Uma linha de telefônica e um anúncio no jornal divulgando o número para quem quisesse desabafar e pedir desculpas por alguma coisa, com a garantia de anonimato.
A idéia é MUITO parecida com a do ótimo blog PostSecret, porém o resultado do documentário "The apology line" (curta-metragem que vem participando de diversos festivais e sendo indicado para vários prêmios) é bem menos impactante.
A ilustração mostra um mãe com o filho ensaguentado nos braços, enquanto um policial observa, com um Caveirão do Bope ao fundo.
Não, ele não está lamentando junto com a mãe o assassinato do menino por bandidos. O sorriso um tanto sádico do soldado, tira qualquer possibilidade de ambiguidade da mensagem.
E de passeata em passeata, de "basta!" em "basta!", não chegamos a lugar nenhum. Arregaçar as mangas ninguém quer, né, meus caros cariocas?
"Heartbeat", mais um clipe do disco de estréia do Late of The Pier, "Fantasy Black Channel", produzido por Erol Alkan.
A banda -- que não toca mais no Brasil em agosto, já que o Indie Rock Festival foi adiado -- soltou a escalação, um inovador e extremamente ofensivo 4-4-3:
1 - "Hot Tent Blues"
2 - "Broken"
3 - "Space And The Woods"
4 - "The Bears Are Coming"
5 - "Random Girl"
Talvez antes mesmo do aspecto musical, o Lovebox, festival de dois dias organizado pelos integrantes do Groove Armada, se destaca pela comida. Reunindo algumas das melhores barracas do Borough Market, quase vira uma tarde gastronômica.
No domingo, os shows de Sebastien Tellier (divertido como sempre), Roni Size (fora de lugar e com o som sem pressão), Buraka Som Sistema (sacudindo a gringalhada), Operator Please (tocando numa cabana tosca), Goldfrapp (fraquinha e brega que só ela), Flaming Lips (também com som ruim), equilibraram a equação.
Quem fez a diferença mesmo foi Seun Kuti, filho mais novo do criador do afrobeat, Fela Kuti.
A frente do Egypt 80 desde a morte de Fela em 1997, nessa que foi sua última banda, Seun Kuti rova que não é um mero herdeiro aproveitador.
Seun Kuti & Egypt 80
12 dos 16 integrantes são veteranos das longas noitadas comandadas pelo pai no The Shrine, sua própria casa de shows -- diários! -- em Lagos, na Nigéria. É difícil imaginar que músicos desse nível aceitassem ser comandandos por qualquer um.
O caminho escolhido por Seun é mais próximo do pai e diferente do traçado pelo filho mais velho de Fela, seu meio-irmão Femi Kuti (que tocou na derradeira edição do Free Jazz Festival, em 2000), vez ou outra acusado de amaciar o afrobeat para ouvidos extrangeiros.
É uma encruzilhada sem solução aparente: se a escolha é atualizar os camihos, é chamado de água com açucar, se a opção for dar continuidade, pode-se facilmente ser chamado de aproveitador.
Felizmente, isso não está acontecendo com Seun, cujo disco de estréia "Seun Kuti & Fela's Egypt 80" está sendo bastante elogiado.
Além do quê, com a leva de afrobeat brotando nos EUA, através do Antibalas, Nomo, Amayo's Fu-Arkist-Ra ou Ocote Soul Sounds, nada mais justo que o filho do homem também tenha direito a dar sua contribuição.
Durante o show, lembrei da Nação Zumbi e de como seria injusto se não tivessem tido a chance de continuar sem Chico, um direito muito bem exercido por eles. Teríamos perdido uma bela banda e um dos melhores shows brasileiros.
A relação musical de pai e filho no caso dos Kuti, é bem diferente, por exemplo, da dos Marley. Seun toca com a Egypt 80 desde os 8 anos (Femi também) e assim como o pai, foi para Inglaterra estudar música.
Ele tem carisma, energia e talento próprio de sobra, ainda que a semelhança física com Fela (menor que a de Femi) e o jeito de dançar possam criar uma atmosfera saudosista.
Fela Kuti, no Shrine, no documentário,
obrigatório, "Music is a weapon".
Abrindo o show com uma música de seu pai, "em respeito", como Seun mesmo disse, suas próprias músicas não ficam para trás.
As frases dos metais grudam na cabeça já na segunda volta, as levadas de guitarra, simples e funcionais fazem a cama para hipnose, enquanto o baixo e a percussão lá na frente vão empurrando o conjunto. A sonoridade solidifica-se na dança das duas vocalistas de apoio.
Se tem um lugar no Brasil onde seria interessante ver esse show acontecer, seria Salvador, talvez fora do carnaval. Seria curioso ver as reações, do público e da banda. Lucas Santtana, dê um alô sobre o assunto.
