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Matéria que escrevi sobre o Late of The Pier para a edição de maio de 2008 da revista XLR8R.

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Silver capes and sampler-mashing straight from Castle Donington's fresh-faced upstarts.
words: Bruno Natal

Yes, Late of the Pier is another weirdly named band of British 20-somethings, totall hyped though they don't even have a record out yet. Your first reaction might be just to ignore them. But praise from Digitalism, and Erol Alkan's involvement in producing that yet-to-be-released album, might be enough to get you to one of their gigs. And that, my friend, may lead you to the center of a kaleidoscopic, psychedelic, noisy, stop-start dance-rock maelstrom, where you'll find yourself surrounded by 18-year-olds and wearing a pair of band-distributed "rainbow trippy goggles".

On stage, Late of the Pier has so much going on at the same time that it's almost hard to describe: silver capes, metallic guitarr riffs and screams, frenetic, MPC-triggered 8-bit effects, post-punk drums, distorted disco basslines, and layers and textures from synthesizers that have been carefully placed in golden foil-wrapped boxes. And all of these elements are neatly rolled into recent singles on their Zarcorp label, including "Bears are coming" and "Bathroom Gurgle" (a remix of which shows up on the latest taste-making Kitsuné compilation).

"I think a lot of people that hear us are interested because it just sounds a little bit odd; familiar but... just slightly odd," explains bassist Andrew Faley. "That confuses them into listening to us a bit more. And that's when we sink our musical claws into them."

The foursome's live set-up -- guitar, bass, drums, two synths, and one MPC -- came naturally, says Faley. "We originally played just straight bass, drums and guitar. We all listened to a lot of electronic music, from Prodigy and Daft Punk to Lamb, Chris Clark, and Autechre, but never really thought about playing it as a band. Sam [Eastgate, the guitarist and lead vocalist] was sequencing, sampling, and producing electronic music himself and eventually the two collided."

The Midlands-based band finally decided to add electronic elements into its sound after a group outing to Cut Copy's first U.K. gig. "They were using a MPC-1000 sampler live. Next week, Sam bought one off eBay and [keyboardist Sam] Potter went from playing one key on a keyboard in one song to mashing a sampler [into everything we do," says Faley.

If it all falls apart, there is a plan B. "Ross [Dawson, the drummer], is going to be a gravedigger after LOTP, and Potter wants to be a glass blower," explains Faley, who's obviously been given the task of remembering the band's retirement plans after some drunken night.

"Sam's going to collect glass that Potter's blow. We'll all still be connected though -- I'll make a film about Ross' grave-digging, for which I'll use special glass lenses in the camera. These I'll buy of Sam, who'll have collected them from Potter. And the band played on...

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Resenha do documentário "Battle for Haditha", minha primeira colaboração para o DocBlog, editado por Carlos Alberto Mattos, no Globo Online.

(Falando de filmes sobre a guerra no Iraque, o Guardian publicou uma matéria muito bacana, falando do fracasso absoluto de bilheteria de todas as tentativas até aqui).

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O Iraque de Broomfield, entre fato e ficção

Sem desgrudar do real, Nick Broomfield, um dos mais conceituados documentaristas da Inglaterra, estréia na ficção com "Battle for Haditha" ("A batalha por Haditha"). O filme remonta um dos momentos mais polêmicos – até aqui, pelo menos – da ocupação norte-americana no Iraque.

Após o comboio em que estavam ter sido alvo de uma bomba caseira, plantada na estrada por integrantes da resistência iraquiana, matando alguns e ferindo vários ocupantes de um dos blindados, um batalhão de marines enfurecidos fez uma chacina na cidade que dá nome ao filme. O episódio, na época, chegou a ser comparado às matanças em vilarejos do Vietnã.

Ainda que se trate de um reconstituição dramatizada dos acontecimentos, Broomfield apostou forte em elementos da linguagem documental para garantir o realismo.

Filmado na Jordânia e em Dubai, o filme traz atores não profissionais. Os americanos foram escolhidos entre ex-combatentes das guerras no Afeganistão e no Iraque, com histórias de vida parecidas com as dos personagens. Os iraquianos, entre jordanianos que nunca haviam atuado antes. Em ambos os casos, os atores foram descobertos durante a fase de pesquisa para o filme, que incluiu entrevistas com sobreviventes do massacre, dos dois lados. Feito em vídeo e com câmera na mão, o filme é repleto de diálogos improvisados.

Não raro, Nick Broomfield é chamado de "versão inglesa do Michael Moore". A comparação é injusta, e não apenas pelos muitos anos a mais de estrada.

Apesar da participação ativa em seus próprios filmes, aparecendo na tela para fazer suas perguntas, Broomfield, ao contrário de Moore, não quer provar aos entrevistados que já sabe tudo sobre o que vão falar. Pelo contrário, seu jogo é diferente. Sempre de fone e microfone em punho, acumulando a função de técnico de som, Broomfield na maior parte das vezes faz-se de desentendido, dissimula, dando espaço para seus entrevistados se atrapalharem sozinhos.

Nos documentários Biggie and Tupac ou Kurt & Courtney, que investigam respectivamente os assassinatos dos rappers Notorious BIG e Tupac Shakur e o suícidio do líder do Nirvana, Kurt Cobain, a suposta falta de conhecimento do assunto chegou a irritar os fãs do artistas retratados. Já em The Leader, the Driver and the Driver's Wife, sobre o líder racista sul-africano Eugene Terreblanche, um ano antes do fim do apartheid, o atrapalhado personagem de Broomfield beira a comédia. E com isso, acerta no tom, ao ridicularizar a figura de Terreblanche.

Battle for Haditha não é a primeira incursão de Broomfield em assuntos relativos a guerra. Ele já havia feito algo parecido em Soldier Girls, de 1981, sobre o treinamento de mulheres no exército dos EUA. O resultado de seu filme de ficção, no entanto, não é tão satisfatório como muitos de seus documentários.

Em diversos momentos, ainda que o protagonista Elliot Ruiz se destaque, a sensação geral é de se estar assistindo a um filme de baixo orçamento dirigido por alguém com pouca experiência (o que no caso do ficcionista Broomfield é verdade), em vez de um docudrama. O roteiro, escrito pelo diretor, esbarra na obviedade e as informações dadas nos diálogos são tão diretas e explícitas que deixam pouco espaço para interpretação.

Os cacoetes de documentarista, entretanto, ajudam na escolha dos ângulos e nas cenas de guerra, principalmente na matança. Ainda assim, no final das contas, a fronteira entre realidade e ficção não fica tão borrada como era de se esperar.

G1, 11/03/08

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Matéria que escrevi sobre o Sany Pitbull para a revista XLR8R de março.

A capa é sobre dubstep (a terceira da revista!) e a edição está inteiramente disponível para baixar, em PDF, no próprio saite.

Hoje, sexta, Sany Pitbull toca na Fabric, com Switch, Sinden e Digital Mystikz. Frenético.

G1, 18/Fev/2008

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A íntegra da entrevista em vídeo que fiz com o Friendly Fires está publicada no G1.

XLR8R, Abril 2007

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foto:Gustavo Godinho

Matéria sobre tecnobrega que escrevi para revista XLR8R.

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Brega, in Portuguese, means something of bad taste; it also refers to a genre of Brazilian popular music whose songs are usually about heartache, and include questionable use of synths and strings. Despite being virtually ignored by the media of Rio and São Paulo, brega has been hugely popular for decades with the favela dwellers of Northern Brazil, particularly in Belém do Para. Eventually, brega met electronic music, birthing the rudimentary dance music known as tecnobrega (roughly translated: "cheesy techno").

Tecnobrega revolves around various soundsystems (aparelhagem), like Treme Terra Tupinambá (Tupinambá Ground Shaker) and Poderoso Rubi (Mighty Ruby); despite hailing from Brazili's poorest regions, these soundsystems operate complex networks of computers, lights, special effects, and speakers.

The distribution of tecnobrega is similar to the hip-hop mixtape game in the U.S.. CDs are only sold in big, open-air markets; all copies are "pirated," but getting music for free isn't problem–it's the solution. Selling mixtapes at the market is an artistic boon for the DJs, allowing them to increase their popularity and get more gigs.

To get more airplay, artists make special tracks praising radio stations and soundsystems. When you go to a concert, not only can you buy a copy of the gig as soon as it is over, but you can buy a copy beforehand, then give them your name and pay to have it shouted out during the show–the ultimate in customization. CD-Rs are so yesterday in this scene; even MP3 compilations with 10 albums on one disc are being replaced by DVD-Rs that hold multiple gigabytes' worth of information.

Ronaldo Lemos, head of Creative Commons Brazil and professor at FGV Law School, believes tecnobrega is evidence of a new music-industry model. "In this scene, the 'pirates' are incorporated in the music business chain," he says. "Nobody distributes music as cheap and as fast as they do. The appropriation of technology by the ghetto is happening globally. What's cool is that they have created an environment where intellectual property is not an important factor in their business model."

Belém native Vladimir Cunha–who's directing upcoming documentary, Brega S/A­–disagrees. "The only people who make money out of tecnobrega are the soundsystem owners," he retorts. "Artists get paid really badly. On average, a six-piece band gets 150 dollars a gig. At first, piracy could be perceived as a good thing, because it's spreading the artist's work, but in fact they have to rely solely on live concerts to survive."

XLR8R, Agosto 2006

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Resenha da coletânea "Made in Brasil que escrevi para revista XLR8R.

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The recent baile funk fever might lead to the conclusion that that's all Brazilian music has to offer. Nothing could be further from the truth, and that‘s what WordSound's head scout Skiz Fernando found out when he spent a couple of months in Rio. Remember that this is Brasil with an "s," and all types of the country's music are pushed forward. The swinging acoustic guitar on BNegão's "No Hay," Dom Negrone's mix of hip-hop and samba ("O Povo Que Vibra"), Mamelo Sound System riding the Stalag riddim on the dub-hop "Liri Sista," and Digitaldubs' mixture of dancehall and Afro drums on "Arrego" all add up to future visits to the favela from Diplo and friends.

XLR8R, Maio 2006

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Resenha do disco "Sauna: um, dois, três", do São Paulo Underground
, que escrevi para revista XLR8R.

