Grandes
malacos da história
Galeria
dos grandes malacos
Figuras inesquecíveis
que ajudaram a dar uma entortada no mundo
JOANIDES,
Hiroito Moraes (1936 - 1992) - O
Brasil realmente é um país pródigo em bandidos.
Há criminosos de todas os tipos, para todos os (des)gostos: bandidos
policiais, padres, políticos, técnicos de futebol, juízes,
jornalistas, mas bandidos escritores... esses são raros. O mais
famoso deles, provavelmente, é Hiroito Joanides, apelidado "Rei
da Boca do Lixo" pelos jornais sensacionalistas de São Paulo
nas décadas de 50 e 60.
Hiroito, já preso, depois de cerca
de 20 anos de reinado, resolveu contar a história da Boca do
Lixo, localizada no bairro dos Campos Elíseos, no Centro de São
Paulo - região que chegou a ser conhecida pelo singelo nome "Quadrilátero
do Pecado". Boca do Lixo foi um sucesso: vendeu 23 mil exemplares.
O motivo do êxito da publicação se deve tanto à
qualidade de Hiroito como escritor quanto às peripécias
criminosas de seu autor, que não ficam nada a dever aos rocambolescos
enredos da literatura pulp americana.
Físico franzino, óculos
fundo de garrafa, de baixa estatura, formação cultural
acima da média, voz fina e gestos educados, definitivamente,
a figura de Hiroito não inspirava respeito no ambiente povoado
por malandros de todas as espécies, no qual a única língua
que se falava era a da violência. Por uma dessas ironias do acaso,
foi essa aparência de frágil uma das principais responsáveis
pela escalada vertiginosa de Hiroito ao cobiçado posto de número
1 da Boca. Ele compensava com violência e inteligência o
que lhe faltava em força para manter reinado. Matou rivais, vendeu
proteção, traficou drogas, mas se orgulhava de jamais
ter tirado a vida de uma "pessoa de bem". Certa vez, após
ser provocado insistentemente por um playboy, deu-lhe um tiro no pé.
"Foi a única pessoa de vida honesta que cheguei a ferir
em toda a minha vida", relatou.
Na mesma época em que o "Esquadrão
da Morte" passava fogo em uma dúzia de foras-da-lei entre
um cafezinho e outro, Hiroito sumia, como que por passe de mágica,
de edifícios completamente cercados de policias em seu encalço.
Certa vez, escapou de um cerco desses vestido de mulher. Em outra ocasião,
entrou e saiu sem que ninguém visse de um prostíbulo cercado
de policiais à sua caça, somente para terminar face a
face um relacionamento amoroso. Tais façanhas lhe renderam uma
ficha policial de cerca de 20 metros e um lugar garantido nas páginas
do finado jornal Notícias Populares, vendido na época
pelos jornaleiros da cidade como "o Diário Oficial da Boca
do Lixo".
Antes do reinado, porém, já
freqüentara as mal freqüentadas páginas da imprensa
sensacionalista da época. Foi suspeito de ter praticado o assassinato
do pai a facadas, logo inocentado, os verdadeiros culpados identificados,
mas não foi suficiente para a imprensa, que, na perspectiva de
explorar o caso de parricídio ao máximo, acabou fechando
todas as portas da sociedade para o então jovem, honesto e trabalhador
Hiroito. Perdeu os amigos, o emprego, a noiva. De "freqüentador
mulheres" passou a morador da Boca, o único lugar em que
ainda era aceito. "Aí eu voltei para delinqüir",
conta no livro.
Ao sair da prisão, largou a criminalidade.
Passou a figurar novamente nas páginas dos jornais. Mas, dessa
vez, como escritor bem-sucedido, que dava palestras sobre a criminalidade
em universidades, como grande defensor da reinserção social
de ex-criminosos.
Artur
Rodrigues