Fevereiro / 2003

Uma discografia para entender a MPB


Por Alex Antunes e Bárbara Lopes


De tempos em tempos, a imprensa publica alguma enquete sobre os melhores discos brasileiros de todos os tempos. Em geral marcadas pela subjetividade e a idiossincrasia dos votantes (e incluindo quase sempre algum álbum recente e não-referendado pelo distanciamento histórico), essas listas alternam alguns achados e alguns votos constrangedores.

O modelo aqui é diferente – são 19 discos (abaixo os números redondos!), expostos em ordem cronológica, buscando uma perspectiva histórica. E também há um recorte, ainda que amplo: traçar uma discografia de MPB.

É muito fácil identificar a MPB, mas muito dificil, e impreciso, defini-la. Ao contrário do que às vezes se supõe, a sigla MPB tem significado restrito – pois nem toda música popular brasileira é MPB.

Mais do que um gênero ou estilo, MPB é a marca de um tipo de composição derivado de determinadas raízes musicais nativas (a música nordestina, a música folclórica do Sudeste, e principalmente o samba, mas nenhuma dessas em sua forma "pura"), mais influências externas digeridas (algum jazz, algum pop etc) e abrasileiradas.

MPB também se refere a uma forma muito peculiar de se escrever letras em língua portuguesa - uma poética normalmente complexa, feita que é num idioma de palavras polissilábicas e com grande variação de acentuação tônica.

Mais do que uma lista baseada em gostos, o que tentamos aqui foi apresentar artistas e álbuns que marcaram a carreira de seus autores, e a própria história da música brasileira moderna.

Caymmi E Seu Violão
Canção Do Amor Demais
Chega De Saudade
Show Opinião
Tropicália Ou Panis Et Circensis
Construção
Carlos, Erasmo
Sociedade Da Grã-Ordem Kavernista
Clube Da Esquina
Acabou Chorare

Secos & Molhados
Aprender A Nadar
Pérola Negra
Tábua De Esmeralda
Tim Maia Racional
Memórias Cantando
Beleléu, Leléu, Eu
Samba Esquema Noise
Do Cóccix Até O Pescoço

 

Caymmi E Seu Violão - Dorival Caymmi (1959)
O samba nasceu na Bahia, cantaria Vinícius de Moraes, certamente pensando em Dorival Caymmi. Caymmi E Seu Violão é o último disco do baiano antes do estouro definitivo da bossa-nova, que, por um lado, resgataria algumas de suas canções, como "Rosa Morena", mas que também transformaria sua marcante voz de barítono em coisa do passado. O disco é dedicado a uma das temáticas mais caymmiescas de todas: as canções de pescador, de jangadas que voltam vazias e da doce morte no mar. A influência de Caymmi pode ser considerada inversamente proporcional ao tamanho de seu repertório. Conta-se que quando Almir Chediak estava organizando seu songbook teve de incluir músicas familiares, usada para acalentar netos, e nem assim conseguiu completar cem canções.

Canção Do Amor Demais - Elizete Cardoso (1958)
Apenas com parcerias entre Tom Jobim e Vinícius de Moraes, o disco, que é considerado o marco inicial da bossa-nova, não parece muito bossa-nova aos ouvidos atuais. Isso por causa da voz de cantora de rádio de Elizete, nada desafinada, e da orquestração complexa, nada de uma nota só. O resultado é próximo ao samba-canção, ao bolero, e mesmo faixas conhecidas da dupla, como "Janelas Abertas" e "Eu Não Existo Sem Você" ficam irreconhecíveis. Mas quem nunca ouviu falar em bossa-nova é capaz de identificar duas músicas que indicam algo novo acontecendo: "Chega De Saudade", abrindo o disco, e "Outra Vez". Não é coincidência. As duas faixas são embaladas pelo revolucionário violão de João Gilberto, que apareceu por acaso no apartamento da rua Nascimento e Silva, 107, no Rio de Janeiro. Ainda que na música de Tom (como no clima de balada de musical da Broadway de "Luciana") já se prenunciem algumas mudanças na estrutura musical, é a batida de Joãozinho que vai diferenciar a bossa antiga da nova. Segundo o livro Bim Bom, de Walter Garcia, "No samba tradicional, o surdo marca e acentua o tempo fraco(...). João, em contraposição mantém a marcação regular dos dois tempos do compasso binário".