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Rob Mazurek (Chicago Underground Duo/Trio, Isotope 217) teams up with Brazilian drummer/trumpeter/programmer Mauricio Takara (from the jazzy instrumental rock band Hurtmold) for this noisy, experimental project. The title track doesn't divulge the duo's post-rock leanings, but they're slightly hinted at on the "Afrobeat-fueled Afrihouse" and "Pombaral," telling pieces of this landscape soundtrack that translate the sounds of the tumultuous metropolis into music.

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Fui convidado para votar e resenhar algumas bolachas para lista dos 100 maiores discos da música brasileira, publicada na Rolling Stone Brasil 13.

Com a edição fora das bancas, seguem os textos.

De brinde, a minha lista completa, sempre mutante.

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Os 20 (em nenhuma ordem específica):

"A tábua de esmeralda", Jorge Ben

"Coisas", Moacir Santos

"Da lama ao caos", Chico Sciense & Nação Zumbi

"Bloco do eu sozinho", Los Hermanos

"Nadadenovo", Mombojó

"Disfarça e chora", Cartola

"Lado B, Lado A", O Rappa

"Ando meio Desligado", Mutantes

"A bad Donato", João Donato

"Prelude", Deodato

"Racional", Tim Maia

"Os afrosambas", Baden Powell e Vinícius de Moraes

"Chega de saudade", João Gilberto

"Construção", Chico Buarque

"Estudando o Samba", Tom Zé

"Transa", Caetano Veloso

"A dança da solidão", Paulinho da Viola

"Roberto Carlos (1970)", Roberto Carlos

"Funk Brasil", DJ Marlboro

"Edison Machado é samba novo", Edison Machado

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"Transa"
Caetano Veloso
1972 - Phillips

Gravado em Londres em 1971 e lançado no Brasil em 1972, "Transa" foi o terceiro e último disco gravado por Caetano Veloso no exílio e o primeiro a sair após seu retorno ao país (desconsiderando "Barra 69", que saiu antes, mas foi gravado ao vivo com Gilberto Gil, antes dos compositores irem "passear" na Inglaterra, à convite da ditadura). Se pode-se dizer que algo de bom pode ser extraído de um exílio, o encontro de um tropicalista com uma cultura extrangeira, in loco, é um bom exemplo. Intercalando letras em inglês (cinco no total) com versos do poeta Gregorio de Mattos ("Triste Bahia") e um samba de Monsueto de Arnaldo Passos ("Mora na filosofia"), "Transa" é auto-biográfico até o osso. Fala sobre estar sozinho e longe de casa ("You don't know me") e de como incorporar o choque cultural, como a citação ao reggae na Portobello Road, em "Nine out of ten", que Caetano já afirmou ser a primeira gravação brasileira a citar os compassos do ritmo caribenho. Talvez pela distância, pela falta de olhares vigilantes, Caetano nunca tenha sido tão Caetano.

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"Da Lama ao Caos"
Chico Science & Nação Zumbi
1994 - Chaos (Sony)

1994 foi um ano de renovação musical intensa, um momento chave para música brasileira. E o principal fato dessa renovação foi o lançamento do disco "Da lama ao caos". Reza a lenda que a gravadora contratou Chico Science & Nação Zumbi no escuro, pensando ter encontrado, em Recife, uma resposta para o fenômeno de vendas do axé É o Tchan!, colocando no mapa não apenas uma das mais criativas bandas do país, mas boa parte da cena de Pernambuco, o Mangue Bit e seu manifesto. A mistura de maracatu, rock, hip-hop, dub e música eletrônica era tão inovadora e abrangente que continua repercutindo até hoje.

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"A Bad Donato"
João Donato
1970 - Blue Thumb Records (EUA)

Morando nos EUA, Donato ganhou carta branca da gravadora para fazer o disco que quisesse, com direito a uma boa verba para adquirir equipamentos,. Decidiu então fazer experimentos com sintetizadores e pianos elétricos. Montou uma banda assustadora (incluindo Dom Um Romão, Emil Richards, Bud Shank e integrantes da orquestra de Stan Kenton), convidou o arranjador Eumir Deodato e gravou "A bad Donato". Declaradamente influenciado por James Brown e Jimi Hendrix, o disco (tido como um marco do jazz fusion) faz uma fusão genial do funk com música brasileira.

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"Bloco Do Eu Sozinho"
Los Hermanos
2001 - Abril Music

Após uma exposição nacional massiva e massificante, provacada pelo hit Anna Júlia, o Los Hermanos surpreendeu sua gravadora, a imprensa e, principalmente, seus fãs com a mudança de direção proposta pelo "Bloco do eu sozinho". Em vez de seguir a fórmula do sucesso, que implorava por outra anna-qualquer-coisa, a sonoridade ska-hardcore-pop do primeiro disco deu lugar a andamentos quebrados, melodias intrincadas e letras reflexivas. Como num recomeço, voltaram a tocar em lugares pequenos e renovaram de seu público, que se cristalizaria no terceiro disco e tomaria proporções messiânicas no quarto. O culto começou aqui.

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"Ando Meio Desligado"
Os Mutantes
Polydor - 1970

Não é tarefa fácil competir com discos como "Jardim Elétrico" ou o homônimo "Os Mutantes", porém faixas como "Desculpe babe" e "Ando meio desligado" - talvez o maior clássico da banda - pesam a favor. Admirado no exterior por nomes como Beck, David Byrne e Kurt Cobain, o disco tem arranjos de Rogério Duprat e marca o distanciamento dos Mutantes do movimento tropicalista, aproximando-se mais do rock e da psicodelia, embora seja praticamente impossível definir um estilo, tamanha é a variaçao temática das canções. Você nunca mais verá seu refrigerador da mesma maneira.

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"Quem é Quem"
João Donato
1973 - Odeon

O time reunido em "Quem é quem" por João Donato é forte, como quase sempre é em seus discos. Dori Caymmi e Laércio de Freitas assinas arranjos e Marcos Valle é o assistente de produção, enquanto o baixista Bebeto, o percussionista Naná Vasconcelos e outros músicos acompanham o pianista no estúdio. Donato finalmente se permite cantar, inaugurando um estilo inconfundível. Lançado um ano depois do retorno de Donato ao Brasil, após mais de uma década nos EUA, o disco é um reencontro do pianista com o samba-jazz, envenenado e entortado por seus experimentos elétricos no exterior.

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Resenha do disco do Brasov, que escrevi para alguma edição da Rolling Stone Brasil, em abril, talvez.

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Brasov
4 estrelas
“Uma noite em Tuktoyaktuk”
Dubas

Skatalites de churrascaria

Enquanto o nome da banda homenageia um condado romeno de tradições ciganas, o título do disco “Uma noite em Tuktoyaktuk” fala de uma cidade canadense onde brilham o sol-da-meia noite e a aurora boreal. É um fator lúdico bem particular, que traduz o universo do Brasov.

Imerso numa atmosfera kitsch, o Brasov ousa misturar música brasileira (guitarrada, samba), latina (cumbia, salsa) e cigana em temas instrumentais, pieguices em espanhol, órgãos de banda de restaurante, andamentos de aceleração repentinas e, ainda assim, dar certo.

Em 2002 o Brasov pendurou os uniformes de porteiro e tocas de natação que usava em suas apresentações e resolveu dar um tempo. Nesse mesmo surgiu a Orquestra Imperial, com a qual, depois do retorno, o grupo tem sido insistentemente comparado.

A volta em 2006, com o lançamento do disco, confirma o preço a se pagar pelo ineditismo. Antes, com um circuito independente bem menos estruturado, a banda não conseguiu o espaço que merecia. Hoje, encontra pares na cena, como a Orquestra Imperial e Móveis Coloniais de Acaju.

A referência brega é o que liga músicas de nomes esquisitos, como “Melô do sacudo”, “Bongo furioso” e “Alzira, Por Que Não Possui It Please?”, emendada em “Dorogoj Dlinnoju” e a citação ao tema dos jurados do Show de Calouros, do Silvio Santos.

Após o final do disco, uma faixa escondida comprime em 20 minutos todo o repertório, numa espécie de audição dinâmica. Após outro silêncio, um versão letrada de “Homem objeto” fecha o baile.

É tempo o suficiente para decidir com qual das oito opções de capa você vai embalar a bolacha. O Brasov não tem mesmo uma cara só.

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Resenha do disco da Mula Manca & Fabulosa Figura que escrevi para para a Rolling Stone Brasil 13.

Com a edição fora das bancas, segue o texto.
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Mula Manca & a Fabulosa Figura
3 estrelas
“Amor & Pastel”
Independente

Sem mancar

Em seu segundo disco, “Amor & pastel”, a Mula Manca abandona as misturas de literatura e música e, principalmente, a Triste Figura. Em seu lugar, entra em cena a Fabulosa Figura, trazendo consigo uma mistura brega-forró-samba-rock.

Com as contas resolvidas (o disco foi realizado com um patrocínio da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco), “Amor & Pastel” pode ser baixado integralmente no site da banda.

Se a tendência para os sambas em marcha lenta dos recifenses pode ser conseqüência das apresentações com o seu projeto de versões de Chico Buarque, o Seu Chico, interessante mesmo é notar os caminhos sonoros da “nova geração” se cruzando.

Os conterrâneos do Mombojó — e seu grupo paralelo dedicado as canções do Rei Roberto, o Del Rey — podem ser identificados como referência, mesmo que indireta, embora o Mula Manca seja mais acústico e menos psicodélico. O alagoano-catarina Wado também é lembrado.

O Recife se faz presente de maneira (ainda mais) forte, através das participações de músicos de bandas como Mundo Livre S/A, Parafusa, Suvaca di Prata e Eddie, em letras de temática fechada. Segundo o próprio quarteto, as músicas falam sobre o processo de separação de um casal.

Rompimentos amorosos realmente costumam ser boa fonte de inspiração. A despedida da Triste Figura deve ter sido dolorida. Agora é esperar a Fabulosa partir.

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Matéria sobre bandas covers formadas por músicos conhecidos e resenha do Indie Rock Festival que escrevi para a Rolling Stone Brasil 12.

Com a edição fora das bancas, seguem os textos.

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Cover nation

Montar uma banda de covers é coisa pra músico iniciante. Embora essa seja a impressão geral, não é o que um fenômeno atual vem mostrando. Uma leva de grupos formados por artistas conhecidos tem se dedicado a tocar músicas dos outros. Por pura diversão ou para garantir um extra.

