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dezembro 23, 2008

papai noel

Faz tempo que não te escrevo carta alguma.
Tanto tempo que nem lembro se algum dia escrevi uma.

Mas lembro bem do que pedi e nunca veio. Lembro do meu balanço de dois lugares, pra botar na varanda de casa e ter a desculpa de chamar alguma amiguinha pra balançar junto. Ter o mote pra sair pela rua fazendo alguma amiguinha. Nunca veio. Nem as amiguinhas, que não era permitido sair às ruas, com mote ou não.

Lembro de quanto pedi pro pai parar de beber. Tá bom, ele acabou parando. Mas não quando eu pedi. Quando a gota já doía tanto que era impossível até mesmo pra ele continuar a beber. Aí eu já era grande. Tão grande que não queria mais sair junto nem pedir colo.

Da casinha que podia tirar o telhado e ver tudo por cima. Uma casinha de madeira que tinha na loja da esquina. Nunca veio. Talvez por isso eu goste tanto do Google, de olhar por cima minha casa, a casa dos outros, minha cidade. Mas eu queria mesmo era aquela.

Dos bichos que tanto quis. Qualquer bicho. Pra criar e cuidar. Menos aquela tartaruga idiota que afinal ganhei. Que não vinha quando eu chamava, que não olhava pra mim quando eu dava água e banana, carinho e atenção. Bem merecido o nome de Raquel, que dei a ela. Minha arquiinimiga infantil. Eu queria cachorros e gatos, veio tartaruga. Que acabou fugindo de casa.

Eu queria animais de estimação, vieram um porco e um cabrito. Ninguém me contou que seriam mortos e comidos. E eu já tinha me apegado.

Pois é, velho Noel. Você não foi muito legal comigo.

Em compensação, quando você deixou de ser referência, quando eu criei minha própria família, quando a vida me botou pela frente um homem e dois filhos que nem sob encomenda eu acharia tão bons, então meus natais melhoraram, afinal.

Tanto que esqueço que existe papai Noel.

Mas existe sim. E é meio calhorda, podem crer.

PS: um ótimo natal praqueles que passarem por aqui. E para os que não passarem também...!

Sumpschildkr.jpg
Che Caribe, ter, 23 de dez - 21h16| Comentários (3)

 

dezembro 16, 2008

anos 60

Alguns dias atrás, estava por aí buscando móveis e objetos dos anos 60.

Eu detestava os anos 60. Mas amo meu filho e como ele gosta dos anos 60 e não vive aqui, saímos por aí buscando coisas pra ele.

E eu ficava olhando aquelas coisas: vasos de cristal murano em forma amebóide, fruteiras em forma ovóide torta, pés quase palitos, pés palitos, jacarandás, globos e lustres, sistemas de som. Não, melhor dizendo, vitrolas.

Depois de uma overdose de anos 60, que quase me deu engulhos, ele mesmo matou a charada. De porque ele gostava e eu não.

É que eu “vivi” os anos sessenta. Tinha dez anos na época mas lembro bem.

Os cinzeiros da casa dos meus pais ( nos anos 60 era charmoso fumar); os vasos murano ( com que gosto quebrei um deles!); as vitrolas com pano dourado na frente, onde meu pai se acabava de ouvir Gardel e Francisco Alves e eu olhava feio do meu quarto, no qual tinha uma incrível vitrola portátil de plástico onde ouvia bossa nova e Rita Pavone; o sofá da casa do meu irmão, branco e preto, parecendo uma minhoca com dor de barriga, que combinava com o bar também estilo “Copam”!

Eu não gosto da estética que vivi. Talvez seja a teoria da “carne de vaca”. Mas adoro a estética anterior – bem anterior a mim- a do pós-guerra da Chanel, a estética art-nouveau e mesmo a art-decó, que alguns abominam.

Embora em minha casa de hoje, o estilo seja o que é prático e não de que ano o objeto veio. Não existem dois móveis combinando aqui em casa.

Mas as pessoas acham que sim.

Deve ser porque a gente combina com a miscelânea. As pessoas que aqui moram hoje vão do tango ao pop. Do zouk a gafieira.Da picanha ao vegetarianismo.

