Fevereiro / 2003

A farsa de miss Svetlana


Por Bárbara Lopes e Katia Abreu

 

Foto: Cezar Kirizawa
Apresentação do Svetlana no Upload, em São Paulo

As pessoas que saíram comovidas da apresentação do Svetlana no Upload, em São Paulo, podem ficar surpresos: "somos um punhado de poseurs babões", confessa o vocalista Luís Henrique Pellanda em entrevista à B*Scene. Os curitibanos do Svetlana arrancaram suspiros da platéia paulistana com seu som que lembra Tindersticks, Leonard Cohen e Belle & Sebastian, principalmente nos duetos com a suíça Edith de Camargo. O piano e o acordeón no lugar das guitarras criavam uma atmosfera densa, evocando antigos cabarés franceses. Tudo farsa. Até a maneira de cantar é forçadamente afetada. "O clima resultante, claro, é denso. Mas também patético, no sentido mais sentimental da palavra", explica Pellanda.

Infelizmente, quem não pôde presenciar alguns dos shows da banda vai ter que esperar para conhecer o trabalho da revelação nacional de 2002. O grupo, que existe há cerca de um ano, promete entrar em estúdio pela primeira vez no começo deste ano. O vocalista e principal compositor do Svetlana ainda falou sobre a formação da banda, concursos de miss e o projeto de fazer música de bordel.


Svetlana se formou a partir de duas outras bandas: Woyzeck e Wandula. Como se deu essa junção e de que maneira a sonoridade dos dois grupos anteriores está presente no Svetlana?
Foi algo bastante natural. O Woyzeck, havia cerca de dois anos, já vinha sofrendo certas mudanças que, pelo menos para nós, chegaram em hora excelente. Estávamos um pouco cansados daquela esbórnia que fazíamos desde 92 - quando iniciamos a fase abrasileirada que só terminaria em 98, com a gravação do CD Quebra-Queixo. Fisicamente cansados. Tocar aquilo ao vivo nos fazia perder peso demais. Desidratava-nos perigosamente. E, aos poucos, fomos nos sentindo um pouco distantes da idéia inicial daquela bandinha criada em 89 por um grupelho de adolescentes que ouviam Velvet. Queríamos tocar rock, ora. Simples assim. Voltamos ao início. Queríamos a nossa diversão de volta, sem que ela precisasse desenvolver profissionalismos ou potenciais de comercialização. Afinal, nosso mercadinho oficial brasileiro é muito xarope. Raso e endinheirado demais. Às favas com ele. Então começamos de novo, compondo canções românticas em inglês, quase que por brincadeira. Como precisávamos de um pianista para aumentar o "efeito boate" que pretendíamos dar ao nosso show, chamamos o Marcelo Torrone, do Wandula, amigo de já uma década. E a coisa funcionou. O que seria uma dúzia de participações especiais tornou-se parceria inevitável. Somamos o exagero dramático com que vínhamos brincando ao minimalismo do Torrone. Ficou bem dosado. Depois, a Edith de Camargo - que andava enciumada - acabou sendo convidada para uns duetos comigo. Eu era louco para cantar com ela. Ficou ainda melhor: a Edith é um fenômeno. A Maravilha dos Alpes. O resultado nos pareceu tão bom que fomos obrigados a criar uma nova banda. O nome? Coincidentemente, Woyzeck e Wandula eram nomes próprios da mesma região da Europa. Pensamos em arranjar outro semelhante. Na época, eu era repórter de um jornal popular aqui em Curitiba, o extinto Primeira Hora, e cobria uma infinidade de concursos de miss. Certa noite, durante o Miss Nations 2001, conheci várias mulheres do Leste Europeu, ainda consideradas "carne nova" no mercado internacional das beldades e também da pornografia e da prostituição de luxo. Entre elas, havia uma moça particularmente impressionante, a representante da Lituânia. Um metro e oitenta e poucos, loura num minivestido cor-de-rosa. Chamava-se Svetlana M. Era a melhor de todas. Injustamente, perdeu para a candidata da Bolívia. Paciência.