Em comum, além de grande parte homenagear ícones da música brasileira, quase todos os projetos começaram por acaso, montados para alguma temporada especial e acabaram se alongando.

Tendo entre seus componentes Gabriel Thomaz e Bacalhau (Autoramas), Renato Martins (Canastra, Acabou la Tequila), Nervoso e Lafayette, ex-tecladista do Roberto Carlos, o Lafayette e os Tremendões é dedicado aos sons da Jovem Guarda. Segundo Melvin (Carbona), o repertório não é por acaso. “A Jovem Guarda é o denominador comum quando você tenta procurar algum elo entre as bandas originais dos integrantes”.

Na mesma onda, o Del Rey, composto por alguns integrantes do Mombojó mais o vocalista China (ex-Sheik Tosado, atualmente em carreira solo), é ainda mais específico, dedicando-se somente os clássicos de Roberto Carlos. O tecladista Chiquinho enxerga o Del Rey como “uma grande diversão e um bom exercício musical, que nos ajuda no processo criativo dos nossos trabalhos autorais”.

O aspecto financeiro também é levado em conta. Afinal, misturar seu próprio público com o dos artistas originais pode ser lucrativo, mesmo que esse não seja o objetivo. “O Mombojó exige um pouco mais de paciência e investimento a longo prazo. O Del Rey é algo que agrada a todo tipo de gente e tem nos dado um bom suporte financeiro para conseguirmos manter isso”, continua Chiquinho.
O Recife parece mesmo terreno fértil para esses projetos. Além do Del Rey, de lá vem o Sir.Rossi (tributo de Silvério Pessoa à Reginaldo Rossi), o Ordinários (Volver cantando Renato e Seus Blue Caps) e Seu Chico (versões acústicas de Chico Buarque feitas pelo Mulamanca). Entretanto, não se trata de algo exclusivo do circuito alternativo.

Liderado pelo baixista Bi Ribeiro (Paralamas do Sucesso) e tendo Black Alien à frente, o Reggae B. A Orquestra Imperial, antes de lançar um disco autoral, dedicava-se exclusivamente a versões de músicas de baile. Alguns membros da Nação Zumbi e Mundo Livre S/A têm, desde 2000, o projeto Los Sobosos Postizos, dedicado a releituras de Jorge Ben (fase 60/70) e a clássicos do reggae, de Augustus Pablo à Horace Andy.

Na Europa, o inglês Mark Ronson, produtor de Lilly Allen e Amy Winehouse, tem feito sucesso em festivais com shows em clima de DJ set, apresentando releituras de músicas de nomes como The Smiths, Britney Spears, Maxïmo Park e Kasabian.

“É igual jogar uma pelada com os amigos. Você pega as músicas que sempre curtiu e que te inspiraram e dá a sua cara. É uma brincadeira e um desafio”, define Bi. “Cada um já se entrega tanto aos seus projetos autorais que quando se reúne na banda é simplesmente para se divertir”, continua Melvin.

O punk-brega gaúcho Wander Wildner, que tem, junto com o guitarrista Sergio Serra (Ultraje a Rigor), o projeto Sub Versões, em que interpreta canções de Sex Pistols, Iggy Pop, Ramones, filosofa.

“Minha carreira solo é marcada pelas versões, metade do repertório dos meus discos e shows sempre foram versões. Lucro sempre porque não faço por dinheiro, faço por prazer. O dinheiro é apenas uma moeda de troca.”

E viva a diversão.

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Festival Indie Rock 2007
Circo Voador
Rio de Janeiro
3 estrelas e meia

“Independentes”

A primeira noite carioca do Festival Indie Rock, com shows de Lucas Santtana & Seleção Natural, Hurtmold e Magic Numbers, levou um bom público ao Circo Voador. O preço dos ingressos (R$ 100, gerando reclamação de parte do público, mesmo entre quem pagou meia) colaborou para que a casa não ficasse lotada.

Ruim para produção do evento, melhor para o público, que teve mais conforto e tranqüilidade para assistir shows de um festival em que as bandas brasileiras foram colocadas em igualdade de condições com as estrangeiras e provaram — como se ainda fosse necessário — que não devem nada criativamente para os gringos que nos visitam.

Lucas Santtana abriu a noite com músicas do seu terceiro disco, o independente “3 sessions in a green house”. Acompanhado por metais, percussões e efeitos eletrônicos, o baiano empolgou com sua mistura de samba, dub, rock e baile funk.

Os paulistas do Hurtmold, preparando disco novo, vieram em seguida. O sexteto mostrou várias composições inéditas, todas com nomes esquisitos ("Hali vascar", "Olvecio bica", "Smootz da police"), algumas com influências afro. Como de costume, hipnotizaram o público com seu rock instrumental.

O Magic Numbers, motivo da ida de maior parte da platéia, encerrou a noite. Simpáticos e comunicativos, os gorduchos estavam visivelmente encantados com a recepção do público a suas músicas mais conhecidas, como “Forever lost”, “Love’s a game” e “I see you, you see me”.

O longo show, cerca de duas horas, exagerou nas baladas. No bis, uma verão de “Crazy in love”, da Beyoncé, desconcertou seu público indie. Sintomático, num mundo em que cada vez mais tudo se mistura.

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foto: eumemo

Matéria sobre a cantora Cibelle para o caderno Link, do jornal O Estado de São Paulo.

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Com a web, ‘sou cantora do mundo´

FIM DO BAIRRISMO - Segundo a cantora, que se apresenta esta semana no Rio e em São Paulo, artistas todos se misturam hoje em espaços virtuais, como o site de relacionamentos MySpace e o site de vídeos YouTube

Não é novidade que a relação entre música e internet hoje é tão próxima quanto um dia foi a do disco de vinil e da vitrola. Mas, se para bandas como Cansei de Ser Sexy e Bonde do Rolê, as ferramentas online ajudaram na construção de carreiras internacionais, no caso da brasileira radicada em Londres Cibelle o caminho tem sido o inverso. A rede tem ajudado a cantora a se aproximar do Brasil.

A cantora reduz a distância entre Inglaterra e Brasil com a ajuda da tecnologia. “Tinha webcam antes de virar essa moda”, diz. “Durante muito tempo eu acordava de manhã, ligava pra minha mãe e falava ‘Estou botando o ovo pra ferver’ e ela dizia ‘Tá bom, eu te aviso quando for pra tirar’. E ficávamos conversando como se estivéssemos no mesmo ambiente. Faço isso também com amigos que moram a um quarteirão de casa, em Londres.”

A cantora fez recentemente seu primeiro show no Brasil no festival recifense Coquetel Molotov. Amiga de artistas como Devendra Banhart, CocoRosie e Seu Jorge, Cibelle retorna esta semana como uma das atrações do TIM Festival. Ela se apresenta na sexta-feira, no Rio, e no sábado, em São Paulo.
Com uma carreira consistente na Europa, a paulistana é praticamente uma desconhecida em sua própria terra. Enquanto isso, seu segundo disco, The Shine of Dried Electric Leaves, lançado pela Crammed Records, mesma gravadora de Bebel Gilberto, arrancou elogios da imprensa internacional.

“Ninguém queria meu disco no Brasil. Saiu no mundo todo. Para eu sobreviver, não fazia sentido ficar. Não teria como fazer turnê na Europa, Ficaria muito caro. Era mais fácil eu morar no lugar mais central possível no planeta, que me possibilitasse viajar para qualquer país por um preço decente. Vim pra Londres.”

Sua voz suave segue a tradição das grandes intérpretes da MPB. Pupila do produtor iugoslavo Suba (morto em 1999) e principal cantora do cultuado disco São Paulo Confessions, lançado por ele, Cibelle também é multi-instrumentista. Além de tocar violão e piano, é chegada em traquitanas eletrônicas, como a mesa de efeitos Kaos Pad ou pedaleiras de guitarra, além de experimentar com instrumentos musicais de brinquedo, dando personalidade para a sua mistura de música brasileira, folk e eletrônica.

“Sou viciada em línguas. Inicialmente, eu iria para Paris. Aprendi a falar francês online, com gente que conheci num programa chamado CU- SeeMe. Ficava o dia inteiro falando francês com as pessoas pelas camerazinhas. Mas vim mixar o disco em Londres e fiquei.”

A internet virou uma aliada vital na carreira. “Antes, tinha aquele lance da sua gravadora querendo te vender desse ou daquele jeito. Com a internet, todo mundo tem página no YouTube, MySpace. Você quer falar comigo? Passa na minha página, que eu mesma fiz.”
Para ela, a internet fez maravilhas pela música. “Músicos do mundo inteiro não ficam mais só com a galerinha do seu país. Está todo mundo misturado no MySpace, no iChat. Reencontrei um amigo que não via há um tempo assim, comentando sobre o disco dele com alguém no iChat que, por acaso, também estava falando com ele.”

Para ela, umas da principais qualidades do MySpace é a comunicabilidade. “Outro dia um amigo alemão me mandou uma faixa do Dirty Projectors, que é uma banda que eu estou apaixonada. Fui no MySpace deles e mandei uma mensagem falando que tinha ouvido e achado incrível, o som fabuloso, e eles responderam dizendo ‘Nossa, adoramos seu som também. Estamos indo pra Londres tocar daqui a pouco’. Acabamos nos encontrando. Acabou o bairrismo musical. Agora o seu bairrismo é o seu som, talvez.”

E não é só a rede que atrai Cibelle em termos de tecnologia. “Câmera digital, filmadora... Tenho tudo. E iPod faz parte do kit sobrevivência”, afirma. “Tenho essa teoria de que, quando estou ouvindo música bem alto, fico invisível, vejo tudo como se estivesse fora da cena e as pessoas se mexem na batida da música.”
Os amigos falam até que ela tem “ansiedade tecnológica”. “Estou com um telefone novo, um Nokia N95, e, no dia em que comprei, não dormi”, conta.

Apesar de afirmar que sua “vida inteira é pela web, sempre online”, Cibelle faz ressalvas. “Acho que todo mundo tem de ser informado, mas não muito”, explica. “Senão fica com muita idéia na cabeça e idéia formada não é legal. Legal é você ouvir as coisas, pensar no assunto e concluir o que você acha. Gosto de ser meio informada.”

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Matéria sobre o astro João Brasil e resenha do último show do Los Hermanos que escrevi para a Rolling Stone Brasil 10.