Seguindo os politizados passos do pai, letras falam do sofrimento africano e clamam por mudanças. "Quero fazer afrobeat para minha geração. Em vez de 'levante e lute', será 'levante e pense'", disse em entrevista ao Independent.
É engraçado como tanta gente gosta de música politizada, mas poucos gostam de política. Em vez de instigar a consciência, esse tipo de música faz o contrário, como se suprisse a necessidade diária de cada cidadão de se indignar. Como se ouvir um disco bastasse.
Seun Kuti segue lutando para que a música continua sendo uma arma.
O G8 pode continuar tentando distorcer as palavras do ministro das relações exteriores através de sentimentalismos baratos e usá-las para desviar o foco da discussão, mas de um jeito ou de outro, Celso Amorim conseguiu seu objetivo e chamar atenção para a real questão: não há transparência na Rodada Doha.
Até você entrar em sintonia com a aparente esquizofrenia que está acontecendo no palco, o show do The Mars Volta é um bocado assustador. Alto, agressivo e confuso.
Não é fácil de digerir a massa sonora, misturando a velocidade do speed metal com divisões de jazz, vocais de Robert Plant com trejeitos de Mick Jagger, ruídos industriais com feedbacks de guitarra, camadas de teclado perfuradas por saxofone, percussão e improvisos quilométricos.
Já haviam dito que Roundhouse, local do show, era uma das melhroes, se não a melhor, casa de Londres. E de fato, é.
Construído dentro de um antigo moinho, o espaço circular (por isso o nome, Roundhouse) oferece uma visão de 180° do palco, possibilitando assistir o show de ângulos normalmente reservados para quem está com uma credencial no peito.
Pena que a programação é muito irregular. Com a demolição do Astoria definida, quem sabe alguns shows não acabam indo parar lá.
The Mars Volta
Passados alguns minutos, um transe coletivo toma conta da platéia. A sonoridade, quase anti-social, não deixa espaço pra respirar. Uma experiência tão intensa que as pessoas quase não se movem.
Liderados pelo guitarrista Omar Alfredo Rodríguez-Lopez e pelo vocalista Cedric Bixler-Zavala, o septeto pode ir do Hurtmold ao Justice, via rock progressivo, em meio acorde.
Quando a apresentação termina, a banda sai do palco sem dizer uma palavra, como no resto do show. Se o recado era de que se tratava de uma das bandas mais originais em atividade, nem precisava falar nada mesmo.
Falando em documentários que desafiam os limites impostos ao gênero, acabo de ver o trailer de "American teen" no Trabalho Sujo.
Clica aí em cima e você vai jurar que é mais um filme adolescente. O filme, parece, será um ótimo exemplo de uma tendência que vem se alastrando, (com muitas tentativas furadas) de montar documentários seguindo a estética das obras de fição.
Essa semana finalmente estréia (em Londres) "Standard Operating Procedure", novo filme de um dos mestres do documentário, Errol Morris, o primeiro desde "Fog of war", de 2003, premiado com o Oscar.
Dessa vez, através de entrevistas com as chamadas "maçãs podres", famosas pelas fotos que correram o mundo, Morris explora os abusos cometido pelo exército americano contra os prisioneiros de Abu Ghraib, no Iraque.
O assunto já foi bem explorado no"Taxi to the dark side", vencedor do Oscar na categoria esse ano. O grande diferencial é o fator Errol Morris.
Um filme dirigido por Errol Morris contém, basicamente, tudo que os puristas não admitem num documentário.
Seu filme mais emblemático, "The thin blue line", de 1988, é um marco nesse sentido, pelo uso pesado de reconstruções de cenas, da trilha sonora (a cargo de Philip Glass) e pelo impacto no mundo real, tirando um acusado inocente do corredor da morte.
Uma das característica mais marcantes de seus filmes é o formato das entrevistas, onde as pessoas estão sempre olhando diretamente para lente, simulando um contato visual com a platéia.
Para atingir esse efeito, Errol desenvolveu um equipamento chamado Interrotron, que permite que o entrevistado veja o entrevistador num monitor a frente da câmera (como um teleprompter) e olhe no seu olho.
Parece pouca coisa, mas qualquer um que já conversou por vídeo via Skype sabe como é bizarro a impossibilidade de se olhar no olho da outra pessoa.
Dessa vez, já com o careca dourado no bolso e provavelmente mais dinheiro pra produzir, Morris abusou. Chamou Danny Elfmann para trilha e chegou ao requinte de utilizar câmeras capazes de produzir imagens em super câmera-lenta, filmando a mais de 6 mil quadros por segundo. Pelos clipes disponíveis até agora, é o seu trabalho mais bem acabado visualmente até aqui.