E não é que tudo combina?

Tudo dá prazer!

vitrolaanos60pq.jpg
Che Caribe, ter, 16 de dez - 12h49| Comentários (8)

 

dezembro 11, 2008

cheirando

Gosto muito do Níquel Náusea, do Gonsales. Na realidade, da barata Fliti. Por vários motivos. Mas o maior deles é a identificação. Eu adoro naftalina. Já passei também pela experiência de lamber, mas não foi uma boa. Naftalina é deliciosa de cheirar. Como uma droga, segundo dizem. De drogas só conheço as autorizadas: cigarro e álcool. E meu Coringão, que depois da contratação recente do Ronalducho, vai ficar mesmo uma droga.Mas sou adicta assumida, então agüento tudo.Voltando às drogas, a naftalina me traz ótimas lembranças, mirações, alucinações, deja-vus ou qualquer coisa assim. Me lembra minha casa, os baús da minha avó e da minha cunhada, cheios de coisas incríveis e mais incríveis ainda porque eu não podia mexer mas mexia. As roupas de dia de festa, as toalhas, as colchas, as roupas de batismo guardadas como lembrança, mesmo o ser batizado já tendo feito a primeira comunhão, a crisma, o casamento e até o funeral. Havia roupas da minha irmã morta naqueles baús. Amo naftalina.

Amo também creolina. De todos os produtos de limpeza que existem por aí, dos florais, dos com cheiro de pinho, de floresta amazônica no outono, de primavera resplandecente de frescor, de limpeza irradiante pela vida afora, etc., etc., nada supera a creolina. Nela sim, eu acredito. Uma espécie de religião, acho. Só não pago dízimo. Mas pago pau pra creolina.

Gosto muito também de vick-vaporub. E na ausência dele, de gelol.

De cânfora. De álcool.

E de pele de nenê atrás da orelha.

Gosto de cheiro de carro novo. E de loção pós barba.

E de coisas recém feitas: madeira recém cortada, café recém coado, banho recém tomado, pão recém saído do forno.

Gosto de patchoulli e violeta. E de jasmim em noite de verão.

E do cheiro das minhas cachorras, naquele breve momento em que saem do banho mas ainda não deitaram e rolaram pela terra do quintal...

vicks.jpg

Che Caribe, qui, 11 de dez - 16h51| Comentários (6)

 

dezembro 6, 2008

coleções

Coleções. Um monte de gente faz.

Eu mesma faço coleção. De globos de vidro. Aqueles que a gente sacode e cai uma nevinha.

Quem entra no meu quarto acha que coleciono colares também. Não exatamente. Tenho varais na parede e quase trezentos, mas são pra meu uso e de minha filha.

Porque pra mim coleção é coisa pra olhar. Não pra usar.

Portanto, partindo desse princípio, que já é meu desde a mais tenra infância, não haveria nada de mais em avançar nas coleções que meu pai fazia e “usá-las”.

Explicando: meu pai colecionava moedas. Não moedas raras, nem mesmo moedas de outros países. Ele simplesmente não usava moedas. Nem mesmo carteira de dinheiro. Tinha a mania de usar dinheiro separado por valor em vários bolsos da roupa. Exemplo: notas de 10 no bolso da camisa; de 5 no bolso da direita da calça; de 1 no bolso da esquerda, por aí. Meu pai nunca teve muito dinheiro, mas o pouco que tinha organizava muito bem pelos bolsos. E bolsos ele tinha muitos.

Então as moedas ele jogava numa gaveta, num móvel do quarto dele. Eu sabia disso. E eu gostava muito de pipoca e algodão doce no primário e – infelizmente- de cigarros no ginásio. E eu não tinha dinheiro pra comprar. Mas tinha aquela gaveta. Bom, juntando a fome e a vontade de comer, fui fã assídua da coleção de moedas do meu pai. Com dor na consciência, vá lá. Mas a dor passava no primeiro saco de pipocas.
Quando ele morreu, tinha umas 3 cestas de natal de vime cheias de moedas. Que foram vendidas pelo peso, porque já não estavam em circulação. Se eu não tivesse sido tão assídua em “visitar” a coleção dele, talvez ele tivesse mais cestas...