Com a edição fora das bancas, seguem os textos.

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foto: Lucas Bori


João Brasil e Seus 8 Hits

“Tipo de mulher predominante no mundo. Banida das capas de revistas, é a anti-heroína, o mal necessário. Elas sempre te divertem”.

Essa é a definição de baranga no dicionário do carioca João Brasil. “Baranga”, a música, foi lançada ano passado. Com o refrão hilário “Baranga / Cheia de marra / Cintura de ovo / Pega quem quiser / Mas tem que chegar”, transformou-se num sucesso na internet e aos poucos vai ganhando o mundo real.

“Fiz ‘Baranga’ e a turma foi gostando. A música foi parar em sites e blogs e começou a crescer. Depois fiz ‘Supercool’ e as pessoas pediram mais. ‘Mamãe virei capitalista’, com participação do De Leve, veio nessa leva”, explica o hitmaker.

A rede tem tido papel importante também na formatação de João Brasil como artista. Seu estilo musical foi definido por um fã, através de um comentário no YouTube, como ”Nova Guarda”. O complemento do nome artístico, João Brasil e Seus 8 Hits, também foi pescado do recado de um admirador no MySpace.

Os temas das letras são variados, tratados sempre com ironia, seja descrevendo os antenados (“Supercool”), paixonites por prostitutas (“Elisa”), fanfarronices (“Cobrinha fanfarrona”) ou bebedeiras (“O carnaval acabou com o meu fígado”). Sem falar nas brochadas (“Pau molão”). Todas, diz João, autobiográficas. “Quero fazer as pessoas rirem, se divertirem. Algo animado, pra relaxar. Acho que falta humor e mais músicas alegres, como o funk”.

As produções simples, misturando timbres eletrônicos do começo da década de 90 com batidas de funk e levadas de soul, soam calculadamente toscas, a atmosfera kitch servindo à perfeição as letras e as melodias grudentas.

Produtor de mashups, dono do estúdio Lontra, no Rio, com um diploma de publicidade e outro da prestigiada faculdade norte-americana Berklee College of Music pendurados na parede, João às vezes é cobrado por um material mais elaborado. Ele discorda.

“Faço minhas músicas de maneira séria. As pessoas imaginam Berklee como um antro de jazz, que o cara tem que sair de lá um virtuoso. Não é assim. Tem gente que vai lá pra aprender a fazer música pop, rock, eletrônica. Estudei várias linguagens, técnicas e instrumentos. Foi bom para ter a liberdade de ser auto-suficiente”.

Suas músicas chamaram a atenção de veículos como O Globo e ele já tocou ao vivo no cultuado programa de rádio de Maurício Valladares, Ronca Ronca. A aproximação com o grande público veio quando “Baranga” foi adotada como hino da campanha “faça uma encalhada feliz”, do programa “Mucho macho”, apresentado por Marcos Mion na MTV.

“Na primeira vez, o Mion anunciou a música dizendo que havia sido enviada por mim, só que eu não sabia de nada. Só depois, um garoto me escreveu contando que tinha sido ele quem tinha mandado falando que era eu!”, conta João.

Outro sucesso, “Mônica Waldvogel”, feita em homenagem a jornalista, foi elogiada pela própria musa inspiradora. “Ela me escreveu um e-mail falando que adorou e dizendo que ‘ia acabar ficando famosa’. Agora só falta tocar no ‘Saia Justa’! (risos)”.

Os planos para o futuro incluem participar dos festivais do circuito independente e enfrentar os roqueiros armado apenas com seu teclado e laptop. “Vou na cara e na coragem. Só estou conseguindo agradar ao público porque estou agradando a mim mesmo”, conclui Brasil.

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foto: Caroline Bittencourt

Samba a dois

Los Hermanos
Fundição progresso - Rio de Janeiro – 07, 08 e 09 de junho
5 estrelas

Do lado de fora da Fundição Progresso, os bares permaneceram vazios durante as três noites. A tradicional social, tão característica das noitadas cariocas, foi substituída por uma apreensão.

Ao invés de beber e conversar, o público preferiu aguardar o início das apresentações de pé, encarando um palco vazio das 22h até pouco depois da meia-noite, como se o Los Hermanos pudesse entrar a qualquer momento. Ansiosos, os fãs chegaram a vaiar a demora.

A tensão no ar, misto da tristeza de alguns, com a esperança de outros da separação não durar muito, era quebrada por um urro monstruoso, assim que as luzes de serviço se apagavam. O volume da gritaria, já bastante alto, crescia ainda mais quando a banda finalmente entrava em cena. Como se fosse a última vez.

Quando no dia 23 de abril, as vésperas de entrar em estúdio para gravar seu quinto disco, o Los Hermanos anunciou através do seu saite que entraria em um “recesso por tempo indeterminado”, pegou seus fervorosos admiradores de surpresa.

Sem saber se os dois shows divulgados no mesmo comunicado (que logo se tornaram três, tamanha a velocidade com que os ingressos se esgotaram) seriam a última chance de ver o quarteto na formação clássica, o evento foi tratado por fãs e imprensa como uma despedida oficial. Mesmo com os integrantes da banda declarando que o plano não seja esse.

Apesar da péssima acústica, a Fundição, na Lapa foi o único palco no Rio capaz de obedecer a dois critérios: ter feito parte da história da banda e capacidade de comportar um público estimado em cinco mil pessoas por noite. Foi ali que o Los Hermanos fez um dos seus shows mais importantes, no festival SuperDemo, em 1998, antes da crucial apresentação no Abril Pro Rock, que os revelaria para o Brasil.

O desespero dos seguidores dava lugar à alegria quando (de terno, gravata e sapato, como o pastor de um culto) Marcelo Camelo, Rodrigo Amarante (de blazer branco), Bruno Medida e Rodrigo Barba pisavam o palco.

Era hora de aproveitar a chance de jogar mais uma vez serpentina e confetes para o alto durante “Todo carnaval tem seu fim”, de gritar “vai!” no final de “A flor” e de berrar cada palavra das letras. E foi isso que o público fez, em três noites em que foram maiores que a banda.

A platéia era o palco e o palco era a platéia. Emocionados, os hermanos riam e saudavam os fãs com “vocês são foda!” (Camelo) e “não dá pra se acostumar com isso não” (Amarante), além de comentar sobre as diversas bandeiras de outros estados, das pessoas que viajaram especialmente para esse encontro.

Embora a ênfase tenha sido nos três trabalhos posteriores, combinando o repertório dos três shows, mais da metade das músicas do primeiro disco foram tocadas, uma raridade. A supostamente renegada “Anna Julia” foi tocada todas as noites, recebida com a mesma empolgação dos outros sucessos do grupo.

Foram três shows históricos, de celebração da banda com seu público. Independente de a banda ter ou não acabado, seria até besteira falar do aspecto musical numa situação dessas. Mesmo porque, as canções, abafadas pelos gritos da torcida, eram praticamente inaudíveis.

Nessas três noites, nada disso importava. O lance era entre eles dois. O Los Hermanos e seus fãs.

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Resenha do disco do Ras Bernardo que escrevi para a Rolling Stone Brasil 09.

Com a edição fora das bancas, seguem os textos.

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Ras Bernardo
“Jah é luz” (Muzamba)
cotação: três estrelas e meia

Sem obviedades

Não se deixe enganar pelo título do disco, no melhor estilo reggae iô-iô. “Jah é luz”, segundo lançamento do vocalista original do Cidade Negra, Ras Bernardo (11 anos após sua estréia solo) passa longe de (mais uma) emulação frustrada de Bob Marley, dessas que distorcem o entendimento de um dos mais criativos estilos musicais por aqui.

As linhas monstruosas do baixista e co-produtor do disco (em conjunto com Ricardo Barreto), Nelson Meirelles, os efeitos sonoros e a mixagem, colocando baixo e bateria à frente dos outros instrumentos, à cargo de Marcus Paulo Cientista (do Digitaldubs), mostram que a proposta aqui foi diferente. Fugindo do óbivio, "Jah é luz" mescla sonoridades setentistas jamaicanas à batidas stepper do reggae inglês e do dub eletrônico europeu.

A metaleira de “Pedido de Jah” e os momentos dubwise de a “A lei” e “Mártires” são alguns dos destaques disco. Arranjos de metais, percussão e vocais de apoio adicionais seriam bem vindos e poderiam ter enriquecido outras faixas. Perfeita para atender as expectativas das rádios que desejam mais do mesmo, “Só pra te provar” destoa do resto de um repertório pouco preocupado com isso.

A seleção musical da infinidade de festas dedicadas ao reggae atualmente, mostram que há um público interessado em conhecer outros caminhos do gênero. E como canta o próprio Ras, "se não derem, vão revindicar". Ras já se adiantou.

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Matéria sobre a gravação do segundo disco da parceria entre o pianista Sergio Mendes e o produtor Will.I.Am (que falou também sobre o novo disco do Michael Jackson) e resenha do disco do Songoro Cosongo, que escrevi para o oitavo número da Rolling Stone Brasil.

Com a edição fora das bancas, seguem os textos.

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Mistura brasileira

No Brasil, Will.I.Am é mais conhecido como o vocalista do Black Eyed Peas. Nos EUA, talvez ele seja tão conhecido quanto como produtor. Suas batidas podem ser ouvidas em músicas de nomes como Justin Timberlake, Pussycat Dolls, John Legend e, num futuro próximo, Michael Jackson, já que ele foi o produtor escolhido pelo Rei do Pop para seu próximo disco.

Em 2006, Will produziu “Timeless”, do pianista brasileiro radicado nos EUA, Sergio Mendes. O disco vendeu mais de um milhão de cópias e a versão de “Mas que nada” fez tanto sucesso que a música foi cantada até em estádios, durante os jogos do Brasil na Copa do Mundo da Alemanha.

O primeiro contato do rapper e produtor com Sergio Mendes aconteceu anos atrás, via discos de vinil. “Um DJ amigo meu me mostrou um disco do Sergio Mendes e eu pirei. Foi a primeira música brasileira que eu ouvi. Depois ouvi Gilberto Gil, Jobim, Deodato, Astrud e João Gilberto, Arto Lindsay, Jorge Bem, Djavan... Mais de quinze anos depois, estou produzindo um disco do Sergio, pela segunda vez””, conta Will.