Um filme de Errol Morris é sempre uma chance de testar até onde vão os limites do documentário. Uma aula, por si só, imperdível.
Eles entrevistram Jason Kohn, diretor do polêmico documentário sobre corrupção no Brasil, "Manda bala".
O filme não tem previsão de estréia no Brasil. Filho de brasileiro, o Kohn teme represálias por conta do filme. Logicamente, não precisa muita pesquisa pra encontrar o filme pra baixar nos torrents da vida.
Siga assistindo as partes 2 e 3 da entrevista, meio sem graça, mas com bons momentos.
Mais um vídeo da belezura de festa de três anos do grande Sobremusica: João Brasil estreiando seu novo projeto, Whorehouse in Brazil e mashupando "Baranga" com sua versão infame para "Paradise city", do Guns N' Roses, "Me leve senhor, pra cidade paraíso".
El Negro Mozambique, também conhecido como Nego Moçambique, continua soltando seus remixes (mês passado foram três).
O pacote atual, simplesmente chamado Baba Remixes, inclui "Dancehall queen" (Beenie Man), "One, two step" (Ciara) e um mashup de "Work it" + "Put that pussy" (Missy Elliot + Spank Rock).
Fala, Moçamba:
"Uma hora eu volto pras autorais. Mas é que agora eu tô tipo, fazendo dever de casa... Dessa vez so foi baba de rádio. É que eu uso essas remixes pra estudar, sabe? Fazer a base, mixar, etc. Dessa vez foi pior ainda: peguei qualquer vocal que tava lá no folder de vocais e mandei bala. O critério de escolha foi 'esse vocal tá na minha frente'.
"'Work it vs "Put that pussy on me" é um remix mais house. 'Dancehall queen' ficou engraçado, metade cheezy década de 80, metade pancadão com vocal de ragga. 'One two step', entao, nunca tinha ouvido. Fiz um remix bem funk, um pouco mais minimal e usei um sample to Twenty Fingers só pra zoar geral".
Ajudar a apontar solucões que é bom, ninguém quer. Ajuda financeira ou econômica então, nem pensar.
Elevando essa fixação a enésima potência, o programa "Ross Kemp on Gangs" viaja o mundo atrás dos lugares mais violentos para mostrar para os ingleses, logo após o jantar quentinho e aconchegado num sofá gostoso, que grande bosta que é morar no terceiro mundo.
Quase todos os episódios no YouTube. Pra facilitar sua vida, aqui vai os links para a continuação da visita de Ross Kemp ao Rio: parte 2, parte 3, parte 4 e parte 5.
Em seu segundo disco, "Ghost Rock", os americanos do Nomo se distanciam das cópias de Fela Kuti que marcavam a boa estréia e começam a moldar o próprio som. Ainda inspirados no afrobeat, porém mais elétricos e metalizados.
Enquanto isso, o jornal discute a pasteurização da música e dos filmes, em dois artigos interessantes, sob o apropriado título "The heroes of the coffee table".
Prepare seu caderninho. Se você quer arrumar um emprego relacionado a mídia ou tecnologia na Inglaterra, seu futuro chefe provavelmente está na lista dos 100 nomes mais importantes do setor, compilada anualmente pelo Guardian. A lista de 2008 saiu ontem.
Por conta do texto abaixo, recebi o link para baixar um relatório de 254 páginas com os resultados de uma pesquisa chamada "O Rio tem futuro?", originalmente divulgados em dezembro de 2006.
Ainda não deu tempo de ler, mas parece interessante.
Mesmo sabendo que quase ninguém vai querer ler isso, escrevo. Escrevo sem saber porque, por não saber o que fazer. Mais uma vez, totalmente perdido, zonzo com tanta violência
O assunto é chato, eu sei. É muito mais cômodo virar para o lado e fingir que não é com a gente. Mas é com VOCÊ sim.
As tragédias do menino João Roberto e Jean Charles de Menezes, ambos mortos pela polícia, um no Rio, outro em Londres, são paralelas. Paralelas no estrito sendo da palavra, pois, apesar da proximidade dos fatos, nunca irão se encontrar.
Quando cheguei em Londres, há quase um ano, notícias do julgamento pelo assassinato do brasileiro Jean Charles de Menezes estava em todos os jornais. Todos os dias.
Antes mesmo de começar a ler as matérias, o que chamou atenção foi o fato do caso ter uma cobertura infinitamente maior aqui do que no Brasil, onde com o passar de algumas semanas, o caso sumiu do noticiário.
Lendo a imprensa inglesa, o óbvio se fez presente: a preocupação não era exatamente com a morte do brasileiro. Esse era o detalhe. A grande questão era a sequência de falhas da polícia que ocasionou, não apenas a morte de um inocente, mas expôs os ingleses ao perigo desnecessário.