Chega De Saudade - João Gilberto (1959)
Com Chega De Saudade, João Gilberto concluiu a revolução da bossa-nova, ao trocar o cantar abolerado e pomposo pela voz baixa, quase sussurrada que virou sua marca. Depois dele, todos os cantores e cantoras descobriram uma nova maneira de dizer as letras das músicas - nos primeiros discos de Caetano Veloso, Gal Costa e Chico Buarque a influência é óbvia. No disco, standards da bossa-nova, como a faixa-título, "Desafinado" e "Lobo Bobo", de Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli, suas composições onomatopaicas, "Hô-bá-lá-lá" e "Bim Bom", e clássicos mais antigos, que hoje são a tônica de seu repertório, como "Aos Pés Da Cruz", de Marino Pinto e Zé da Zilda, e "É Luxo Só", de Ary Barroso. Chega De Saudade, disco de estréia de João, também marca a inauguração de sua característica mais famosa: o perfeccionismo que beira a chatice, levando os produtores (entre eles, Tom Jobim) à loucura.

Show Opinião - Nara Leão, Zé Kéti e João do Vale (1965)
Durante os cinco anos que separam Chega De Saudade do espetáculo Opinião, a bossa-nova já entrava num beco sem saída, marcada pelo elitismo, pelo distanciamento de temas populares, pela repetição de fórmulas - não à toa, uma das músicas dessa fase, "O Barquinho", de Roberto Menescal, virou o argumento de todos que consideram a bossa-nova enfadonha. Nara Leão, neste show, "salva" o gênero, ao reaproximá-lo do samba e da música nordestina, ao se recusar a cantar apenas as músicas que ficariam bem para uma moça da zona sul carioca, como ela mesma diz no show. Ao lado dela, Zé Kéti, "a voz do morro", e João do Vale, maranhense, negro, analfabeto, mas que sabia fazer baião (como diz na letra de "Minha História"). A partir de Zé Kéti, é possível recuperar a tradição de Ismael Silva, Noel Rosa, Ataulfo Alves, Wilson Batista, Cartola, músicos que realmente inventaram o samba - ao separá-lo de vez do maxixe, ao criar soluções poéticas cotidianas e sofisticadas e um tipo, o malandro. João do Vale, por sua vez, trazia em si a herança da música nordestina mais agreste, de Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga. No Show Opinião, essas três linhagens principais do que viria a ser conhecido como MPB - a bossa-nova classe média de arranjos jazzísticos, o samba carioca e os ritmos nordestinos - são apresentados à platéia didaticamente, sem fusões. Há humor (na malícia das músicas de João, como "Peba Na Pimenta") e protesto (o espetáculo estreou poucos meses após o golpe militar. Um dos melhores momentos acontece quando Zé Kéti explica seu apelido, diminutivo de Zé Quieto. "A letra K estava dando sorte: Kennedy, Krushev, Kubistchek. Agora parece que não mais"), num resultado teatral. Maria Bethânia depois substituiria Nara Leão no show, vindo para o sul trazendo a tiracolo seu irmão Caetano e interpretando a que seria a versão definitiva de "Carcará", de João do Vale.

