agosto 15, 2008
da arte de pendurar roupa no varal
Demorou pra eu aprender a pendurar roupa no varal. De pequena gostava de ajudar minha mãe pendurar. Ela punha as roupas lavadas numa bacia enorme de folha de flandres e eu ia pendurá-las. O varal era um fio muito alto, levantado ao meio através de um bambu, firmemente fincado na grama do quintal. Quanta coisa a gente tinha de criança! Quintal, grama, varal, bambus, e finalmente, tempo pra lavar, quarar e estender. Sem pressa. Deixando o sol fazer seu serviço.
Quando meus filhos cresceram e eu passei a trabalhar em casa, passei também a lavar e estender roupas.
No começo era o caos (epa! Acho que já iniciaram algum livro com essa frase..)! As calças eram lavadas e estendidas com os bolsos pra dentro, de forma que nunca secavam. E eu as estendia pela cintura, o que, logo aprendi, nestes tempos de calças com lycra, acaba deformando. Gastava um montão de pregadores e o aspecto geral do varal, após minha penduração, era profundamente antiestético.
Hoje não. Adquiri toda uma técnica. O varal fica bonito. Tiro os pregadores que não estão em uso pra não apodrecerem com a chuva. Porque, é claro, só uso pregadores de madeira. Aprendi que os de plástico são como roupa de baciada: colorida mas pouco durável. O único cuidado a tomar é evitar que eles caiam ao chão. Pelo menos evitar que eles caiam com minha cachorra olhando.
Gosto de estender bem esticadinho. Facilita a passagem. Ou será passamento? Não, isso parece enterro. Bom, facilita o ato de passar roupas, seja lá que nome tenha isso.
E, finalmente, gosto de olhar pro varal em dia de sol e vento. Parecem bandeiras. Bandeiras que cheiram bem.
Uma olimpíada da limpeza. ( só pra não deixar de mencionar o assunto do momento)
Uma olimpíada sediada no meu quintal.
Chiquérrimo
Che Caribe, sex,
15 de ago - 15h53| Comentários (1)
agosto 8, 2008
presente
Aprendi que presente é sempre bom. Mesmo quando a gente não gosta.
Porque a pessoa se empenhou em buscar alguma coisa, escolheu, procurou, pensou em você e naquilo que você pudesse gostar, teve trabalho, quis te agradar.
Minha mãe tinha estranhos hábitos em relação a presentes. Nunca os abria na frente de quem dava. A gente estranhava, achava até um descaso, mas ela argumentava que “era feio” abrir presente na frente de quem deu. Que se devia agradecer muito mas deixar pra ver depois.
Nunca entendi isso. Acho que ela não sabia esconder muito bem a decepção. Assim, se escondia pra abrir presentes.
Sei lá! Sempre tive uma certa dificuldade em entender minha mãe.
Enfim...eu abro. Já comentei aqui que meu natal geralmente acontece antes. Porque eu não agüento esperar pra abrir nada. Então a família fica me provocando. Fazendo pacotes indevassáveis. Deixando pra por na árvore no último momento.
E eu sempre gosto. Mesmo quando não gosto.
Então, acho extremamente meigo minha cachorra vir todo santo dia com alguma coisa na boca pra me dar de presente. Logo cedo. Qualquer pauzinho ou folhinha, que ela encontra no quintal. Traz na boca e fica olhando pra mim. Abanando o rabo.
E eu sempre estimulo. Porque ela quis agradar, quis presentear, enfim, os argumentos que eu já expus.
Às vezes tenho que engolir em seco e fingir que gostei.
Porque a intenção sempre é muito boa.
Mesmo quando ela vem, como veio ontem, abanando o rabinho, me trazendo na boca um tremendo ..rato ! Morto, felizmente.
Fosse eu a minha mãe, deveria ter guardado pra abrir depois...
Che Caribe, sex,
8 de ago - 19h08| Comentários (5)
agosto 1, 2008
cavalo de aço
A gente não se interessa muito por cavalos, hoje em dia.
Tá certo, o povo que se esvai em adrenalina e grana no Jocquey, até que se interessa, sim. Mas estou falando da gente- eu e você- que só vemos cavalos no interior (poucos) e em filmes.
Eu via cavalos quando era pequena. Desde que cheguei aos meus incríveis 1,66cm, já não os vejo.