Ainda assim, os policiais foram inocentados. Difícil dizer se o resultado teria sido diferente fosse um inglês a vítima, isso é um outro assunto. O que vale ser observado aqui é como um erro da polícia repercute de maneira diferente nos dois países.
Na cidade onde a preocupação são as gangues de adolescente brigando com facas (facas! Dá vontade de rir, de tão anestesiado com esse tipo de assunto. Quem dera, uma faca...) a chance de algo assim se repetir é pequena. Ao passo que no Rio, é sentar e esperar.
No Brasil, talvez o único conforto que temos em casos do tipo é o tempo de exposição das tragédias na mídia. Pouco depois os acusados são soltos, o assunto desaparece, restando apenas a dor de quem viveu, e continuará vivendo, a desgraça.
Estando aqui, longe de coisas tão absurdas como essa, não dá vontade de voltar. Isso não é vida. A beleza do Rio (também combalida) por si só não vale a pena.
Mesmo porque, cariocas, é hora de descer do pedestal, descalçar o salto alto, tirar a cabeça das nuvens e aceitar: o Rio de Janeiro, com o perdão da palavra, está fodido.
Enquanto os próprios cariocas não aceitarem essa realidade, nada vai mudar. Vai é piorar.
Abaixo, uma carta escrita por uma pessoa que mora em Londres e é relacionada a mais recente vítima da bagunça em que NÓS (não "eles", os "políticos", NÓS mesmos) nos metemos.
--
Londres, 12 de julho de 2008.
Prezados,
Muitos de vocês já sabem que o menino assassinado pela policia do Estado do Rio de Janeiro na ultima semana era neto-postiço de meu pai, através da nova relação que ele mantém desde a morte de minha mãe. Era neto de verdade, pois além da proximidade, o avô materno da criança também já era falecido e, portanto, o avô materno que ele conheceu era meu pai. Trata-se, portanto, de um quase sobrinho meu, e, deixando os quase e os postiços de lado, um membro de minha família.
Podem vocês imaginar a dor que senti esta semana ao saber da tragédia que acometeu a família. Ninguém conseguiu me contar e tive que ir descobrindo aos pouco pelas Internet. João Roberto, meu quase sobrinho, o menino que encantava meu pai, que faria quatro anos daqui a três semanas, se fora num estúpido e bárbaro ato policial. Sempre soubemos do risco dos assaltos, dos tiroteios, dos seqüestros. Mas sermos abatidos como alvos de guerra por policias que deveriam nos proteger extrapola o limite da compreensão. Ter um filho, um sobrinho, nosso melhor e maior projeto de futuro, alvejado por nossas próprias instituições é a expressão máxima da autofagia bárbara em que se transformou a vida do carioca.
Mas não adianta simplesmente reclamar. Somos cidadãos e não exercemos nossa cidadania. Quando muito, quando acontece uma tragédia dessas, realizamos passeatas e missas de protesto. Mas não nos dedicamos sistematicamente a pensar formas de atrair a atenção para o problema nem de veicular as soluções que vislumbramos. Furtamo-nos de dar opinião, quando somos aqueles na nossa sociedade que mais capacidade tem de dar opiniões qualificadas para a melhorar. Somos todos intelectuais, profissionais liberais, bem formados, com extensa bagagem cultural e não dedicamos tempo a pensar, a formular, a executar ações para melhorar as nossas vidas. A violência está nos matando, mas nós estamos nos matando também ao nos eximirmos da responsabilidade de pensar, de formular estratégias que possam subverter a desordem vigente. Faço aqui o meu mea-culpa. Precisou acontecer indiretamente comigo, num momento em que estou no exterior vivendo uma experiência até então desconhecida de completa despreocupação com a violência, para atentar que esta vida com a qual o carioca se acostumou não é mais possível. Mas aprendi aqui em Londres que o segredo não é só votar melhor, é tomar para si a responsabilidade de resolver. Só isso pode nos levar a políticas e políticos melhores. Temos que transmitir claramente o que queremos, qual sociedade queremos ter e trabalhar por ela.