Os dois se conheceram pessoalmente depois que o presidente da gravadora do Black Eyed Peas sugeriu chamar Sergio Mendes para tocar, em vez de samplear, o trecho de “Insensatez” (Tom Jobim) que Will queria usar em “Sexy”, do álbum “Elephunk”. Três semanas depois, os dois estavam produzindo “Timeless”.

“Queria que fosse um sucesso, mas esse pensamento não interferiu na produção. Eu amo o disco, o Sergio ama e as pessoas amaram também”, Will fala sobre a parceria.

Logicamente, a dupla resolveu dar um repeteco na parceria e em março estiveram no país para gravar com artistas brasileiros. “Estava conversando como Sergio sobre termos sido indicados para três Grammys e decidimos fazer outro disco. Ele quis vir para o Brasil gravar com músicos daqui. Convidou Guinga, Toninho Horta, Ivo Meirelles, Vanessa da Mata. Nesse segundo, a única preocupação continua sendo fazer boa música”.

Sobre o trabalho como Michael Jackson, ainda em andamento e sem previsão de conclusão, Will.I.Am fala pouco. Até agora, existem seis músicas prontas, entre elas um possível hit, “I’m still the king” (“é ouro!”). No entanto, o produtor não tem a menor dúvida de que o Rei voltará ao topo.

“Para mim ele nunca foi embora, continuo sempre ouvindo seus discos. Até hoje, Michael Jackson é o maior nome da indústria nesse formato em que se gravava disco, lançava, botava na rádio, filmava um clipe, disco de platina... Ninguém se compara, nem ele mesmo. Agora a indústria está de cabeça pra baixo. É a melhor hora para se lançar, porque não se está mais competindo com aquele sistema. Não tinha YouTube, MySpace, celulares, ringtones, nada disso! Os objetivos são diferentes, mais diversos. É possível comparar o impacto”.

Confiante no resultado do trabalho com Michael Jackson, Will lança um desafio que espera ele mesmo cumprir. “Até hoje internet não tem uma grande estrela e ainda tem que provar que é capaz de criar uma”.

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Songoro Cosongo
“Misturado com cachaça fica muito bom” (Bolacha Discos)
cotação: 3 estrelas

A latinidade do samba

Formado em 2005, o Songoro Cosongo faz uma autodenominada “Psico Tropical Musik”. Entre os oito integrantes, há brasileiros, colombianos, argentinos, chileno e venezuelano, mesclando salsa, samba, cumbia, afrobeat e chorinho.

Antes de ser lançado no Brasil, o SMD “Misturado com cachaça fica muito bom” (Bolacha Discos, songorocosongos@gmail.com) saiu na Argentina e no Chile, no começo de 2006. Em 2007, pelo segundo ano consecutivo, o Songoro Cosongo saiu como um bloco de carnaval pelas ruas de Santa Teresa, no Rio. Misturando é que dá certo.

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Segue o texto distribuído para imprensa que escrevi para o lançamento do primeiro disco da Orquestra Imperial, "Carnaval só ano que vem".

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Orquestra Imperial
“Carnaval só ano que vem” (Som Livre/Ping Pong)

De brincadeira. A Orquestra Imperial começou assim, sem maiores pretensões, quando Berna Ceppas e Kassin foram convidados para fazer uma temporada de quatro semanas no extinto Ballroom. A saudosa casa de shows no Humaitá ofereceu as datas para que eles fizessem o que bem entendessem. Junto com Domenico Lancellotti, chamaram os amigos e organizaram uma orquestra de gafieira especialmente para as essas datas, dedicada a sambas antigos, sem nem saber se isso funcionaria. O importante era se encontrar e se divertir. Nascia a Orquestra Imperial.

“A pelada da galera”, como as apresentações foram apelidadas pelo ex-integrante Seu Jorge, deu tão certo que a temporada inicial foi extendida por vários meses. Hoje, os bailes da Orquestra Imperial fazem parte do calendário musical do Rio.

O grupo foi se formando aos poucos, até chegar à escalação atual, com 19 integrantes. São eles: Nina Becker (cantora e estilista), Thalma de Freitas (cantora e atriz), Rodrigo Amarante (Los Hermanos) e Moreno Veloso (+ 2 e produtor do “Cê” de Caetano Veloso) nos vocais; Nelson Jacobina (parceiro de Jorge Mautner e co-autor de “Maracatu atômico”), Bartolo (Duplexx, Arnaldo Antunes e Branco Mello) e Pedro Sá (guitarrista e produtor do “Cê” de Caetano Veloso) nas guitarras; Rubinho Jacobina (autor do sucesso dos bailes “Dr. Sabe Tudo”) e Berna Ceppas (produtor musical) nos teclados e efeitos; Kassin (+ 2, Acabou la Tequila) no baixo, Domenico (+ 2) na bateria, Stephane San Juan (Amadou & Marian), Cesar Farias “Bodão” (Fernanda Abreu), Leo Monteiro (ALT) e Wilson Das Neves na percussão; e nos metais Max Sette (do disco “Parábolas ao vento”), Felipe Pinaud (Gabriel O Pensador e responsável pelos arranjos do disco), Mauro Zacharias (Los Hermanos e Só Pra Contrariar) e Bidu Cordeiro (Paralamas do Sucesso e fundador do Reggae B).

Fora o fato das funções não serem fixas (Wilson, Max e Rubinho também cantam), ao vivo, a Orquestra sempre conta com participações especiais. Já passaram pelos bailes artistas como Marisa Monte, Luiz Melodia, Erasmo Carlos, Zeca Pagodinho, Caetano Veloso, Roberto Silva, Fernanda Abreu, Bebel Gilberto, Marcelo Camelo e DJ Marlboro.

Apesar do estranhamento causado pela distância sonora entre os grupos pelos quais os integrantes do núcleo inicial da Orquestra se tornaram conhecidos e o que é feito na big band, o samba é o denominador comum, unindo as diversas vertentes através do gosto pessoal de cada um. Ainda assim, o espírito anárquico dos bailes está mais para show de rock do que gafieira.

Envolvidos em seus projetos principais, a quantidade de integrantes transforma a marcação de um simples ensaio numa tarefa complicada. Gravar um disco então, nem se fala. Obrigados a esperar, amadureceram. Logo começaram a compor músicas próprias, no estilo do repertório da Orquestra.

Nesse sentido, a entrada do sambista Wilson Das Neves foi crucial. A sabedoria de quem segurou as baquetas em boa parte das gravações originais das músicas que a Orquestra toca em seus bailes, fez a diferença. Não por acaso, na Orquestra “Seu” Wilson é tratado como um mestre, cantando ou tocando percussão, mas principalmente por seus ensinamentos.

Assim, o que poderia ter sido um disco de versões — tivesse sido gravado em 2002 — transformou-se num disco de inéditas. “Carnaval só ano que vem” (Ping Pong Discos/Som Livre), estréia em disco da Orquestra Imperial, é o passo final em direção a se tornar, verdadeiramente, uma banda.

Não se trata, portanto, de uma reprodução dos bailes, que até hoje contam com as tais versões — isso fica para um futuro DVD. O disco é um registro de canções originais. Natural. Afinal, apesar de a Orquestra ter surgido tocando covers, todos ali são também compositores.

Os metais calmos, a guitarra havaiana, os vocais de apoio fantasmagóricos, o vibrafone e a levada mais lenta do bolero “O mar e o ar” (Domenico/Kassin/ Amarante) abrem os trabalhos dando um recado direto: disco é disco, baile é baile.

As composições e os arranjos revelam sutilezas dos instrumentistas que não se consegue perceber ao vivo. Menos clima de festa e mais sonho. O título do disco não é à toa.

O samba “Não foi em vão” (Thalma de Freitas), na seqüência, comprova isso. Misturando passado e futuro, a música resume bem o espírito da Orquestra Imperial. Tamborim e surdo, percussão e ruídos eletrônicos seguem o vôo da caixa da bateria de Domenico, enquanto a cantora derrama um lamento de separação.

O clima contemplativo que caracteriza o disco, também está marcado nas bossas “Jardim de Alah” (Moreno Veloso/Quito Ribeiro) e “Rue de mes souvenirs” (Das Neves/Stephane San Juan), cantada em francês por Thalma.

Gravado e mixado em 15 dias, a qualidade do som do disco impressiona. Principalmente levando-se em conta que foi gravado ao vivo, inclusive os vocais, com apenas alguns metais e detalhes sendo gravados posteriormente.

Além das 11 músicas presentes nesse disco, nesse período também foram gravadas as quatro regravações. Lançadas previamente num EP, essas faixas estarão presentes na edição internacional de “Carnaval só ano que vem”, que será lançada pelo selo Totolo.

Como os produtores Berna & Kassin estavam envolvidos também como músicos, acharam por bem ter mais alguém que pudesse exercer, ao mesmo tempo, a função de produtor e técnico de som, para avaliar e dar uma opinião final sobre os takes gravados.

O escolhido foi o amigo Mario Caldato Jr. Brasileiro radicado nos EUA, conhecido mundialmente pelo trabalho com os Beastie Boys e Jack Johnson, Caldato está cada vez mais próximo da música brasileira, tendo produzido recentemente discos de Marisa Monte, Marcelo D2 e Vanessa da Mata.

Conhecida dos freqüentadores dos bailes, “Yarusha Djaruba” (Nelson Jacobina/Tavinho Paes) faz a conexão Cuba-Brasil, com uma parada em Nova York para buscar a pegada disco do refrão.

“Ereção” (Domenico/Pedro Sá/Max Sette/Rubinho Jacobina/Felipe Pinaud/Nina Becker/Sandra de Sá) e “Salamaleque” (Rubinho Jacobina/Max Sette/Jonas Sá) também relembram o clima de folia. Outra que vem dos palcos é o samba “Era bom”, dueto de Wilson da Neves e Max Sette, composta por ambos.

A viajante “De um amor em paz” (Domenico/Délcio Carvalho), na voz delicada de Nina Becker, pontuada por uma cítara e metais deslizantes, ganha ares psicodélicos de um samba sorturno. Coisa fina.

“Supermercado do amor” (Bartolo/Jorge Mautner), também cantada por Nina, mais animada, tem discurso do padrinho Mautner (que também assina “Ela rebola”, com o parceiro de sempre Nelson Jacobina) e brinca com clichês, fazendo referência a introdução de “Alegria alegria” (Caetano Veloso).