Ele também colecionava bebidas em garrafinhas pequenas. Miniaturas. E na adolescência eu gostava de bebidas coloridas. Tive muito gosto em apreciar os martinis e camparis. Quase vomitei com as azuis, anizetes, acho. E as verdes nem pensar. Odeio menta até hoje.

Depois de explorar gostos e cores naquelas garrafinhas, era só enchê-las novamente com guaraná ou água na qual dissolvia o guache da cor da bebida.

Ainda bem que a coleção dele de miniaturas nunca foi grande, de outra forma a filha dele poderia ter se tornado uma alcoólatra em miniatura...

E finalmente a coleção de fósforos. Esses usei muito quando comecei a fumar. Pena. Havia caixinhas realmente interessantes.

Ele também colecionava canetas tinteiro, óculos Ray-ban e- descobri escondidas no fundo de uma gaveta- fotos de mulheres peladas. Como nunca desenvolvi o gosto nem por canetas, nem por óculos e muito menos por mulheres peladas, nessas coleções não meti a mão.

SnowGlobe20041sm.jpg
Che Caribe, sáb, 6 de dez - 12h05| Comentários (5)

 

dezembro 2, 2008

trauma de dezembro

Mais ou menos nesta época, na casa onde passei a infância, tudo ficava em polvorosa. Só se pensava no natal. Não exatamente em presentes, como hoje. Mas em outros itens que podem parecer estranhos.

Não pra minha mãe.

Pra minha mãe, natal e fim de ano era época de “por a casa em ordem”. Lavar paredes, tapetes, cortinas, persianas (alguém imagina um ser humano tirando persianas de metal das janelas e lavando as lâminas uma a uma com escovinha? Minha mãe fazia isso. Pior: obrigava um de nós a fazer!).

A grama tinha de ser cortada, as roseiras arrumadas, os antúrios, as samambaias. Terra nova, vasos novos, podas onde fossem necessárias. Relembrando isso vejo como até as flores e folhagens são datadas. Antúrios e roseiras no jardim era coisa de 1960, 1950, por aí.

Depois era feita uma lista de “necessidades” de cada um. Essa seria a lista dos presentes.

Algo assim: Maray precisa de novo sapato marrom pro colégio. O Miltola precisa de uma nova calça de brim. O pai precisa de uma camisa e cuecas. A avó precisa de nova camisola de flanela. A mãe de calcinhas e chinelos. E pronto! Esses seriam os presentes.

Não que meus pais fossem contra supérfluos. O que não sobrava era dinheiro.

Depois havia as compras pra ceia. E pelo menos no dia de natal, bebia-se vinho e tomava-se champagne, lá em casa. E alguma carne original, diferente daquela usual moída ou para molho. Era pernil, lombo, carneiro. Jamais bacalhau, como em casas de amigos portugueses. Bacalhau é coisa pra semana santa, dizia minha mãe. Não para Natal.

O azeite tinha que ser “do bom”. Espanhol, de preferência. As frutas sem mácula. Um pouco de cada.

Pra fazer os panetones – que em casa eram feitos às dúzias e ofertados aos amigos e vizinhos- minha mãe saía pedindo latas de bolachas e até mesmo de óleo pra servir de forma.

E a despensa ficava cheia, porque parentes havia de montão. Era época de limpar os cavaletes de construção pra aumentar a mesa da cozinha. E tirar, lavar e engomar umas toalhas de linho ainda remanescentes do enxoval da minha mãe. Que devem ter durado enquanto ela foi viva, porque só eram usadas um dia por ano.

Então era isso. Mês de Natal, mês de azáfama. De limpeza. De trabalho.

Como alguém ia ligar praquela pessoinha, caçula da família, que também fazia aniversário, bem no meio das festas?!

Ora..!!

Mês de natal. Mês de trauma.

LO5876-vintage-father-christmas-old-flannel.jpg
Che Caribe, ter, 2 de dez - 15h17| Comentários (3)

 

novembro 26, 2008

lugar de passarinho

Lugar de passarinho não é na gaiola.