Nossa cidade é linda, é quente, é aprazível. Tem tantas qualidades que passados dois dias de uma tragédia, nos esquecemos dela, e voltamos a nossa vida normal. Afinal, a violência é ruim, mas o mar, a floresta, etc, compensam. Basta morar na zona sul, longe de favelas, não andar de relógio, não passar no Túnel Rebouças à noite, não andar com a janela do carro aberta, não, não, não. Alienamo-nos achando que restringindo nosso raio geográfico e seguindo um determinado código de conduta estamos a salvo. São muitos os nãos aos quais nos acostumamos e ainda assim continuamos morrendo. Morremos porque aceitamos que a vida não tem valor. Obviamente que não a nossa, mas sabemos que a polícia carioca mata historicamente pobres, bandidos ou não, simplesmente porque acha que a sociedade lhe deu esse direito. E de fato deu, porque eu, que não sou uma estudiosa do assunto, me lembro de livros citando a violência extrema da policia para com os pobres na época de Getúlio Vargas - e nunca assisti nenhuma demanda estruturada para que a polícia mudasse de atitude. Só que a conseqüência dessa violência policial recai diretamente sobre nós. Por que será que os nossos traficantes são os mais bárbaros e abusados do Brasil? Por que tantas balas perdidas? E agora, o pior de tudo, por que crianças mortas? Matar uma criança, de boa família, bem educada, é matar a riqueza de um país. Além do horror do desrespeito a vida humana que a mim particularmente sempre revoltou, há a burrice de ceifar o potencial construtivo de nosso estado. Protestos simplesmente não são demandas estruturadas. Temos capacidade para mais do que isso. Se continuarmos nos omitindo o Rio será apenas um cartão-postal, vazio, sem qualidade de vida.
É por este motivo, que aqui de Londres, causticada por uma enorme dor nas costas e enxaqueca, angustiada por pela primeira vez ter me visto na posição de pensar se vou realmente ter coragem de voltar a morar com minhas filhas nesta cidade, que conclamo a todos os que se identificam com o que foi dito aqui a se reunir, virtual ou fisicamente, para articularmos uma estratégia para demandar uma policia melhor, que minimamente entenda que as sociedades ocidentais construíram um arcabouço legal para garantir que a vida humana seja preservada. Este debate tem que estar nos jornais cariocas todos os dias. Tem que estar na televisão, tem que estar nos nossos cafezinhos. Ninguém vai cuidar de nós se não o fizermos. Este problema é nosso e não do Brasil.
Por favor, os que quiserem contribuir respondam para o e-mail T.Linhares.Juvenal@googlemail.com.
Grande abraço,
Thais Linhares Juvenal
Economista do BNDES, atualmente mestranda na London School of Economics and Political Science – LSE no programa, Environmental Policy and Regulation (Politica Ambiental e Regulação).
Após quatro dias enfiado na lama e cercado de adolescentes bêbados, a maratona de shows do Rock Werchter 2008 ficou assim:
Vampire Weekend, The National, Shameboy, Lenny Kravitz, R.E.M., Soulwax, My Morning Jacket, Jay-Z, Duffy, The Verve, Hot Chip, Digitalism, MGMT, Band of Horses, Kings of Leon, Ben Harper, Sigur Rós, Radiohead, Hercules & Love Affair, Mark Ronson, The Racounteurs, Justice e Beck.
Uma sequência dessas apaga qualquer má impressão que um festival muito bem organizado, porém mal produzido, possa deixar -- afirmação parece antagônica, mas não é. Os principais problemas foram a superlotação e a má distribuição do espaço.
O bom é que passada as chateações, ficam apenas as recordações dos shows. E que shows.
Dia 1 - onde os urubús tem asa
Uniforme
Werchter é uma pacata cidade, de poucos habitantes, no interior da Bélgica. Não tem nada perto, ou mesmo longe. Como é que um lugar desses faz pra reunir uma escalação desse peso -- e sem o nome de nenhuma mega corporação no logo -- é um mistério.
Parte do intuito da ida a Bélgica era desvendar esse segredo, seguindo uma dica quentíssima de uma pessoa que por motivos profissionais já visitou praticamente todos os principais festivais do planeta (mesmo), apontando Werchter como o melhor.
Como comparação, foi dito que barrava o Coachella. É uma afirmação bem ousada, pois escalações a parte, o evento californiano tem algo que os festivais europeus não tem (tirando os espanhóis): certeza de dias ensolarados.
Nunca quis ir para o zoológico de Glastonbury justamente porque assistir a shows de galocha, com barro até os joelhos, vestindo uma capa e tremendo de frio não é exatamente meu ideal de uma tarde agradável.
A decepção com o ensopado verão europeu doeu ainda mais ao descobrir que, não apenas Werchter também é bem molhada, mas os frequentadores estão muito pouco preocupados com o que se passa nos dois palcos.
E tem também a bebida. No Coachella não é permitido circular com bebidas alcóolicas fora da área determinada, o que acaba deixando as coisas bem mais calmas. Na Europa, os festivais são uma espécie de primos distantes do carnaval, com ênfase nos desastres.