Tropicália Ou Panis Et Circensis - Rogério Duprat, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Nara Leão, Gal Costa, Mutantes, Torquato Neto e Capinan (1968)
Provavelmente nenhum disco brasileiro mereça tanto os adjetivos "histórico" e "revolucionário". O disco é um manifesto moderno ("O avanço industrial / vem trazer nossa redenção", ironiza Tom Zé em "Parque Industrial") e modernista ("A alegria é a prova dos nove", o slogan oswaldiano repetido pela "Geléia Geral" de Gilberto Gil e Torquato Neto). Provocativo: sobra para Chico Buarque e sua Carolina ("E outra moça também, Carolina / Da janela examina a folia", em "Geléia Geral" e "Você precisa saber ... da Carolina", em "Baby"), para a Igreja ("Molhada de vinho e manchada de sangue", em "Miserere Nobis", música de Gil para letra de Capinan), até para as mães (na subversão do ditado popular de "Ser mãe / É desdobrar fibra por fibra / Os corações dos filhos", em "Mamãe Coragem" e na interpretação cínica de Caetano Veloso para "Coração Materno", de Vicente Celestino). Mas o tema principal é conflito entre a música brasileira e a estrangeira, com os tropicalistas defendendo o ie-ie-iê, as paradas de sucesso em que desaparece Lindonéia (parceria de Caetano e Gil, voz de Nara Leão), as guitarras dos Mutantes. Para amarrar tudo isso, os arranjos vanguardistas do maestro Rogério Duprat.

Construção - Chico Buarque (1971)
"Construção" é o "Poema Tirado De Uma Notícia De Jornal" levado às últimas conseqüências. A letra em si é uma construção, em que as proparoxítonas funcionam atuam como tijolos que podem ser montados e desmontados ("Beijou sua mulher como se fosse a última / como se fosse a única / como se fosse lógico"). A poesia primorosa ainda ganhou o apoio vocal do MPB4 e a orquestração de Rogério Duprat, cujos arranjos sofisticados simulam o tráfego que a morte do operário atrapalha. Se só essa música já tornaria qualquer disco uma obra-prima, o disco Construção ainda tem "Cotidiano" e "Deus Lhe Pague", a versão de Chico para "Gesùbambino", "Minha História". Ainda participa do disco o Trio Mocotó, que Chico havia conhecido em uma apresentação na Itália. O álbum marca um amadurecimento desde Chico Buarque de Hollanda - Vol. 4 (1970), e uma escolha na forma de compor, em que a música passa a servir a letra.

Carlos, Erasmo - Erasmo Carlos (1971)
Em 1970, a "revolução ingênua" da Jovem Guarda estava esgotada, e Roberto e Erasmo entravam em suas vidas adultas. O Rei, apesar das referências a carros e rebeldia ("120... 150... 200 Km Por Hora"), já ia fundo na fase soul-gospel ("Jesus Cristo"), e Erasmo descobrira sua persona mais poética nas belas "Sentado À Beira Do Caminho" e "Coqueiro Verde". No ano seguinte, 1971, viria o lançamento daqueles que são, talvez, seus álbuns definitivos: Roberto Carlos e Carlos, Erasmo. Roberto chegou à fase mais introspectiva de "Detalhes" e "Debaixo Dos Caracóis Dos Seus Cabelos", escrita para Caetano no exílio de Londres, além de seu primeiro hit de motel, "Amada Amante". O Tremendão, curtindo o casamento com Narinha, tendo viajado muito - nos dois sentidos -, e sem a pressão do estrelato, estava atento à realidade, digamos, mais alternativa e psicoativa, apesar de seu canto suave. A revolução sexual aparece em Carlos, Erasmo nas faixas "Masculino, Feminino" e "Não Te Quero Santa", e as drogas em "Maria Joana". Os músicos incluem os Mutantes (Serginho, Liminha, Ronaldo), o guitar hero Lanny Gordin (das bandas de Gil, Gal e Macalé), e o maestro Rogério Duprat. Um who's who de compositores inclui Caetano (no malemolente arranjo de berimbau para "De Noite Na Cama"), Jorge Ben ("Ninguém Chora Mais" em versão hendrixiana), Marcos Valle e um agressivo Taiguara ("26 Anos De Vida Normal" e "Dois Animais Na Selva Suja Da Rua", com pegada soul). E, claro, Roberto & Erasmo, no modo surpreendentemente lúcido e intenso de "É Preciso Dar Um Jeito Meu Amigo", "Mundo Deserto", "Ciça Cecília", "Gente Aberta". Pra se ter uma idéia, o momento bíblico do repertório é... "Sodoma E Gomorra".