No Woyzeck o humor era uma componente bastante presente presente. O Svetlana, pelo contrário, tem em torno de si uma atmosfera mais densa, que nem de longe dá margem a risos. Podemos dizer que Svetlana é uma banda de rock para adultos, sem a irreverência que muitos acreditam ser necessária para conquistar um público mais jovem (adolescente)?
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Não creio. Porque, como você mesma sugeriu, "muitos acreditam". Mas nem todos. Vou responder, no entanto, mais ordenadamente. Sobre o humor. Pode ser que, durante o show, o público não ria ou mesmo não se divirta, mas saiba que nós, na verdade, estamos achando tudo aquilo extremamente engraçado. Parece-me evidente. Em primeiro lugar, porque cantamos, sim, de maneira afetada. (Qualquer canto, diga-se de passagem, já é uma afetação.) Eu canto como uma espécie demodê de crooner. É divertidíssimo. E o sotaque germânico carregado da nossa cantora suíça se encarrega de completar a farsa. Adoramos o clima resultante - que, claro, é denso. Mas também patético, no sentido mais sentimental da palavra. Não há nada melhor que canções de amor. E quem ama está sempre sujeito às inconveniências do ridículo. Fora isso, outros detalhes colaboram para consolidar essa definição - às vezes formulada pejorativamente - de que somos um punhado de poseurs babões. Nos apresentamos sentados, por exemplo. Por quê? A Edith toca um acordeón enorme. Precisa de uma cadeira. Ela não é nenhuma sanfoneira de pé-de-serra. E eu não gosto da idéia de ficar de pé, mais alto que ela, rebolando desrespeitosa e bobamente pelo palco. Não vou ficar dançando por aí. Outra: fumo muito durante o show. Simplesmente porque sou viciado e ansioso, nada mais. Procuro, então, manter as mãos ocupadas. Agora, quanto à irreverência para os nossos adolescentes. Lembro-me de que, na década de 80, eu ouvia Jesus, Smiths, Echo, Cure e outros bichos. Todos uns belos palhaços dramáticos. Mas, na época, aquilo parecia sério. Eu era um adolescente, afinal, ainda desenvolvendo minha ironia. Pense em todos aqueles hormônios. Adolescentes têm piriris existenciais, crises de choradeira, ataques estúpidos de riso. São uns maníacos-depressivos que alardeiam o seu mal-estar. É chato mas passa. E, por fim, é ótimo que muitos adultos tenham gostado do Svetlana. Somos adultos, não? E estamos, sabe-se lá o motivo, nos comunicando. Melhor ainda é espiar, durante a apresentação, a silhueta dos casaizinhos apaixonados se atracando pelas mesas. Talvez seja isso que queiramos: gente se pegando por aí.

Quem é o responsável pelas composições da banda? Porque a escolha de cantar em inglês ou francês, se você mesmo, na época do Woyzeck, já tinha a experiência de compor em portugues?
Até agora, eu compus a maioria. Mas estou sendo seguido de perto pela Edith, pelo Torrone e pelo Denis Nunes, nosso grande baixista. E espero, sinceramente, que me ultrapassem. São músicos de primeira, enquanto eu sou apenas um enganador bem-intencionado. Estou, aliás, muito bem acompanhado no Svetlana. É gente de talento e bom gosto, amigos de muito tempo ou muita consideração. Cantamos em inglês, francês ou alemão porque quisemos, eu acho, sem que planejássemos qualquer coisa. A música nos permite esses caprichos e irresponsabilidades, ainda mais que nunca ouvimos, lá fora, na rua, os gritos de uma multidão pedindo para que compuséssemos em português. Os puristas - sempre há puristas - chiam sem motivo. Chatos, devo dizer. Moralistas, em certo sentido. Querem perceber em tudo o tal elemento de identificação nacional. Para quê?, eu pergunto. Precisamos "parecer" brasileiros? Já não somos? Precisamos representar a pátria? Onde? Para quê? Para a Edith, especialmente, isso não faz sentido algum. E, indo mais além, se cada um de nós precisasse representar as maravilhas de sua terra - como fazem as misses bonitinhas -, que bicho daria? Eu cantaria, obrigatoriamente, música sertaneja. E a Edith, música tirolesa. Para que pudéssemos formar uma dupla, seríamos forçados a criar um monstro, tentacular e descoordenado. Poderia até ser interessante mas, sinceramente, não tenho a disposição para esse tipo de experiência aberratória. O inglês e o francês são mais indicados, enfim, para a atmosfera de cabaré que nossas canções pretendem simular. Em português, quem sabe?, pareceríamos músicos de zona. Inclusive, temos um projeto, em estado de latência, de montar uma banda nesses moldes do meretrício, a Boate Guarânia. Com direito a bailão. A canção popular nos oferece oportunidades infinitas de exploração. Coisa bastante boa.