“Carnaval só ano que vem” é o resultado natural de um grupo de amigos fazendo algo sem compromisso com nada, apenas por diversão. E com tanta gente numa boa, o resultando não poderia ser outro que não um excelente disco.

Um clássico. Sem brincadeira.

Bruno Natal
Junho/2007

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Matéria sobre o segundo disco do cantor de reggae Ras Bernardo que escrevi para o sétimo número da Rolling Stone Brasil.

Com a edição fora das bancas, segue o texto.

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Ras Tafari

Os grupos de reggae brasileiros que tem a chance de gravar um disco, na maioria dos casos, buscam incessantemente copiar a sonoridade com a qual Bob Marley conquistou o mundo. Os cariocas do Digitaldubs e os paulistas do Echo Sound System são a exceção que prova a regra. Ras Bernardo, vocalista original do Cidade Negra, resolveu se juntar a essa crescente turma, em “Jah é luz” (Muzamba).

“O roots não tem que ser o Bob Marley da década de 70. Temos que fazer o roots da ‘nova era’, o som não pode ficar no passado. Os próprios filhos do Bob fazem coisas novas. A galera tem evoluir musicalmente e nas letras. O brasileiro sabe fazer reggae, vou sempre acreditar nesse potencial”, explica Ras.

Fugindo dos estereótipos do gênero no Brasil, o disco põe o foco no baixo e na bateria, resgata a sonoridade de produções setentistas e capricha nos efeitos espaciais. Ainda que soe cru demais em alguns momentos (percussão, metais e vocais de apoio fazem falta), “Jah é luz” e suas linhas de baixo monstruosas é, sem dúvida, um passo à frente em relação a seus pares nacionais. Se “Só pra te provar” tem potencial radiofônico, “Pedido de Jah” pode agradar ao mais exigente amante do reggae.

Para atingir esse resultado, Ras se cercou da tal nova turma. A produção ficou a cargo de Nelson Meirelles (fundador d’O Rappa e integrante do Digitaldubs) e Ricardo Barreto, que também tocaram baixo e guitarra, respectivamente. A mixagem, ponto fundamental quando se fala de reggae, foi feita por Marcus Paulo Cientista (Digitaldubs, F.UR.T.O.), e a masterização foi feita na Alemanha, por Neil Perch, líder do Zion Train.

“Busquei inspiração no que o canadense Twilight Circus vem fazendo — um trabalho atual junto a artistas clássicos”, conta MPC.

Foram 11 anos entre o lançamento de sua estréia solo (logo após abandonar o Cidade Negra por divergências em relação à sonoridade da banda) e seu segundo disco, “Jah é luz”. Para Ras, a espera valeu a pena.

“Acho ótimo o Cidade ter conseguido fazer sucesso com essa fórmula, mas não é meu estilo. Mantive meus ideais, o que talvez tenha me travado no mercado por tanto tempo. Esse tempo me permitiu pesquisar novas fontes e aprimorar o trabalho. Estou renovado.”

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Matéria sobre a volta do hit maker Michael Sullivan, mais uma resenha do disco dos cariocas do Inumanos, que escrevi para o sexto número da Rolling Stone Brasil.

Com a edição fora das bancas, seguem os textos.

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Inumanos
“Volume dez” (Bizarre)
cotação: três estrelas

A leeenda, brother

O Inumanos se tornou conhecido — e bem falado — fora da cena carioca após participar das coletâneas “Zoeira hip hop” (2000) e “Hip hop Rio” (2001). Seguindo a seqüência lógica, o próximo passo seria lançar um disco próprio. Em 2002, o MC Aori e o DJ Babão, os nomes por trás do Inumanos, entraram em estúdio para gravar sua estréia.

O disco já havia se transformado uma lenda urbana, circulando há algum tempo em CD-R e MP3, até ser finalmente lançado no final de 2006, em festas no Rio e em São Paulo. Mais de quatro anos depois, “Volume dez” (Bizarre Music) finalmente chega na praça.

Tanto tempo na gaveta, em vez de tornar o som datado, serviu apenas para confirmar o talento do Inumanos para batidas assassinas. Produzido pela dupla Aori e Babão, Pedro Garcia e o francês Damien Seth, “Volume dez” soa atual como se houvesse sido gravado ontem.

A carta de intenções “Montagem dos Inumanos”, um pancadão que entrega as origens do duo, “Todo errado” e “Polegar opositor” (cujo clipe foi indicado ao prêmio da MTV em 2006) demonstram a combinação perfeita das habilidades do DJ Babão e do discurso explosivo de Aori.

A lenda era verdadeira. É pra ouvir no volume dez.

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É de chocolate?
Compositor de hits dos anos 80, Michael Sullivan se lança em carreira solo

Conhecido como metade da dupla Sullivan & Massadas — crédito presente em boa parte dos lançamentos de maior vendagem do Brasil nos anos 80 — Michael Sullivan está de volta, dessa vez, como artista. Após anos morando nos EUA, o músico encurtou o nome artístico e ressurge com “Ver-te mar”, parceria com Carlinhos Brown. Buscando trocar a pegada popular, que marcou sua carreira, por sonoridades mais alternativas, Sullivan combina soul com elementos eletrônicos e convidou os cariocas do Digitaldubs pra remixar a faixa.

Melhore deixar ele próprio explicar. “A maior parte das composições do disco nasceram dessa parceira com o Brown. Encontrei nele a inquietude da experimentação, dos novos timbres, das linhas modernas com loops improváveis, deixando o meu lado soul totalmente livre para passear nos arranjos. É black music contemporânea, com todas as novas possibilidades que a musica eletrônica permite”.

Se a idéia é deixar para trás os tempos de hit maker dos outros, a canção escolhida para lançar o trabalho solo pode atrapalhar. “Ver-te mar” não é inédita, está no recém-lançado quinto disco do grupo de axé Babado Novo, que tem o mesmo nome da música.

Após iniciar a carreira num programa de calouros em Recife, mudar-se para o Rio, integrar Renato e seus Blue Caps e The Fevers, a consagração veio quando conheceu o parceiro Paulo Massadas.

Segundo o compositor, suas músicas venderam 60 milhões de discos, acumulando 50 discos de diamante, 270 de platina e 550 de ouro. Suas músicas foram gravadas por Roberto Carlos (“Amor Perfeito”, “Meu ciúme”), Tim Maia (“Me Dê Motivo”), Fagner (“Deslizes”), Sandra de Sá (“Joga Fora”), Gal Costa (“Um dia de Domingo”), Roupa Nova (“Whisky a Go-Go”), Xuxa (“Lua de Cristal”) e muitos outros, além da sua criação, o Trem da Alegria, e de muitos temas de novela.

“Todo sucesso que conquistei como compositor foi fruto de anos na estrada como artista. Meu termômetro sempre foi a reação do público, isso me deu senso crítico pra avaliar o potencial de minhas composições. Voltar como artista é apenas um movimento natural desse ciclo”, resume Sullivan.

Empolgado com o momento atual da música independente, Sullivan aposta na internet para voltar ao topo. ”Talento não precisa ser maquiado O público pode estar a um click de descobrir novas obras e novas tendências. A internet devolveu aos artistas sua autonomia, auto-estima e vontade de apresentar coisas inovadoras”.

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Matéria sobre a escalação do Coachella 2007 (com destaque para o retorno do Rage Against the Machine), mais uma resenha do Humaitá pra Peixe 2007 que escrevi para o quinto número da Rolling Stone Brasil.

Com a edição fora das bancas, seguem os textos.

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A raiva está de volta

Realizado desde 1999 num campo de pólo na cidade de Indio, fincada no deserto de Mojave, no sul da Califórnia, a recém-divulgada escalação do Coachella Music & Arts Festival 2007 (dias 27, 28 e 29 de abril) é eclética:

Vai dos veteranos Björk, Sonic Youth, Willie Nelson, Red Hot Chilli Peppers, Ozomatli, Air, The Roots, Konono No.1, Manu Chao à atualidades como Arctic Monkeys, Arcade Fire, Klaxons, LCD Soundsystem, Rapture, Kaiser Chiefs, Nightwatchman, Gogol Bordello, Justice, Evil Nine, Explosions in the Sky e Girl Talk; das novidades The Good, the Bad and the Queen, Hot Chip e MSTRKRFT aos brasileiros do Cansei de Ser Sexy e a volta do Happy Mondays e do The Jesus and Mary Chain.

Esses -- e muitos outros -- nomes fazem parte da lista de mais de 100 atrações da oitava edição do festival (a farra não aconteceu em 2000). Seguindo a tradição de servir de palco para a reunião de bandas de carreira encerrada (Jane’s Addiction, Siouxsie and the Banshees e Iggy Pop & The Stooges foram algumas delas), esse ano o Coachella assistirá um reencontro considerado impossível. O Rage Against the Machine (que se apresentou na primeira edição do festival) está de volta à ativa.

Desde a estréia, em 1992, num disco homônimo, a mistura de rap, funk, metal e letras contestadoras, identificadas como esquerdistas, do Rage Against the Machine assombrou o mundo.

As alucinações do guitarrista Tom Morello, fazendo usos originais de pedais, microfonias e do botão de ligar e desligar o instrumento, a pancadaria do baixo de Tim Commerford, a bateria de Brad Wilk e, sobretudo, o vocal furioso de Zack de la Rocha, moldaram um som que seria imitado e pausterizado nos anos posteriores. O segundo disco da banda, “Evil empire”, estreiou no topo da parada da Billboard em 1996.

Além das letras, a banda esteve constantemente envolvida em causas sociais e políticas, borrando a fronteira entre o músico e o ativista que existia em cada integrante. As letras e a postura da banda — que tinha o hábito de pendurar a bandeira dos EUA de cabeça pra baixo nos amplificadores durante as apresentações (no Woodstock ’99 eles a queimaram no palco) — renderam ao grupo, após os atentados de 11 de setembro, a “honra” de ter sido a única banda a ter todas suas música censuradas nas rádios americanas operadas pela Clear Channel.

Em 2000, um ano após lançar “The Battle of Los Angeles”, terceiro e último disco do grupo, o Rage Against the Machine fez seu derradeiro show, no dia 13 de setembro, em Los Angeles, apresentação gravada no disco “Live at the Grand Olympic Auditorium”.