Aqueles que vinham na rua de casa, direto de chácaras a beira do rio Pinheiros, entregar verduras e/ou galinhas, esses não existem mais. Nem os cavalos, que afinal isso já faz tempo e eles devem ter morrido, nem a profissão de seus donos: verdureiros, carroceiros.
Porém, de uns tempos pra cá, meses, pra falar a verdade, ando vendo cavalos. Ou burros. Que eu sou tão inexperiente no quesito eqüino que nem sei direito a diferença. Acho que é uma questão de orelhas, mas não tenho certeza.
Ando vendo-os por aí. Sem seus donos. À toa, andando à noite pelas imediações do bairro. Como eu, que também prefiro caminhar à noite.
Porém a atividade deles é o que mais causa estranheza. Andam virando latas. Sacos de lixo, que aqui o lixeiro passa à noite.
Nunca tinha visto isso: cavalos e/ou burros vira-latas.
Fico pensando no que terá acontecido. Cavalos são vegetarianos. Não comem restos de sanduíches, nem de salgadinhos, nem lixo em geral.
Estes comem.
Pra que isso tenha acontecido, muita água deve ter rolado na história deles. Muita fome, muito abandono.
Lendo hoje que, tanto na capital como no interior, as motos substituem os cavalos com vantagens e custo menor, fico imaginando que estes tenham sido largados. Substituídos por um cavalo de aço.
Custo menor.
Ou coração menor.
Che Caribe, sex,
1 de ago - 15h22| Comentários (5)
julho 27, 2008
dentaduras e moral
Cada sociedade estabelece as regras de etiqueta que acha melhor.
Na realidade, não sei quem acha. Tal como a autoria das gírias que correm por aí, é difícil descobrir quem cria regras.
Numa sociedade, provavelmente quem manda mais. O poder determina muitas coisas. Da corrupção à possibilidade de ditar regras. Sejam elas de etiqueta ou de moral.
Bom, passando desse intróito (podia dizer que foi iniciação, mas ia parecer safadeza), devo dizer que, se a sociedade dita regras, as famílias também.
Minha família inicial não tinha muitas regras de etiqueta. Já de moral...
Lembro que falar de boca cheia era errado. Mas numa família de pouca grana e muitas cáries, a maioria que detinha o poder – os mais velhos- eram todos cheios de dentaduras. Aí, sob certas circunstâncias, falar de boca cheia podia ser permitido. Pelo mesmo motivo – dentaduras- não era costume comerem-se maçãs verdes nem torrones. Pelo menos os mais velhos.
Já em termos de moral e bons costumes havia um montão de regras. Devo dizer que a maioria- descobri bem depois- devidamente descumpridas.
Bom, deixemos pra lá.
Na minha família de hoje, não acho que existam tantas regras. A maior delas: avisar quando e aonde se vai. Uma questão de segurança. Quem sai, avisa quem fica pra onde vai. Seja velho ou novo.
Ninguém aqui em casa usa dentadura. O que não quer dizer que tenhamos ótimos dentes. Só quer dizer que passou o tempo de dentaduras. A modernidade criou os implantes.
Por isso, come-se de tudo. Menos carne vermelha que eu sou vegetariana e não cozinho.
Também não se come fritura. É contra meus princípios.
Não se fala alto. Pelo menos não sem que eu reclame.
Nem se ouve música alta. Não com minha filha em casa. A gente espera ela sair...
Não se fuma. Regra criada depois que eu e meu marido deixamos o vício. A gente perdoa os amigos.
Desde que eles fumem lá fora.
E quanto à moral. Bom, não matando, não roubando, como diz o mano do ônibus, ta limpo.
E é isso. Poucas regras.
Esqueci de dizer: maçãs verdes e torrones são permitidos e até estimulados.
Ah, nada como a alternância de poder!
Che Caribe, dom,
27 de jul - 19h05| Comentários (4)
julho 22, 2008
dissonância
Gosto muito de humor.
Não da piada fácil, do trocadilho infame, mas de humor mesmo. De preferência non-sense.
Aquilo que em psicologia a gente chama de dissonância cognitiva. Você tem uma idéia à respeito de alguma coisa e alguém ou algum fato se apresenta de forma totalmente inusitada, diferente da tua idéia. Por exemplo, você sabe que certa pessoa é um calhorda e de repente ela faz alguma coisa de enorme generosidade. Isso causa dissonância. Você não espera.
É claro que no caso de gente, fica difícil definir. Porque não há limites nem antagonismos da forma que expus. O cara pode ser um calhorda e ter atos de bondade. Ser um tremendo burro e pelo menos uma vez na vida ter uma idéia genial. Enfim, eu sou confusa mas espero que vocês não. Suponho que já entenderam.