Vampire Weekend, "A-Punk"
No primeiro dia, enquanto a maior parte do público se esbaldava nas poças e curtia o som comercial de quiosque patrocinado por uma rádio (estranhamente uma das maiores áreas do evento), o Vampire Weekend tocava na tenda.
O show é rápido e direto, emendando todas as músicas do disco sem cerimônias. Animados com a reação da platéia, o vocalista do Vampire Weekend elegeu os belgas como os melhores dançarinos da turnê.
Isso porque eles ainda não foram para o Brasil. Torça para esse show aterrisar por aí, porque é coisa fina mesmo.
Antes do próximo show interessante da noite, o R.E.M., tocaram os Chatolas do The National (com "C" maiúsculo mesmo) e o farofeiro Shameboy quase levou a tenda abaixo.
Começando bem, com músicas de seus primeiros discos, Lenny Kravitz descarrilhou no final e fanfarronou como de costume.
Quando finalmente chegou a vez do R.E.M., o som do palco principal deixou o público na mão. Baixo e embolado, como se fosse no Brasil, mal dava pra ouvir as músicas.
Uma pena, pois o repertório estava caprichado, abrindo com "Orange crush" e fechando com "Man on the moon".
Soulwax, "Robot rock" + "Phantom Pt. II"
De volta a tenda, os heróis locais Stephen and David Dewaele encarnaram sua faceta de banda a frente do Soulwax.
Bastante coisa mudou no Soulwax do show no Tim Festival 2004 para cá. Se antes a banda era uma mescla de rock e electro (tendendo mais para o primeiro) sob o nome Soulwax Nite Versions tocam seus remixes ao vivo.
Stephen e David se dividem entre sintetizador, vocais e ocasionalmente guitarra, com um baterista somando-se a dupla.
Emendando "Gravity's rainbow" (Klaxons), "NY Excuse" (deles mesmo, derrubando a tenda), "Robot Rock" (Daft Punk) e "Phantom Pt. II" (Justice) fizeram uma das apresentações mais legais da música eletrônica recente (tem notado como os live PAs andam sem graça? ou é comigo?).
Os irmãos ainda voltariam mais tarde, com seu projeto mais conhecido, o 2ManyDJs, antes do show do Chemical Brothers encerrando a noite no palco principal.
A essa altura, com os ossos enxarcados, o banho quente e a cama gritavam bem alto, tão alto que foi impossível não atender a seus apelos.
Dia 2 - lá vem o sol
Jay-Z
Vir, vir, o sol não veio, mas pelo menos a chuva também não. Começando o dia devagar, o My Morning Jacket fez um show correto, mas repetitivo e um tanto cansativo na tenda.
No palco principal, e cedo, a presença mais comentada no circuito de festivais de verão desse ano mostrou que não estava a passeio.
Bom de palco que só ele, Jay-Z veio com banda, o que costuma ser a diferença entre um monólogo de rap terrívelmente insuportável e um belo show.
Sem vergonha nenhuma, botou a branquelada pra rebolar ao som de sucessos seus, com sua participação ou com seu dedo: "99 problems", "Crazy in love" (Beyoncé), "Umbrella" (Rihanna) e a música da estação, "American boy" (Estelle).
A distância entre o Jay-Z, brincando no palco, para a insossa Duffy na tenda era maior do que a caminhada em si. Sem graça, apelando para seduções baratas e com uma voz de pato, ao vivo a loirinha não segura a onda. Aliás, nem em disco.
No palco principal (eita, vai-e-vem...), o reunido The Verve angariava seus tostões simulando um retorno do brit-pop, que nem estava tão longe assim.
Hot Chip, "Ready for the floor"
A nerdice tomou conta da tenda, lotada para ver os ingleses do Hot Chip. Não dá pra dizer exatamente o que é, mas falta alguma coisa ali.
Pode ser o vocal, sempre no mesmo tom e sem dinâmica, pode ser a transposição das músicas para o palco, pode ser o excesso de esforço para parecer bacanas. Pode ser qualquer coisa, a bem da verdade, mas que falta algo, falta.
O show deu uma crescida em "Over and over", explodiu na ótima "Ready for the floor" e ficou curioso na versão de "Nothing compares 2 U", do Prince, imortalizada por Sinead O'Connor.
Digitalism
Cheio da onda, com cenário especial e tudo mais, o Digitalism era aguardado ansiosamente na tenda, super lotada.
Devido ao excesso de empolgação dos integrantes, o show quase se perde. É um tal de vir a frente do palco pra cantar ou fazer danças esquisitas, tocar bateria eletrônica com baqueta e pedir gritinhos que fazem pensar nos clichês do "DJ Ibiza".
Entretanto, a pancadaria do som é tão forte que sossega até a dupla. Contrariando a "tendenssa" atual. em todo show de música eletrônica é feito para ser assistido. Esse certamente funciona melhor de olhos bem fechados.