Os motivos do fim da banda nunca foram totalmente revelados. Marcado pela saída do vocalista Zack de la Rocha, alegando as surradas “diferenças artísticas”, ficou aparente um desentendimento entre os membros do grupo, afastando as chances de um retorno.

Enquanto Zack perseguiu uma nunca concretizada carreira solo, tendo trabalhado em faixas com Roni Size, DJ Shadow e Trent Reznor, os outros três integrantes recrutaram o vocalista Chris Cornell (ex-Soundgarden) e formaram o Audioslave.

Em tempos de Iraque, Katrina e outros desastres, uma banda como Rage Against the Machine nunca foi tão necessária. Que bom que eles estão de volta.

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Humaitá pra Peixe 2007
Espaço Cultural Sergio Porto - Rio de Janeiro
Janeiro 2007
3 estrelas e meia

Sempre contra-corrente

Idealizado e produzido por Bruno Levinson desde o emblemático 1994, ano chave da música brasileira contemporânea, o festival Humaitá pra Peixe hoje é uma das principais vitrines da cena independente nacional e palco onde boa parte das bandas cariocas almejam um dia tocar. Em sua 16ª edição, o evento reuniu 22 nomes (algumas de fora do Rio, como os gaúchos do Fresno e Tom Bloch, os paulistas do Revoluccionários e a mineira Érika Machado) em apresentações em todos os finais de semana de janeiro, no Espaço Cultural Sergio Porto.

Esse ano, o festival fez mais mapear a cena do que revelar novos talentos, dando espaço para representantes de algumas das muitas vertentes culturais atuantes na cidade. Do fenômeno rock adolescente dos saraus (Scracho) à MPB (Edu Krieger, Zé de Riba), passando pelo pop rock (Reverse, Eletro, Rodrigo Bittencourt), festas universitárias (Rio Maracatu), influências eletrônicas nordestina (DuSOUTO) e jazz praiano (Ordinário Groove Combo), todo mundo teve vez.

Os destaques foram as bandas mais estabelecidas, como o triunfal retorno do Skatalites das churrascarias Brasov, a competência e força do Rockz, a presença rara no Rio de Curumin, o samba rap d’A Filial e a roda de samba do Casuarina. Na última semana, Duplexx, Vulgue Tostoi, o animado Móveis Coloniais de Acaju e o Turbo Trio fecharam a programação em alto nível.

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Versão original e na íntegra do texto que escrevi para matéria de capa da revista dominical do jornal O Globo.

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O mapa do consumo

Jovens de 18 à 24 anos ditam as tendências do consumo mundial de todas as faixas etárias. Saiba como trabalham as empresas que pesquisam seu comportamento, mapeiam seus movimentos e descobrem, antes de você mesmo, o que você vai comprar amanhã.

Foi-se o tempo em que os únicos canais que uma empresa contava para descobrir o que o se passa na cabeça do seu público eram os 0800 dos serviços de atendimento ao consumidor (geralmente utilizados para relatar experiências frustradas) ou avaliações de mercado superficiais.

Hoje, quem dita os hábitos de consumo são os jovens. Seus hábitos são decisivos para determinar o que será consumida pelas outras faixas etárias em escala global. Com acesso às ferramentas necessárias para inverter a via de mão única da indústria cultural, a geração digital rompeu os padrões estabelecidos e transformou o mercado, ampliando o que antes podia ser considerado sub-culturas e mudou a cara do consumo global. Se para as grandes marcas isso tornou mais complicado mirar seu público-alvo, o que dirá acertá-lo.

Através de análise de campo, as empresas de pesquisa de tendência estudam detalhadamente seu comportamento, detectam tendências e ajudam a indústria a antecipar demandas, podendo lançar e moldar produtos antes mesmo delas se manifestarem em larga escala. A Box 1824 e a Voltage são dois dos principais nomes nessa área.

Numa pesquisa sobre comportamento jovem, realizada sob encomenda de uma agência de publicidade de Porto Alegre, um grupo de entrevistados contava o que gostava de fazer no final de semana. Uma menina contou que gostava de ir ao shopping, um garoto falou que curtia ensaiar com sua banda, enquanto outro menino disse simplesmente que gostava de pescar, provocando riso no resto do grupo. Intrigada com uma resposta tão fora do padrão urbano, a entrevistadora perguntou se ele fazia esse programa com os pais, arrancando mais risadas quando ele disse que preferia ir com os amigos mesmo.

No dia de apresentar o resultado do estudo para o cliente, a pesquisadora relatou, entusiasmada, ter percebido que alguns jovens estavam resgatando hábitos antigos, como pescar. Assistindo a reunião, um funcionário da área de planejamento e pesquisa da agência, Rony Rodrigues, então com 22 anos, caiu na gargalhada. “Pescar”, na gíria dos guris, significa fumar maconha.

Percebendo que o segmento jovem estava sendo mal estudado, Rony convidou o amigo (e colega de profissão) João Paulo Cavalcanti e a psicóloga Priscila Figheira para realizar pesquisas por conta própria. Logo no primeiro trabalho, para a marca de tênis Olympikus, constataram algo importante. Devido a proximidade de idade, os jovens contavam pra eles coisas que não diziam para pesquisadores mais velhos.

Após um estágio numa empresa italiana, a Radar, em Milão, Rony voltou com conceitos mais bem fundamentados sobre os métodos de análise. Nascia a Box 1824, a primeira empresa de pesquisa de tendências no Brasil.

Para descobrir os próximos movimentos culturais, as pesquisas de tendência investigam os hábitos de jovens bem informados, naturalmente ligados nas mais recentes inovações tecnológicas, artísticas e comportamentais.

Talvez você tenha um amigo assim. Um personagem algo parecido com o descrito por João Brasil no seu hit (virtual, claro), “Supercool”. É aquela pessoa que vive “ouvindo seu iPod, atualizando seu fotolog, passando músicas pro laptop / sempre muito antenado com o que não está na grande mídia.

Fundada em 2003, por Rony, 26, e João Paulo, 24, a Box 1824 tem entre seus clientes a Nokia (no Brasil, Índia, China e Tailândia), a Nike (América Latina) e Unilever (em 20 países, incluindo Inglaterra, EUA, México e África do Sul). Com uma equipe de colaboradores espalhada por diversos países, a Box 1824 é pioneira nos estudos em países em desenvolvimento e seus mercados emergentes, motivo pelo qual rapidamente conquistou clientes pelo mundo.

Tendência é um conceito comumente associado ao mercado de moda. Diferente do que se pode imaginar, o trabalho dessas empresas não é criar modismos, através de exercícios de futurologia ou adivinhação. A tarefa é identificar comportamentos sócio-culturais incipientes e definir o momento certo de lançá-los para grande massa. Surgidas no final da década de 80, nos EUA, só agora essas empresas começam a surgir no Brasil.

Segundo Rony, as empresas querem, cada vez mais, entender seus consumidores, seus anseios e preocupações. Para isso elas contratam empresas de pesquisa de tendência de consumo, para experimentar junto com o consumidor suas vivências com seus produtos e serviços.

— O mercado percebeu a necessidade de se tentar antecipar os movimentos culturais e descobrir, através de uma verbalização ou de uma experiência de consumo, uma idéia que sirva pra criar um novo produto ou serviço.

Com apenas um ano e meio de vida, a Voltage atende Nívea, Del Valle, Grupo Estado, Coca-Cola, ABN Amro, entre outros. O diretor-geral, Paulo Al-Assal, 36, complementa.

— Não é simplesmente falar que o próximo tênis será verde, mas interpretar e estudar essa tendência. Essa informação pode ser utilizada para inovar um produto, embalagem e a comunicação.

Apesar do imperialismo cultural, por se tratar de realidades econômicas completamente diferentes, não basta tentar replicar o que está acontecendo na Europa e nos EUA.

O método utilizado nas pesquisas, apesar de variar em cada empresa, é elaborado e específico para cada cliente. Em comum, a importância de compreender o comportamento jovem para se atingir resultados satisfatórios.

— Os jovens de 12 à 17 anos aspiram ter entre 18 e 24 anos e viver as vantagens dessa idade. Os mais velhos, de 25 pra cima, se inspiram nessa faixa etária, para se reciclar — explica Rony, ao mesmo tempo que traduz o nome de sua empresa, Box 1824.

A geração nascida após a Segunda Guerra, os baby boomers, revolucionou o comportamento, a moda e a arte, conquistando seu espaço e o poder de consumo, inexistentes na década de 50. Na década de 80, o jovem adquiriu a chave do quarto, do carro e o direito à privacidade, de se isolar no próprio universo.

Nos anos 90, com televisão, aparelho de som e computador, eles se trancam no quarto não mais pra se distanciar, e sim pra conectar-se com o mundo exterior. A geração zapping, dos multi-meios, aprendeu a ler e escrever ao mesmo tempo em que acessava a internet, utilizando uma linguagem não-linear, em camadas de hyper textos.

Tanto a Box quanto a Voltage, trabalham sobre variações do esquema traçado por Everett M. Rogers em sua teoria da difusão da inovação (“Diffusion of Innovations”, 1962). O estudo foi o primeiro a classificar indivíduos de acordo com seu papel na cadeia de disseminação de novidades. São eles os “inovadores” (cerca de 3% da população), os “usuários pioneiros” (17%) e a “grande massa” (80%).

— A Box segmentou esse conceito, pois a pessoa pode até ser uma inovadora ou disseminadora de música, mas não sei se entende de xampu. Não dividimos os grupos apenas por classe social ou faixa etária, mas por alfas, betas e mainstream.

Alfas são os inovadores, pessoas que tem o comportamento totalmente individual em relação a determinado produto ou serviço. Betas são os disseminadores, é quem olha pro mercado, pras mídias editoriais e pro alfa, mastiga e leva pro mainstream. E o mainstream é a base dessa pirâmide, a massa. A maioria dos estudos utiliza os betas como fonte. O alfa é consultado quando se quer gerar um produto novo.

Encontrar essas pessoas exige paciência. Se o assunto for música, busca-se em lugares relacionados ao consumo (boates, loja de discos). Lá, pode-se fazer uma pergunta como “quem mais entende de música no Rio?”. Se o indivíduo responde exigindo especificações, como “no Rio?”, deve se tratar de um alfa ou um beta. Outro indicativo dessa condição, é quando o mesmo nome é citado por vários entrevistados.