Sempre achei isso. Acho uma puta sacanagem prenderem passarinhos quaisquer que sejam os argumentos. Já ouvi desde o “adoro o canto dele” até “ele nasceu na gaiola, se eu soltar, morre”.

Isso de adorar o canto do bichinho é a coisa mais egoísta que ouvi. Apesar de eu adorar o canto do João Bosco ou da Adriana Varela, nunca me ocorreu tê-los presos ao meu lado. Se bem que o João Bosco...

E o argumento de que a criaturinha nasceu presa e deve continuar presa “ se não morrerá” tenha dó! Mais vale um dia de liberdade do que cem de gaiola, posso assegurar. Mesmo sem nunca ter estado numa delas. E nenhuma das pessoas que diz isso soltou o bichinho pra verificar.

Posto isso, ainda tenho a acrescentar que gosto de passarinhos. Eles lá no céu, eu aqui na terra. Aqui em casa tem montes deles. Com variados pios. Alguns eu imagino que é possível conversar, então me ponho a piar tentando imitá-los e tenho a ilusão de que respondem. Do que a gente é capaz quando não tem ninguém olhando!

Outros eu alimento. Mesmo minhas cachorras são cordatas com passarinhos. Dividem a comida delas numa boa. Quando elas não estão comendo, claro. Os passarinhos se aproximam, pulam no prato delas e ficam comendo.

Mas tem um, um só, que há meses me adotou. Ou adotou minha pitangueira. Fez a casa ali e dali não sai.

Não que ele coma pitangas. Nem ele nem nenhum outro, já notei. Elas devem ser azedas , suponho. Ficam lá, intactas no pé, sem nenhuma bicada. E lá no pé, intacto também, fica esse sabiá. Porque é um sabiá. Grandão, tão gordo que mais parece uma pomba. E canta. E canta. E canta.

De manhã, de tarde e até à noite. Eu acordo com ele. Eu não consigo dormir com ele.

Já teve gente que achou que é passarinho preso, tal a intensidade do seu canto aqui dentro de casa.

Eu adoro passarinho. Acho que já disse. Mas pra tudo há exceção nesta vida.

Alguém aí sabe fazer um estilingue?

sabia.jpg
Che Caribe, qua, 26 de nov - 10h50| Comentários (10)

 

novembro 21, 2008

meus trabalhos de Hércules

O primeiro deles foi escrever todos os números de 1 a 1000. Em algarismos romanos!! Eu devia ter uns 8 anos. Fiquei pasma. Eu costumava fazer tudo que as professoras pediam e era a melhor aluna (sim, pasmem vocês agora: pelo menos no primário fui a melhor aluna!) mas logo que comecei percebi que não ia dar conta no tempo pedido. Meu irmão do meio, muito mais razoável que a professora, disse que eu devia ter entendido mal. Que ela devia querer de 10 em 10. Ou de 100 em 100. Eu aceitei o argumento, até porque não tinha outra opção, mas fiz de 10 em 10. Passei o fim de semana realizando a coisa.

Na segunda-feira, dia de entrega do trabalho, levei a maior esculhambação: que eu queria bancar a espertinha, que eu era preguiçosa e tal. Minha mãe teve que assinar uma advertência que eu levei pra casa. Junto com meu orgulho ferido, a sensação de injustiça e o ódio à burocracia se revelando desde então. Resumo da ópera-bufa: eu SEI escrever de I a M em algarismos romanos . Porque a insana professora me fez reescrever tudo.

E daí?

Bom, o segundo foi voltar de uma viagem de férias num fusquinha junto com minha família inteira. Quase inteira. Meu irmão mais velho, minha cunhada, meu pai, minha mãe e eu. Mais 13 mantas térmicas de lã, mais a bagagem de todo mundo, mais material para uma parrillada completa, com chinchulines y todo! Que afinal era de Montevidéo que a gente voltava. Mais de 2000 km encarapitada em cima de 13 mantas de lã (o peso uruguaio estava baixíssimo, as mantas Aurora eram o must da época e a família era grande). Isso em pleno verão. Num fusca decrépito porém limpinho...Fazia muito calor e os quitutes para a parrillada se faziam presentes no ar. No cheiro denso no pouco ar que havia dentro do fusquinha...