Sociedade Da Grã-Ordem Kavernista Apresenta: Sessão Das Dez - Raul Seixas, Sérgio Sampaio, Miriam Batucada e Edy Star (1971)
Não é propriamente um grande álbum, mas uma prévia e um cruzamento de quatro talentos (bom, talvez três) em ascensão. Raul, que trabalhava na CBS como produtor (Jerry Adriani, entre outros), "roubou" horas de estúdio para produzir esta maluquice inspirada em Frank Zappa e na linguagem pop e dos quadrinhos, um anti-manifesto da MPB. Por causa do disco, foi despedido. Antes de descobrir seu primeiro grande parceiro, Paulo Coelho, e o rock com inflexão brazuca, Raul divide a maior parte do trabalho com Sérgio Sampaio. A ênfase, então, fica no samba irreverente (aqui o termo realmente cabe) e na proposta sintomaticamente anarquista e contracultural da coisa toda. Sérgio chegaria ao álbum próprio (o maravilhoso Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua) depois que sua música homônima fez sucesso no Festival Da Canção. Isso seria em 73, mesmo ano do grande Krig-Ha Bandolo! de Raul. Miriam Batucada lançaria Amanhã Ninguém Sabe no ano seguinte, fazendo, na definição de Pedro Alexandre Sanches, "samba matreiro", elo perdido na "tradição iniciada por Ademilde Fonseca, arranhada por Elza Soares e prestes a ser entregue a Baby Consuelo". Também em 74 a Som Livre bancou a carreira-solo do obscuro baiano-glitter-andrógino Edy Star, em ...Sweet Edy..., com músicas compostas para ele por Caetano, Gil, Roberto e Erasmo Carlos (!), provavelmente pensando no filão aberto pelos Secos & Molhados.

Clube Da Esquina - Milton Nascimento e Lô Borges (1972)
De um lado, Beatles, do outro, as músicas da folia de reis. Clube Da Esquina, o apelido daquela turma que reunia Milton Nascimento, os irmãos Marcio e Lô Borges, Beto Guedes, Wagner Tiso, Toninho Horta, Ronaldos Bastos e Fernando Brant, se tornou disco que simboliza toda uma maneira mineira de fazer música, de arranjos sofisticados, jazzísticos e progressivos (premiados com a extraordinária voz de Milton Nascimento), e letras, a um tempo, singelas, bucólicas e engajadas. Também já começava a se apresentar ("San Vicente" deixa isso claro) a influência sobre Milton da música política latino-americana, de nomes como Violeta Parra e Mercedes Sosa. Com um resultado de força universal, os mineiros fizeram a MPB por um momento dar as costas para o mar e olhar para o interior. O álbum Clube Da Esquina também inclui clássicos como "Paisagem Na Janela", "Um Girassol Da Cor Dos Seu Cabelo" e "Nada Será Como Antes".

Acabou Chorare - Novos Baianos (1972)
Os Novos Baianos são os filhos rebeldes da Tropicália. O grupo - Moraes Moreira, Paulinho Boca de Cantor, Pepeu Gomes, Baby Consuelo, Galvão, Bolacha, Dadi e Baixinho - foi o auge do hippismo no Brasil, morando todos juntos em comunidade num sítio em Jacarepaguá. E logo abandonaram o cinismo típico dos tropicalistas, se dedicando à música brasileira mais tradicional (samba, frevo e choro), tanto que cabem em seu repertório clássicos como "Brasil Pandeiro", de Assis Valente, e o frevo "Vassourinhas", sem qualquer estranheza. Essa música "de raiz" foi atualizada menos pelo rock (presente na guitarra hendreixiana de Pepeu) e pela música estrangeira e mais pela influência decisiva de João Gilberto (ele de novo), que freqüentava o grupo. Esse Acabou Chorare é o retrato mais perfeito da mistura toda: a voz suave de Baby, o violão calmo de Moraes, a guitarra virtuosa de Pepeu, a poesia de Galvão, a percussão divertida dos meninos. Os Novos Baianos tinham "carne de carnaval", como cantam em "Swing De Campo Grande", e viraram referência para várias gerações de músicos, de Cazuza a Los Hermanos.