Dia 3 - dobradinha histórica
MGMT
Provavelmente por estratégia do festival, todos os dias algumas das bandas mais esperadas tocavam bem cedo. O MGMT entrou no palco 13h25.
A impressão deixada no público no show de Londres, dois meses atrás, não foi das melhores. Grande parte saiu do show antes do fim.
É aquele negócio de banda de internet. Muita gente só conhece uma música e, talvez nivelando por baixo, espera mais dez iguaizinhas. Quando elas vem diferentes entre si -- o que deveria ser uma boa coisa -- a turma impaciente do hype debanda.
O MGMT é um prato cheio pra esse tipo de reação. O disco é bem diverso e ao vivo as músicas ganham roupagens de rock psicodélico que assustam quem está a fim de só mandar "um dance".
O pouco espaço de tempo entre os dois shows cancelam a idéia de uma evolucão da banda, mas o fato é que o show de Werchter foi infinitamente melhor do que o de Londres.
O repertório estava mais bem distribuído, a banda mais entrosada e o público mais atento. Os músicos fizeram tudo que o professor mandou e... Brincadeira. É que essa frase acima parecia resenha de futebol.
Show bom bagarái. Curioso saber como vai ser recebido no Brasil.
O Band of Horses adormeceu a galera na tenda antes do Kings of Leon fazer justo o contrário no palco principal.
No caso do KoL, a distância entre o fraco show no Brasil e o que a banda vem apresentando atualmente é o suficiente para apontar uma evolução.
Os integrantes tocam e parecem não estar nem aí, como se aquilo não fosse nada ou não estivessem empolgados. Vai ver não estão mesmo. Pouco importa.
Com uma das músicas mais tocadas nos intervalos dos show, "On call" e um disco melhor do outro, o KoL já provou que cresceu.
Sigur Rós
Tudo que é bom tem seu preço. No caso do show do Sigur Rós, era aturar o Ben Harper destruindo, uma a uma, suas melhores músicas.
É um caso ainda mais grave do que o do Lenny Kravitz. Era de se esperar que depois de três discos excelentes, o sujeito estivesse encaminhado. Mas não.
Inacreditavelmente, vieram bombas atrás de bombas (com excessão de "Woman in me", um musicão) e hoje assistir um show do Ben Harper é, infelizmente, uma dureza.
Divida paga, os islandeses do Sigur Rós fizeram valer o esforço.
Com um dos cenários mais bonitos do festival e chuva de papel picado no encerramento contra um céu rosado pelo pôr-do-sol, os islandeses domaram a platéia, conseguindo silêncio geral.
Até mesmo um lamentável grupo de trintões que insistia em brincar de botar um pinto de borracha na boca e aparecer no telão ficou quieto. A tarefa não era fácil, acredite.
Radiohead, "Climb up the walls"
Duas bandas tão distantes e estranhamente próximas como Sigur Rós e Radiohead, tocando uma após a outra, é pra jogar as mãos pro céu.
A grande "falta de sorte" foi que o repetório dos ingleses foi bem parecido com o da apresentação no Victoria Park, com pouquíssimas alterações.
A inclusão de "Paranoid android" fez valer o ingresso. Novamente, o clássico (é, já) "In rainbows" foi tocado quase integralmente e "Climb up the walls" surgiu numa versão dub de cair pra trás de tão boa.
Obviamente, o festival inteiro queria assistir o show colado no palco, o que acabou rolando um espreme-espreme raro por essas bandas.
Na tentativa de evitar o tumulto da saída, escolhi sair antes da última música pelo vão onde fica a equipe técnica, alegando que era impossível atravessar a massaroca de gente.
Sem saber, foi um prêmio. Sabe-se lá porque, o caminho levava até a boca do palco, a cinco metros da banda tocando "Everything in it's right place", antes da saída. Só não deu tempo de sacar a câmera pra mais uma foto fora de foco.
Dia 4 - arrancada final
Hercules & Love Affair
Arrebentado, com os pés doloridos das benditas galochas e mal alimentado (o Rock Werchter é o paraíso das porcarias), o último dia começou bem mal com o Hercules & Love Affair.
O grupo mal consegue ser uma paródia de si mesmo, com músicos fracos, versões magras e a ausência da voz do Anthony (and the Johnsons). Toma um baile, fácil, fácil, do Celebrare no quesito disco-music águada para casamentos.
Mark Ronson
Eis que surge Mark Ronson e sua banda gigante, os Version Players, chegando a somar 19 músicos no palco em alguns momentos.
A idéia por trás do projeto é tão simples que soa até boba. A princípio. Como um DJ, Ronson comanda uma sessão de versões de hits do rock, hmmm... contemporâneo.