Anos mais tarde, minhas noites de “pixo”. Hoje morro de vergonha de confessar, mas nos idos de 80, a grana para propaganda política era mínima e a gente pixava muros. Alguns com permissão. Outros nem tanto...Passávamos a madrugada nessa atividade que hoje me pesa tanto na consciência. Por ter sujado a cidade, por ter acreditado tanto em políticos que muitos não mereciam nem cinco minutos de atenção, que dirá noites inteiras de trabalho insone. Quantas vezes ter que entrar no carro com o balde de tinta, a broxa, a cola, os cartazes e a polícia no encalço! E quantas vezes tropeçar com tudo isso e passar o resto da noite lavando o carro pra ir trabalhar no dia seguinte! Enfim!

Limpar a casa de praia quando chegamos com as crianças pequenas pra passar férias depois de ladrões terem entrado lá! Havia cocô nas esteiras de palha, almofadas e travesseiros cortados a canivete com plumas pela casa inteira, chuveiros esfaqueados, colchões cortados. Vocês já se depararam com cocô humano depois de dias numa casa fechada, coberto de plumas e penas de travesseiros? Agora imagine limpar isso...

Por enquanto conto esses. Com o tempo conto outros. Roma não se fez num dia nem Hércules realizou seus trabalhos de uma enfiada só...

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Che Caribe, sex, 21 de nov - 09h24| Comentários (8)

 

novembro 16, 2008

ligada no modo ranzinza

Quem me conhece sabe que não sou muito “de pele”. Só cumprimento aos beijos se a outra pessoa o fizer, mesmo assim só costumo dar um. Isso de três beijinhos é cansativo. Um bem dado é quanto basta, pelo menos pra mim.

Tampouco sou de abraços. Embora adore abraçar.

Mas que eu saiba não tenho problemas com corpo, nem o meu nem o dos outros. Gosto de peles, de cheiros, de calores e pelos. Gosto de gente, do ponto de vista corpo. Gosto de gente de qualquer jeito.

Mas não suporto, não agüento mesmo gente que encosta pra falar. Gente que segura no braço, que se pendura no ombro, que cutuca, que dá palmadinhas.

Não fui uma criança rechonchuda, então não passei pela fase do “ai, que vontade de morder”, aquela fase canibal que um monte de mulheres assume ao ver uma criança fofinha. Disso escapei. Mas não escapei de ficarem alisando meus cachos, poucos, porém eficientes no quesito “que gracinha”!

Na medida em que fui crescendo e me tornando “séria”, fui me tornando também mais arredia com o corpo. E chata com quem encosta demasiado.

Eu –ainda- ouço bem. E enxergo bem com meus óculos. Então, é desnecessário falar encostado no meu ouvido, fazendo cosquinha na orelha. Nem chegar tão perto que eu descubra sem esforço qual foi a última refeição, qual o perfume e qual a pasta de dente da pessoa.

Também não precisa ficar me cutucando nem me puxando pelo braço. Ou a conversa é interessante ou não é. E se não for, não será um cutucão que vai melhorar a qualidade.

E muito menos, mas muito menos mesmo, ficar me dando palmadinhas nas costas ao me encontrar! Eu não estou com nada entalado na garganta!

Bom, nessa circunstância estou, porque sempre fico com uma tremenda vontade de esganar o interlocutor que me dá palmadinhas.
E isso fica aí, entalado na garganta ...

ranzinza2.jpg
Che Caribe, dom, 16 de nov - 18h11| Comentários (6)

 

novembro 11, 2008

nesta altura da vida...

Eu já tive várias alturas. É claro, todo mundo, dirá alguém. Mas eu já tive várias alturas depois de adulta, quando se espera que o indivíduo já tenha crescido tudo a que tem direito.