Tudo isso pra dizer que admiro senso de humor. Tenho que fazer uma força danada pra não cair de amores pelos calhordas da política que têm senso de humor. São raros mas existem.
Então, quando vi um programa em que o apresentador levanta a maior bola pro Maluf, perguntando-lhe o nome do maior prefeito nos últimos 20 anos – pergunta que ele fez a todos os outros prefeituráveis também, obtendo as mais variadas respostas – e ele responde que a modéstia o impedia de falar, tenho que segurar meu riso. Não fica bem admirar aquele senhor. Mesmo que ele tenha um refinado embora óbvio senso de humor...
Mas foi difícil.
Pronto. Confessei.
Che Caribe, ter,
22 de jul - 12h25| Comentários (7)
julho 14, 2008
pragmática, eu?
Tem gente demais, ultimamente, me chamando de pragmática.
Eu me acho mesmo. Mas vejo que alguns me chamam de pragmática como se me chamassem de babaca.
Não que eu não possa ser – pragmática e babaca ou só um dos dois – mas é que são coisas diferentes.
O pragmático é aquele, na minha opinião, que elimina os rodeios. Que vai direto ao assunto. Que gosta de pão, pão, queijo, queijo. Sem essa de maionese, de folhinhas, de muita firula. Quer salada? Peça salada e não sanduíche. Quer creme? Faça um bechamel decente.
O pragmático dá cabeçadas, como qualquer outra pessoa. Mas procura ver bem onde bateu a cabeça pra não voltar a bater. O pragmático didatiza o erro.
O pragmático busca soluções. Quando a coisa parece impossível, quando a montanha é dura de subir, não tem vergonha nenhuma na cara, dá meia volta e parte pra outra. O pragmático não tem orgulho besta.
O pragmático tem saídas curtas. Tem pressa. Sabe que a vida passa. E que atrás sempre vem gente.
O pragmático não vende voto nem troca ideais. Isso quem faz é o calhorda. O oportunista. O pragmático vota uma vez. Deu merda. Nunca mais vota no infeliz.
O pragmático não repete merdas.
O pragmático quer ser feliz. Como todo mundo. Mas ele acha que é possível.
O pragmático não se perde em ilusões. Ele filosofa, sim, mas enquanto isso, vai remendando a meia furada e adiantando o almoço de amanhã.
O pragmático se apaixona. E chora por amor.
Um pouquinho.
Isso tudo é o que eu acho que é ser pragmático.
E eu não sou.
Mas bem que queria!
A pragmática sabe onde usar salto e onde usar tênis.
E acha que fazer charm tem limite.
Che Caribe, seg,
14 de jul - 21h03| Comentários (5)
julho 8, 2008
high tech anos 50
O corpo da gente é uma espécie de máquina. Uma espécie porque nem tudo nele é previsível. Mesmo o envelhecimento. Mesmo a doença e a cura. Ou a falha final.
Mas como as máquinas, com o tempo vai se tornando obsoleto, enferrujado, falha aqui e ali.
Minha memória não é mais a mesma. Falha? Em lembrar palavras, às vezes. Em outras coisas, menos. Eu posso estar totalmente enganada- até porque acho que o senso crítico também vai ficando meio “crítico” com o passar dos anos- mas acho que a memória ainda funciona legal em muitas coisas.
Aprendi alguns truques pra memória. Aprendi com meu PC, vejam só!
Aprendi a não sobrecarregar com bagulheira minha memória. Selecionar o que vou botar lá dentro. Da minha caixa de arquivos.
Aniversário daquela colega de trabalho que já não vejo há 10 anos? Delete.
Nome do antigo dono da padaria? Delete.
Aquele barzinho sem-vergonha que havia na Vila Madalena, onde hoje está o, o, o como é o nome mesmo? Enfim, não sou chegada em barzinhos da Vila Madalena. Xápralá.
Aquela cidade que a gente visitou em 75 e o pneu do carro furou e não tinha borracheiro num raio de 50 km? Ah, tem dó!
Em compensação, deixo ficar e uso cada dia mais a memória antiga. Parece que as coisas ficam mais nítidas. Aí, quando comparo com meu irmão, com amigos da época, vejo que a memória não está tão correta assim. De quem desconfiar? De mim ou dos amigos?