As referências sonoras do Svetlana variam desde clássicos do alternativo como Nick Cave, Tindersticks e Leonard Cohen até a chanson française. Como vocês definem o resultado dessa mistura tão refinada?
Difícil dizer. Não houve, como eu já expliquei, um planejamento prévio. Apenas um acaso feliz, uma união de gente agradável. O J. C. Branco, por exemplo, é um baterista de rock perfeito. Econômico e preciso, faz arranjos bonitos e fortes. O Denis é um verdadeiro maestro, músico da noite e de estúdio, toca de tudo em qualquer lugar. A Edith, abençoada, nos trouxe a tradição da canção popular européia. E o Torrone é o que poderíamos chamar de "pianista maluco". Posso falar de mim com um pouco mais de propriedade e, mesmo assim, de maneira informal e um tanto ingênua. Eu sempre ouvi Lou Reed, John Cale, David Bowie, Tom Waits, Nick Cave e Leonard Cohen. E, sem querer, eduquei-me pela cartilha dessas pessoas. No Woyzeck, passei muito tempo cantando alucinadamente. Mas a voz, ali, exercia mais uma função percussiva que, acredito, não atingiu o seu objetivo. Experimentávamos, eu e o Dalton Sakamoto (vocais e guitarra), algumas harmonias caipiras. No máximo. Depois, tive vontade de cantar mesmo. Cantar, só isso. E o Svetlana me oferece essa possibilidade. Eu me divirto, sinto-me ótimo cantando. Parece conversa rasteira, manjada e cretina, simplória e bestinha, mas é a única resposta possível. A banda, para mim, assumiu algumas dessas características por causa de minha necessidade de cantar feito um doente. Muita gente diz: "Ele está exagerando, é um afetado, ouçam, está impostando a voz, onde já se viu?". E eu respondo: "Ainda bem que você percebeu". Sou um "exageracionista". Agora, cada um no Svetlana deve ter a sua definição para o que fazemos, as suas explicações bem pessoais para essa questão. Cada um faz o que quer, enfim, para alimentar as suas necessidades de tocar ou cantar como bem deseja. Chamam- nos de pós-rock ou pop de câmara. Tudo bem. Talvez seja isso mesmo. Mas eu sempre digo que o Svetlana é uma banda de rock.

O Svetlana ainda não tem material registrado em disco. Só temos acesso ao ótimo trabalho vocês em palco. Para quando podemos esperar um EP (ou mesmo um álbum)? Por que motivo ainda não colocaram nada à disposição do público?
Preguiça. Somos vagabundos e, pior que isso, pobres assalariados. Mas já marcamos a gravação de um primeiro CD para janeiro. Quando ficará pronto é outra questão, indecifrável. Tentaremos não demorar muito. Mas, na verdade, estamos dentro do prazo. O Svetlana tem, oficialmente, um ano de idade.

Como você avalia a cena musical curitibana hoje? Muitas mudanças dos mais de 10 anos do Woyzeck para cá?
Não tenho acompanhado, realmente. Tornei-me relapso e desinteressado. Conheço bastante os músicos sertanejos e os rappers da periferia. Leomar, Leonel Rocha e Campos, Guatupê e Guaratuba, Artvistas M.D.E. Gente boa, trabalho autêntico. Coisa que funciona e tem público. Posso falar sobre o começo dos anos 90 por aqui. Centenas de bandas de rock surgiram e desapareceram. Na época, acreditei naquela lorota de que devíamos formar uma espécie de movimento, uma cooperativa informal, botar Curitiba no mapa. Bobagens. Perdemos tempo e inocência. Curitiba não vale nada. O que vale é a música de cada um, independentemente do que os vizinhos estejam fazendo. Tudo parecia ir bem, eu me lembro, quando um outro movimento monopolizou as atenções da mídia. Era o mangue beat. Curitiba ficou em trigésimo plano. E o Woyzeck, por exemplo, acabou definido como "mangue beat do Sul". Fazer o quê?

 

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