Eu já tive 1,67cm. Era logo após a adolescência. Eu demorei muito pra crescer. A coisa foi devagarinho, num ritmo de deixar qualquer adolescente maluca. Mas parou por volta de 1,65, 1,66cm. Aí eu, inconformada por não ter chegado pelo menos a 1,70cm, arredondava pra cima, dizendo ter 1,67cm.

Por que 1,70cm? Porque 1,70cm era a altura das manequins da época. Hoje a coisa aumentou pelo menos 10 cm e emagreceu pelo menos 10 kilos ou mais, mas naquela época, modelo tinha 1,70cm. E eu que não havia nascido nem bonita, nem elegante embora magérrima, me contentaria em ter em comum com as modelos a altura. Mas não tinha.

Depois, muito depois, adquiri uma hérnia de disco cervical. Um bom tempinho internada. Os piores dias da minha vida, eu que detesto hospital e detesto dor.

Saí de lá com 1,63cm! Cheia de dores, encolhida ao máximo, querendo esquecer que pescoço existe e dói pra caramba. Pescoço, ombros, costas.

Meses de acupuntura, fisioterapia e RPG me devolveram aos 166cm.

Agora ando fazendo alongamento na academia. Além de musculação. Não pretendo ficar musculosa. Só quero evitar o aspecto ameixa seca mole da velhice. Velhinha sim, porém durinha! E o professor de alongamento, que estica a gente como se esticasse salário no fim do mês, jura que vamos ganhar pelo menos uns dois centímetros!

Pena! Ainda não vai ser agora que chego a 170cm...

hauteur_talon_sp.jpg No tango sim, eu consigo vários cm a mais :)
Che Caribe, ter, 11 de nov - 12h54| Comentários (3)

 

novembro 4, 2008

supermercado

Pouca gente gosta, eu sei. Mas eu gosto.

Adoro fazer supermercado. Não o semanal, aquele que eu chamo de “fazer o japonês”, porque não é um supermercado mas uma quitanda misturada com mercearia que tem tudo de que eu preciso durante a semana, de uma família de japoneses.

Mas o do mês, aquele da compra maior, de coisas não perecíveis, pelo menos não rapidamente perecíveis. Ora, vocês sabem do que estou falando: coisas de limpeza, coisas básicas, mais vinhos também básicos.

Acho que é uma coisa que vem de família, assim meio genética. Passando pela minha mãe, filha de imigrantes italianos com mania de despensa cheia e apavorados com guerra e do meu pai, filho de família numerosa e pobre, onde a questão da sobrevivência era crucial. 18 filhos, sabe como é...

Então, desde que eu formei minha própria família, faço supermercado. No começo, carregava o maridão, fazendo elogios à tarefa. Que era divertido, que isso e aquilo. Não colou. Ele detesta. Passei a fazer sozinha, de vez em quando com a filha. Muito de vez em quando.

E adoro remexer tudo. Ler rótulos, sopesar com as mãos e os olhos coisas diferentes que eu sei que não vou comprar jamais. Namorar vinhos de mais de dois dígitos. Suspirar diante de chocolates proibidos. Alisar com vagar queijos igualmente proibidos.

Percorrer os corredores com dois carrinhos cheios, fazendo malabarismos e de vez em quando correndo neles como criança, levantando os pés do chão. Com aquela sensação que, venha a crise que vier, entre em queda livre a bolsa ou não, pelo menos este mês a despensa fica cheia. E nunca mais, como diria Scarlet, nunca mais passarei fome.

Tá bom, nunca passei, mas quando estou no supermercado enchendo carrinho, a sensação de bem-estar é grande. Quando olho pros armários cheios de comida também.

Meio como o homem das cavernas devia se sentir ao olhar seu mamute despedaçado, pronto pra sustentar a família inteira de cavernícolas por um tempinho. A bolsa pode cair, a política, o clima, o futebol e a cultura sempre podem piorar, mas aqui na minha toca tem comida. Por um tempinho.

Sei lá, é bobagem tudo isso, mas é assim que me sinto.

Adoro fazer supermercado.

carrinho-3.jpg
Che Caribe, ter, 4 de nov - 14h10| Comentários (5)

 

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