Nazareth) e até trip-hop - na releitura definitiva de
"Haiti" de Caetano e Gil, ainda mais contemporânea que
a gravação original, e em "A Carne", parceria
de Marcelo Yuka do Rappa com Seu Jorge, ex-Farofa Carioca. Esse papel
renovador é confortável para Elza, coisa clara em álbuns
antigos relançados em CD como Baterista: Wilson Das Neves
(68, de "Deixa Isso Pra Lá") e Elza Pede Passagem
(72, que traz "Saltei De Banda"). E o sinal de que este álbum
não é lançamento isolado, mas faz parte de uma certa
retomada, é a volta simultânea do Trio Mocotó, com
o igualmente bem-sucedido (ainda que mais discreto) Samba Rock
(2001).
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