Lembra um pouco a proposta da Orquestra Imperial, fundada pelos produtores Berna Ceppas e Kassin e reunindo músicos amigos pra tocar músicas que influenciaram suas carreiras. A diferença é apenas cultural, o que cada um ouviu de seu país enquanto crescia.
Produtor conhecido pelo trabalho com Amy Winehouse e Lilly Allen, Mark Ronson entorta as músicas até ficarem quase irreconhecíveis, criando uma unidade sonora impensável entre "Toxic" (Britney Spears), "Just" (Radiohead), "Stop me" (The Smiths) e "God put a smile upon your face" (Coldplay).
O show é praticamente um portifólio itinerante, mostrando o talento de Mark Ronson na produção. O único detalhe é que é um show tão intenso e empolgante que as pessoas sequer pensam nas músicas originais. É como se tudo fosse material inédito.
O show agrada desde o indie mais exigente até quem nunca ouviu falar em Mark Ronson antes. Impressiona também porque, com tantas participações especias no disco, seria difícil imaginar as versões sem seus intérpretes.
Mais tarde, Ronson ainda deu uma canja no palco do Kaiser Chiefs.
Racounteurs
Já em seu segundo disco, não se sabe até quando o Raconteurs será chamado de "projeto paralelo do guitarrista Jack White". O White Stripes parece cada vez mais distante, ainda mais vendo o estrago que White pode fazer com uma banda completa.
Sem a responsabilidade de prover ao mesmo tempo a melodia e a base, White ganha mais espaço para explorar seus talentos na guitarra, no piano ou mesmo no vocal. O resto da banda também não é nada, resultando num show mais redondo que o do White Stripes.
Justice
O que não é um conceito. Ouvindo os zilhões de ruídos e distorções do Justice, fico pensando o que aconteceria com a dupla se vem vez da opção por um show encenado, tentassem fazer um simples DJ set com as mesmas músicas.
Se a pista ficaria vazia ou não é pura especulação. De qualquer forma, é inegável o apelo das referências ao rock e ao metal (jaquetas de couro, amplificadores Marshall e, claro, as cruzes). Como no caso do Daft Punk, não é apenas um show de música, é também uma espécie de peça teatral.
Nesse contexto, as críticas de que os shows são sempre iguais, com pouquíssimos adendos, e acusações de que é tudo pré-gravado (na montagem do palco um roadie apertou algum botão por acidente e em vez de uma nota ou algo parecido, disparou foi a base de "Genesis", prontinha) perdem um pouco o sentido. Teatro é assim.
O perigo é os atores começarem a acreditar nos papéis e quererem se transformar nos personagens. Sinal amarelo para a pose da foto acima, mais pra Poison do que pra Metallica.
Beck
Fechando a tampa, o grande Beck, um tanto apagado e acompanhado por uma banda meio frouxa,mostrando músicas do novo disco, "Modern guilt" e alguns de suas melhores canções.
Entre "Loser", "Devil's haircut", "New polution", "Where it's at", o grande momento foi "Everybody's got to learn sometime", do The Korgis, que fez parte da trilha do filme "Brilho eterno de uma mente sem lembranças".
Moído e , restava uma última coisa a fazer: sair correndo para escapar da sequência letal Underworld / Nightwish.
Além de comentar a suavizada nas letras e no som, o destaque é análise que o crítico faz da (estranha) relação do grupo com a sua "brasilidade". Na mosca:
"Perhaps it has something to do with the way CSS have been received, particularly in the UK. As with Björk, despite the critical plaudits and high rankings on style mag cool lists, there's a touch of Clive James chuckling affectionately at the Japanese on Endurance about people's reaction to CSS: look at the crazy foreigners with their funny clothes and pidgin English song titles. You get the sense that the band's members occasionally feel they're being patronised. Shortly before her recent departure from the band, bassist Ira Trevisan told one journalist she was sick of being asked about their "Brazilian heritage", adding: "It would be good if we were Belgian." There's a sentence you don't hear every day. Maybe the idea is to prove they have more in common with their European peers than they do with their native forebears, to make music to which no one could append the word "wacky", but it's hard not to feel that becoming as boring as your average British indie band is a pretty extreme way of avoiding the odd question about Tropicalia."
Estranhamente, apesar dos arrancos, o disco ganhou 3 das cinco estrelhas. Mas no Guardian é sempre assim, o disco tem que ser realmente medonho pra ganhar menos que isso. E no caso do CSS, é apenas sem sal.
Matias comenta o projeto de lei em trânsito que transforma em criminoso qualquer pessoa que copie digitalmente algo que tenha alguma espécie de recurso anticópia. Clique no trecho abaixo pra ler o texto completo.