Aprender A Nadar - Jards Macalé (1973)
Coadjuvante dos baianos que fundariam o Tropicalismo, o carioca Macalé trabalhou, como compositor, arranjador e diretor musical, com Maria Bethânia, Gal Costa e Caetano Veloso, entre meados da década de 60 e o início da de 70. E os traços pós-tropicalistas ainda estavam bem claros no seu álbum homônimo de estréia, em 72. Mas, em 74, Macalé emergiu com toda sua obsessão própria no ambicioso Aprender A Nadar, escrito com o poeta Waly Salomão, e lançando a linha da "morbeza" (morbidez e beleza) romântica. Fortemente enraizado na música brasileira por formação (foi copista do maestro Severino Araújo), mas influenciado pelas experiências urbanas da poesia, das artes plásticas e do cinema underground, Maca apresenta o equivalente discográfico de um filme de Rogério Sganzerla, em que momentos de lirismo lancinante convivem com vinhetas anárquicas e cortes abruptos. Dos chamados compositores "malditos" dos anos 70, Jards Macalé fez a ponte mais espontânea com formas musicais populares como o samba e o bolero, talvez comparável à musicalidade de Sérgio Sampaio. Jorge Mautner foi uma espécie de clown pop e filosófico, Walter Franco investiu mais no rock e no experimentalismo concreto, e Tom Zé "estudou o samba", mas para desconstruí-lo.

Secos & Molhados - Secos & Molhados (1973)
O grupo ofereceu a cabeça em uma bandeja: as letras poéticas de João Ricardo, o discurso político, a maquiagem e a atitude andrógina de Ney Matogrosso. Ainda assim, e por isso mesmo, o Secos & Molhados alcançou um sucesso imediato entre o público, vendendo 300 mil cópias (ou um milhão, segundo os próprios) deste primeiro álbum, de 73. Nele, clássicos como "Sangue Latino" e "O Vira", poemas de Manuel Bandeira ("Rondó Do Capitão"), Cassiano Ricardo ("Prece Cósmica" e "As Andorinhas"), Vinícius de Moraes ("Rosa De Hiroshima") e de João Apolinário, pai de João Ricardo ("Amor" e "Primavera Nos Dentes"). Espécie de convergência ideal entre a densidade da tropicália e o popismo da jovem guarda, o grupo lançaria mais um disco e acabaria no ano seguinte, em meio a brigas por dinheiro e espaço.

Pérola Negra - Luiz Melodia (1973)
Depois de Jorge Ben, da Tropicália e de Tim Maia, estava desbravado o caminho para que jovens compositores propusessem misturas do samba e do choro com as influências do rock, do blues e da black music. Mas o próximo gênio a trilhar essa via, de uma maneira orgânica e elegante, foi Luiz, o filho do compositor Oswaldo Melodia, do morro do Estácio. Sua música e sua poesia surpreendentes, afiliadas ao mesmo tempo à tradição do samba (Noel Rosa, Ismael Silva, Geraldo Silva) e aos "procedimentos" tropicalistas, impressionaram os poetas Torquato Neto e Waly Salomão, que convenceram Gal Costa a gravar a linda "Pérola Negra" em 72. O sucesso da música levou Melodia ao estúdio, para as gravações do seu primeiro álbum, onde ele superou a versão de Gal com a sua própria, de cores ainda mais melancólicas - e acrescentando outras pérolas como "Magrelinha", "Estácio, Holy Estácio", "Abundantemente Morte" e "Farrapo Humano".

