Fevereiro / 2003

E ele é só um moleque...


Por Juliana Zambelo

 

O jovem Mike Skinner

Está lá. Quase todos os críticos, britânicos ou não, concordam que Original Pirate Material, o álbum de estréia do The Streets, é um retrato perfeito da juventude atual. É esse tipo de unanimidade que comprova: críticos de música escrevem tantas bobagens que às vezes nem dá para acreditar que eles ganham para isso.

Generalizações são sempre erros. Como pode ser possível apontar a voz de uma geração tão facilmente, em uma dúzia de músicas? Se for assim, o que resume a juventude do final dos anos 60? "Pessoas doces com flores nos cabelos" indo para a "San Francisco" de Scott McKensie ou aquele "1969" como "mais um ano sem nada para fazer" e sem diversão dos Stooges? Ou seria a heroína e o sadomasoquismo do Velvet Underground? Afinal, parece que não é mesmo tão simples.

O álbum se auto-define como "um dia na vida de um geezer". Se você é um desses jovens que vive para sair à noite para beber (no pub ou no boteco, tanto faz), fumar maconha e brigar por causa de garotas, essas músicas falam de você. Elas são a sua vida colocada em palavras e música, em versos como "Nós comemos junk food, sentamos bêbados no metrô / Toda vez que o trem balança eu sinto que vou vomitar" e "Noite passada tomamos um porre mas estamos de volta na luz do dia / Falando merdas, sentados contando piadas, brincando com o sal, olhando pela janela". Sem dúvida isso é o espelho de parte dessa geração - e um espelho com um bom reflexo, crítico, verdadeiro e muito bem escrito - mas não de toda ela.

Dito isso, podemos falar da música.

Ao contrário do que o nome possa sugerir, esse não se trata de mais um grupo novo de rock como The Strokes, The Hives e tantos outros The's que surgiram ultimamente. The Streets já foi chamado de várias coisas, porque ele na verdade é uma mistura tão variada de estilos que (como poucas vezes acontece) nenhum rótulo lhe cabe. O som do Streets é british garage - uma junção de música eletrônica (basicamente jungle e drum'n'bass) com elementos de rap - só que incrementada com pequenas porções de ska, reggae e até funk. Tudo com um toque inglês pesado e inconfundível, seja no forte sotaque com que as letras são faladas, ou "cuspidas" no estilo hip hop, ou nos temas.

The Streets criou, então, um novo tipo de som. Isso impressiona mais ainda quando nos vemos diante do fato de que esse é o pseudônimo de nada mais que um garoto de 22 anos, Mike Skinner, que fez todo o álbum Original Pirate Material sozinho em seu quarto na cidade inglesa de Birmingham.

"Let's Push Things Forward" é a música mais melódica do álbum, e por isso a que mais gruda na cabeça. Tem um quê de "Ghost Town", clássico do Specials, com um refrão dos bons: "Você diz que tudo soa igual / Aí você vai e os compra", idéia completada mais adiante com o verso "Não se conforme com fórmulas". "The Irony of It All" é um engraçado diálogo entre um sujeito defendendo seu direito de ser um bêbado e outro tecendo elogios à maconha, e o jeito como a música varia de um som agressivo para um reggae fraquinho quando muda de narrador é quase genial.

E então, em uns poucos momentos, o disco chega bem perto de alcançar aquela universalidade que os críticos anunciaram, quando fala da falta de perspectiva e direção e da solidão que aflige (agora sim) a maioria dos jovens da virada do milênio. "Stay Positive" começa com "Porque esse mundo engole almas", e vai nesse caminho: "Você está ficando louco / Talvez sempre tivesse sido / mas quando as coisas estavam indo bem você não ligou /.../ Mas ninguém escuta seus amigos estão rindo / ... / Você nasceu sozinho e, acredite, vai morrer sozinho".

A seqüência "Same Old Thing" e "Geezers Need Excitement" lembra o discurso do filme O Clube Da Luta: os jovens de hoje crescem acreditando que serão astros de cinema ou rockstars, mas um dia percebem que isso não vai acontecer e ficam muito bravos. "Same Old Thing" fala da angústia da rotina que não se altera nunca ("Por aqui nada parece mudar / a mesma coisa todos os dias / Aparentemente tem um mundo inteiro lá fora em algum lugar / Mas eu não consigo vê-lo"), enquanto a segunda aponta as causas da violência sem sentido provocada por jovens entediados.

Pelos bons momentos das letras e pela criatividade do som, The Streets é muito mais valioso do que um paspalho preconceituoso cantando sobre como ele se acha bonzão, o quanto foi maltratado pela sua mãezinha quando era criança e como é errado ser gay. Porém, da mesma forma que qualquer outro álbum lançado, seja ele bom ou ruim, Original Pirate Material não é para todo mundo. Talvez esse disco não seja para você. Mas cabe a você decidir, e não a mim decretar. Não dê ouvidos aos críticos. Eles não sabem de nada. A música que diz o que você sente, que é um retrato da sua vida, só você pode saber qual é.

 

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