Desisto. Prefiro pensar que o corpo não é tão igual às máquinas. Que ele não só guarda certas lembranças como as melhora, modificando-as, com o passar dos anos.
Minha casa de infância fica enorme e bonita. A escola vira uma coisa clara e limpa. Até aquela vizinha chata vejo hoje que nem era tanto.
Tolerância? Falha de memória? Photoshop afetivo?
Pode ser. Mas pode ser também que, à luz dessa forma mais objetiva de ver as coisas, selecione nelas –nas coisas- aquilo que realmente importa. Que importa que minha casa de infância fosse mesmo um sobradinho mofado, escuro e pequeno? Foi lá que eu aprendi e brinquei. Que eu descobri a música, o pião colorido, a cadeirinha de balanço e a Raquel, aquela vizinha chata que me ensinou a controlar a agressividade. Ela foi a única a quem eu ameacei com um canivetinho. De lá pra cá, sou muito mais controlada...
A máquina se otimiza. Se não sou de última geração, posso ser uma vintage jeitosinha.
Sempre tem quem colecione...
Che Caribe, ter,
8 de jul - 14h27| Comentários (7)
junho 29, 2008
100 anos de imigração japonesa
Meus primeiros japoneses foram muito próximos. Era a família Yae. Dona Aparecida, “seu” Suzumo, a filha.
Eram fotógrafos todos eles. Numa época em que fotografia era coisa complicada.
Tá, não sou tão velha assim e já existia máquina fotográfica quando eu nasci. E não, não se tratava de máquina de “caixote”, embora meu pai tivesse uma que pertencera a meu avô, também fotógrafo. Mas a gente contratava fotógrafos pras ocasiões especiais. Primeira comunhão, batizados, casamentos, fotos de pais e filhos, de namorados e noivas. E havia fotógrafos com estúdio e tudo.
Dona Aparecida era um deles. Com estúdio no largo do Pari. Um estúdio fantástico, que povoava minha imaginação nos restantes 364 dias do ano em que eu não estava lá.
Porque a gente só ia lá, a família toda, em peso, pra passar o dia de Reis.
Coisa mais esquisita essa de comemorar o dia de Reis numa casa de japoneses budistas em que metade do regabofe era composta de pernis e frangos e outra metade de sushis e sashimis. Coisas de São Paulo.
Nesse dia eu ficava brincando no estúdio deles. Com os lenços de penas, as escadas, os cenários de paisagens e de Cristos empunhando hóstias, com todo tipo de chapéu, de boinas a casquetes. Ela não tinha roupas mas tinha a “parte de cima” das coisas. Ajeitava uns bois de pena e voilá! A pessoa ficava uma réplica da Ginger Rogers. Isso depois de mil horas de retoque em cílios e peles. Sem photoshop!! Na mão.
Punha um quepe de comandante e um lenço de seda branca no pescoço do cara e também tinha quase um Errol Flynn.
Estávamos em 1940? Não. Isso devia ser 1960, mas o Largo do Pari já era um bairro simples e o estúdio da Dona Aparecida, apesar de eu achar um palácio, era um estúdio de bairro, antigo e obsoleto. Ficara lá, nas Gingers Rogers e Errols Flynns. Quando muito um Marlon Brando, pros rapazes da praça.
Me enchia de presentes. Quase uma madrinha, todo ano vinha em casa, pouco antes do Natal e trazia presentes pra todo mundo. Minha primeira – e única – Yashica veio dela. Minha primeira – e única- boneca também. Vestida de noiva. Nunca gostei muito de bonecas.
O tecido do vestido da primeira comunhão. O da formatura do primário. Não fora eu me antecipar e decidir casar de linho bem áspero, ela viria com algum brocado meio brega. Mas me deu as fotos do casamento.
Nunca a vi brava. Nunca a vi triste. Sempre rindo.
Dizem que é característica cultural do povo japonês.
Pode ser. A vida dela não era fácil.
De qualquer forma, a associação sorriso-Japão se tornou, desde essa minha lembrança de menina, uma associação sincera.
Pode ser cultural isso de sorrir, mas é uma boa coisa.
Porque contagia.
Primeira comunhão, tirada por ela. Com o vestido brega e brilhante também.
Che Caribe, dom,
29 de jun - 19h47| Comentários (4)
junho 21, 2008
ícones
Tive alguns ícones estranhos na infância. Nem sei bem se chamá-los de ícones é o mais acertado. Eram assim uns objetos, umas coisas, que a família ou alguns membros dela citavam umas quinhentas vezes ao dia. Com respeito, com admiração, com a certeza de que sem esses ítens a vida não poderia ser a mesma.