Tábua De Esmeralda - Jorge Ben (1974)
O primeiro álbum de Jorge Ben, Samba Esquema Novo, foi lançado em 63, e já fazia jus ao nome, apresentando uma pegada diferente no violão que veio do rock, do soul e da bossa - mas que o próprio Ben descreveu singelamente como a batida do tamborim transportada para as seis cordas. Desde o início ele emplacou sucessos radiofônicos de comunicabilidade instantânea, como "Mas Que Nada", e atingiu seu primeiro ápice criativo na fase em que trabalhou com o Trio Mocotó, em outro disco que corresponde ao nome: Força Bruta (70). Já tendo trocado o violão pela guitarra e acrescentando à sua poesia absolutamente coloquial, espontânea e casual alguns traços do esoterismo setentista, lançou em 74 seu LP mais maduro, A Tábua De Esmeralda (do hit "Os Alquimistas Estão Chegando"). Em meio aos embates ideológicos da música brasileira, ainda nos anos 60, Ben era uma rara unanimidade. Foi o único artista convidado tanto por Elis (que gravou "Bicho Do Mato") para o classudo O Fino Da Bossa, quanto por Roberto e Erasmo (que gravou "Ninguém Chora Mais") para o iê-iê-iê da Jovem Guarda. Depois ainda emplacaria o Divino Maravilhoso dos tropicalistas Caetano e Gil (que gravaram "País Tropical" com Gal Costa).

Tim Maia Racional - Tim Maia (1975)
Mais que um grande cantor e compositor black, Tim foi uma força da natureza, bela, caótica e indomável. Da mesma turma da Tijuca de onde vieram Roberto e Erasmo Carlos, o jovem Tim viajou no final dos anos 50 para os EUA, onde conheceu a soul music, e de onde voltou deportado, em 63, por porte de maconha. Gravado por Elis em 70, a conselho de Nelson Motta, Tim teve a oportunidade de lançar uma série de quatro irrepreensíveis álbums entre 70 e 74, todos levando apenas o seu nome, onde calibrou uma mistura magistral (e altamente combustível) entre o soul-funk, o rock e as raízes brasileiras. Sua fórmula, e a de Jorge Ben, mudariam a cara da música popular. Em 75, em um momento de inconformismo com a indústria e de "iluminação" espiritual, lançou o exótico e independente álbum Racional (depois seguido por um segundo volume), todo dedicado aos ensinamentos da seita Imunização Racional. É Tim na sua melhor forma de crooner, compositor e arranjador, entre funk, soul, balada, samba e latinidad, num balanço de riqueza musical só comparável à posterior banda Black Rio, e aos melhores momentos de Cassiano e Hyldon. Banido durante anos pelo próprio Tim, que voltou à "irracionalidade" das drogas e do sexo (e da disco music) após romper com a seita, o álbum aparece às vezes em CDs piratas que juntam as duas partes.

Memórias Cantando - Paulinho da Viola (1976)
Memórias saiu em 1976, quando Paulinho da Viola tinha 34 anos de idade e 14 como compositor. Porém, as memórias de que falam os discos (esse Cantando e seu par Memórias Chorando, instrumental, só de chorinhos) vão muito mais longe, até a gênese do samba. Nesse disco, Paulinho reuniu composições suas, muitas já conhecidas em outras vozes, e sambas antigos, como "Nova Ilusão", de Claudionor Cruz e Pedro Caetano, e "Pra Que Mentir", de Noel Rosa e Vadico. Em Memórias Cantando, Paulinho se volta para arranjos simples de samba e sua voz está calma e suave, com sua elegância característica. A genialidade como letrista também se sobressai nesse disco, em canções como "Vela No Breu" e "Meu Novo Sapato". Em "Coisas Do Mundo, Minha Nega", Paulinho faz uma ponte entre pequenas tragédias cotidianas (um que não está "sem amor e sem dinheiro", outro que esquece a promessa feita à mulher de "não beber mais cachaça", e, por fim, o que morre numa briga) e o lirismo redentor do samba, num mundo em as coisas estão aí, só é "preciso aprender".