Depois de se identificar os alfas e betas do tema em questão, passa-se 45 dias convivendo e analisando, com a consultoria de sociólogos e antropólogos, os hábitos de um grupo de 8 a 16 pessoas (determinados estudos chegam a dois mil entrevistados), utilizando técnicas como a invasão de cenários, onde se transforma pessoas do próprio grupo em observadores.

— Nesses casos, o entrevistador é igual ao entrevistado. Se formos pesquisar executivos, nós vamos chamar outro executivo para conduzir essa entrevista. Não é espionagem, as pessoas sabem que estão sendo observadas, numa relação franca. Nenhuma empresa no mundo trabalha diferente — diz João Paulo, da Box.

Os resultados muitas vezes são sutis. Numa pesquisa para pasta de dente Close-up Ice & Fire, a Box descobriu que os jovens estavam muito mais interessados em uma solução para o mau-hálito do que para anti-placas ou anti-tártaro. Com essa informação em mãos, fez-se a vontade do consumidor.

Os observadores recrutados pela Box recebem de 500 reais a 20 mil reais pelo trabalho, dependendo do seu perfil e do tamanho da empreitada.

— Cada vez que sai uma matéria, recebemos uns 40 e-mails. É um trabalho muito específico, de observação, não de crítica. A escolha da equipe é muito criteriosa, não é tão simples — fala Rony.

A Voltage trabalha com uma rede fixa de consultores no Brasil. Formada por 200 participantes entre 18 e 28 anos, constantemente renovados, mais outros 2.500 na Europa e 60 espalhados pela América Latina, fruto de uma parceria com empresas estrangeiras, como The Future Laboratory e Signs of the Times.

Chamados experts e connectors, esses jovens são recrutados por uma psicóloga no que Paulo Al-Assal considera “celeiros de antenados”.

— Algumas profissões naturalmente obrigam que se esteja sempre bem informado, caso dos DJs, estilistas ou jornalistas. Eles não são formadores de opinião, simplesmente estudam para exercer seus trabalhos e são early adopters [usuários pioneiros], disseminando tendências.

Nenhum dos colaboradores da rede da Voltage é pago. Sua missão é, através de um site, fornecer informações sobre o que acha atraente, inspirador ou promissor, por meio de uma foto e um breve texto. Os dados são então analisados por um conselho acadêmico, formado por antropólogos, sociólogos, psicólogos, teólogos, psicanalistas e especialistas em semiótica, e cruzados com os interesses do cliente.

— Nossos colaboradores vêem isso como uma oportunidade de trocar idéias com pessoas que pensam parecido e uma chance de acessar os resultados. Pago apenas quando uso essa rede pra fazer pesquisas, responder perguntas ou testar um produto.

O resultado dessas pesquisas pode determinar o sucesso ou fracasso de um produto e, portanto, são valiosos. Dependendo da complexidade, uma pesquisa da Box 1824 pode custar entre 150 mil e 2 milhões de reais. As da Voltage variam entre 40 e 400 mil reais.

Percebendo seu potencial como disseminador de tendências, alguns betas/connectors com perfil empreendedor, montam suas próprias empresas de consultoria e curadoria. É um trabalho diferente do que faz a Box 1824 e a Voltage, ou mesmo do cool hunting, outra atividade recorrentemente confundida com pesquisa de tendência.

Foi apostando na capacidade de filtrar informações que a jornalista Jô Hallack (falta a idade dela) e a executiva de marketing Adriana Penna (também) abriram a Predileta. No caso delas, o cliente não busca dados técnicos, mas sim um olhar.

— Somos mais artesanais, não é uma mega empresa. É trazer esse universo onde a gente cresceu, nossa vivência, e transformar em informação. Não é bom gosto nem gosto pessoal, é o que se encaixa para determinado cliente — diferencia Jô.

A Predileta fez a curadoria musical de eventos da Red Bull e Vivo Open Air, além de prestar consultoria para a produtora Lado B, responsável por administrar as carreiras de Zeca Pagodinho, Lenine e Vanessa da Mata.

Em alguns casos, essa análise de consumo futuro acelera processos, ou até cria demandas, interferindo na escolha das pessoas, algo que está na essência da publicidade. Naturalmente, há respostas para a incessante busca pela próxima tendência.

Criado em Buenos Aires e levando ao extremo a resposta do pintor surrealista Salvador à pergunta sobre o que tem potencial para se tornar moda (“tudo que está fora de moda”), o site “The uncool hunter” privilegia o bizarro e o kitsch, declarando-se anti-modas. O que, paradoxalmente, pode caracterizar uma maneira de se antecipar tendências.

Preocupados com os limites éticos da profissão que exercem, Rony e João fazem planos para um futuro consciente. Além de ser uma das primeiras empresas a aderir a onda carbon free (que significa neutralizar todas as emissões de carbono produzidas por seu trabalho com o replantio de árvores), a Box patrocinou artistas (os grafiteiros Os Gêmeos e o artista plástico Bruno Novelli) e videoclipes (“Entre nós dois”, do Tom Bloch, dirigido por Augusto Canani).

Os planos são mais audaciosos. Ano que vem a empresa pretende fazer um estudo mapeando o jovem do século XXI, em 20 países e sem fins lucrativos, para entregar para ONU.

— Nosso objetivo é deixar um legado, deixar um papel social e humano para sociedade. Não temos escritório, saite ou cartão de visita, evitamos utilizar papel e trabalhamos com um lucro presumido de 20%, a diferença nós devolvemos para sociedade ou para os funcionários — fala Rony.

O trabalho está longe de acabar.

— Daqui a pouco vamos viver outra grande revolução. Estamos passando por muitas mudanças sociais, com a expectativa de vida aumentando. No futuro, as pessoas acima de 40 anos vão ser um novo ponto de influência, mais um referencial a se somar aos jovens — prevê João Paulo.

Pelo visto, a renovação não pára, o que garante muito mercado pela frente. Bom pra eles.

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foto: Michel Souza
(pescada do fotolog da banda)

Versão não-editada da matéria sobre o Rockz que escrevi para o Rio Fanzine, do jornal O Globo.

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O time do Rockz exige respeito. Formado por figuras conhecidas do cenário independente carioca, a banda tem Pedro Garcia (bateria; Cabeça, Planet Hemp), Nobru Pederneiras (guitarra; Cabeça, Lobão), Gabriel Muzak (guitarra; Funk Fuckers, Seletores de Frequência, carreira solo), Diogo Brandão (voz; Benflos) e Daniel Martins (baixo; Benflos). Com bagagens tão diferentes, é até difícil entender o que une os integrantes em torno do tal “novo rock”. Nobru explica.

— Eu e o Pedro queríamos fazer algo mais próximo do rock básico, dançante, como Rolling Stones, músicas que pudessem ser tocadas na pista. Isso não é novo, por isso as nossas influências não se baseiam apenas nesse tal "novo rock". Esse rock é 'novo' por estar sendo feito por bandas novas, de agora, não pelo estilo.

Mais pesado do que as supostas matrizes da tríade Strokes-Franz Ferdinand-Bloc Party, a referência ao Queens of the Stone Age citada no MySpace não é gratuita. Preocupados apenas em fazer rock, a banda vai enfileirando boas músicas logo no primeiro EP, como “Colorbar” e “Reticências”.

Influenciados pela música eletrônica, de algum tempo pra cá, bandas de rock vem se aproximando das pistas de dança, isso não é novidade pra ninguém. Um dos primeiros estilos identificados com essa fusão foi o discopunk, de LCD Soundsystem e The Rapture.

Ano passado, uma leva de grupos se destacou fazendo músicas dançantes de maneira orgânica (ou seja, sem instrumentos eletrônicos), sacudindo as pistas de maneira anárquica, apoiados numa estética visual espalhafatosa. Com suas roupas coloridas e bastões que brilham no escuro, os ingleses do Klaxons são os expoentes desse movimento (muito por conta da versão do hino rave da década de 90, “The bouncer”, do Kicks Like a Mule).

O gênero foi batizado pela mídia de “new rave”, forçando uma semelhança com as raves pelo fato dessas bandas atuais se apresentarem em festas em galpões abandonados, normalmente ilegais e durarem a noite toda. Mesmo que os freqüentadores de uma cena não se identifiquem com a outra.

Creditado ao próprio Jamie Ryenolds, vocalista do Klaxons, o termo é frouxo o suficiente para abarcar grupos tão diferentes quanto Shitdisco, Hot Chip, Simian Mobile disco, DataRock e até os brasileiros do Cansei de Ser Sexy e Bonde do Rolê. Não demorou muito e bandas por aqui também começam a ser rotuladas como “new rave”. Moptop, Cooper Cobras e Rockz são algumas delas.

— Parece discopunk, não muda muito, é rock dançante. Daqui a pouco até o Mr. Catra vai ser “new rave”. Uma vez, em turnê com o BNegão na Europa, inventamos, de brincadeira, um estilo pra falar nas entrevistas para nos dar bem. Criamos o “samba dub” e um tempo depois começou a aparecer por aí. Quando a banda é boa, não importa o que seja — desdenha Pedro Garcia.

Com “músicas suficientes para encher dois discos”, segundo Pedro, o próximo passo é o clipe de “Essa mulher”, a ser filmado na Fosfobox, com muitos efeitos especiais, pelo mesmo diretor de “Confesso que errei”, Eduardo Kurt. Escolados na cena alternativa, o Rockz aguarda o melhor momento para lançar um disco cheio.

— Existem as lonas culturais, as casas da Lapa, as boates da Zona Sul, o Sergio Porto, os festivais e os improvisos em geral. Não acredito em cena favorável, vai da disposição, paciência e da criatividade de cada banda. Vamos continuar tocando, independente de como estiver a cena —finaliza Nobru.

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Matéria sobre SMD, nova opção para o lançamento de discos, que escrevi para o quarto número da Rolling Stone Brasil. Com a edição fora das bancas, reproduzo o texto aqui.

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Gravadoras resistem ao SMD, alternativa ao CD

“O CD vai acabar”. Essa é uma das afirmações mais repetidas por futurólogos de plantão. Acreditando no fim que se aproxima, mas apostando na importância de um suporte físico para música, o inventor Ralf Richardson da Silva, mais conhecido como uma das metades da dupla sertaneja Christian & Ralf, criou o SMD (S