Vela. Vela era coisa de respeito. Faltava muita luz naquela época. Pra falar a verdade, hoje também falta, em pleno século XXI. Então havia velas e fósforos em um lugar específico. Era proibido mexer neles. Velas eram tudo. Pra minha mãe e minha avó.
Primus. Primus era um tipo de fogareiro muito usado no Uruguay. A mãe da minha cunhada só cozinhou com Primus, toda a vida. Havia um fogãozinho de duas bocas na cozinha meia boca da pequenina casa de Pocitos, mas era no Primus que os maravilhosos bifinhos e papas fritas foram eternamente feitos. E no dia em que o Primus entupia ou enguiçava o mundo vinha abaixo. Que tupamaros nem mané tupamaros!! Primus era o tema naqueles idos de 60 e 70.
O cemitério da Lapa. Hoje tem mais gente da família no cemitério da Lapa do que fora dele. E no que depender de mim, pra lá não irá mais ninguém. Sou francamente a favor de cremação. Mas o cemitério ocupava boa parte da vida da família. Tinha que cuidar do túmulo, limpar a grama e as plantas do túmulo, polir os bronzes, pagar as taxas, visitar a parentada defunta nos dias das mães, dos pais, dos finados. Uma trabalheira. Um ícone sim, por que não?
Hoje também temos alguns ícones na família que formamos.
As ferramentas do meu marido. São sagradas. Ele até empresta, se for pra algum amigo de infância, desde que devidamente monitorado. E até o prazo máximo de uma semana.
Os discos de vinil e hoje, os CDs. A gente copia se algum amigo quiser, mas daqui não saem.
Minhas agulhas de crochê. Minha escova de cabelo. Meu batom roxo zumbi.
Ícones. Acabam, compro outro igual.
Como viver sem um baton roxo zumbi???
Che Caribe, sáb,
21 de jun - 15h51| Comentários (6)
junho 14, 2008
abismo abissal
Existia uma teoria de que a terra era uma espécie de pedaço de torta: alta, gorda, mas com inevitáveis fim e começo. No caso, abismos abissais ( sempre quis escrever isso).
Interessante do ponto de vista filosófico, principalmente praqueles que morassem perto da borda da torta, quero dizer, da terra. Um pé no nada. Uma vida recheada de adrenalina. Já pensou se aquele passinho sem jeito que você der, de repente ser o último pedaço de chão antes do abismo abissal ( acho que já disse que sempre quis escrever isso)? E, é claro, a idéia da torta alta vinha sempre acompanhada de uma terra reta, plana. Podia ter uns morrinhos aqui e ali, afinal não existe a torta perfeitamente reta, embora a de maracujá da minha filha seja uma pista de patinação de tão lisinha e reta, mas acho que desvio do assunto do abismo abissal ( é delicioso escrever isso).
Voltando: logo a coisa foi posta de lado.
Havia outra, muito mais simpática e ecológica: a de que quatro tartarugonas seguravam a terra nas costas. Aí surge um sério problema. Sim, porque se tartarugas são lerdas, não são estáticas. Elas andam. Pra onde e como andariam as quatro? Em formação de ordem unida? Em coreografias de ala de escola de samba? Todas juntas ou uma pra cada lado? Deixariam cair a terra no espaço, num movimento brusco? E os habitantes da terra? Perceberiam as manobras ou achariam que aquela última gota de garapa não desceu legal? Dúvidas abissais. ( sim senhores, não só os abismos são abissais)
Mas a que eu mais gosto mesmo é a de que a terra está sempre nas costas do Atlas, um gigantão.
Sei lá, uma espécie de identificação. Ter uma terra enorme ali nos ombros deve acabar com a coluna. Sei bem o que é isso. O mundo nas costas. Pelo menos no sentido figurado, é assim mesmo que eu me sinto, às vezes. E olhe que de Atlas não tenho nada.
E fico pensando com minhas vértebras: e se ele um dia se cansar? Se mandar tudo pro espaço, no sentido literal? Se resolver que carregar a terra nas costas não tá com nada e será melhor uma boa terapia e fim de papo?
Sei não. A gente fica aquecendo o mundo, desmatando, deixando coisas malcheirosas por aí, brigando interminavelmente, um dia o gigantão se enche e larga mão.
E aí, haja abismo abissal.
Pronto! Falei de novo!!
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