Beleléu, Leléu, Eu - Itamar Assumpção E Banda Isca De Polícia (1980)
Em 1980, quando a MPB já caminhava para uma certa estagnação, que coincidiria com a explosão do pop-rock-wave ao longo da década, um espasmo de renovação partiu da chamada "vanguarda paulistana", reunida em torno do selo e teatro Lira Paulistana. O primeiro impacto aconteceu com a vitória de Arrigo Barnabé no Festival Universitário da TV Cultura, com a música "Diversões Eletrônicas", em 79. Paranaense e formado em música pela USP como Arrigo, Itamar Assumpção estreou no ano seguinte com este álbum memorável. Sua mistura de mitologia da malandragem e poesia elaborada, samba e música elétrica moderna, não difere substancialmente do enfoque, por exemplo, de Luiz Melodia. A questão é que aqui o impulso parece se mover da intelligentsia para a favela (e não o oposto, como no caso de Melô), o que dá para o trabalho um certo polimento intelectual e antipopular. Expresso, por exemplo, nos breques que estão mais para jazz-rock do que para Kid Morengueira, e nos corinhos femininos não-espontâneos, quase brechtianos no deliberado distanciamento da "naturalidade" nos arranjos. Mas uma versão samba-rock como a que Branca Di Neve fez depois para o hino "Nego Dito" confirma a verdadeira dimensão de Itamar como compositor popular brasileiro.

Samba Esquema Noise - mundo livre s/a (1994)
Essa é uma observação meio deslocada para uma discografia de MPB, mas vá lá: o mundo livre s/a é para o rock brasileiro mais ou menos o que o Pulp foi para o britpop - uma banda que, tendo perdido a época em que surgiu (anos 80), teve a paciência de esperar um outro ápice cultural (anos 90). E, ao aparecer, "importou" certos valores antigos, "adensando" as referências posteriores. Assim, se Jarvis Cocker fica a meio caminho entre Morrissey e Brett Anderson do Suede, Fred Zero Quatro tem o seu lugar em algum ponto entre Walter Franco e Chico Science - ou entre Jorge Ben e Jorge Du Peixe. O acúmulo de anos de (in)formação resultou num álbum de estréia tão facetado e complexo que quase destruiu a banda: não havia como traduzir ao vivo o resultado do mergulho de vários meses no estúdio. Composições sexies e bacanas como "Musa Da Ilha Grande" e "A Bola Do Jogo" convivem com o discurso político de "Homero, O Junkie", psiquiátrico (!) de "Terra Escura" ou filosófico-sarcástico de "Samba Esquema Noise". Uma onda que pode ser traduzia por uma contradição em (três) termos: ginga-punk-livresca. Em 94 Otto fazia parte do grupo.

Do Cóccix Até O Pescoço - Elza Soares (2002)
A sambista Elza é o mais notável caso de longevidade artística da música brasileira. Mas este álbum, com a (eclética) direção artística de José Miguel Wisnik, vai mais longe ainda. Aos 66 anos, Elza não só preserva as características únicas da sua voz e da sua interpretação exaltadas (antônimas da bossa nova, ainda que igualmente jazzísticas), como as projeta para o futuro. O disco caminha com naturalidade entre arranjos ortodoxos ("Bambino", letra de Wisnik para o choro de Ernesto Nazareth) e até trip-hop - na releitura definitiva de "Haiti" de Caetano e Gil, ainda mais contemporânea que a gravação original, e em "A Carne", parceria de Marcelo Yuka do Rappa com Seu Jorge, ex-Farofa Carioca. Esse papel renovador é confortável para Elza, coisa clara em álbuns antigos relançados em CD como Baterista: Wilson Das Neves (68, de "Deixa Isso Pra Lá") e Elza Pede Passagem (72, que traz "Saltei De Banda"). E o sinal de que este álbum não é lançamento isolado, mas faz parte de uma certa retomada, é a volta simultânea do Trio Mocotó, com o igualmente bem-sucedido (ainda que mais discreto) Samba Rock (2001).

 

 

 

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